domingo, 6 de outubro de 2019

Netuno Enquadrado Com Júpiter


"Quem dentre a legião dos anjos me ouviria, se eu gritasse?"



Estamos vivendo um período de conflito entre Netuno e Júpiter, os dois planetas que falam de nossas necessidades de expansão e transcendência que estão em seus domicílios, respectivamente Peixes e Sagitário, o que afeta diretamente qualquer coisa que estiver nos signos Mutáveis nesse ano.

A quadratura costuma ser o aspecto mais difícil de integrar, pois carrega uma força que exige que se concretize aquilo que é abstrato, em geral sentido como uma verdadeira crucificação do espírito. E quando falamos de dois Planetas que expandem nossas buscas espirituais, temos aqui a oportunidade de mobilizar forças nesse sentido. Como a conjunção Plutão/Saturno em Capricórnio está exigindo muita atenção em nossa vida material, essa quadratura pode passar despercebida como fruto dos nossos desafios financeiros e estruturais, mas uma análise mais atenta mostra que estamos tendo que lidar com uma crise que diz respeito também à nossa vida interior, onde devemos encontrar as pedreiras para ‘extrair as pedras e construir com elas as paredes perpendiculares do futuro edifício’, como dizia Dane Rudhyar. A quantidade de medicamentos para acalmar nossa psique que anda sendo distribuido para qualquer modulação emocional que dificulte nossa produção material também ajudam a esconder e tirar a força dos movimentos do espírito, já que as emoções são o principal instrumento do inconsciente para conversar conosco. Tanto Netuno quanto Júpiter não reconhecem os limites mundanos e não têm nenhum pudor em passar por cima das barreiras que limitam nossa realidade para nos fazer ir além, e não confiar nas próprias emoções pode dificultar o trabalho que precisamos fazer nesse momento.

Como é fácil perceber, essa oportunidade que a quadratura Netuno/Júpiter está nos oferecendo não será aproveitada através das ferramentas utilizadas para nossas questões cotidianas, pois planejamento, análise racional e trabalho duro podem criar mais obstáculos do que caminhos. Netuno distorcido cria ilusões e Júpiter distorcido cria exageros, então se quisermos dominar essa quadratura de maneira utilitária o mais provável será sermos dominados por ilusões exageradas que esgotam nossas forças e complicam mais ainda nossas vidas. Se nossa vida externa possui limites claros, nossa vida interior não obedece essa lógica, portanto precisamos silenciar nossas mentes e sintonizar essa outra dimensão. Meditações e orações são as maneiras clássicas para adentrar nesse outro mundo, mas música, dança, contemplação de obras de arte ou de paisagens naturais, e mesmo caminhar sem destino determinado podem oferecer momentos de conexão úteis para trazer a expansão que essa quadratura necessita. Se você possui papel e lápis de cor em casa, vale a pena tentar colocar em imagens e/ou cores aquilo que você anda sentindo, sem se preocupar com aquilo que aparecer, se é bonito ou feio, bom ou mal, já que o inconsciente não trabalha com essas categorias. Os sonhos também são uma fonte clássica de informações inconscientes, então é importante dar-lhes atenção devida, seja anotando, desenhando ou mesmo contando para alguém de confiança. 

Sagitário representa o Fogo Sagrado, o fogo utilizado para queimar as oferendas materiais para que elas cheguem à divindade. Peixes é o oceano, a Água com profundidades abissais e superfícies férteis. Júpiter em Sagitário traz o Fogo Sagrado para mais perto nos fazendo acreditar mesmo sem ver. Na fé católica é o momento em que Jesus sobe aos céus e deixa com seus seguidores o Espírito Santo: “Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e Samaria e até os confins do mundo’’ (Ato dos Apóstolos 1.7-8). Júpiter traz a fé que nos é dada para crermos em algo maior que nos acompanha e dá a força para espalhar a boa nova, superando as dificuldades e traumas que nos paralisa e inibe, revelando a verdade que aprendemos e expandindo nosso horizonte de atuação. Netuno retrata o momento de elevação da divindade, quando ela sobe aos céus e desaparece da vista dos seres humanos (Atos dos Apóstolos 1. 9-11): “Dizendo isso, elevou-se (da terra) à vista deles, e uma nuvem o ocultou aos seus olhos. Enquanto o acompanhavam com seus olhares, vendo-O afastar-se para o céu, eis que lhes aparecem dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: ‘Homens da Galiléia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vestes subir para o céu’”. Netuno traz esse olhar de abandono dos discípulos para os céus em busca do Mestre que ensine o caminho. O conflito entre esse vazio netuniano e a força jupiteriana é propício aos fanatismos se continuarmos esperando a volta do Mestre olhando para os céus em vez de O realizarmos na terra, por isso é tão importante transformarmos essa inspiração em algo concreto em nossas vidas, mesmo que isso signifique abrir mão de valores muito concretos que cultivamos ao longo do tempo.  É preciso verdadeira coragem para seguir as orientações do inconsciente sem se deixar dominar pelas ilusões e grandiosidades prometidas por falsos profetas. Uma das maneiras que funciona bem para mim é lembrar que qualquer grandiosidade que encontre em mim nas minhas conversas com o inconsciente, pertencem na verdade à toda Humanidade, portanto não me dá nenhum privilégio ou direito especial sobre os outros. Qualquer desejo ou ideologia que nos coloca em um lugar especial e separado dos Outros, vistos como inimigos, tem certamente uma contaminação arquetípica cheia de distorções Netuno/Júpiter, pois, como disse o profeta Joel (Jl 3, 1-3): “Derramarei do meu Espírito sobre todo ser vivo; profetizarão os vossos filhos e vossas filhas. Os vossos jovens terão visões e vossos anciãos sonharão”. Esse trecho de Joel me lembra o discurso de Greta Thumberg na ONU dizendo : ”Como vocês ousam falar de lucro quando a vida no planeta está em risco?” Para quem não ouviu, segue o link:




