sábado, 23 de maio de 2009

Passeios de Saturno Pelo Mapa II - Visitas aos Transaturninos

“De repente, num relance, percebemos a imensidão de tudo que está em jogo nas nossas pequenas existências. Nesse mesmo repente, no mesmo relance, as pequenas existências adquirem um sabor de grandeza. E depois ficam pequenas novamente. É isso que é estar entre o nada e a eternidade”
Oscar Quiroga – Entre o Nada e a Eternidade

Para falar do encontro entre os transaturninos e Saturno, precisamos entender um pouco sobre as dimensões do Inconsciente Coletivo. Segundo definição de Jung, esse é um reino que pertence a toda a humanidade de todos os tempos – passados e futuros -, que não pode ser possuído por nenhum indivíduo, ao mesmo tempo em que é expresso e atualizado individualmente. Aqui caminhamos por meio dos Arquétipos, complexos carregados emocionalmente que produzem os sonhos individuais e a cultura coletiva. Toda a astrologia pode ser pensada em termos arquetípicos também. Arquétipos são como nossas características genéticas, pois ninguém é possuidor da totalidade de um fenótipo, como a cor castanha dos olhos, por exemplo, mas o indivíduo X terá uma cor castanha específica dada por uma combinação específica de genitores específicos. Assim também, todos os seres humanos nasceram de uma mulher, mas ninguém é possuidor de uma Mãe Arquetípica. Mesmo assim, temos que lidar psicologicamente com esse arquétipo através daquelas mulheres que representarem esse papel em nossas vidas. Também na astrologia, não existe um pisciano ou um geminiano arquetípico, por exemplo, por mais influência que se tenha de Peixes ou de Gêmeos. Jung entendeu que os Arquétipos buscam a luz da consciência individual, e é nessa interação que criamos a arte, a mitologia e a cultura e também a tecnologia humana. Quando, porém, identificamos nossa consciência individual com um Arquétipo, corremos o risco de nos perder, pois somos possuídos pela força do inconsciente coletivo e agimos através de fanatismos cegos e grande rigidez ideológica, o que pode ser bem destruidor. É através dessa possessão do inconsciente que indivíduos se transformam em uma força coletiva e surgem nossos psicóticos e matadores em série. Porém, quando o Arquétipo é reconhecido e integrado pelo indivíduo de maneira criativa e sem rigidez, apesar do perigo para o ego, é possível ser o portador da força de redenção que existe também no inconsciente. Assim entendemos a força coletiva de um Gandhi ou de um Martin Luther King. Podemos também ver miticamente o fato deles terem sido assassinados, pois Luz e Sombra formam uma unidade no inconsciente coletivo.

Urano, Netuno e Plutão caminham lentamente pelo zodíaco trazendo informações do Inconsciente Coletivo que farão parte da experiência de toda uma geração, a partir do signo em que estão no momento em que se nasce. Os transaturninos transitam naquilo que a psicologia transpessoal moderna chama de Inconsciente Transpessoal, pois pertencem à unidade psíquica do grupo, sua natureza não é inteiramente pessoal. Em termos bem gerais, Urano mostra os anseios de liberdade e de igualdade social, Netuno a busca de redenção e evolução espiritual e Plutão a necessidade de incorporação da sombra de cada geração (no caso de Plutão, às vezes várias), pois Urano fica 7 anos, Netuno 14 anos e Plutão pode chegar a 30 anos em cada signo. Saturno, por sua vez, representa a construção de nossos limites individuais, a fronteira que construímos entre a nossa personalidade e a força coletiva, ou seja, exatamente a identidade que nos possibilita não nos perdermos no Inconsciente Coletivo. Os encontros de Saturno com os planetas coletivos de nosso mapa, por tanto, são momentos importantes no sentido de que Saturno irá testar o quanto estamos conseguindo integrar os anseios coletivos em nossas vidas individuais sem nos perder, pois nos mostra a responsabilidade que temos frente à nossa trajetória pessoal. Urano era pai de Saturno, e tanto Netuno quanto Plutão, seus filhos. Podemos aproveitar os trânsitos de Saturno pelos planetas coletivos exatamente para fazer uma ponte entre nossas vidas e as transformações de consciência coletiva que temos a honra de presenciar, e assim integramos os esforços de todas as gerações para nos tornarmos mais humanos.

