quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Viagem no Tempo com Plutão IV - Uma Grande Batalha



Plutão em Capricórnio cerca de 14 anos - de 1765 a 1779 e de 2008 a 2022
Capricórnio é o signo da estruturação pessoal e social, ligado à maestria adquirida com a experiência e que constrói seus passos à partir da percepção material e concreta da vida. Essa passagem de Plutão irá marcar a oposição desse planeta quando ele foi descoberto em 1930 em Câncer. Marcada pela Segunda Grande Guerra, com Plutão em Câncer tomamos consciência de todo o horror que somos capazes quando um grupo se sente no direito de reinvidicar o mundo para si em detrimento de todos os outros. Assim a Alemanha Nazista e sua ideologia de medo se espalharam pelo mundo propagando que uma “raça”, no caso a ariana, sendo mais pura e superior, deveria ter supremacia sobre o resto da humanidade. Plutão nos mostra que a divisão entre “nós, os bons” e “eles, os maus” é uma falácia que pode ser cruel. Os laços entre iguais não podem ser mais fortes do que a estrutura social de igualdade que mantêm os diferentes grupos unidos. Mas o que acontece quando deixamos de levar em conta os laços afetivos e ancestrais em nome de uma estrutura externa e social? O que pode acontecer quando Plutão passar por Capricórnio destruindo estruturas vazias para que novas possam surgir e atiçando as ambições mundanas? Podemos olhar a última passagem do Senhor do Hades por esse signo, entre 1765 e 1779, para tentar pensar sobre o assunto.

Essa é a época do Iluminismo, quando a modernidade nas artes, na filosofia e na política ganham força. Em 1770 Mozart está visitando a Itália, Beethoven está nascendo e Kant, aos 46 anos, lê David Hume, um empirista cético que despreza toda a metafísica, e que vai instigá-lo para escrever a Crítica da Razão Pura. As leis e os dogmas religiosos são rechaçados em nome da capacidade humana de se “iluminar” pela razão. Voltaire, Rosseau, Adam Smith e muitos outros, pensam, analisam e debatem a história humana, propondo novas formas de Estado e de Ética para a Sociedade, diferentes daquela que justifica o poder como uma dádiva de Deus. A Ciência está sendo compartimentada em áreas específicas e a figura do sábio, que conhece de astrologia a biologia, está desaparecendo. Há uma enorme desconfiança com tudo que cheire a exotérico ou espiritual. A Imperatriz Maria Teresa expulsa judeus de Praga, Boêmia e Moravia, enquanto Carlos III ordena que os jesuítas abandonem a Espanha - mãe da Companhia de Jesus e da Inquisição - e suas colônias americanas. Até o Papa Clemente XIV emite bula extinguindo a Companhia de Jesus. No norte da América as treze colônias do Reino Unido, embora fossem muito diferentes umas das outras, socialmente possuíssem uma elite com identidade britânica e politicamente se baseassem nas tradições inglesas, começam a se unir depois de uma série de aumentos dos impostos e do Massacre de Boston. Liderados por . George Washington as forças rebeldes americanas vencem o exército inglês e em 4 de julho de 1776 é feita a Declaração de Independência Americana, que tem como principal autor Thomas Jefferson, e onde é proclamado que “todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade".

Durante a passagem de Plutão por Capricórnio foi criado o Estado Moderno, a especialização científica e entramos definitivamente na Era Capitalista. Tudo organizado, a sociedade se reestruturando em bases racionais de justiça e igualdade e o conhecimento avançando sem obstáculos supersticiosos. Mas como estão as relações afetivas e os laços pessoais? Pois essa também é a época áurea de Marques de Sade, que pode nos ensinar muito a respeito dos perigos da racionalização excessiva sem a necessária contraparte afetiva-emocional. Primeiro uma breve biografia.

