quarta-feira, 11 de abril de 2018

Quiquié Quincúncio


Eu sempre gostei de trabalhar o Quincúncio no Mapa Natal e agora preparando a oficina dos Conflitos Astrológicos as pessoas estão trazendo muitos Quincúncios como fonte de dificuldades na vida, então aqui vai um pouco desse aspecto que rende tantas histórias.

Na geometria astrológica, Quincúncio (ou quincunce ou quincôncio) é um aspecto de 150° entre dois elementos no círculo astrológico, ou seja, 30° antes ou depois da oposição.

Este é um dos chamados aspectos menores na astrologia pitagórica, mas que é muito característico na criação de padrões de personalidade. Na prática, esse é um aspecto que costuma ser acompanhado por bastante compulsão e irritação. Se “o zodíaco é o ciclo harmonioso da Totalidade”, como dizia Dane Rudhyar, o Quincúncio é aquele vizinho que coloca música alta quando você está tentando meditar e acaba com sua disposição harmônica. Mas assim que você desiste da meditação ele desliga a música e aparece na sua porta com pãezinhos de queijo quentinhos que acabou de fazer. Como não odiar e amar ao mesmo tempo esse horrível vizinho querido? Pois o Quincúncio faz isso na nossa vida.

Se pensarmos que o Quincúncio está no meio do caminho entre a oposição (distância de 180°) e o trígono (distância de 120°), podemos entender melhor essa mistura de atração e repulsão ao mesmo tempo. Quando vivenciamos um trígono as coisas fluem, a troca é fácil e os movimentos se apoiam construindo juntos uma ação com sentido. Usando a imagem dos vizinhos, são aqueles vizinhos que quando um faz pão de queijo, outro faz bolo de fubá e alguém ainda aparece com uma garrafa de café pra acompanhar (ou se for aqui no Sul, com a cuia de mate). Em geral a gente nem se dá conta de como isso é harmonioso e bacana, pois facilmente entra na rotina e a gente pensa que todos os vizinhos são assim, e a vida tem esse ritmo. Já a oposição é aquele vizinho que parece ser o seu contrário: um é noturno e outro é diurno, um é recluso e solitário enquanto o outro é social e participativo. Mas um pensa no outro quando gostaria de acordar mais cedo para caminhar ou quando precisaria ficar até mais tarde para aproveitar melhor uma festa, e assim, um sabe que poderia aprender mais com o outro. É bem comum que esses vizinhos se casem, e aí um cuida da parte social noturna e a outra da parte interna diurna. Claro que isso também traz muitos problemas, principalmente quando um quer a participação do outro, seja na caminhada matinal, seja na festa de noite. Aí precisam sentar e ter a tal discussão sobre a relação muitas vezes, até um aprender a desenvolver as qualidades do outro, ao menos em certo grau. Ou não... mas aí é outra história, sem final feliz. Às vezes vira história sem fim.

Uma maneira boa de entender a lógica dos aspectos no mapa é pensando nos signos. Algumas vezes, quando os planetas ou pontos em aspecto estão muito no começo ou no fim do signo, esse modelo precisa ser “adaptado”, mas então você pode fazer esse raciocínio através das casas envolvidas. O que vou fazer aqui é uma brincadeira caricatural, “a la” meme de Facebook (que eu adoro), então, porfavorporfavorporfavor, use essa postagem para pensar a respeito, não para encontrar uma verdade universal. E vamos cantar, pois é Páscoa!

Um trígono de Fogo pode cantar assim:
Áries: Vamos fugir (tiubialow)
Leão: Desse lugar, baby
Sagitário: Tô cansado de esperar, que você me carregue...
E seguem todos Reggaeando pelo tobogã de infinitas possibilidades futuras

