terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Vênus e Alquimia



“O amor é a chama que uma vez acesa queima tudo,
e somente o mistério e a jornada permanecem. “
Rumi




Vênus corresponde ao cobre na alquimia, e dizem os antropólogos que esse foi o primeiro metal minerado e trabalhado pelo ser humano, encontrado em escavações datadas por volta de 9000 a.C. no Oriente Médio. Em 5000 a.C. já se realizava a fusão e refinação do cobre a partir de óxidos como a malaquita e azurita e em 3000 a.C. os egípcios faziam tubos de cobre e também descobriram que a adição de pequenas quantidades de estanho facilitava a fusão do metal, aperfeiçoando os métodos de obtenção do bronze. Ao observarem a durabilidade do material os egípcios representaram o cobre com o Ankh, símbolo da vida eterna. Os Fenícios, a grande civilização de comerciantes da Antiguidade, entre 1500 a.C. até 300 a.C. aproximadamente, importavam o cobre da Grécia, e Chipre, a meio caminho entre Grécia e Egito, era a cidade-estado do cobre por excelência, ao ponto de os romanos chamarem o metal de aes cyprium ou simplesmente cyprium e cuprum, donde provém o seu nome latino e seu símbolo químico (CU). Chipre estava consagrada à deusa da beleza, Afrodite, e os espelhos eram fabricados com este metal. O símbolo do espelho de Vênus/Afrodite da mitologia, da astrologia e da alquimia é a modificação do egípcio Ankh, e foi posteriormente adotado por Carl Linné em sua taxonomia para simbolizar o gênero feminino.

Ankh
Vênus

O cobre é um dos metais de transição (metais duros de altos pontos de fusão e ebulição, que conduzem bem o calor e a eletricidade e podem formar ligas entre si), cuja condutibilidade elétrica e térmica só é superada pela da prata. Por isso o cobre tem seu lugar na mesma família que a prata e o ouro na tabela periódica.

Normalmente o cobre tem um tom avermelhado, alaranjado ou acastanhado devido a uma fina camada de manchas de óxidos, mas o cobre puro é rosa ou cor de pêssego. Apesar de não reagir com a água, ele reage lentamente com o oxigênio atmosférico, formando uma camada escura de oxido de cobre, e com o CO3 cria uma camada verde de carbonato de cobre, chamado azinhavre, visto em construções e estátuas antigas.

O cobre também é um elemento essencial à vida em geral, participando no nosso organismo do processo de fixação do ferro na hemoglobina do sangue. Grandes concentrações são encontradas no cérebro e fígado.

Vital, cheio de beleza e utilidade para nós desde que nos deparamos com ele, o cobre, como Vênus, tem sua capacidade de condução de energia facilmente associada ao conceito freudiano de libido, a energia que alimenta o instinto de vida e tem em sua mobilidade, na facilidade de alternar entre uma área de atenção para outra, sua característica básica. Traduzimos Libido do Latim como “desejo”, “anseio” e no século III d.C. Santo Agostinho já caracterizava três tipos de desejos: a libido sciendi, desejo de conhecimento, a libido sentiendi, desejo sensual em sentido mais amplo, e a libido dominendi, desejo de dominar. Esse reino que abarca desde os desejos mais altruístas até os mais egoístas, pertence a Afrodite/Vênus.

Gehard Dorn (c. 1530 – 1584), alquimista, filósofo e médico belga muito citado por Jung e Marie-Louise von Franz, tem imagens bem interessantes do processo alquímico, e uma delas fala do “dragão agitado da matéria” (o chumbo) que depois de ser mergulhado em uma solução aquosa com “aquilo que é barato e precioso”, é revivido pelo fogo, recupera suas asas, voa para longe, deixando em seu lugar uma criança divina (o ouro) que “vive no fogo”, fruto da união do dragão com a preciosidade que encontrou sob as águas. Essa criança é vermelha e atrai a vida do fogo. Ou seja, é uma criança coberta de libido, e que é capaz de atrair e direcionar essa força do desejo.

