quinta-feira, 4 de junho de 2009

Trânsitos de Urano

“Estranhamente, o homem – cujo conhecimento passa, a olhos ingênuos, como a mais velha busca desde Sócrates – não é, sem dúvida, nada mais que uma certa brecha na ordem das coisas, uma configuração, em todo caso, desdenhada pela disposição nova que ele assumiu recentemente no saber. Daí nasceram todas as quimeras dos novos humanismos, todas as facilidades de uma ‘antropologia’ entendida como reflexão geral, meio positiva, meio filosófica, sobre o homem. Contudo, é um reconforto e um profundo apaziguamento pensar que o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos, uma simples dobra de nosso saber, e que desaparecerá desde que houver encontrado uma forma nova.”
Michel Foucault – As Palavras e as Coisas

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), seguindo o pensamento de Schopenhauer e Nietzsche, diz que estamos presos dentro dos nossos pensamentos possíveis, determinados por nossa língua, cultura e época, que estabelecem para nós um sentido de ordem. Nessa ordem criamos nossa identidade e também uma alteridade. Existe, porém, uma zona obscura na ordem estabelecida onde há uma aparente confusão e, quando conseguimos nos libertar o suficiente em vez de se deixar atravessar passivamente, podemos penetrar na região do caos e descobrir novas ordens possíveis. Urano, em seu caminho pelo zodíaco, vai criando brechas na ordem estabelecida para que essa região de caos possa penetrar na nossa existência, criando e liberando novas maneiras de ordenação do mundo.

Durante aproximadamente sete anos Urano irá criar rupturas através de um signo, possibilitando a visão de novas verdades ali simbolizadas. Desde fins de 2003 ele está em Peixes, onde ficará até o início de 2011. Sendo esse o último signo do zodíaco, Urano parece estar exatamente projetando do inconsciente a necessidade de finalizarmos ciclos e nos libertarmos da velha ordem. Uma das características de Urano é seu poder de formar imagens transformadoras a respeito da Humanidade, e vemos que a principal imagem pisciana que está se formando diz respeito a uma sociedade com valores mais sutis e menos individualistas, para que possamos salvar o planeta. Antigos valores religiosos estão perdendo a positividade, e se torna difícil justificar a fala de um Papa que veste Prada e chega à Angola dizendo que a camisinha não previne o vírus da SIDA, ou um bispo que excomunga o médico que faz o aborto para uma criança abusada pelo pai. Também vemos a expansão de escolas como a Life Wings ou a Escola da Ponte, que vê a educação principalmente do ponto de vista ético e espiritual sem a necessidade de uma instituição religiosa que as sustente. Não que essas coisas não existissem antes, mas Urano tem transformado as idéias antes divulgadas por uma elite em uma inspiração de massa. Fala-se muito dos trânsitos de Urano como algo que de repente surge e desestrutura tudo, mas, na verdade, esse planeta faz com que irrompam na superfície os movimentos de libertação que estavam sendo gestados pela própria ordem estabelecida.

Do mesmo modo, enquanto Urano passeia por nosso mapa natal, ele irá mostrar onde precisamos ter coragem para romper com nossas limitações e nos tornarmos mais inteiros e verdadeiros, e isso pode representar ter que enfrentar certo caos até que a nova ordem se estabeleça. Sofremos grandes pressões sociais para nos adaptarmos, nos relacionamentos, no trabalho, na família, na academia, que faz parte do nosso aprendizado para nos tornarmos adultos. Mas quando nos deixamos levar por essa adaptação, nos apegando a uma superfície estável e “esquecemos” a necessidade de verdadeira auto-expressão, - geralmente sustentados por alguma crença do tipo “casamento é assim mesmo”, “homem/mulher é tudo igual”, “preciso desse trabalho”, por exemplo - Urano vai significar aquela espécie de crise que surge como uma explosão, que rompe a superfície aparentemente calma para criar as mudanças necessárias. Quando a mudança uraniana é imposta de fora, geralmente é muito dolorosa e destrutiva, porém, se conseguimos perceber e atender ao seu apelo de expressão e verdade, podemos nos libertar de coisas sem sentido que mantemos em nossas vidas por medo de um caos ilusório. Esse é um dos planetas lentos, e passa alguns anos atuando sobre os pontos de nosso mapa, dando tempo para que aquela sensação de insatisfação possa ser levada a sério e se busque novas respostas antes que se transforme em uma crise destrutiva. Não é preciso acabar com um casamento, rodar a baiana com o chefe ou desistir de um mestrado para se libertar das prisões que construímos para nós mesmos, e sim aprender a questionar as “verdades” que orientam nossa vida.

Os problemas gerados pelos trânsitos de Urano estão diretamente relacionados com as nossas dificuldades em abrirmos mão de nossas crenças e imagens do que é o mundo, do que é a vida e de quem somos nós. Então, o primeiro passo para se aproveitar as visitas desse planeta é a auto-observação para detectar as generalizações simplificadoras – os “sempre”, “nunca”, “todos”, etc. – que impedem a realização de nossos desejos mais profundos e que geralmente estão acompanhados por sentimentos exagerados. O Guia do Pathwork chama esse processo de “cair no abismo da ilusão”, e é ele quem dá essa dica preciosa para entendermos e aceitarmos as transformações uranianas: “o vazio e até mesmo a depressão temporária que sentimos ao liberar uma imagem é a crise resultante de abrir mão de uma falsa crença que parecia tornar nossas vidas compreensíveis. Uma imagem cria uma falsa unidade de crença e experiência que nos dá uma espécie de segurança, porque parece fazer nossas vidas coerentes e nossas experiências familiares. É, porém, um sistema fechado, um circulo vicioso familiar, no qual estamos aprisionados.” Urano nos possibilita romper esse tipo de círculo vicioso, e assim nos tornarmos maiores, mais fortes e, como diria o Dionísio de Nietzsche, mais bonitos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Post ótimo! Gostei demais da sua abordagem - inteligente, pontual. Parabéns!

Elô

Teca Dias disse...

Ui, brigada, Elô...