Áries faz Quincúncio com Virgem e com Escorpião, então no que Áries canta “vamos fugir”, antes mesmo do tiubialow (give me your love), Virgem pergunta: “fugir pra onde, menin@? Como é que você vai se sustentar? E vai deixar seu cachorro com quem? Ou vai levar o bicho nessa fuga maluca?”. E Escorpião vai dar toda a razão para Virgem e perguntar: “Tá fugindo do que? Não vai adiantar nada, que seus medos seguem com você” E o que era uma música bacana pra cantar no carro vira uma questão. Ou o que era uma viajem pra Jamaica vira um rolê na Praia do Rosa.  Tanto Virgem quanto Escorpião admiram a capacidade ariana de ação e de se arriscar em novas possibilidades, mas também sabem que a ação pela ação simplesmente pode trazer mais problemas que aventuras bacanas. Por mais irritado que Áries fique com esse questionamento, se ele tiver um pouco de discernimento (ou experiencia de vida suficiente), vai poder perceber a importância dessas questões para que ele possa seguir seu caminho em liberdade sem ter que voltar para arrumar as coisas que ele deixou pendente. Bacanamente irritante, não? Mas a Praia do Rosa é maravilhosa.

Leão tá lá em seu lugar, baby, aprendendo a brilhar e transformar sua luz em novas criações, até que aparecem Capricórnio e Peixes pra fazer Quincúncio com ele. Capricórnio vai logo perguntar “o que vamos fazer desse lugar? Tudo muito ensolarado, muito brilhante, mas precisamos fazer planos práticos para utilizar esse espaço de modo a construir algo, que sem estrutura esse lugar não serve para nada.” E Peixes arremata: “você já pensou nos outros seres desse lugar? E todos os outros lugares que sustentam esse lugar? Não seria melhor dissolver essa sua individualidade para que todos pudessem brilhar juntos?” E Leão, tão preocupado em se tornar algo maior e melhor para ocupar com brilho seu lugar vai ficar bem incomodado de ter que se preocupar com essas coisas que não lhe diz respeito. Tanto Peixes quanto Capricórnio em geral admiram a capacidade Ludmilla de Leão chegar e ocupar seu lugar, mas sabem que de nada vale tanto brilho sem a preocupação em construir algo e distribuir com generosidade isso, senão essa busca de autoconhecimento e expressão pessoal se transforma em narcisismo patológico. Essa é a chance preciosa do leonino sair do “ninguém me entende” para o desenvolvimento de seu maior dom, que é a generosidade.

E Sagitário, cansado de esperar que você me carregue, vai ouvir de Câncer: “Tá cansado de me esperar, é? Mas quando é para ter aconchego, receber bem seus amigos, preparar o ambiente pra você dar seu show, aí tudo bem eu fazer tudo com capricho e cuidado, né?” No que Touro complementa: “e pode sentar para esperar, que não vou te carregar mesmo! Se você quiser, que leve seu próprio lençol limpinho e cheiroso, sua própria água potável, seu próprio travesseiro confortável, ou pague o preço para alguém carregar isso para você, e já te aviso que o preço é alto.” Mesmo gostando muito do entusiasmo e fé contagiante sagitariano, Câncer e Touro vão se preocupar com o lugar onde se vai repousar depois da grande viagem e como garantir ao menos um banheiro limpo e um banho quente depois de caminhar na chuva. As necessidades e cuidados tanto de Touro quanto de Câncer ensinam Sagitário a viajar equipado, o que com certeza faz a viagem mais agradável e garante abrigo em roubadas que ele acaba se metendo. O prazer contagiante e otimista sagitariano de ir além do horizonte dá, tanto para a Terra Fixa quanto para a Água Cardinal, coragem para correr mais riscos. Mas tem que ter muita DR interna antes desse crescimento potencial.

Não vou poder postar a música para todos os elementos e ficar brincando com os Quincúncios, sinto. O trabalho detalhado que faço com os mapas da Oficina mais os acontecimentos históricos do país não estão me deixando muito tempo. Mas acho que já dá para vocês terem uma ideia e brincarem por conta própria. Avante, sin perder el humor jamás.  





terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Conflitos No Mapa Astral

Atendendo a pedidos, vou abrir para o grande público o trabalho que venho desenvolvendo nos últimos anos, trabalhando astrologia com as vivências do modelo sistêmico e com Scalar Heart Connection (www.scalarheartconnection.com), aqui em Florianópolis, SC.

Comecei a fazer essa mistura primeiramente com meus alunos mais antigos e depois em grupos fechados de estudantes de astrologia que me chamavam para trabalhar assuntos específicos, e agora, depois de 4 anos dessas experimentações, vamos começar a caminhar pelo mundo.