A Vênus, assim como Mercúrio, traz características muito pessoais de quem somos no mapa astral. Nossos gostos, nossos valores e a forma como atraímos aquilo que apreciamos para nossas vidas está sob cuidados dessa deusa. Vênus nos permite reconhecer o que há de precioso em meio àquilo que é “barato” e assim direcionar nossas forças criativas para o que tem valor. Aqui temos o princípio feminino que cria, enquanto na Lua temos o princípio feminino que cuida do que foi criado (falarei em algum momento futuro sobre a união alquímica do Sol com a Lua, que é o centro da Opus Alquímica, para entender mais profundamente esse princípio lunar e a criação solar). Quando o Chumbo/Saturno, chega ao estágio do Cobre/Vênus, depois de ter passado pela dissolução do nigredo, a purificação do albedo e a vivificação do citrinitas, a libido já está pronta para unir o homúnculo, que estava aprisionado no chumbo no início da aventura alquímica, à imortalidade divina, pois então é possível entender que “o significado ou o sentido da própria vida é a imortalidade – o estado mental em que constantemente usufruímos a presença de Deus” (Von Franz, Imaginação Ativa, 1979, pg. 78).

O Rubedo é a última fase do processo alquímico de transformação do chumbo em ouro, quando o Mercurius finalmente encontra o Sol, que se une a Lua e formam “o Renascido Divino”. Na fase vermelha acontece a síntese interna, a união entre as forças opostas que atuam dentro da matéria e que vai gerar a pedra filosofal. O lado masculino e o feminino da alma se integram. Essa união é chamada de conjunctio e é o ponto culminante da Obra.  Para que essa última fase pudesse acontecer, alguns alquimistas, inclusive o mítico Paracelso, afirmavam a importância de criar um ambiente saudável, cheio de beleza para desobstruir qualquer energia que provoque condicionamento e assim os metais consigam se unir de maneira correta. Ou seja, sem Vênus não há transformação, pois se a libido não está presente, ela estará em outro lugar e é muito provável que esteja lá atrás, no nigredo, associado à sombra, ou embolada com os condicionamentos passados conhecidos, muitas vezes destrutivos. Vênus não faz parte da transformação em si, não é ela que se transforma, mas sua presença é imprescindível.

Então, se você, alquimista amig@, é muito inteligente, muito disciplinado, tem muita força de vontade, mas não consegue reconhecer o que tem valor, não aprimora seu sentido pessoal de beleza (que pode ser muito diferente daquele condicionado socialmente) e não expressa essa beleza no mundo, direcionando sua libido para aquilo que te trará alegria e bem-estar, a transformação não ocorre. A Vênus traz em seu símbolo a imortalidade do Ankh que também pode ser traduzido como o divino (o círculo) dominando a matéria (a cruz), e é nesse sentido que à essa deusa se associa a Beleza e o Amor, pois é ela que nos conduz à Fonte da Juventude. Muitas vezes ao longo de nossa história humana mais recente, de uns 2 mil anos para cá, se condenou esse princípio feminino tão elementar das nossas vidas, tentando substituí-lo por outra coisa, por outros símbolos, o que acredito poder ser uma das razões de nos encontrarmos nesse estado tão patológico, social e pessoal, onde a sensação de impotência e estagnação é óbvia. 
 
Ou, como disse o engenheiro que amava livros e virou editor e escritor, Franklin P. Jones: “o Amor não faz o mundo girar. O Amor faz o giro valer a pena”

Não podia terminar esse ano regido por Vênus sem falar dela, que traz um principio muito mais de daímôn grego, de um espírito da natureza, do que de uma deusa distante do Olimpo. Espero que todos tenham aproveitado esse tempo para aperfeiçoar suas qualidades venusianas. Ano que vem será regido por Júpiter, com eleições, copa do mundo e sabe-se lá o que mais. Certamente ter os próprios valores e beleza conscientes vai ajudar bastante. Feliz Natal!