Ou seja, você não precisa entrar para uma Igreja ou se encontrar em alguma religião ou filosofia ou ideologia para aproveitar a necessidade de crescimento interior que o céu nos apresenta nesse momento, apesar de você poder também aproveitar os instrumentos oferecidos por essas coisas. Basta ouvir as visões corajosas dos jovens e os sonhos dos anciãos, os internos e os externos. Para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir. Há mais de 30 anos a Ciência vem nos avisando que caminhamos para um abismo sem retorno, quem sabe agora, ouvindo os sonhos e visões conseguimos fazer as mudanças internas que se fazem cada dia mais urgente para construir um edifício mais amplo de futuro. Sem dúvida as saídas para o que vivemos hoje precisarão ser buscadas no inconsciente.

domingo, 7 de abril de 2019

E vamos fazer a Oficina dos CONFLITOS ASTROLÓGICOS 2!!!!


É com grande alegria que convido a todos os meus queridos leitores, para a Oficina que vem crescendo no mundo desde o ano passado.


Será um sábado inteiro e vamos trabalhar 2 mapas apenas, mas com a possibilidade de participação como representante. 

Com o Conflitos 1, vi que era importante um pouco de aula e vivência com os planetas antes de trabalhar o mapa todo, então teremos uma manhã para olhar e experimentar os próprios planetas, para de tarde vivenciarmos mapas natais por inteiro, com suas complexidades, conflitos e possibilidades de integração.

Será dia 29/07/2019, aqui em Floripa. Mais informações e reservas no e-mail CONFLITOSASTROLOGICOS@GMAIL.COM,
ou pelo Whatsapp +55 (48) 98829-6064


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Urano em Touro


"Pela casa da Vida eu vagueio
Pelo caminho do pólen,
Com um deus de nuvem eu vagueio
Até um lugar sagrado"


The Blessing Chant, citado por Margareth Schevill Link em O Caminho do Pólen

Imagem de Daniel Merriam  https://bubblestreetgallery.com/ 
 
Urano começou seu passeio através do signo de Touro dia 15 de maio de 2018. De novembro de 2018 até março de 2019 ele volta para Áries para fazer uns acabamentos e depois segue por Touro até 2025. Enquanto Áries, o Fogo Cardinal, traz o nascimento do novo através do rompimento com o que está indiferenciado, Touro, a Terra Fixa, traz a consolidação daquilo que rompeu a barreira para vir ao mundo. E vamos combinar que o que veio não foi assim algo que nos dê esperança de progressos civilizatórios. Mas ninguém pode reclamar de ter ficado parado. O processo de Urano em Áries esteve trabalhando em quadratura com Plutão em Capricórnio, e com isso a inovação ariana veio junto com um estouro do cano do esgoto humano em suas estruturas capricornianas. Não é algo bonito de se ver, mas não acredito que haja alguém que duvide da necessidade que tínhamos - e temos ainda – dessa mudança estrutural para transformar os paradigmas que está nos fazendo destruir o planeta.  É verdade que tem gente propagando a Terra Plana, mas ai já estamos em outro patamar de sanidade. Touro e Capricórnio estão conectados pelo elemento Terra, portanto nos falam dos recursos materiais que nos sustenham, simbólica e materialmente. Nossos recursos, posses e valores, nosso talento em ver e fazer as belezas venusianas se tornarem reais, são um guia para a criação de nossos mundos orientados por Touro, mas sendo esse um signo instintivo, como seu complementar oposto, Escorpião, quando bloqueamos a possibilidade de viver essa natureza de forma harmônica, em geral por medo, isolamento e desconfiança de nossa natureza básica, podemos criar muita crueldade . Urano em Touro vai mexer nesses recursos para liberar novas possibilidades, e se for bloqueado pode causar grande frustração, dor e raiva.