Muito do que trouxe para esse trabalho tem a ver também com questões que os leitores desse blog, estudantes de astrologia, me trouxeram. Existe uma dificuldade real de vivenciar e entender como funcionam os conflitos astrológicos na vida das pessoas, e é para ajudar essas pessoas que essa oficina foi montada.

É necessário ter ao menos o conhecimento básico de astrologia e conseguir reconhecer os elementos representados no próprio mapa, por ser uma oficina vivencial onde não poderei dar a parte teórica, mas estão todos convidados.

Para mais informações e inscrição, escreva para conflitosastrológicos@gmail.com 




terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Vênus e Alquimia



“O amor é a chama que uma vez acesa queima tudo,
e somente o mistério e a jornada permanecem. “
Rumi

Vênus corresponde ao cobre na alquimia, e dizem os antropólogos que esse foi o primeiro metal minerado e trabalhado pelo ser humano, encontrado em escavações datadas por volta de 9000 a.C. no Oriente Médio. Em 5000 a.C. já se realizava a fusão e refinação do cobre a partir de óxidos como a malaquita e azurita e em 3000 a.C. os egípcios faziam tubos de cobre e também descobriram que a adição de pequenas quantidades de estanho facilitava a fusão do metal, aperfeiçoando os métodos de obtenção do bronze. Ao observarem a durabilidade do material os egípcios representaram o cobre com o Ankh, símbolo da vida eterna. Os Fenícios, a grande civilização de comerciantes da Antiguidade, entre 1500 a.C. até 300 a.C. aproximadamente, importavam o cobre da Grécia, e Chipre, a meio caminho entre Grécia e Egito, era a cidade-estado do cobre por excelência, ao ponto de os romanos chamarem o metal de aes cyprium ou simplesmente cyprium e cuprum, donde provém o seu nome latino e seu símbolo químico (CU). Chipre estava consagrada à deusa da beleza, Afrodite, e os espelhos eram fabricados com este metal. O símbolo do espelho de Vênus/Afrodite da mitologia, da astrologia e da alquimia é a modificação do egípcio Ankh, e foi posteriormente adotado por Carl Linné em sua taxonomia para simbolizar o gênero feminino.

Ankh
Vênus

O cobre é um dos metais de transição (metais duros de altos pontos de fusão e ebulição, que conduzem bem o calor e a eletricidade e podem formar ligas entre si), cuja condutibilidade elétrica e térmica só é superada pela da prata. Por isso o cobre tem seu lugar na mesma família que a prata e o ouro na tabela periódica.

Normalmente o cobre tem um tom avermelhado, alaranjado ou acastanhado devido a uma fina camada de manchas de óxidos, mas o cobre puro é rosa ou cor de pêssego. Apesar de não reagir com a água, ele reage lentamente com o oxigênio atmosférico, formando uma camada escura de oxido de cobre, e com o CO3 cria uma camada verde de carbonato de cobre, chamado azinhavre, visto em construções e estátuas antigas.

O cobre também é um elemento essencial à vida em geral, participando no nosso organismo do processo de fixação do ferro na hemoglobina do sangue. Grandes concentrações são encontradas no cérebro e fígado.

Vital, cheio de beleza e utilidade para nós desde que nos deparamos com ele, o cobre, como Vênus, tem sua capacidade de condução de energia facilmente associada ao conceito freudiano de libido, a energia que alimenta o instinto de vida e tem em sua mobilidade, na facilidade de alternar entre uma área de atenção para outra, sua característica básica. Traduzimos Libido do Latim como “desejo”, “anseio” e no século III d.C. Santo Agostinho já caracterizava três tipos de desejos: a libido sciendi, desejo de conhecimento, a libido sentiendi, desejo sensual em sentido mais amplo, e a libido dominendi, desejo de dominar. Esse reino que abarca desde os desejos mais altruístas até os mais egoístas, pertence a Afrodite/Vênus.

Gehard Dorn (c. 1530 – 1584), alquimista, filósofo e médico belga muito citado por Jung e Marie-Louise von Franz, tem imagens bem interessantes do processo alquímico, e uma delas fala do “dragão agitado da matéria” (o chumbo) que depois de ser mergulhado em uma solução aquosa com “aquilo que é barato e precioso”, é revivido pelo fogo, recupera suas asas, voa para longe, deixando em seu lugar uma criança divina (o ouro) que “vive no fogo”, fruto da união do dragão com a preciosidade que encontrou sob as águas. Essa criança é vermelha e atrai a vida do fogo. Ou seja, é uma criança coberta de libido, e que é capaz de atrair e direcionar essa força do desejo.