domingo, 29 de janeiro de 2017

Mercúrio e Alquimia





“Na verdade, a forma que corresponde ao intelecto do Homem é o começo, o meio e o fim do processo. (...). O ser humano é a forma principal e o maior no opus espagírico”
Gerardus Dorneus (1530 - 1584)


Dizem uns que a palavra "alquimia" vem da expressão árabe al-Khen (de raiz coreana, alkimya), que significa "A Química". Outros acham que está relacionado com o vocábulo grego chymba, que se relaciona com a fundição do elemento químico mercúrio. É, Mercúrio é assim de importante a ponto de ser colocado na denominação da Obra, por isso vamos começar por ele.

A Grande Obra alquímica é o processo de transformar chumbo (em alguns tratados são as fezes que vão ser transformadas) em ouro através dos vários procedimentos mostrados pelos signos. Muitos alquimistas afirmam que isso só seria possível quando se processasse a transformação interna do alquimista, que trabalha em si para evoluir e caminhar em direção ao ouro interno. “Como acima assim abaixo, dentro é fora”, dizia a Tábua Esmeralda, e por isso, trabalhando os elementos materiais se trabalha os elementos internos. Saturno é a representação do Chumbo, e Mercurius é o “brilho claro e argênteo” (Milio) que habita o coração de Saturno e precisa ser libertado para transformar e ser transformado nesse processo.

Tudo começa com o orvalho, utilizado para umedecer ou banhar os elementos mercúrio e enxofre que possibilitam a transformação. O enxofre é o princípio fixo, ativo, masculino, que representa as propriedades de combustão e corrosão dos metais, ligado a Marte. O mercúrio é o princípio volátil, passivo, feminino, inerte. Para a Obra é necessário utilizar tanto nossa natureza ativa quanto a passiva. Ambos, combinados, formam o que os alquimistas descrevem como o "coito do Rei e da Rainha", que vai gerar o novo ser. O sal é o dissolvente universal (também chamado arsénico), e é o meio de ligação entre o mercúrio e o enxofre, associado à energia vital que une corpo e alma. A ação transformadora desses três elementos (sal, mercúrio e enxofre) trazem à tona o espírito de Mercurius para que a matéria pesada se transforme em algo precioso.

O planeta Mercúrio está simbolicamente conectado à esfera mental da nossa psique individual, e no trabalho Alquímico age e acompanha todo o processo. É fácil compreender isso quando lembramos que a Tábua Esmeralda do sábio personagem Hermes Trismegisto (estou saindo do pressuposto que vocês sabem o que é a Tábua Esmeralda e seu “autor”, mas se alguém necessitar de maiores explicações, por favor, me avisem) tem o mental como princípio básico: "O Todo é Mente; o Universo é mental." O universo funcionaria como um grande pensamento divino, onde toda a criação principia como uma ideia da mente divina que continuaria a viver e a ter seu ser na divina consciência. É o mesmo que aparece no Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus”. Jesus Cristo é o Mercurius alquímico que “(...) estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. ” (Evangelho de João, 1, 1 – 3)

Mercúrio é esse paradoxo que cria o mundo e é prisioneiro do mundo criado, e isso fala muito do nosso mental. Nossa espécie, a humana, se diferenciou dos nossos irmãos animais exatamente por essa curiosidade mental, essa capacidade de ir além da experiência concreta e construir abstrações que expliquem nosso mundo externo e interno: humanos, não os pinguins, descobriram que há gelo em Plutão; humanos, e não toupeiras, teorizam sobre os buracos negros. Nossa espécie trata isso como algo que não apenas nos diferencia, mas também nos torna superiores, nos fazendo semelhantes a um Grande Criador dono do mundo: assim como nós criamos cadeiras, alguém deve ter criado à nós e ao mundo. Essa concepção também é uma prisão onde não conseguimos avaliar corretamente o valor daquilo que não se enquadra em uma visão antropomórfica.