Urano trabalha sobre tudo com a força das ideias, com a mudança trazida do inconsciente coletivo que invade nossos pensamentos. Quando essas mudanças envolvem recursos, podemos inventar novas maneiras de utiliza-los, interna e externamente, para nos tornarmos mais livres e desenvolvermos mais nosso potencial humano criativo. Isso gera mudanças geniais, capazes inclusive de transformar a imagem que temos de nós mesmos. O grande inimigo das mudanças – sempre - é o medo, pois associamos mudança com morte e acreditamos que vamos deixar de ser se as coisas mudarem. Aí podemos nos tornar bem mesquinhos e pequenos, adotando a crença de que “farinha pouca, meu pirão primeiro”, encarando o Outro como aquele que rouba os recursos que eu desejo. O sofrimento vem dessa crença. Qual caminho iremos escolher? Faites vos jeux, mesdames et messieurs... Para Urano, que vive além do cinturão de asteroides, tanto faz.

Podemos esperar desse processo uraniano o rompimento das fronteiras, e, apesar das migrações fazerem parte da história humana desde sempre (o historiador Klaus J. Bade, da Universidade de Osnabrück, autor do livro Migration in European History, diz que “o 'homo migrantes' existe há tanto tempo quanto o homo sapiens (...), a migração é uma parte da condição humana tanto quanto o nascimento, a reprodução, a doença e a morte.”), será importante observar as migrações desse período. Isso porque a nossa necessidade de recursos nos leva a busca de novos horizontes, e sendo assim, nos obriga a transformar nossa forma de existir. Urano em Touro promete desenraizamentos para nos fazer mudar. Isso é algo significativo quando olhamos para outros períodos de Urano em Touro.

Urano, desde que foi avistado, esteve em Touro de 1850 a 1857 (conjunção com Plutão de 1848 a 1853, antes do avistamento de Plutão) e de 1934 a 1941, quando se armou e detonou a segunda Guerra na Europa. Esse planeta traz a ruptura com estruturas e hierarquias que impedem o desenvolvimento da liberdade individual, e não é raro que isso se associe a muita destruição, seja porque grupos se sentem no direito de se apropriar dos recursos do vizinho, seja porque os recursos se tornam escassos e se é obrigado a deixar o conhecido em busca de mais recursos. Nos períodos de Urano em Touro temos uma migração europeia em massa para os continentes americano e australiano, principalmente, forçada pela guerra e pela fome. Números consolidados por diferentes historiadores estimam que entre 50 e 60 milhões de europeus deixaram seus países em direção a lugares tão distantes como Brasil, Estados Unidos, Sibéria e Austrália entre 1815 e 1950. Uma parte deles chegou a voltar para a Europa, mas a maioria se estabeleceu de vez no novo mundo, passando a ter uma influência decisiva na construção desses países. A migração realizada nesses períodos de Urano em Touro tem o diferencial de ser feita por pessoas com um anseio de realizar uma mudança de vida, não apenas pelos excluídos socialmente, mas por aqueles que de alguma maneira querem um tipo de vida diferente daquela que domina sua própria sociedade.

Uma boa ilustração para essa diferença é a migração alemã para o Brasil. A primeira leva de imigrantes para o Brasil a partir de 1824 (Urano em Capricórnio), vindos da Prússia, eram recrutados entre presidiários alemães em cadeias e casas de correção de Mecklenburg e de alemães indigentes que, ao saberem que o Brasil estava oferecendo terras, foram para Bremen e Hamburgo em busca de uma passagem para serem mandados para São Leopoldo. O naturalista Theodor Bösche, que fez parte de uma dessas primeiras viagens organizadas por Schäffer - amigo da imperatriz Leopoldina -, na qual havia 90 ex prisioneiros de Macklenburgo, observou: "O nosso navio tomou várias centenas de pessoas. Tremi ao avistar aquela gentalha rota, de que muitos malogram encobrir a nudez e cuja atitude trazia o cunho da rudeza e da bestialidade". Era uma troca onde a Prússia fazia uma higienização social e o Brasil um branqueamento da sua população.

Após 1850, enquanto Urano transitava de Áries para Touro, mudanças fundamentais foram feitas, e as despesas com demarcação de lotes e assentamentos de colonos foram transferidas do governo imperial para as províncias. Visando diminuir suas despesas, o Estado permitiu a atuação de companhias particulares de colonização, que compravam as terras e as revendiam aos imigrantes. Em 1850, a Lei de Terras estabeleceu que os colonos apenas poderiam ter a posse da terra por meio da compra e não da simples posse como ocorria anteriormente. Isso significa que os imigrantes desse período precisavam ter alguma posse para investir nessa nova vida. Os que não tinham condições para isso vinham trabalhar em fazendas de café em São Paulo, mas as denúncias contra o sistema de parceria em São Paulo, materializadas com a revolta dos colonos da fazenda Ibicaba contra as péssimas condições de trabalho, fizeram com que a Prússia proibisse a imigração para o Brasil em 1859. Mais tarde, essa restrição seria revogada apenas para os três estados sulinos.  Esse também e o período de migração irlandesa para os EUA, onde chegaram em massa após a grande fome de 1845-1852, e que se tornaram uma face importante da identidade de lá.   

