quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Astrologia e Alquimia



"Sempre que os movimentos correlatos de Sol, Lua, planetas e estrelas são usados para trazer a ordem à confusão de nosso mundo cotidiano, existe astrologia”
Dane Rudhyar – Astrologia da Personalidade

Ando estudando Alquimia e parece que tenho material para me divertir por bastante tempo. O principal complicômetro é que a maior parte do material é iconográfico – feita através de imagens – e muitas vezes as descrições são “disfarçadas”, seja por medo de perseguições e proibições, seja para não mostrar os segredos para os não iniciados. De qualquer maneira, está sendo uma incrível viagem e estou entendendo melhor como é esse caminho de encontro com o Inconsciente e a maneira como a linguagem astrológica é usada aqui.

O Inconsciente trabalha e se comunica através dos símbolos, e ele é o nosso caminho para o Ser criativo que somos. Quando conseguimos criar em harmonia com o Inconsciente temos arte, intuições, sincronicidade, e quando brigamos com ele temos a loucura em suas diversas formas. Muitas vezes temos as duas coisas. E não brigar não quer dizer concordar: tem horas em que o Inconsciente vai falar que você é a rainha da cocada preta e é bem importante olhar para os próprios limites e dar uma risadinha de lado sabendo que não é bem assim. Isso também serve para o outro lado, quando a gente escuta que somos o verme do cocô do cavalo do bandido, e que também não é verdade. Essa é a razão dos gregos terem como seu maior pecado a hybris, que podemos traduzir como orgulho, arrogância. Não brigar é saber que o Inconsciente é muito maior que nossa consciência de eu, e assim, você pode criar, através da comunicação com essas manifestações, o Mundo Encantado da Cocada Preta com escritos, músicas, bordados, desenhos, danças e sei lá quantas outras maneiras, em um momento, e depois criar o Reino dos Vermes do Cocô de Cavalo - :$ - com os mesmos (ou outros que você acabou descobrindo) recursos, sem se identificar totalmente com esses mundos mas sabendo que eles fazem parte de você. Como explica Nancy Qualls-Corbett: “Podemos interpretar um mito subjetivamente, incluindo as imagens ou símbolos que o compreendem, a fim de descrever os atributos de uma função psíquica particular dentro de nós mesmos. Podemos perguntar, por exemplo: que parte de mim reflete o padrão de uma deusa ou de um demônio? Nesse sentido, os mitos, como os sonhos oferecem um ‘mapa rodoviário’ descritivo dos domínios inconscientes no caminho de individuação da pessoa, que é o movimento dela em direção à integridade. ” (A Prostituta Sagrada, 2002, pg 71). Para isso que Jung criou a técnica de Imaginação Ativa.

Nós enlouquecemos quando nos identificamos totalmente com o inconsciente porque ele é grande demais para que o ego o suporte, além de não ter valores como certo/errado, justo/injusto, bom/mau que normalmente nos orientam. Por isso são importantes nossas conexões com a realidade mortal limitada, para não se deixar arrastar. Trabalhar com materiais concretos ao se conectar com o Inconsciente pode ser de grande valia também. Era isso que os Magos, Bruxas, Alquimistas, Sacerdotes/isas e Xamãs em geral faziam desde sempre. E ainda fazem. 

Uma maneira bem eficaz do Inconsciente falar de seus Arquétipos (nome que Jung deu para a raiz que cria os símbolos no reino Inconsciente) é através das nossas emoções. Por isso quando o Arquétipo da Rainha da Cocada Preta surge nos sentimos tão grandes e melhores que o resto da Humanidade e quando é o Verme do Cocô quem surge nos sentimos tão abaixo de todos os Seres Viventes. Poder dar um passo atrás e olhar para o que se sente é realmente valioso nesses momentos.

Os estudos do movimento dos astros no céu e a busca por seu significado simbólico aqui na Terra está conectado a uma Ordem percebida através dos Ciclos que a Natureza nos oferece e de como o Humano se insere neles - já que ele não é algo solto ou diferente da Natureza -, assim como nossa consciência se liga ao nosso inconsciente. A Astrologia é uma ponte muito ampla e sólida entre a Consciência e o Inconsciente e por isso é usada por Alquimistas, Cabalistas, e outros especialistas em buscar uma ordenação maior na qual estamos inseridos. Durante tempos imemoriais chamamos a essa Ordem de Deus. Hoje temos muitos nomes para isso porque descobrimos muitas facetas importantes desse imenso Inconsciente, gigantesco como o próprio Universo que mal conseguimos vislumbrar. Aliás, começamos a teorizar a respeito de milhares de Universos paralelos ao nosso, então acredito que podemos multiplicar por muitos milhares o tamanho da nossa ignorância e daquilo que nos é inconsciente.

