sábado, 2 de agosto de 2008

O Caminho do Sol

A primeira postagem desse blog foi sobre o Sol, introduzindo a visão daquilo que pretendia falar aqui. A astrologia que faço busca exatamente o caminho para desenvolvimento do Sol, pois é lá que encontraremos nossa Luz e nossa capacidade amorosa mais profunda. Agora vamos tentar entender mais desse astro que, em seu caminhar anual, nos trás as estações do ano, os tempos de recolhimento e de exposição, organizando o calendário de nosso planeta. Esse mês ele está "em casa", iluminando a área de nossa vida em que temos o signo de Leão e, portanto, onde também estamos aprendendo a sermos nós mesmos.
O Sol ocupa 99,8% do nosso sistema, e mostra, na astrologia, nossa essência básica. Quando agimos de modo solar, estamos em harmonia conosco internamente. A palavra “sol” deriva do latim “solus”, que significa o Único, e a sua posição, por signo e casa, nos mostra como nos sentimos únicos e centro de nós mesmos. Uma das mais antigas representações do Sol é a da realeza, e o rei era tido como a incorporação terrena da divindade, ou seja, seu papel de governante era exercido juntamente com o papel de pontífice, o “construtor de pontes”, que fazia a mediação entre o céu e a terra. Enquanto o ascendente nos fala da forma que tomamos no mundo, da porta de entrada na nossa casa, o Sol dirá o que encontraremos lá dentro, portanto não é o que reconhecemos quando conhecemos alguém superficialmente. O ascendente, nesse sentido, é como um guia que nos acompanha em nossa jornada pela vida e nos leva a aprender certas lições e assimilar certos atributos que nos auxiliarão a nos tornarmos aquilo que é representado pelo Sol. Podemos dizer que o ascendente é o caminho onde encontraremos mais perspectivas e onde somos treinados a partir daquilo que encontramos na vida. Já o Sol nos mostrará quem trilha esse caminho, o herói que estamos tentando nos tornar. Os potenciais, as dificuldades, os dilemas e as experiências do Sol são dados pelo signo em que ele se encontra, e, conforme o tempo passa e ocorrem as transformações fisiológicas e psicológicas que as idades trazem, nos tornamos mais integrados ao signo solar.
Como vimos, a Lua simboliza uma dimensão inata e instintiva da personalidade, que tem como meta consciente o desenvolvimento de objetivos no mundo que garantam a segurança e a auto preservação, possuindo uma natureza regressiva que nos atrai para o passado e para o vínculo mãe-filho - já que nossas necessidades emocionais e corporais básicas não se alteram em sua essência. Em contraposição, o Sol simboliza nossa dimensão progressiva, sendo o princípio ativo e dinâmico que se desenvolve ao longo da existência sem nunca acabar de se desenvolver. Esse é o aspecto da personalidade que está sempre em processo de vir a ser, de rumar para um futuro. O herói sempre está representando um mito solar, pois sempre está prestes a se tornar algo. Não se nasce automaticamente herói; é preciso passar pelo processo de transformação para se tornar rei e também um veículo adequado para os deuses que são seus verdadeiros pais.
A primeira característica que encontramos no herói, portanto, é que ele é um “híbrido” de deus e mortal, o que sinaliza seu destino de pontífice. Na infância o herói não conhece sua verdadeira filiação, e acha que é igual aos outros, apesar de uma estranha sensação de ser diferente e da intuição de que um destino também diferente o aguarda. Um dos principais temas da jornada do herói é a descoberta de sua verdadeira origem, que é ao mesmo tempo mortal e imortal. Nesse tema mítico podemos notar um profundo sentido de dualidade, onde a dinâmica é dada pela convicção de que não somos feitos apenas de terra e fadados a comer, procriar e morrer; ou seja, de que não temos apenas uma natureza lunar, pois cada um de nós é especial, único, e tem um destino pessoal, uma contribuição individual a dar para a vida. O Sol em nós sente que há uma busca a se iniciar, uma jornada na direção do futuro desconhecido, um mistério profundo no núcleo do “eu”. Nossa face solar não se sente sujeita aos ciclos lunares e leis do destino ao qual têm que se submeter nossas naturezas, se recusando teimosamente a ser comum. A maioria das pessoas descobrem isso na metade da vida, quando a busca de segurança financeira, emocional e mundana parecem não trazer mais satisfação e a pessoa começa a pensar que deve haver um propósito maior para se estar vivo. Geralmente essa conclusão vêm de alguma crise que deixou um rastro de descontentamento e depressão, obrigando a pessoa a criar novas metas, difíceis de serem expressas em termos concretos, pois o Sol possui metas interiores, diz respeito à experiência da vida como algo especial e cheio de significados: o Sol nos diz que não somos coelhos, nem macieiras nem outra pessoa, mas sim nós mesmos e precisamos realizar nossos potenciais únicos. Podemos ignorar a força solar por nossa conta e risco, pois se não damos o salto solar e não oferecemos nossa contribuição única ao mundo, por menor que seja, estamos fadados ao incômodo tormento de um self não vivido, e teremos todas as razões do mundo para temer a morte, pois não teremos vivido de fato.