No outro período de trânsito uraniano por Touro, de 1934 a 1941, época da ascensão do Nazismo na Alemanha e II Guerra na Europa, temos um grande contingente de alemães imigrando para o Oriente Médio: segundo dados do Museu do Holocausto dos EUA, cerca de 60 mil alemães de origem judaica migraram nesse período para a Palestina, na área que viria a formar o Estado de Israel. A ascensão do nazismo na Alemanha em 1933 e a guerra que se seguiu, porém, criou grande onda migratória europeia, não só de judeus, mas também de opositores políticos e religiosos, assim como artistas perseguidos pelo regime. Cerca de 16 mil conseguiram vistos de entrada para o Brasil. Entre eles estavam políticos alemães, como Johannes Hoffmann, que após o fim da Segunda Guerra voltou para a Alemanha e se tornou governador do estado do Sarre, onde fundou o Partido Popular Cristão do Sarre. Nem a Alemanha, nem Hoffmann, nem o Brasil eram os mesmos.

A constante migração humana durante nossa história no planeta ganha cores dramáticas nesse novo período de Urano em Touro, já que atualmente, além dos conflitos humanos, também temos que dar conta do aquecimento global que coloca em risco nossos recursos. Uma das consequências desse deslocamento é a mistura de culturas e o rompimento das fronteiras, reais e simbólicas. Parece que caminhamos dolorosamente para a consciência planetária de que somos conectados e não há como salvar alguns se não salvarmos a todos. Mesmo que haja essa onda antidemocrática, xenófoba, racista, misógina que, sabemos com certeza comprovada, manipula as massas para que acreditem em uma prisão confortável e isolada, não há mais como negar que estamos em uma situação limite.  Urano é difícil da mesma maneira que ser livre é difícil, pois implica em ter consciência das escolhas e assumir a responsabilidade por elas sem delegar esse privilégio a ninguém. Economistas e estudiosos da situação global falam de maneiras muito simples e práticas de resolvermos as questões que nos afligem, inclusive com exemplos de muito sucesso. Um desses economistas e o brasileiro Ladislau Dowbor, que tem um site incrível e super didático que ensina economia para quem se interessar: www.dowbor.org.  Para isso teremos que parar de buscar privilégios para focar em direitos, e parece que essa ainda é uma grande barreira. Sabemos que a semente do nazismo alemão foi plantada pela ambição e mesquinharia dos países aliados da I Guerra na Europa, que, ao vencerem a disputa, deixaram a Alemanha na miséria e cheia de dividas, criando uma população com necessidades básicas não atendidas que se deixou seduzir pela fantasia de uma gloria utópica e exclusiva que a tiraria do sofrimento. Oitenta anos depois, com todo o avanço tecnológico desenvolvido, com a consciência global criada, com o conhecimento que acumulamos, estaremos preparados para dar uma resposta melhor, maior e mais inteligente para a passagem de Urano em terras taurinas? Condições para isso, temos de sobra.

domingo, 20 de maio de 2018

Urano Saindo de Áries


Cuidemos do nosso coração porque é de lá que sai o que é bom e ruim, o que constrói e destrói.

Papa Francisco







Esse post foi todo reescrito graças a minha amiga Vânia Camargo, que leu e não entendeu nada. Ela ainda me mostrou ponto a ponto o que estava obscuro, e sou muito grata a ela por esse cuidado. Então, vamos lá. 


Quando um astro transpessoal muda de signo, costumo olhar para as notícias mundiais para ver o que está acontecendo que pode se conectar simbolicamente a essa mudança. Dia 15 de maio de 2018 Urano começou sua jornada de quase 8 anos pelo signo de Touro, um dia depois do início dos conflitos onde 116 palestinos morreram e 2.700 ficaram feridos (últimos números obtidos antes dessa postagem) pelo exército israelense na Faixa de Gaza durante protestos pacíficos contra a transferência da Embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém. Nessa noite tivemos também uma Lua Nova no finalzinho desse signo, e a Lua Nova sempre traz as sementes de um novo ciclo. Em novembro ele volta para Áries para os retoques finais e em 2019 vai definitivamente para Touro. Aqui vou refletir um pouco sobre os últimos 8 anos, quando Urano caminhou por Áries, para depois pensar sobre os caminhos taurinos desse Transaturnino.