Em Gerhard Dorn (c. 1530 – 1584) encontramos que “através do estudo (...) adquire-se conhecimento; através do conhecimento o amor, que cria a devoção; a devoção cria a repetição e fixando-se a repetição cria-se em si mesmo a experiência, a virtude e o poder através dos quais o trabalho miraculoso é realizado; o trabalho na natureza possui essa qualidade” (Marie-Louise von Franz - Alquimia e Imaginação Ativa – pg 43). Essa é uma boa maneira de descrever o método científico utilizado até hoje e também de como adquirimos novos valores, novas visões de mundo, novos saberes e como isso nos modifica e se torna parte de nós.

As Neurociências nos confirmam que é através daquilo que pensamos da vida que nossa vida acontece, que aquilo que cremos ser a realidade se transforma em um filtro de percepção que nos faz viver naquilo que acreditamos. Nesse sentido, aquilo que conhecemos cria o mundo em que vivemos ao mesmo tempo que nos aprisiona nesse “cercado” conhecido.

Mercurius como símbolo do processo de entendimento, de conexão e integração, que liga o masculino ao feminino e permite ao Grande Transformador completar a transmutação das substâncias, tem primeiro que se libertar do aprisionamento que ele mesmo criou no coração de Saturno, com todas as crenças errôneas e limitantes que cristalizaram seu mundo.

Nossa busca primeva então é de como fazer para libertar Mercurius. Nossa matéria pesada e densa deve passar por quatro fases para que aconteça a transformação do chumbo em ouro, e nesse processo Mercúrio vai se libertando e guiando as mudanças. Lembrando que muitas vezes é preciso voltar a fases anteriores para que o processo possa continuar, pois o caminho é espiralado e não uma reta sem fim. C.G.Jung e outros analistas junguianos viram nessas fases o processo psíquico de individuação. Como cada fase está ligado a um astro diferente, quando falar de cada dos planetas vou aprofundando o processo. Aqui vou falar de cada fase tendo em vista a busca pela libertação e evolução de Mercúrio usando como pano de fundo os conceitos junguianos.


A primeira fase é o NIGREDO, palavra associada à cor negra, a Saturno, ao chumbo. Ou à merda. É o pesado, difícil e causa sofrimento. Então o primeiro passo do trabalho alquímico é verificar a merda em que você se meteu e aceitar isso. Jung diz que essa fase corresponde ao encontro com a Sombra, que é a parte da personalidade que foi enterrada por não poder ser aceita e que se transforma em nosso Inimigo. Sabe aquele dom artístico que você tinha quando pequeno, por exemplo, e que desapareceu de tanto você ouvir que arte é coisa de vagabundo (ou o prazer em se arrumar e se exibir que foi considerado superficial e errado, ou o interesse por matemática visto como coisa de cdf idiota, etc. ad infinitum)? Então, esse dom vai para a sombra inconsciente e toda vez que você cruza com um artista você se irrita, acha que ele deveria trabalhar em algo bem burocrático e pouco criativo para ser respeitado, e ai de um filho seu que queira tocar piano. Essa Sombra vai te encher de cobiça, raiva, inveja, melancolia e te convencer a abandonar ações positivas. Quanto mais inconsciente ela for, mais julgamos o mundo como um lugar triste, sem esperança, onde as pessoas não são confiáveis. Uma merda, mesmo.