Outro elemento importante da jornada heróica é o fato dele ser invejado ou perseguido sem saber o motivo, às vezes pelo padrasto/madrasta, às vezes por um rei usurpador ou perverso que recebe a profecia de ser destronado pelo jovem herói, ou então por alguma bruxa ou ser mágico que resolve atrapalhar a jornada heróica. Podemos ver isso desde os mitos gregos até a história de Jesus Cristo. Esse tema da inveja e da ameaça do potencial que o herói representa para o governante estabelecido é algo que geralmente acompanha o despertar do Sol, pois a expressão especial e individual da natureza de alguém costuma despertar a inveja destrutiva dos outros e representa uma ameaça ao status quo. Muitas vezes isso é vivenciado através do pai ou da mãe real da pessoa, que fazem isso inconscientemente, pois a vida solar não vivida do progenitor se tornou amarga e invejosa, fazendo com que se experimente diretamente na infância essa perseguição do herói mítico. Se olhamos mais profundamente para nós mesmos, porém, descobrimos que o verdadeiro “inimigo” mora dentro e não fora de nós, por mais que cruzemos com ele no mundo externo.
O futuro herói pode se proteger por um tempo em sua mãe lunar, mas, mais cedo ou mais tarde, terá que aprender a lidar com o governador invejoso por sua própria conta, desenvolvendo certo realismo, já que a inveja faz parte da vida e da natureza humana, e nem sempre dá para sair correndo para casa e se esconder embaixo da saia da mãe. Assim é possível desenvolver firmeza, auto suficiência, “insight”, inteligência e amigos leais para sobreviver como indivíduo, senão se correrá sempre o risco de um regresso rastejante para o ventre materno através de mães substitutas que o protejam, como empregos insatisfatórios ou relacionamentos paralisantes, reprimindo assim seus próprios potenciais individuais para evitar o mundo lá fora. Em algum ponto do processo de crescimento, o herói recebe aquilo que Joseph Campbell se refere como “o chamado para a aventura”, seja através de uma intuição ou visão interna, seja através de uma aparente perturbação ou desastre externos, onde se olha a vida com um realismo e humildade que tocam a essência do ser. Quando o herói resolve empreender sua jornada, geralmente arranja um ajudante, ou recebe ajuda de divindades ou ainda recebe assistência de algum animal, que garantem o êxito da empreitada, confirmando o direito divino do herói: ele é posto à prova, mas recebe bastante colaboração - e não indiferença - para a conquista de sua meta. A questão da fuga e do erro pode fazer parte da história do herói - até Cristo pergunta se Deus não o abandonou. Apesar disso parecer uma fraqueza indigna do herói, retrata fielmente a maneira como as pessoas normalmente se comportam ao ouvirem a chamada heróica, pois parece que precisamos choramingar e sentir pena de nós mesmos um pouco quando nos preparamos para nos afastar do conforto lunar e atender as demandas de nossa essência. Como diz a piada judaica: “Obrigado senhor por fazer de mim um dos eleitos, mas não dava para escolher outra pessoa, só para variar?”. É possível não atender à chamada, mas o progenitor divino - a imagem mítica de algo maior, o “Eu Superior” que existe em nós - não vai nos deixar em paz só por que estamos com preguiça, e teremos sempre que pagar um preço por nos recusarmos a nos tornar nós mesmos, na maioria das vezes através de depressões, sensações insuportáveis de fracasso e um vazio profundo.