Saturno em conjunção, quadratura e oposição ao Urano Natal
Urano traz a idéia de liberdade que nossa geração irá construir. Esse planeta é o “padrinho” da revolução francesa e da constituição americana, onde nos conscientizamos que todo ser humano tem o direito de ir em busca de sua felicidade, independente da classe ou cultura em que se nasceu. Saturno vai contatar nosso Urano verificando o quanto de nossa liberdade é real e igualitária e quanto ela se transformou em uma fuga das responsabilidades individuais. Urano costuma orientar nossa ideologia de vida, mas muitas vezes pode se transformar em crença, por não termos o costume de pensar por nós mesmos, criando generalizações que nos impedem de viver a vida plenamente e justifica as distorções das nossas idéias. Você pode, por exemplo, ser um liberal que vê no capitalismo a melhor maneira da humanidade se desenvolver, mas a partir do momento em que vê os que acreditam em outras maneiras de desenvolvimento humano como um inimigo a ser combatido, vai entrar na rigidez da crença que justifica a destruição daqueles que encontraram outros caminhos de libertação. Quando Saturno entra em confronto com um Urano assim rígido, ele irá criar experiências que comprovam o equívoco desse posicionamento, e não será mais possível acreditar que comunistas comem criancinhas. Ao menos, não todos. A função de Urano é nos conectar com o processo de amadurecimento de nossos ideais humanos, mas se prendemos esse processo a nossas historinhas tristes, vamos acreditar em relacionamentos abertos por medo de intimidade e compromisso, ou pregaremos os bens comuns por não acreditar na possibilidade de ter aquilo que se quer sozinho. Na mitologia, Saturno castra Urano porque seu pai não assumia a responsabilidade que tinha sobre os filhos que gerou. Assim também, Saturno transitando por nosso Urano vai verificar o quão real é nossa liberdade de criação e quanto apenas se usa a liberdade e o livre arbítrio para fugir daquilo que precisa ser elaborado. No início desses trânsitos costumamos nos sentir presos, como se “o mundo” resolvesse que não podemos mais andar livres e despreocupados por aí, ficando muito claro como nos prendemos por aquilo que acreditamos. Mas aos poucos vai ficando mais clara a importância de agirmos à partir de uma coerência interna em relação àquilo que acreditamos e vemos que não é possível ter liberdade se não conseguimos libertar ao outro. Quando Saturno se encontra com Urano é chegado o momento de fazer uma reavaliação consciente das nossas idéias, se você não quiser que o inconsciente crie rupturas para te obrigar a isso. Nem todos conseguem pensar por si mesmos, mas essas são épocas em que é bom tentar.

Saturno em conjunção, quadratura e oposição ao Netuno Natal
Netuno parece estar ligado a um sentimento profundo de grupo, que muitas vezes exige o sacrifício de algumas características da personalidade individual em nome de uma empatia emocional com o todo. Nosso Netuno natal marca um ponto cego de nossa personalidade, onde nunca conseguimos penetrar com muita objetividade e só conseguimos entender através de vagas inspirações e percepções sensíveis. O senhor das águas não destrói e divide como seu avô Urano, mas nos conduz através da resistência passiva e da sensação de impotência, nos mostrando o poder do sacrifício por amor. Os contatos de Saturno com Netuno reforçam nosso potencial de imaginação criativa, pois Saturno irá nos provocar a transformar em algo tangível os mistérios criativos de nossa imaginação. Para quem trabalha com sons e formas artísticas, esses podem ser períodos bem criativos, mas Netuno é tradicionalmente conectado com drogas e artifícios para invocar os poderes inconscientes, e então corremos sempre o risco de invadir o inconsciente de maneira leviana, o que pode provocar problemas. Geralmente nos sentimos atraídos por experiências com o invisível, e com as novas terapias que podemos experimentar hoje em dia, como Freqüência de Brilho, Apometria, Constelação Familiar e toda uma gama de possibilidades quânticas, esses períodos podem ser bem ricos no sentido de descobrir que há mais mistérios entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode imaginar, meu caro Horácio. Estamos vivendo uma época em que os que trilham o caminho espiritual ou artistico não precisam mais ser dominadas por ilusões de grandeza ou megalomanias doentias para encontrar o que está além de nossa percepção visível, e isso pode ajudar muito para entendermos melhor a Netuno.

Saturno em conjunção, quadratura e oposição ao Plutão Natal
Saturno, nos textos medievais, era muitas vezes representado por Satanás, o causador do sofrimento humano. Esse título parece ter sido passado para seu filho Plutão na era moderna, que muitas vezes ganha as cores da “Besta”. De muitas maneiras eles possuem coisas em comum, como processos que implicam doses de sofrimento e uma certa impiedade com as dificuldades que passamos em nossa biografia. No Plutão Natal encontramos um lugar em que temos medo de perder o controle, pois sentimos o poder da destrutividade, e uma tendência à paranóia, já que onde Plutão se instala em nosso mapa temos que viver processos e crises onde nascemos e renascemos para adquirir maior purificação e consciência. Saturno costuma acentuar nossas obsessões no início de suas visita a seu filho no Hades, pois reforça a consciência de que coisas devem morrer para que outras possam nascer, o que não é exatamente algo que fazemos com tranqüilidade, por mais que saibamos isso intelectualmente. Aliás, nossa cabeça não costuma ser nosso melhor aliado nesses momentos. Nos trânsitos de Saturno temos que trabalhar muitas vezes com sentimos de isolamento e medo de não dar conta de nossas responsabilidades, mas quando aceitamos seu desafio de levar aquela área a sério, ele costuma nos ajudar a criar profundidade em nossas vidas, e isso, quando se trata de Plutão, é algo realmente precioso. É importante nesses períodos não cair na tentação de se desesperar com a solidão, pois nesses processos alquímicos muitas vezes vivemos coisas internamente que não temos como compartilhar com os amigos na mesa do bar. O Guia do Pathwork costuma dizer que na dor e no sofrimento somos todos iguais, e o que nos diferencia de verdade é a nossa Luz. Então esse pode ser um bom momento para começar a fazer terapia e encontrar o caminho cheio de labirintos de nossas sombras, aceitando o que deve ser desmontado em nossa personalidade para que novos propósitos de vida possam surgir, e assim tornar nossa Luz mais forte.

2 comentários:

Rita Martins disse...

Gratidão profunda! entrei no seu site "por acaso " e acabei de ler sobre netuno e saturno...foi super esclarecedor. Luz e paz!

Teca Dias disse...

:)