Essa é uma fase considerada muito perigosa, pois o chumbo ao ser manipulado solta gases venenosos que podem enlouquecer, quando não mata o alquimista. É recomendado que esse trabalho seja feito de maneira protegida e acompanhado de alguém mais experiente. O risco que corremos ao encarar todas as coisas pesadas que fazem parte de nós é a de esquecermos do Mercurius que habita o coração de todo Saturno, deixando que a sombra tome conta de tudo e nos destrua sem que nada novo nasça. Qualquer pessoa que experimentou depressão profunda pode dar testemunho das dificuldades e dos perigos do Nigredo, de como é estar envenenado pelos vapores do chumbo. Enlouquecedor e muitas vezes fatal. Esse é um momento de introversão e também de incubação, onde encaramos nossos limites, fraquezas, frustrações e negatividades para reconhecermos que isso também faz parte de quem somos, e ao nos juntarmos com nossa Sombra realizamos o “coito entre o Rei e a Rainha”. Reconhecemos como sendo nossa responsabilidade cuidar dessa parte que por qualquer motivo mantínhamos escondido em um quarto escuro e fechado do inconsciente. Eva Pierrakos, que canalizava o Guia do Pathwork, dizia que quando o mal é compreendido como fluxo de energia divina momentaneamente distorcido devido às ideias errôneas, a conceitos e imperfeições específicos, ele não é mais rejeitado em usa essência. Com o reconhecimento da Sombra, trazendo-a para a luz, sua força diminui e podemos aprender a não nos deixar dominar por ela ao mesmo tempo que nos tornamos mais inteiros. É Mercurius se revelando no coração de Saturno, que de quebra ainda nos traz os dons que estavam sendo guardados pelo Inimigo.

ALBEDO é o branqueamento da matéria: fase lunar, onde se usa a prata e a água para purificar e clarificar. Entramos na segunda fase, onde as impurezas são filtradas, analisadas, separadas, destiladas, organizadas e algumas até dissolvidas. É uma fase passiva, onde os conteúdos emocionais e inconscientes contaminados que vão aparecendo podem ser analisados e conseguimos separar as emoções das memórias e entender como somos, como nossas vivências foram nos construindo, quais são nossas motivações mais profundas. Mercurius descoberto no coração de Saturno começa um trabalho de destilação que resulta na purificação da matéria pesada, que pode agora ser entendida através principalmente do olhar sobre o próprio universo emocional e inconsciente. É a construção do Cálice Sagrado. Sabe aquela sensação depois de um workshop terapêutico de imersão, ou um fim de semana xamânico, ou uns dias de retiro de silêncio, etc., que você se sente mais leve e um monte de coisas passam a fazer sentido? Isso é Albedo. Mas claro que não é uma fase totalmente isenta de perigos. Lembram-se que é uma fase lunar? Pois então. Aqui, estamos conectados com nossos estados emocionais mais primários, nossos mecanismos de sobrevivência inconscientes, e entre eles temos nosso precioso sentimento de clã. O perigo é começar a pensar que somos alguém iluminado e limpinho, passando a criticar todos que não seguem o mesmo caminho e que não fazem parte da nossa tchurma, caindo no maior pecado para os gregos e que já derrotou muitos heróis: a hibris, o orgulho. Essa é uma fase introspectiva e Mercurius tem que vencer a tentação de se animar demais com suas sacadas brilhantes sobre a própria história e passar a generalizar seu processo para toda a humanidade. Aí você pode começar a acumular rancores, raivas e mal-entendidos e tem que voltar uma casa para encarar mais um pouco de Nigredo. O que não é um grande problema depois de já conhecer o caminho. Essa é uma etapa de compreensão passiva, onde nosso eu mercuriano tem que ligar A com B, encaixando o quebra-cabeças de quem somos e passando pelas emoções que fazem parte da nossa história para deixa-las transparentes. As tentativas de ação aqui, seja entrando em uma análise sem fim achando que vai encontrar as leis universais ou querendo que todo mundo faça igual, ou mesmo querendo continuar por aqui quando essa fase já se esgotou, pode fazer com que seja necessário retornar à fase anterior por conta da putrefação que acaba gerando.