Marques de Sade é um aristocrata francês que nasce em Paris a 2 de junho de 1740, mas vive dos quatro aos dez anos de idade no Comtat-Venaissim. Em 1750 começa seus estudos formais na escola real e é acompanhado por um preceptor particular. Com 14 anos é admitido na Escola da Cavalaria Ligeira e aos 15 já é subtenente do regimento de infantaria do rei. Ele tem uma boa carreira militar e na Guerra dos Sete Anos torna-se capitão do regimento de cavalaria. Se casa e é recebido em 1764 pelo parlamento de Bourgogne no cargo de lugar-tenente geral das províncias de Bresse, Bugey, Valromey e Gex. Tudo normal, apesar de um pequeno incidente onde é preso por 15 dias, acusado de "extrema libertinagem". Em 1765, enquanto Plutão adentrava Capricórnio, o Marques de Sade começa a chocar a boa sociedade francesa mantendo relacionamentos públicos com atrizes e dançarinas, mas é só em 1768 que estoura o seu primeiro grande escândalo, quando uma mendiga chamada Rose Keller processa o Marquês por maus tratos. Apesar de ser detido por 7 meses em Lyon, Sade começa a organizar grandes festas e bailes em seu castelo na Provance, onde a orgia corre solta. Em 1772, enquanto nasce sua primeira filha depois de dois varões, em Marselha quatro prostitutas processam o Marquês e seu criado Latour por flagelações, sodomia e ingestão forçada de uma grande quantidade de pó de asas de besouros africanos, que se supunha afrodisíaco, conhecido na época como cantárida. É condenado à morte por sodomia mas foge para a Itália. Na cidade de Aix-en Provence, a 12 de setembro, bonecos simbolizando Sade e seu criado foram publicamente executados, na ausência dos verdadeiros réus. Detido em Chambéry, é encarcerado em Miolans, mas volta a fugir. Sua sogra obtém licença do rei para prendê-lo e confiscar seus documentos, mas sem resultado. Em 1774 isola-se em seu castelo em La Coste, mas no ano seguinte volta a organizar suas orgias. Com os riscos de novo escândalo, foge novamente para a Itália, onde fica por um ano. Em 1777 falece sua mãe, madame de Sade, e o Marquês é capturado em Paris e encarcerado em Vincennes, um manicômio, onde irá escrever os 120 dias de Sodoma (Les Cent vingt journées de Sodome), publicado só em 1785.

Marques de Sade foi um escritor, dramaturgo e filósofo que se baseava no materialismo do século das luzes e dos enciclopedistas para falar das suas obsessões pela violência, principalmente sexual, e pelo afrontamento ao catolicismo que dominava sua época. Esse desafio cheio de violência, que conta com um poder e uma sexualidade pervertida contra a estrutura decadente dominante, tem todas as cores de Plutão em Capricórnio. Em Os 120 Dias de Sodoma nobres devassos abusam de crianças raptadas encerrados num castelo de luxo, num clima de crescente violência, com mutilações e assassinatos num verdadeiro mergulho aos infernos, sem nenhuma concessão ao bom-gosto. Esse romance foi produzido durante sua prisão, manuscrito em letras miúdas num rolo feito de papéis colados, e teve sugestões dadas por sua mulher, Renné, que passou parte da vida defendendo o marido nos tribunais e só se separou dele quando o marquês foi libertado da cadeia, num breve intervalo de vida livre pós-Revolução Francesa. Acredito que duas personagens criadas por Sade falam particularmente do que está em jogo durante esse processo de Plutão em Capricórnio: Justine a ingênua defensora do bem, que sempre acaba sendo envolvida em crimes e depravações, termina seus dias fulminada por um raio que a rompe da boca ao ânus quando ia à missa, e Juliette, sua irmã, que encarna o triunfo do mal fazendo uma sucessão de coisas abjetas, como matar uma de suas melhores amigas lançando-a na cratera de um vulcão ou obrigar o próprio Papa a fazer um discurso em defesa do crime para poder tê-la em sua cama. Sade acredita na vitória da ética de Juliette por crer que esse é o mundo “real”, onde chora menos quem pode mais, e se deve vender a alma ao diabo para entrar num jogo pervertido de desejos irrestritos, pois o resto é hipocrisia.

Passados 250 anos, depois da invenção da Psicanálise e de todas as provas que temos da irracionalidade humana, às vésperas do planeta entrar em colapso, Plutão volta a passar por Capricórnio, e com certeza seremos testemunhas de mudanças estruturais importantes. A Razão Humana é um instrumento precioso que pode realmente nos ajudar a construir um lugar mais justo para se viver. Mas é importante que fiquemos atentos ao trabalho necessário em nossas emoções e desejos. Não para reprimi-los, mas para que nosso direito à liberdade e à busca da felicidade não se torne justificativa para nosso sadismo. Acredito que essa pode ser uma oportunidade para encontrarmos nossa verdadeira “vocação”, capricornianamente falando, nos tornando capazes de usar nossos poderes e racionalidade de modo sábio, para o bem de todos e não apenas para fins pessoais. Mas para isso precisamos abrir mão de exercer poder e controle sobre os outros e não sei o quão preparados estamos nesse sentido.

Para encerrar, deixo aqui umas estrófes de Bocage, poeta libertino português que nasceu com Plutão em Capricórnio coroando seu Ascendente e Escorpião no Meio do Céu:

Não lamentes, oh Nise, o teu estado

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta

Um comentário:

Neto disse...

porque ninguem sabe em quantos dias ou meses anos plutão foi consitituido.