A Alquimia se diferencia de outros estudos por trabalhar sobre aquilo que se é para chegar ao potencial divino da matéria que já é também: o divino está ali, adormecido para alguns, escondido para outros, não algo que precisa ser introduzido ou buscado em outro lugar, pois o destino do chumbo é virar ouro, desde que trabalhado em harmonia com a substância vital universal que permeia tudo que existe. Em vez de buscar algo fora, no caminho árduo até uma alta montanha ou algum outro mundo espiritual, o alquimista trabalha a matéria para que ela se “conscientize” do ouro que é, assim como no processo de individuação nos conscientizamos de nossa integridade. Por isso o trabalho com a matéria a ser transformada precisa vir junto com a transformação da consciência do próprio alquimista, pois só quem conseguiu encontrar sua harmonia com o universo e alcançou o ouro em si pode fazer essa transformação no mundo. 

A Alquimia Ocidental teve seu momento áureo durante o século XVI, no Renascimento. São dessa época os mestres Agrippa (Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim – 1486/1535) e Paracelso (Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, conhecido como Paracelso - 1493/1541). A principal obra alquímica de Agrippa foi “De Occulta Philosophia”, Da Filosofia Oculta, e de Paracelso “O Sétimo Livro Supremo de Ensinamentos Mágicos”, o que mostra o quanto a Alquimia se integrava com a Magia e as Ciências Ocultas. Longe de ser o contrário de Ciência como hoje, ligado ao reino do fantástico, a Magia era exatamente essa busca por conhecimento da Ordem do Invisível: não só a Química, mas também a Física e a Biologia são filhotes das Ciências Ocultas.

Para se ter uma ideia de como era isso, “O Sétimo Livro (...)” de Paracelso, provavelmente o mais popular livro de Alquimia de todos os tempos (o meu comprei em uma banca de jornal a muitos anos atrás, mas ainda hoje você pode adquirir com facilidade e nas mais diversas línguas), começa falando de dores de cabeça e epilepsia, passando por efemérides planetárias e a vida longa do seu cavalo, para depois falar dos “segredos dos signos zodiacais”, dar receitas para acabar com as moscas e desvendar os tempos propícios para a transformação dos metais. E muuuito mais coisas interessantes e divertidas. Vale a pena adquirir o seu exemplar, caro leitor.

Nessas obras você encontra algumas associações básicas entre Astrologia e transformação Alquímica, e você vai ter que ter paciência para uma listagem de significados, pois aqui encontramos a base de pensamentos da Alquimia através da Astrologia.

Os planetas estavam ligados aos metais, de maneira que conhecer um planeta era conhecer o metal por ele regido e vice-versa:

    O Sol rege o ouro;
    A Lua rege a prata;
    Mercúrio, mercúrio;
    Vênus, o cobre;
    Marte, o ferro;
    Júpiter, estanho;
    Saturno, chumbo.

Isso significa que, não podendo pegar Saturno e manipulá-lo, você pode pegar o chumbo e ficar queimando, congelando, juntando com outros materiais, jogando ácidos e bases para ver como ele é internamente, e assim aprender mais sobre o planeta Saturno que anda em sua esfera no céu e trabalhar o Saturno do seu mapa natal, pois tudo compartilha da mesma natureza. E vice-versa: se você quer trabalhar o chumbo então precisa que Saturno no céu esteja em um bom posicionamento, em relação benéfica com os outros planetas e, dependendo do processo que você pretende fazer com ele, em determinado signo ou em associação benéfica com determinado signo. Depois falarei mais sobre cada um dos planetas e como eram utilizados na Alquimia.

Já os signos são usados para traduzir os processos de transformação alquímica, assim como traduzem os processos de transformação da Natureza através dos movimentos do Sol pelo zodíaco. Os 12 processos alquímicos são a base dos processos químicos modernos. Cada um destes processos é "dominado" ou "regido" por um dos doze signos do Zodíaco Ocidental como mostrado a seguir, com 3 tipos de decomposição, 3 de modificação, 3 de separação e 3 de união (as definições básicas, entre aspas, foram retiradas da Wikipédia, a menos que seja citada outra fonte):

  -  Decomposição através da Calcinação (Aries) – “a calcinação (lat. calx, calcinatio para o processo de se queimar substâncias diversas) é o nome dado a reação química de decomposição térmica, usada para transformar o calcário (CaCO3) em cal virgem (CaO), liberando gás carbônico (CO2) e outras reações análogas, nas quais esta transformação com remoção de gás está envolvida. Também é o nome dado ao processo realizado na fabricação de gesso, ou qualquer processo no qual a água (também chamada de água de cristalização) é removida de sais hidratados (por exemplo "soda calcinada"), bem como na fabricação de porcelana, na qual a água ligada as moléculas é liberada, durante o processo de sinterização. Na prática, o conceito calcinação é empregado de maneira ampla e descreve o tratamento térmico aplicado a quaisquer substâncias sólidas (por exemplo minérios) visando (...) a remoção de uma fase volátil quimicamente ligada a um determinado sólido, a decomposição térmica (de uma ligação química), a produção de um óxido (quimicamente semelhante à cal), a mudança de uma estrutura em substâncias cristalinas. ” 

Creio que é simples conectar esse processo com o signo de Aries, não? Um fogo que decompõe a matéria retirando toda a água e tudo que é volátil! Essa não parece uma descrição muito mais precisa do Fogo Cardinal do que a pequena chispa geralmente associada a esse signo?