O herói realiza sua tarefa por ser compelido de dentro para fora. Se ele fizer isso apenas para agradar aos outros, por mais humanitário que possa parecer sua ação, vai acabar encrencado, pois não está sendo sincero consigo mesmo. Essa busca deve ser feita por causa da pressão interior, não para que as pessoas nos amem. Contudo, no ato de se tornar um indivíduo ele está dando sua contribuição aos demais. O Sol pode parecer profundamente paradoxal, pois quando nos tornamos nós mesmos temos muito mais a oferecer do que se nos esforçássemos para tentar salvar o mundo como forma de compensar um vazio interior. É dessa forma que o herói é capaz de atingir o que Campbell chama de “Travessia do Limiar”, onde encontramos alguma coisa bem desagradável que quer nos impedir de atingir nossas metas heróicas. Cada mito irá descrever o Inimigo, o Guardião do Limiar, de formas típicas, podendo ser um irmão sinistro, uma mulher fatal, a bruxa malvada, um monstro, dragão ou gigante. Cada uma dessas imagens tem seu significado próprio que pode ser associado com os aspectos e posicionamentos solares, e mostra o tipo de lutador que precisamos ser para vencer nosso próprio lado sombrio: às vezes precisamos matar a bruxa representada pela Lua que quer nos engolir, ou vencer as tentações geradas por Vênus, ou então vencer o monstro de nossos instintos cegos e primitivos ligados a Marte, ou nos livrarmos da prisão saturnina que impede de nos revelarmos ao mundo. Aspectos do Sol com planetas transaturninos costumam representar transformações muito profundas no trajeto heróico, assim como em muitos mitos vemos que às vezes o herói deve morrer para conseguir a ressurreição e a transformação necessária, como Jesus Cristo ou Dionísio. Diversos fatores do mapa astral podem descrever o dilema dessa travessia, inclusive o próprio signo e casa do sol, pois há tanto virtudes como fraquezas em cada um dos signos. Só depois desse enfrentamento é possível receber o prêmio ou tesouro que aguarda o herói. Esse prêmio pode ser uma jóia, a água da vida, a fonte da imortalidade, o domínio do reino, a mulher amada, o dom da cura ou da profecia, e também está ligado simbolicamente ao posicionamento solar. Sempre é algo altamente individual, que tem grande valor para aquele herói específico. O Sol, como corporificação do herói mítico, luta pela recompensa final guardado em um núcleo indestrutível de identidade que justifica e convalida a existência: o herói e seu premio são, na verdade, a mesma coisa, pois o tesouro é seu lado divino oculto em sua vida mortal. Por mais terrivelmente abstrato que isso possa soar, o sentido inerente de sermos um “eu” real e único, sólido e indestrutível é algo precioso e mágico, além de ser obtido a duras penas.
No estado nu e cru do “Eu Sou” não há uma casa para se voltar nem uma coletividade que possa nos oferecer um paliativo para nossas dores, e essa é a razão pela qual o Sol começa a emergir de fato na meia idade, quando a pessoa está suficientemente forte e formada para enfrentar o desafio. O problema da solidão, que sempre acompanha qualquer manifestação do self individual, é o significado mais profundo da travessia do limiar no mito heróico. Outra coisa que o herói sempre encontra no final de sua jornada é seu verdadeiro pai, que também sai redimido do mito, pois assim como a Lua representa a mãe arquetípica com a qual compartilhamos nossos instintos, o Sol reflete a visão essencial que compartilhamos com o pai arquetípico, no nível criativo que só pode frutificar após gerações de busca solar. Sendo a solidão e inimizade do coletivo o equivalente emocional aos perigos que defronta o herói, podemos perceber que a culpa - e o medo da represaria que a acompanha - é a principal manifestação de nossa dificuldade em roubar o elixir da vida que exige nossa jornada heróica, pois há algo ilícito em nos tornarmos nós mesmos, e quanto mais nos sentimos separados da coletividade, maior nossa sensação de culpa, que pode se tornar tão grande a ponto de nos paralisar como estatuas de sal. O furto da árvore da vida é um profundo rito de passagem, e uma vez consumado, as coisas não podem voltar a ser como antes, e esse é uma realidade que muitas vezes nos amedronta. Várias vezes na vida temos chamados heróicos para atender, e várias vezes temos que abrir mão do conforto do lar e da identidade com o grupo, e enfrentar os guardiões dos limiares coletivos, pois as ameaças que sentimos de represária não é mera paranóia, já que o coletivo retruca de fato, e precisamos ficar atentos para perceber que tudo aquilo que está sendo mostrado fora tem sua representação mítica interna, pois todos esses personagens estão dentro de nós.
Nunca concluímos totalmente nossa jornada heróica, pois sempre estamos tendo desafios para nos tornarmos nós mesmos. Mas, assim como Apolo no panteão grego, uma das funções do Sol é desfazer as maldições, o que significa que quanto mais nos valorizamos, menos precisamos satisfazer as expectativas dos outros, nos sentimos menos assustados com as obrigações da vida e ficamos menos ressentidos com os potenciais não vividos. Como diz Polônio em Hamlet: “Acima de tudo, isto: sê leal contigo mesmo,/ E seguirá, como a noite ao dia,/ Sem ser falso com ninguém.”