Urano em Áries trouxe um estranhamento social quase instintivo, criando verdadeiros vingadores. Apesar de só ter adentrado o signo de Áries no início de 2011, os primeiros sinais dados por esse posicionamento foi a Primavera Árabe, onda revolucionária de manifestações e protestos que ocorreram no Oriente Médio e no Norte da África a partir de 18 de dezembro de 2010, precedido de um eclipse em Escorpião em novembro. Se iniciou na Tunísia e no Egito, depois começaram as guerras civis na Líbia e na Síria, além dos grandes protestos na Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã e Iémen e protestos menores no Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental. Um bom filme para entender como foi essa onda é The Square (A Praça) da diretora Jehane Noujaim, de 2013, que retrata os 2 anos de protestos no Egito. Resistência civil, greves, manifestações, passeatas, comícios, e o uso das mídias sociais para organizar, comunicar e sensibilizar a população e a comunidade internacional, em contrapartida às tentativas de repressão e censura na Internet pelo Estado, foram usados. A violência do Estado foi brutal e as grandes potencias se aproveitaram para criar mais caos e incentivar a violência nessa zona amaldiçoada pelo petróleo. O resultado foi muito frustrante para a população que reivindicava mudanças, quando não se transformou em genocídio. Urano traz essa ânsia de mudanças que leva as pessoas para a rua, mas Áries, enquanto Fogo Cardinal, tem a força do movimento, não da construção de algo novo. No Brasil pudemos viver um paralelo disso, quando as passeatas e manifestações iniciadas em 2013 pelo “Passe Livre” resultaram no golpe de 2016. Assim como a primavera árabe juntou fundamentalistas religiosos, democratas, comunistas, liberais e monarquistas, a movimentação aqui também começa com a necessidade de ir pra rua tentar mudar algo que incomoda na grande estrutura sem muita consciência do que estava acontecendo. Vendo uma entrevista da filósofa Marilena Chauí, ela conta que foi pra rua na passeata do Passe Livre em São Paulo e saiu perguntando o que as pessoas estavam fazendo lá, e descobriu que muitas pessoas estavam lá porque haviam brigado com o namorado, porque os amigos chamaram, porque não queriam voltar pra casa, e outras razões bem pessoais que nada tinham a ver com o protesto. Urano, como movimento coletivo, em Áries, o Guerreiro do Zodíaco, traz essa ânsia de ir pra rua, mas o resultado não é uma transformação social ou estrutural, mas uma rachadura na normalidade. Mesmo as pessoas que estão ali por alguma motivação ideológica, não são capazes de prever qual é a mudança que está acontecendo. Quando olhamos para os transaturninos estamos olhando para uma mudança coletiva, o que significa algo novo no horizonte que precisa ser experimentado para fazer sentido, pois a necessidade de mudança vai além das ideologias ou medos pessoais.

A divisão que surge, e que se torna cada vez mais forte, entre “nós, os bons” X “vocês, os horrorosos”, tomou conta das pessoas e fizeram com que os diálogos tivessem a profundidade de um pires. Essa situação demonstra que estamos sob a influência negativa de um arquétipo constelado, que se manifesta como possessão, fanatismo cego e rigidez ideológica. O arquétipo é um complexo, ou seja um monte de ideias, imagens e sentidos que se misturam pra criar uma forma no inconsciente que nos dão estrutura psíquica. Os arquétipos são coletivos, existem dentro daquilo que C.G.Jung conceituou como Inconsciente Coletivo, compartilhado por todos os seres humanos de todos os tempos. Eles são o material de mitos e contos, por exemplo, e isso faz com que você entenda um mito Yanomami constelado - ou seja, com forma consciente - contado há milênios atrás. Quando um arquétipo entra em ação dizemos que ele foi constelado e a marca de um arquétipo constelado é o afeto com o qual ele atua. Por exemplo, quando você nasceu já veio com um arquétipo de pai no seu inconsciente e ele é 'atualizado' através da sua experiência concreta com um ser humano concreto que você chama de pai. Então, quando você ouve a história de João e Maria por exemplo, e lá diz que os irmãos - outro arquétipo - foram abandonados pelo pai, você tem condições de entender afetivamente o que isso significa, mesmo nunca tendo passado por essa experiência. Quando uma pessoa individual é tomada por um arquétipo ela pode transformar o que sente em arte, por exemplo, e fazer um quadro ou uma dança que transmite para outras pessoas esse afeto arquetípico. Essa é a força criativa de um arquétipo traduzido individualmente. Quando o arquétipo é constelado - ou seja, ganha forma - através do coletivo, ele vai gerar sentimentos coletivos e nossa capacidade de dialogar com o arquétipo internamente se apaga, já que ele estará sendo projetado fora. É aqui que se estabelece de maneira irresistível o 'nós x eles', que é semelhante aos estados de possessão descrita por gente que trabalha com espíritos, pois o ego, a identidade pessoal, é eclipsada por essa força inconsciente e nos deixa cegos para as qualidades individuais. Toda possessão arquetípica é mórbida, e não temos mais (ou está ainda muito distante) a sabedoria de povos tradicionais que conseguem fazer a distinção entre uma pessoa “possuída” por um conteúdo arquetípico, e que portanto precisa de tratamento, e um pajé ou curandeiro que sabe controlar os “espíritos” e pode deixar que exerçam livremente seus poderes por meio dele sem se deixar possuir (Psicologia e Religião – C.G.Jung – Obras Completas vol. XI/1 – Ed. Vozes). Encontramos várias maneiras químicas para silenciar os espíritos que assombram esses tempos, mas isso não os elimina ou amansam, apenas os manda para longe da consciência. Parece que esse é o preço que estamos tendo que pagar para impedir a desintegração da consciência individual, já que não fomos educados ou preparados para manter nosso ego inteiro frente ao imenso poder emocional dos arquétipos inconscientes.