    - Decomposição através da Digestão (Leão) -  “quebra dos componentes dos alimentos em moléculas menores, passíveis de absorção e posterior utilização pelo organismo, ou seja, os processos implicados na conversão de alimentos em substâncias adequadas à absorção e à assimilação. A digestão é o conjunto das transformações químicas e físicas que os alimentos orgânicos sofrem ao longo de um sistema digestivo, para se converterem em compostos menores hidrossolúveis e absorvíveis. Ela tem a função de manter o suprimento de água, eletrólitos e nutrientes do organismo, num fluxo contínuo. ”

Leão é exatamente esse Fogo sob controle que fornece o calor necessário para transformar os alimentos naquilo que necessitamos para viver bem transformando aquilo que ingerimos em compostos que supre as necessidades pessoais do meu organismo único. Não é à toa que o Plexo Solar se localiza na região do estômago. 

   - Decomposição através da Fermentação/Putrefacção (Capricórnio) – A Fermentação e a Putrefação são processos feitos por microrganismos sobre compostos orgânicos, mas no primeiro temos um processo controlado e no outro não. É como se a putrefação fosse uma fermentação com oxigênio que resulta na destruição dos tecidos em vez de transformá-lo em algo útil para nós. Fermentação é um processo de “liberação de energia que ocorre sem a participação do oxigênio (processo anaeróbio) que compreende um conjunto de reações enzimaticamente controladas, através das quais uma molécula orgânica é degradada em compostos mais simples, liberando energia. A glicose é uma das substâncias mais empregadas pelos microrganismos como ponto de partida na fermentação. (...). Para algumas bactérias anaeróbias o gás oxigênio pode ser letal, restringindo a ocorrência desses organismos a solos profundos e regiões em que o teor de oxigênio é praticamente zero. A esses organismos damos o nome de anaeróbios estritos. Há, no entanto, outros organismos que são considerados anaeróbios facultativos, uma vez que realizam a fermentação na ausência de oxigênio e a respiração aeróbia na presença desse gás, como é o caso de certos fungos (Saccharomyces cerevisiae - levedura) e de muitas bactérias. ” Como resultado da fermentação temos adubo orgânico, fermento para pão ou cerveja, por exemplo. Já “Putrefação é o quinto estágio da decomposição do corpo de um animal morto. Pode ser visto em termos amplos como a decomposição de proteína em um processo que resulta num eventual colapso da coesão entre os tecidos e a liquefação da maioria dos órgãos. É causada pela decomposição bacteriana que resulta em odores. Em termodinâmicas, todo o tecido biológico é uma loja de energia química, que, quando não seja mantido pela manutenção constante bioquímica do organismo vivo, começa a hidrolisar em aminoácidos quimicamente mais simples como componentes orgânicos. A repartição das proteínas de um corpo em decomposição é um processo espontâneo e a hidrólise de proteínas é acelerada com as bactérias anaeróbias do trato digestivo que são responsáveis por consumir, digerir e excretar as proteínas celulares do corpo. A digestão bacteriana das proteínas da célula enfraquece os tecidos do corpo. Como as proteínas são continuamente discriminadas em componentes menores, as bactérias excretam os gases e os compostos orgânicos, tais como o grupo funcional putrescina e cadaverina, que transportam o odor nocivo de carne podre. ” Aqui temos não só a decomposição dos corpos mortos, mas também o chorume do adubo orgânico, por exemplo, e tudo aquilo que conectamos com “cheiro de morto”. 

Desde muito tempo se associa Saturno, o regente de Capricórnio, com a Morte, assim maiúscula, como aquel@ que traz o limite à vida humana, presente em toda e qualquer tragédia e que se tenta enganar para continuar vivo. Saturno sempre foi o Grande Maléfico por isso. Apesar da fama de Escorpião, é Capricórnio quem nos fala da Vida e Morte dentro dos contornos da Sobrevivência. A mortalidade inevitável é um limite inegável, que coloca em dúvida a nossa participação do divino, que questiona os mais desenvolvidos santos e iluminados: uma das comprovações de que alguém era santo/iluminado sempre foi (e ainda é) a não putrefação do corpo físico. Aliás, muito interessante pensar nessas coisas e nesse processo