2 comentários:

Léo disse...

Oi Teca, tudo bem ???
Uau, fiquei impressionado com esse seu texto sobre o Sol. Parabéns, Teca, seu blog continua ótimo e com excelentes postagens !!!
Realmente, se pensarmos bem, vivemos metade da vida em busca de coisas ligadas a outros aspectos do mapa, enquanto que o principal, o Sol, fica escondido em algum local, talvez por trás do ascendente, ou da Lua, ou mesmo de um Marte ou Vênus muito aspectados. Com certeza, deve ser por isso que muitas vezes as pessoas não se identificam com seus signos solares !!! Elas vivem por fora deles, não exercitando a capacidade interna de realizar as coisas que o signo e a casa em que o Sol estão exigem delas. Então elas se escondem por trás da máscara do ascendente ou de qualquer outro planeta. Eu mesmo passei muito tempo preso no estereótipo psíquico, fluido, transcedental e doador do meu ascendente em Peixes, deixando muitas vezes de lado as necessidades internas, heróicas e ígneas do meu Sol em Áries na primeira casa. E aí, como você explicou tão bem no seu texto fantástico, a sensação que se tem é a de vazio e depressão, em detrimento do calor e do maravilhoso sentido da vida que temos quando realizamos nossa missão frente a ela !!! É claro que os outros pontos do mapa tem uma importância declarada, mas muitas vezes eles só são utilizados em determinadas situações, mas no caso do Sol, ele está sempre presente,nós é que o escondemos por medo de tentar ou acreditar totalmente em nosso potencial interno.
Mais uma vez, parabenizo a qualidade de seu blog, e fico no aguardo de mais postagens ;P
Um abraço,
Léo.

Teca Dias disse...

Obrigada, Leo! Por vc ter gostado e também por falar do seu mapa. No meu trabalho vejo que as pessoas estão muito conectadas na Lua, preocupadas em sobreviver, e esquecem da vivência solar. Na Alquimia tudo começa com o casamento do Sol com a Lua, a união dessas duas dimensões. Lua é prata e Sol é ouro. Na verdade, acho que o grande trabalho heróico é conseguir ter consciência das várias dimensões que existem em nós, pois só assim podemos ter livre arbítrio, algo realmente novo na evolução humana.
E, Léo, um guerreiro ariano que faz um caminho pisciano precisa mesmo aprender a utilizar armas psíquicas, fluidas e transcendentais, pois elas serão necessárias. Precisa só lembrar que são instrumentos.
Abraços
Teca