domingo, 2 de março de 2014

A Vida Prevista e a Vida Vivida

“Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.”
Antônio Machado


“Caminhante, suas pegadas são
O caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho
E ao se voltar a vista para traz
Vê-se a trilha que nunca
Se irá voltar a pisar.
Caminhante não há caminho
Apenas estrelas no mar.”

Se entendermos como os arquétipos dos astros de nosso mapa se constelaram em nossa vida, podemos seguir adiante e progredi-los para continuar contando nossa história. O que se observa é que as progressões mostram situações de desdobramento desses momentos, e assim conseguimos aprofundar a compreensão daquilo que nos faz ser o que somos. Teoricamente isso pode ser usado como oportunidade de mudança através de maior compreensão, pois se entendemos como nossa consciência se formou e quais padrões de medo e distorção se cristalizaram em nossas vidas, podemos trabalhar para mudar esses padrões e criar outros mais felizes. Bonito isso, né? É bem comum ouvir dizer que o nosso mundo e destino funcionam assim hoje em dia. Mas eu ainda sinto que esse é um ponto espinhoso de reflexão – e por isso tão interessante. Desde o século XVIII, com a invenção do indivíduo para além da unidade biológica, ficou mais complexo pensar sobre o que move o Ser Humano e sobre nossos impulsos de liberdade e de destino, de acaso e necessidade. Mais ainda nessa sociedade globalizada de massa transaturnina em que vivemos. Responsabilidade pessoal x destino pré-determinado: como conciliar o trabalho das Moiras que determinam nosso destino com a epígrafe do Templo de Delfos, “Conhece-te a Ti Mesmo”?

Esse é um tema que vira e mexe reaparece nas minhas conversas internas, e que me ocupou enquanto relia um pequeno e interessante livro que traz uma vida codificada astrologicamente, uma espécie de autobiografia progredida. Trata-se da vida de J.B. Morin de Villefranche, grande astrólogo contemporâneo de Kepler, que viveu entre 1583 e 1656. Professor de Matemática do Collége de France, Villefranche fez uma revisão muito importante das progressões e de várias regras astrológicas de interpretação. Em sua grande obra, Astrologia Gallica, ele muitas vezes utiliza sua biografia para exemplificar as progressões (direções, revolução solar e lunar principalmente) e trânsitos. O astrólogo francês Jean Hièroz colecionou esses exemplos autobiográficos e nos presenteou com Minha Vida Perante os Astros (traduzida no Brasil por Marcia Bernardo, Ed. Espaço do Céu Centro de Astrologia, 2002).

Vamos fazer uns parênteses aqui para dar uma ideia melhor do que estamos falando quando nos referimos às progressões utilizadas por Villefranche. A progressão primária, antigamente chamada de direção, é usada de maneira privilegiada em seu trabalho. Essa progressão transforma o movimento diário de cada astro em movimento anual. Cada planeta tem seu próprio movimento médio anual, levando em conta inclusive seus movimentos diretos e retrógrados. Apenas o Sol e a Lua têm um movimento constante e sempre direto, o que os fazem ser parâmetro para progressões secundárias, como na Revolução Solar (aqui você pode ter uma ideia do que é isso: http://tecadias.blogspot.com.br/2009/09/revolucao-solar-face-rebelde-do-sol.html) e na Lunar (que é uma progressão mensal feita através da Lua em seu ciclo de 28 dias em volta da Terra). Se você quiser investigar as direções no seu mapa – o que recomendo muito -, aqui vai uma lista do movimento médio anual dos planetas progredidos, e aí é só avançar os astros nesses graus para cada ano de vida (lembrando que um signo tem 30°, um grau 60’ e um minuto de grau 60”), ver quem encontra com quem de que jeito, quando muda de casa e de signo, e construir sua própria biografia progredida:

Sol – 1° por dia
Lua – 12º por dia
Mercúrio – 1°23’ por dia
Vênus – 1°12’ por dia
Marte – 0°31’ por dia
Júpiter – 0°5’ por dia
Saturno – 0°2’ por dia

Os Transaturninos são bem lentos, e por isso não faz sentido usá-los nesse tipo de progressão, e para Villefranche eles não eram nem sonhados, mas para sua cultura geral:

Urano – 0°0’42”  por dia
Netuno – 0°0’24” por dia
Plutão – 0°0’01”  por dia

A leitura de “Minha Vida Perante os Astros” é interessante em muitos sentidos, e tentar ler esses relatos autobiográficos e astrológicos com os olhos do século XVII - ou seja, muito antes da penicilina, de Freud e Jung ou da física quântica -, dá muito material para nosso Mercúrio se divertir. Mas ver como Morin de Villefranche trabalha os acontecimentos de sua vida de modo a explicar seus problemas através dos astros não é apenas didático, mas também instigante. Claro que muito das desgraças que lhe acontecem são culpa de Saturno e Marte, os grandes vilões da astrologia tradicional, e ele só não se acaba de vez por conta das saídas criadas por Vênus, Júpiter e a Misericórdia Divina. Mas o grande problema de sua existência e de seu destino é o incrível stellium no signo de Peixes na casa XII: Vênus, Sol, Júpiter, Saturno e Lua! Todo mundo junto naquela que era conhecida como “Casa da Miséria e do Aprisionamento”. Para expressar tanta “piscianisse”, Villefranche conta com um ascendente ariano, que, digamos assim, não é dos signos mais introvertidos que conhecemos, e não irá facilitar muito o processo de introversão necessário para elementos de casa XII. Se você quiser dar uma olhada no mapa todo, seus dados de nascimento são: 23/02/1583 às 8h33min, em Villefranche, Beaujolais, França.

“Minha Vida Perante os Astros” é estruturado de maneira bem didática, com a descrição de um evento na vida de Villefranche, seguida de uma descrição astrológica da progressão e/ou trânsito que “causou” o evento. Apesar de escrito em “astrologuês”, portanto um tanto enfadonho para quem não domina essa linguagem, são muito divertidos os relatos do que esse senhor aprontou em sua vida. Para se entender o que estou falando, aqui vai um exemplo. Primeiro ele cita o fato que irá analisar de sua biografia (os comentários entre parênteses são meus): “No dia 30 de maio (de 1612), dia do grande eclipse do Sol, após uma bebedeira exagerada com dois amigos suíços, meus colegas de Filosofia, e após exercícios físicos bastante violentos em pleno meio-dia, apesar do ardor do Sol, eu fui tomado por uma longa e grave doença. Essas doença se complicou com febre crônica, (...), icterícia e hidropisia, durando mais de 6 meses e foi tão grave que os médicos me condenaram e aconselharam a ir, se possível, morrer na minha região (SIC). Eu fiz esta longa viagem com meus dois amigos suíços que retornaram a sua pátria. O exercício, a mudança de ar e o uso de um generoso vinho branco tiveram por consequência suores noturnos abundantes e muito cansativos, que ao fim de um mês, livraram-me desta doença. No decorrer desta, meus cabelos tornaram-se completamente ruivos e encrespados como os de um etíope. Retornaram em seguida sua cor normal”.

Para fazer uma explicação astrológica do ocorrido, Villefranche utiliza Direções no tema radical (ou seja, ele progride os astros conforme seu movimento dia/ano), a Revolução Solar do seu aniversário daquele ano, a Revolução Lunar do mês em que caiu doente, e ainda faz direções no mapa da Revolução Solar e no da Revolução Lunar! Muito didático realmente, mas tanto detalhamento de responsabilidades astrológicas deixa muito pouco espaço para qualquer responsabilidade pessoal. Aqui um trecho de uma dessas tantas explanações astrológicas para se entender do que estou falando (lembrando novamente que Villefranche só conhece o céu até Saturno): pg 41/42 “(...) esta (enfermidade) deve sua importância ao Sol e à Lua feridos por Saturno. Ela teve por origem uma bebedeira e jogos sob o Sol ardente, por causa do Sol e de Mercúrio, donos da V - casa das voluptuosidades - em ambas as cartas (Revolução Solar e mapa radical), feridos por Saturno, e porque Júpiter, dono da VIII e XII (onde se encontra Sagitário e Peixes) em ambas as cartas se encontrar na V. Ela foi longa por causa de Saturno e bastante perigosa devido à Lua na VII da Revolução Solar com uma estrela fixa violenta (Antares, também chamada Coração do Escorpião) que cai precisamente sobre a cúspide da VIII.”