Os efeitos positivos dos arquétipos, porém, estão por trás de todas as criações e realizações humanas, seja no âmbito da Cultura e das Artes, seja nos novos modelos científicos e das novas ideias que caracterizam uma época. Sim, a retirada de filosofia e arte das escolas, que já eram ínfimas, é um crime de lesa humanidade, pois eliminam das escolas áreas importantes para aprender a fazer esse diálogo conosco mesmos. Alguns historiadores como Arnold Toynbee (Um Estudo da História, em 12 volumes, onde 23 civilizações são estudadas), falam dos ciclos vitais das culturas determinadas por formas arquetípicas. Aion, obra de C.G.Jung, é a tentativa de demonstrar os processos arquetípicos do inconsciente coletivo se manifestando na cultura da Era Cristã.

Urano em Áries constela o arquétipo do Guerreiro Revolucionário que vai salvar o oprimido (seja ele o empresário coberto de impostos ou o trabalhador explorado). O problema é que o arquétipo – e Urano – por ser coletivo, está trabalhando em uma dimensão que diz respeito ao Humano e busca nos libertar dos moldes que nos definem individualmente e dão segurança em uma rede social ao custo de nosso potencial criativo único, e, portanto, vai passar por cima de tudo isso que é muito precioso para o nosso ego, como a tchurma com a qual me identifico e que me faz ter estranhamento com relação ao Outro, da outra tchurma. O Guerreiro não constrói nada, ele só tem função no combate. Um bom exemplo disso foi Che Guevara, nascido com Urano em Áries no ascendente, e que foi um líder incrível na Revolução Cubana, mas que depois de estabelecido o novo governo se sente sem função e vai para a África e para a América Latina para continuar a libertar o mundo. Seus diários desse período falam das grandes frustrações que viveu, e ele termina sendo assassinado e se transformando em ídolo pop.

Se olharmos os períodos anteriores de Urano em Áries, após seu avistamento, de 1843 a 1850 (1848 conjunção com Plutão, ainda não avistado) e de 1927 a 1934, observamos algumas semelhanças interessantes que podem ajudar a entender esse período que estamos terminando e fazer uma ponte para o próximo movimento uraniano.

O grande combate do período entre 1843 e 1850 foi contra o tráfico humano para trabalho escravo na América. Os conservadores no Brasil - país estruturado na escravidão - diziam que sem o trabalho escravo a economia iria falir. Os movimentos contra o tráfico de humanos da África foram motivados por razões econômicas da Europa (principalmente da Inglaterra) que viram no continente africano uma grande fonte de riqueza com a descoberta de ouro, diamante, minério de ferro, carvão e manganês. A manutenção do sistema de comércio de pessoas era inviável para a exploração desses recursos naturais, principalmente por que os mercadores de escravos eram, em geral, chefes e governantes locais que limitavam a entrada do europeu além da costa. Mesmo ainda não tendo sido avistado, é bem forte o cheiro plutoniano desse processo (sim, preciso escrever sobre os tempos de encontro entre Urano e Plutão). Apesar da Inglaterra estar tentando acabar com o tráfico desde 1807, é durante os anos de Urano em Áries que o tema ganha a força necessária para que se avance no sentido de romper uma estrutura limitante. No Brasil a Lei Eusébio de Queiroz, que proíbe a entrada de africanos como escravos por aqui, foi aprovada em 4 de setembro de 1850 – a lei “para inglês ver”. A lei que acaba com a escravidão só virá em 1888, com Urano no signo oposto, Libra.

O período de 1927 a 1934 de Urano em Áries é a antessala da 2ª Grande Guerra, onde a ideia de salvar o mundo “higienizando” a raça humana ganha força e cria os movimentos nazifascistas na Europa, depois de toda uma revolução comportamental e econômica pós Primeira Grande Guerra de Urano em Peixes. Jung tentou mostrar que a antiga imagem de Wotan (Odin) – antigo deus da sabedoria, da guerra e da morte, pai de todos, da mitologia germânica – havia sido reativado no movimento nacional-socialista alemão. Mas não só na Alemanha. Também é nessa época que Trotsky, a maior oposição de Stalin, é expulso da Rússia e depois morto no México, que a Inglaterra invade a China, que é fundada a Opus Dei, e no Brasil temos o golpe de Estado que instala a ditadura de Getúlio Vargas, o Pai do Povo.
 

Porém, no mesmo período, se generaliza o sufrágio feminino pelo mundo e no Brasil Celina Guimarães Viana, a primeira mulher a votar, consegue votar em si mesma através de uma artimanha jurídica, no Rio Grande do Norte, quebrando a grade “homem-branco-rico” em que se sustentava a vida política e econômica; é descoberta, ”por acaso”, a penicilina, a grande combatente das infecções bacterianas que matava milhares de pessoas; se realiza a primeira viagem transatlântica aérea, ligando os continentes muito mais rapidamente; Chico Xavier encontra com seu guia Emmanuel e inicia um trabalho que, para além de popularizar o espiritismo, traz para a pauta da mídia, da academia e do judiciário a questão da mediunidade e do mundo além túmulo. Ou seja, ao mesmo tempo que fronteiras se fecham e a enorme Sombra Humana se agiganta, as pessoas começam a ganhar novas significações simbólicas através de realizações individuais que avançam no sentido de uma redenção coletiva, que supera os limites regionais e que podem ser usadas para uma outra forma de expressão. Segundo Jung, a função criadora da dinâmica psíquica formadora de símbolos sempre se manifesta na pessoa individual: somente no indivíduo as novas ideias, as inspirações artísticas e fantasias construtivas podem ser criadas. Sendo assim, enquanto a constelação mórbida de um arquétipo estiver tomando conta do coletivo, devemos olhar para as mudanças trazidas por indivíduos para entender a mudança positiva em formação.