CITRINITAS, a terceira fase, é amarela, do enxofre, do trabalho com Marte. Aqui saímos da fase passiva para a ativa. A imagem que mais aparece nos tratados alquímicos dessa fase é a do Lobo ou do Leão que devora o Sol. Uma receita citrinitas fala de se pegar o Lobo, cortar suas patas e misturá-lo com o Velho Rei (que já não tem forças nem virilidade para fertilizar o reino) em um recipiente bem fechado e cozinhar em fogo lento até eles se misturarem e se transformem no novo rei. Os dois ficam se batendo ali e você tem que continuar firmemente mantendo o recipiente fechado até acontecer a transformação. Assim, temos o casamento de Mercúrio com Marte, que dá ao espírito de Mercurius uma força ígnea capaz de cortar o que prejudica seu desenvolvimento e possibilita nossa psique passar das questões pessoais para as questões mais amplas, que envolvem o mundo e as pessoas que estão além do nosso umbigo. O Velho Rei, em sua senilidade, é aquele que traz as crenças e verdades ultrapassadas, que já não servem se queremos avançar no caminho, ao mesmo tempo que possui a experiência e sabedoria adquirida com o tempo. O Lobo é a forma teriomorfa do ouro alquímico, que não pode morrer mas precisa ser contido para que sua força possa ser utilizada. Mercurius vai ganhar sabedoria e força nesse processo e assim se transformar. O enxofre, enquanto fogo alquímico, transforma o mercúrio feminino, volátil e frio, no “Mercúrio dos Sábios”, um Mercurius livre para explorar para além de si de maneira ativa. Essa fase é chamada de “morte amarela”, pois aquela noção de “eu” que tínhamos tem que morrer para que o novo ser possa nascer e entender o mundo além de si. Ao nos purificarmos nas duas primeiras etapas nos transformamos no “cálice sagrado” capaz de conter a nova vida que nasce da união de Marte com Mercúrio, da transformação do Velho Rei e do Lobo. Mercúrio passa a contar com a intuição e a conexão com o supra consciente para além da sua capacidade cognitiva, pois dizem os alquimistas que o Sol desce até ele para iluminá-lo. Nossa psique aprende, através das batalhas que agora pode enfrentar, a pensar por si mesma em vez de aceitar o que os “outros” (a família, a sociedade, a TV, a igreja, a Veja, etc.) dizem ser a verdade e passa a se basear em suas próprias percepções e experiências, não só externas, mas principalmente internas, aquelas que vêm do contato com o divino dentro de si e que mora em seu coração, representado pelo Sol que desce no recipiente puro que Mercurius se transformou. Aqui temos o ouro mas de uma maneira instável, que ainda precisa ser trabalhado para se fixar. Há uma busca por compartilhamento das experiências e nossa mente é capaz de entender o significado mais profundo de compaixão, o que irá possibilitar a passagem para a quarta e última fase.


O RUBEDO é a fase vermelha, de Vênus, que irá possibilitar que o Sol/ouro se estabilize. É o processo de síntese interna, unindo as forças opostas que atuam dentro da gente e que gera a Pedra Filosofal, aquela que transforma qualquer coisa em ouro. Uma boa imagem que resume essa fase é dada por Zózimo de Panópolis (meados dos anos 300 d.C): “Ele (o divino) aparece junto ao demiurgo, mas é um opositor das esferas planetárias; rompe o círculo das esferas e se inclina para a terra e a água (isto é, está prestes a projetar-se nos elementos). Sua sombra cai sobre a terra, mas sua imagem se reflete na água, incendiando o amor dos elementos. A imagem refletida da beleza divina o embevece de tal modo, que gostaria de habitar dentro dela. No entanto, mal desce, a Physis o envolve em abraço apaixonado. Deste abraço surgem os primeiros sete seres hermafroditas (que são os próprios astros). ” (C.G.Jung – Psicologia e Alquimia – pg 313). 

Na mitologia Afrodite/Vênus e Hermes/Mercúrio se unem e geram o Hermafrodita, que é masculino e feminino ao mesmo tempo. Esse é o coniunctio, a união do Céu e da Terra, do Sol e da Lua, do Deus e da Deusa, do Animus e da Anima, de Logos e Eros, quando o lado masculino e o feminino da alma se integram. Quando os opostos se apaixonam e se entregam um ao outro, algo maior e mais poderoso nasce, “rompendo o círculo das esferas”, pois a matéria (physis) e a divindade passam a ser uma coisa só. "Algo firme nasceu, algo que está além dos altos e baixos da vida, e simultaneamente nasceu algo muito vivificante, que participa do fluxo vital sem inibições ou restrições da consciência", diz Marie- Louise von Franz in Alquimia. “O psicanalista Carl Jung também descreve com poesia esse momento. Para ele, é como estar no pico de uma montanha, acima da tempestade. Vemos as nuvens negras, os relâmpagos e a chuva caindo, mas algo em nós paira acima de tudo e podemos simplesmente observar os elementos em fúria. Talvez esse momento ainda não seja definitivo - é provável que ainda caiamos sob a emoção de um estado negativo. Mas algo em nós já é capaz de dizer que essa cantiga é nossa velha conhecida e, de certa forma, não seremos tão capturados por ela. ” (Edson Cruz http://edsoncruzemquimica.blogspot.com.br/p/pagina-3.html).