A Vênus, assim como Mercúrio, traz características muito pessoais de quem somos no mapa astral. Nossos gostos, nossos valores e a forma como atraímos aquilo que apreciamos para nossas vidas está sob cuidados dessa deusa. Vênus nos permite reconhecer o que há de precioso em meio àquilo que é “barato” e assim direcionar nossas forças criativas para o que tem valor. Aqui temos o princípio feminino que cria, enquanto na Lua temos o princípio feminino que cuida do que foi criado (falarei em algum momento futuro sobre a união alquímica do Sol com a Lua, que é o centro da Opus Alquímica, para entender mais profundamente esse princípio lunar e a criação solar). Quando o Chumbo/Saturno, chega ao estágio do Cobre/Vênus, depois de ter passado pela dissolução do nigredo, a purificação do albedo e a vivificação do citrinitas, a libido já está pronta para unir o homúnculo, que estava aprisionado no chumbo no início da aventura alquímica, à imortalidade divina, pois então é possível entender que “o significado ou o sentido da própria vida é a imortalidade – o estado mental em que constantemente usufruímos a presença de Deus” (Von Franz, Imaginação Ativa, 1979, pg. 78).

O Rubedo é a última fase do processo alquímico de transformação do chumbo em ouro, quando o Mercurius finalmente encontra o Sol, que se une a Lua e formam “o Renascido Divino”. Na fase vermelha acontece a síntese interna, a união entre as forças opostas que atuam dentro da matéria e que vai gerar a pedra filosofal. O lado masculino e o feminino da alma se integram. Essa união é chamada de conjunctio e é o ponto culminante da Obra.  Para que essa última fase pudesse acontecer, alguns alquimistas, inclusive o mítico Paracelso, afirmavam a importância de criar um ambiente saudável, cheio de beleza para desobstruir qualquer energia que provoque condicionamento e assim os metais consigam se unir de maneira correta. Ou seja, sem Vênus não há transformação, pois se a libido não está presente, ela estará em outro lugar e é muito provável que esteja lá atrás, no nigredo, associado à sombra, ou embolada com os condicionamentos passados conhecidos, muitas vezes destrutivos. Vênus não faz parte da transformação em si, não é ela que se transforma, mas sua presença é imprescindível.

Então, se você, alquimista amig@, é muito inteligente, muito disciplinado, tem muita força de vontade, mas não consegue reconhecer o que tem valor, não aprimora seu sentido pessoal de beleza (que pode ser muito diferente daquele condicionado socialmente) e não expressa essa beleza no mundo, direcionando sua libido para aquilo que te trará alegria e bem-estar, a transformação não ocorre. A Vênus traz em seu símbolo a imortalidade do Ankh que também pode ser traduzido como o divino (o círculo) dominando a matéria (a cruz), e é nesse sentido que à essa deusa se associa a Beleza e o Amor, pois é ela que nos conduz à Fonte da Juventude. Muitas vezes ao longo de nossa história humana mais recente, de uns 2 mil anos para cá, se condenou esse princípio feminino tão elementar das nossas vidas, tentando substituí-lo por outra coisa, por outros símbolos, o que acredito poder ser uma das razões de nos encontrarmos nesse estado tão patológico, social e pessoal, onde a sensação de impotência e estagnação é óbvia. 
 
Ou, como disse o engenheiro que amava livros e virou editor e escritor, Franklin P. Jones: “o Amor não faz o mundo girar. O Amor faz o giro valer a pena”

Não podia terminar esse ano regido por Vênus sem falar dela, que traz um principio muito mais de daímôn grego, de um espírito da natureza, do que de uma deusa distante do Olimpo. Espero que todos tenham aproveitado esse tempo para aperfeiçoar suas qualidades venusianas. Ano que vem será regido por Júpiter, com eleições, copa do mundo e sabe-se lá o que mais. Certamente ter os próprios valores e beleza conscientes vai ajudar bastante. Feliz Natal!