Não sou a primeira a falar das semelhanças entre os últimos anos que vivemos e a época que antecedeu a 2ª Grande Guerra, com o crescimento dessa Sombra de intolerância e fanatismos que acompanha o Guerreiro Revolucionário constelado. Com todas as provocações que os EUA andam fazendo comandado por Donald Trump, é impossível conter a ideia de uma guerra nuclear se armando. Mas algumas histórias que correm paralelas a essas grandes narrativas mundiais falam de uma mudança da atitude unilateral para atitudes novas e mais completas, apontando para uma humanidade integrada e que seria a realização do divino anthropos, imagem alquímica do ouro e que Jung utilizava para representar o arquétipo final do processo de individuação. Segundo Marie-Louise von Franz – C.G.Jung, Seu Mito em Nossa Época, ed. Cultrix – o anthropos é ’‘visto como uma ‘alma grupal’ da humanidade, (...), uma imagem do vínculo que une todos os homens, ou do Eros inter-humano’‘. Esse talvez seja o arquétipo que todos os transaturninos estejam conectados, e as desestruturações que causam seriam, então, uma maneira de nos fazer avançar nesse sentido.

Existem vários movimentos de coletivos marginalizados que agregam novos discursos nesse período reivindicando essa integração humanitária, como o movimento Queer, que fala de uma não definição de gênero para os seres humanos ou o movimento feminista, que passa a apontar a importância da solidariedade feminina para o combate ao machismo, rompendo corajosamente a estrutura social aprisionante. Pensando em um personagem que possa estar trazendo essa nova criação do anthropos na trama em que vivemos, chama a minha atenção Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, 266º Papa da Igreja Católica, primeiro Latino-Americano e primeiro jesuíta a ocupar o trono de Pedro. É também o primeiro Papa a usar o nome Francisco. A biografia de Jorge Mario Bergoglio é bem corriqueira dentro da estrutura da Igreja Católica, nem progressista nem conservador, recebendo elogios e críticas de ambos os lados. Subiu ao trono de Pedro em março de 2013, depois da renúncia de seu antecessor, Bento XVI, que, com a desculpa de estar com idade muito avançada para o cargo, se retira em meio a graves acusações de pedofilia dentro da Igreja e, segundo o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris, Philippe Portier, por conta da "descoberta de um informe elaborado por um grupo de cardeais que revelava os abismos nada espirituais nos quais a Igreja Católica havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas" (Carta Maior, 14 de março de 2013 – A História Secreta da Renúncia de Bento XVI). As primeiras ações do novo Papa foi a condenação e expulsão da Igreja dos padres acusados de pedofilia e começar a mexer num dos maiores vespeiros da Igreja, o IOR, o Instituto para as Obras de Religião, famoso banco do Vaticano, uma instituição financeira que durante o século 20 foi o epicentro de inúmeros escândalos, entre lavagem de dinheiro, evasões de divisas, cobertura de políticos corruptos, fraudes tributárias, ligações com a máfia italiana e com outros grupos criminosos internacionais. O Papa que anteriormente havia sido entronado com a promessa de mexer no IOR foi João Paulo I, “morrido” aos 33 dias de empossado. Em junho de 2013 o recém-eleito papa Francisco criou de surpresa a Comissão Pontifícia para o IOR, com o objetivo de controlar e reformar a instituição financeira vaticana. Menos de seis meses depois o pontífice substituiu quatro dos cinco membros da comissão de cardeais por suspeita de corrupção, exonerando entre outros o atual arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, e Tarcisio Bertone, que presidia o grupo e que teria que responder a processo por ter usado dinheiro destinado a um hospital infantil para a reforma da sua luxuosa cobertura de 400 metros quadrados ao lado do Vaticano. Aqui temos o tradicional início de uma estrutura heroica, onde o personagem sai da esfera comum em que vivia para atender, de forma relutante, o chamado heroico de enfrentamento do Dragão que outros falharam em derrotar. O herói é exatamente aquele que combate a sombra coletiva, que no caso de Urano em Áries se apresenta como o guerreiro que quer salvar os seus e destruir o outro. No seu agir individual o herói traz algo que não havia antes, e ele vence - esperamos até o último capítulo da história - o dragão que leva o coletivo para a guerra.