Vejamos: esse senhor toma o maior porre pela manhã e vai fazer exercícios violentos com sol a pino, seu fígado e seus rins lhe perguntam de maneira bem enfática para onde ele pensa que vai, e o problema é a ferida feita por Saturno. E claro que ele só fez essas coisas todas por conta do Sol e Mercúrio atiçando sua voluptuosidade de casa V. Então tá, né? Não acho que precisaria de tantos detalhamentos astrológicos para aconselhar Villefranche a não fazer esse tipo de coisa senão ele pode ficar doente. E com Saturno conjunção ao Sol e enquadrado com a Lua na Revolução Solar, eu diria que estar atento às limitações seria sábio. Mas falar isso para um pisciano/ariano não é a coisa mais bem recebida do mundo, certo? Em um ano em que sua Revolução Solar tem uma Lua em Sagitário então... Como esperar que esse senhor seja comedido para não ficar doente esse ano? E gente, que médicos do SUS são esses que mandam Villefranche ir morrer em casa, estando ele no sul da França e a casa dele estando na Suíça? Mas interessante mesmo é que a cura de sua enfermidade vem exatamente dos mesmos elementos que a causaram: bebida e exercícios físicos, ou seja, aquilo que começa como imprudência e descomedimento se transformam em expurgo e purificação.

E aí tenho sempre essa dúvida quando tenho que responder às demandas de previsão daqueles que me procuram. A maioria das pessoas que buscam algum tipo de olhar preventivo para o futuro têm em mente a pergunta “qual o melhor caminho?” ou então “qual o caminho correto?”. E uma voz ancestral sempre pergunta dentro de mim: “melhor para quem, cara pálida?”, “correto para quem, caraíba?”.

Sempre que olho para um mapa minha mente se enche de perguntas e não de respostas ou de certezas. A primeira pergunta quase sempre é “quem é essa pessoa, e como ela faz para que esses símbolos se concretizem em sua vida”? Principalmente quando olho o mapa de pessoas muito jovens, essa minha curiosidade básica costuma gerar leituras bem ricas e muito mais interessantes do que aquelas que vendem nos manuais de astrologia. Outro dia uma cliente, que é psicóloga e que entende de astrologia, me dizia que algumas vezes ela olha para um mapa e não consegue ler nada (o que é bem comum no início, não se incomodem quando isso ocorrer), e pensando sobre isso com ela através de pontos do seu mapa, chegamos à conclusão que muitas vezes ficamos tão presos àquilo que sabemos de um jeito, que quando a mesma coisa se apresenta de outra maneira acabamos por rejeitá-la. O que é uma pena, e uma perda importante. Acredito que é por isso que muitas vezes me dizem que não conseguem ler o próprio mapa. Estamos tão presos à nossa auto imagem idealizada, ou às histórias do nosso passado que justificam sermos como somos, que se torna difícil olharmos para nós mesmos com curiosidade, refazendo a pergunta de quem somos nós, qual o significado do que estamos vivendo, e, a melhor de todas pra mim, o que que eu quero mesmo?

Outra coisa que tenho reparado, principalmente quando olho para meu próprio mapa, é que essa curiosidade a respeito de si mesmo faz com que o tal futuro deixe de ser uma ameaça e passe a ser uma aventura. Assim, quando aquilo que você “previu” acontece, ou seja, ganha uma forma reconhecível em sua vida, a sua atenção pode se voltar para aquilo que está sendo revelado de novo em você. Isso significa que, mesmo que o final da história não seja exatamente aquele para o qual você estava torcendo, e haja algum nível de dor e/ou perda, a energia despertada pelo auto conhecimento pode trazer a alegria de mais um passo e a possibilidade de caminhar para um lugar onde essa dor não precise mais ser vivida, onde as coisas possam ser diferentes, pois você abre a possibilidade de reagir de maneira diferente e por isso a história muda. A isso eu chamo de cura.

Bom, e depois de tantos anos vocês já devem estar acostumados com essa coisa d’eu começar a escrever pensando que vou chegar a um lugar específico e quando vejo escrevi um monte e perdi o lugar de chegada. Mas é por isso que gosto tanto de escrever... Ultimamente está sendo bem difícil conseguir ser muito específica pois estou tentando aproveitar esse Netuno em Peixes para entender – mais uma vez – um pouco melhor a física quântica. Depois de ler uma biografia do Einstein escrita por um físico, caiu nas minhas mãos uma coletânea de textos do Neils Bohr que são pura poesia, muitos deles verdadeiros koans que me fazem ficar horas delirando (obrigada Antônio Celso). Um deles tem vindo à minha cabeça em algumas leituras e previsões feitas nos últimos dias, e acho que pode traduzir o que queria falar para vocês sobre previsões aqui:

“O oposto de uma verdade é uma mentira, mas o oposto de uma verdade profunda pode muito bem ser outra verdade profunda”.

A Astrologia e a Vida muitas vezes podem trazer uma verdade profunda que é oposta à verdade profunda que havíamos descoberto antes. E isso é bom. E leiam Villefranche.


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