Isso é ou não é a Pedra Filosofal, transformando sua vida em ouro?

Uma observação que a maioria dos tratados alquímicos traz é sobre a importância do meditatio e do imaginatio para que o Alquimista consiga lograr seu objetivo. Meditação e imaginação ativa (que Jung diferencia veementemente da mera fantasia) são uma maneira de fazer com que se conheça a própria mente e aos poucos se abra espaço para o Mercurius alquímico e sua transformação. Dos místicos cristãos aos sábios budistas, de xamãs Yanomami a guias espirituais das mais variadas vertentes, todos os que encontraram uma maneira de entrar em contato com a divindade interna, unindo o celeste com o terreno, falam dessa necessidade de trabalho com a mente para direcioná-la ao que há além do “eu”, da nossa pequena identidade, e utilizam para isso a meditação. O estado meditativo da mente possibilita a comunicação com o Eu divino através da imaginação.

Astrologicamente falando, tanto o Mercúrio pessoal, que encontramos no mapa astral (por signo, casa e aspectos), quanto os trânsitos de Mercúrio ao longo do seu ciclo pelo zodíaco, que o faz entrar em contato com os vários pontos de nosso mapa, podem nos mostrar caminhos para essa transformação se estivermos empenhados nessa direção. Esse planeta, sendo o mais próximo do Sol (o representante da divindade), está em sintonia com nossa estrela mais do que qualquer outro. Tenho visto que pessoas com os maiores desafios mercurianos no mapa (coisas como aspecto com Saturno ou com Plutão, ou o famigerado Mercúrio Retrógrado, por exemplo) acabam tendo um refinamento intelectual acima da média e histórias internas de dificuldades com a expressão mental que os levou nessa direção de introspecção e auto superação e lhes trouxe um tesouro afinal.

Um intelecto refinado, porém, não é o suficiente. Não é difícil encontrar pessoas refinadas intelectualmente que continuam com o coração de chumbo e que fogem do processo de Nigredo. Até Citrinitas conseguimos chegar através de esforço consciente e disciplina, porém a entrega à união dos opostos, que põe fim à dualidade em que vivemos, pensamos e construímos nossa identidade, só é possível através de nosso refinamento amoroso. Em Rubedo deixamos de pensar para sermos pensados pela “divindade que habita nossa alma”, como disse Sócrates a Fedro através de Platão quando lhe explica o que é o Amor. Esse é o Amor que precisa ser despertado na última fase. Ou, como diria Santa Teresa D’Ávila:

“Ó vida, que posso eu dar
A meu Deus, que vive em mim,
A não ser perder-te, a fim
De O poder melhor gozar
E não tenho outro querer;
Que morro de não morrer”

“Vida, qué puedo yo darle
A mi Dios, que vivi em mí,
Se no es perderte a ti,
Para mejor en El gozarle?
Quiero muriendo alcanzarle
Pues a El solo es el que quiero,
Que muero porque no muero”

Sim, Mercúrio também pode nos levar até o Amor maior, além de fazer a lista de compras do mercado. 

PS. O filme "A Revolução do Altruísmo" (2015), documentário de Tierry de Lestrade e Sylvie Gilman, traz boas informações para entender Mercurius. A Globosat oferece esse filme free pelo link http://globosatplay.globo.com/globosat/v/5399360/