Mas não é apenas as estruturas corruptas mundanas do Vaticano que o Papa Francisco vai enfrentar. Logo depois de sua posse é publicada a encíclica Lumen fidei, segundo Francisco idealizada e grandemente já redigida pelo seu predecessor, mas assinada por ele, que aborda uma das questões mais espinhosas da teologia católica, que é a fé em um deus encarnado em ser humano. Eugenio Scalfari, ateu, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, publica no jornal de 07-07-2013 um artigo direcionado ao Papa, baseando-se nessa encíclica, pois, segundo ele, "o assunto é importante porque toca o ponto central da doutrina cristã: o que é a fé, de onde ela provém, como ela é vivida pelos crentes, quais reações ela suscita em quem não é cristão, como ela explica a existência da raça humana e como responde a perguntas que cada um de nós se faz e às quais, na maioria das vezes, não encontra resposta: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Esse é o tema da encíclica, e quase todos os papas o enfrentaram durante o seu pontificado, especialmente a partir do século XIX, isto é, quando a modernidade reavaliou a razão e colocou em discussão o conceito de "absoluto", começando pela verdade. Existe uma única verdade ou tantas quantas os indivíduos e a sua mente racional configurarem? ". Todo o artigo é muito interessante e coloca ótimas questões comparando várias religiões de teologias diferentes. Termina perguntando diretamente ao Papa, "enfim, uma palavra que diz respeito aos judeus e ao seu Deus, que também é o Deus cristão sob outros despojos: esse Deus não havia prometido a Abraão prosperidade e felicidade para o seu povo? Mas durou muito pouco essa prosperidade. Eles foram escravizados pelos egípcios, depois pelos assírios e pelos babilônios, depois, quase sem intervalo, pelos romanos, depois a diáspora, depois as perseguições, por fim o Holocausto. O Deus de Abraão, portanto, não manteve a sua palavra. Qual é a resposta, reverendíssimo Papa Francisco? "

A resposta papal foi publicada em La Repubblica em setembro do mesmo ano, e diz que "chegou o tempo (...) de um diálogo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro sério e fecundo. " Me contenho aqui para não ficar analisando o conteúdo desse diálogo, mas recomendo a leitura das cartas trocadas entre os dois para pensar a respeito desse paradoxo entre a luz divina e a luz da razão nos dias de hoje. Essa possibilidade de buscar pontes e pensar junto com o Outro, que consegue ver no questionamento um "convite (...) para fazermos um pedaço de estrada juntos ", é o diferencial que instrumentaliza o Papa para a batalha. Esse foi o início de uma série de colocações da autoridade papal que atinge pontos antes irredutíveis daqueles que professam essa fé e que serviam para exclusão de fiéis não adaptados aos cânones, como os separados, homossexuais, agnósticos, etc. Não, o Papa não é a favor do casamento gay ou da consagração sacerdotal de mulheres, pois ele não é um Guerreiro Revolucionário em combate. Mas tem feito várias declarações para que se pare de usar a condenação aos infernos, grande arma dos religiosos para manter os fieis na linha, e se enfatize o amor divino que dá preferência aos pobres e ao auxílio dos mais necessitados para aproximar a hierarquia eclesiástica do povo de deus. Achei particularmente interessante o episódio onde o Papa responde para um menino de uns 8 anos chamado Emanuel, que, muito nervoso, queria saber se o pai dele, que havia morrido havia pouco tempo, iria para o inferno por ser ateu. Diz o Papa que Deus, sendo Pai, não abandonaria um homem bom, que foi capaz de batizar seus filhos mesmo sem crer, e que deu ao menino a coragem para se expor, se emocionar e dar testemunho da bondade do seu pai em frente a tantas pessoas por amor a esse pai. Isso significa colocar todo o peso na consciência individual em detrimento das regras. Jung dizia que essa era a premissa para não se deixar engolir pela projeção coletiva de um arquétipo constelado, pois a luz da consciência do ego, que cria valores subjetivos capazes de guiar-nos para um futuro pessoal, é quem pode fazer o esforço moral necessário para que as dúvidas como do jovem Emanuel venham questionar os fanatismos e certezas que nos torna "bons" em luta contra os "maus". Essa é a maneira como podemos nos proteger da sombra coletiva que aparece com Urano em Aries, pois toda vez que duvidamos e encaramos o desconforto de não estar de acordo com o coletivo estamos usando nossa pequena consciência de ego para não mergulhar no arquétipo ou não deixar que ele nos comande. Vale a pena continuar observando os movimentos desse Papa Francisco, que tem sua Lua em Aquário sendo regida pelo Urano em Touro de sua volta anterior, para ver como repercute seus movimentos dentro da sua religião e fora dela.

Para fechar deixo aqui uma entrevista da Linn da Quebrada onde ela fala sobre sua caminhada e dos novos corpos políticos que surgem como necessidade nesses tempos em que vivemos. Essa entrevista apareceu para mim exatamente quando estava terminando de escrever essa postagem e traduz muito bem a ideia de como se cria mudança através do estranhamento, do não se encaixar, de se perceber como algo que ainda não é nominado e que portanto precisa ser inventado. Aquilo que vivemos em solidão precisa vir para o mundo para criarmos novas formas de nos conectar e tirar outras pessoas da solidão