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domingo, 29 de janeiro de 2017

Mercúrio e Alquimia





“Na verdade, a forma que corresponde ao intelecto do Homem é o começo, o meio e o fim do processo. (...). O ser humano é a forma principal e o maior no opus espagírico”
Gerardus Dorneus (1530 - 1584)


Dizem uns que a palavra "alquimia" vem da expressão árabe al-Khen (de raiz coreana, alkimya), que significa "A Química". Outros acham que está relacionado com o vocábulo grego chymba, que se relaciona com a fundição do elemento químico mercúrio. É, Mercúrio é assim de importante a ponto de ser colocado na denominação da Obra, por isso vamos começar por ele.

A Grande Obra alquímica é o processo de transformar chumbo (em alguns tratados são as fezes que vão ser transformadas) em ouro através dos vários procedimentos mostrados pelos signos. Muitos alquimistas afirmam que isso só seria possível quando se processasse a transformação interna do alquimista, que trabalha em si para evoluir e caminhar em direção ao ouro interno. “Como acima assim abaixo, dentro é fora”, dizia a Tábua Esmeralda, e por isso, trabalhando os elementos materiais se trabalha os elementos internos. Saturno é a representação do Chumbo, e Mercurius é o “brilho claro e argênteo” (Milio) que habita o coração de Saturno e precisa ser libertado para transformar e ser transformado nesse processo.

Tudo começa com o orvalho, utilizado para umedecer ou banhar os elementos mercúrio e enxofre que possibilitam a transformação. O enxofre é o princípio fixo, ativo, masculino, que representa as propriedades de combustão e corrosão dos metais, ligado a Marte. O mercúrio é o princípio volátil, passivo, feminino, inerte. Para a Obra é necessário utilizar tanto nossa natureza ativa quanto a passiva. Ambos, combinados, formam o que os alquimistas descrevem como o "coito do Rei e da Rainha", que vai gerar o novo ser. O sal é o dissolvente universal (também chamado arsénico), e é o meio de ligação entre o mercúrio e o enxofre, associado à energia vital que une corpo e alma. A ação transformadora desses três elementos (sal, mercúrio e enxofre) trazem à tona o espírito de Mercurius para que a matéria pesada se transforme em algo precioso.

O planeta Mercúrio está simbolicamente conectado à esfera mental da nossa psique individual, e no trabalho Alquímico age e acompanha todo o processo. É fácil compreender isso quando lembramos que a Tábua Esmeralda do sábio personagem Hermes Trismegisto (estou saindo do pressuposto que vocês sabem o que é a Tábua Esmeralda e seu “autor”, mas se alguém necessitar de maiores explicações, por favor, me avisem) tem o mental como princípio básico: "O Todo é Mente; o Universo é mental." O universo funcionaria como um grande pensamento divino, onde toda a criação principia como uma ideia da mente divina que continuaria a viver e a ter seu ser na divina consciência. É o mesmo que aparece no Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus”. Jesus Cristo é o Mercurius alquímico que “(...) estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. ” (Evangelho de João, 1, 1 – 3)

Mercúrio é esse paradoxo que cria o mundo e é prisioneiro do mundo criado, e isso fala muito do nosso mental. Nossa espécie, a humana, se diferenciou dos nossos irmãos animais exatamente por essa curiosidade mental, essa capacidade de ir além da experiência concreta e construir abstrações que expliquem nosso mundo externo e interno: humanos, não os pinguins, descobriram que há gelo em Plutão; humanos, e não toupeiras, teorizam sobre os buracos negros. Nossa espécie trata isso como algo que não apenas nos diferencia, mas também nos torna superiores, nos fazendo semelhantes a um Grande Criador dono do mundo: assim como nós criamos cadeiras, alguém deve ter criado à nós e ao mundo. Essa concepção também é uma prisão onde não conseguimos avaliar corretamente o valor daquilo que não se enquadra em uma visão antropomórfica.

Em Gerhard Dorn (c. 1530 – 1584) encontramos que “através do estudo (...) adquire-se conhecimento; através do conhecimento o amor, que cria a devoção; a devoção cria a repetição e fixando-se a repetição cria-se em si mesmo a experiência, a virtude e o poder através dos quais o trabalho miraculoso é realizado; o trabalho na natureza possui essa qualidade” (Marie-Louise von Franz - Alquimia e Imaginação Ativa – pg 43). Essa é uma boa maneira de descrever o método científico utilizado até hoje e também de como adquirimos novos valores, novas visões de mundo, novos saberes e como isso nos modifica e se torna parte de nós.

As Neurociências nos confirmam que é através daquilo que pensamos da vida que nossa vida acontece, que aquilo que cremos ser a realidade se transforma em um filtro de percepção que nos faz viver naquilo que acreditamos. Nesse sentido, aquilo que conhecemos cria o mundo em que vivemos ao mesmo tempo que nos aprisiona nesse “cercado” conhecido.

Mercurius como símbolo do processo de entendimento, de conexão e integração, que liga o masculino ao feminino e permite ao Grande Transformador completar a transmutação das substâncias, tem primeiro que se libertar do aprisionamento que ele mesmo criou no coração de Saturno, com todas as crenças errôneas e limitantes que cristalizaram seu mundo.

Nossa busca primeva então é de como fazer para libertar Mercurius. Nossa matéria pesada e densa deve passar por quatro fases para que aconteça a transformação do chumbo em ouro, e nesse processo Mercúrio vai se libertando e guiando as mudanças. Lembrando que muitas vezes é preciso voltar a fases anteriores para que o processo possa continuar, pois o caminho é espiralado e não uma reta sem fim. C.G.Jung e outros analistas junguianos viram nessas fases o processo psíquico de individuação. Como cada fase está ligado a um astro diferente, quando falar de cada dos planetas vou aprofundando o processo. Aqui vou falar de cada fase tendo em vista a busca pela libertação e evolução de Mercúrio usando como pano de fundo os conceitos junguianos.


A primeira fase é o NIGREDO, palavra associada à cor negra, a Saturno, ao chumbo. Ou à merda. É o pesado, difícil e causa sofrimento. Então o primeiro passo do trabalho alquímico é verificar a merda em que você se meteu e aceitar isso. Jung diz que essa fase corresponde ao encontro com a Sombra, que é a parte da personalidade que foi enterrada por não poder ser aceita e que se transforma em nosso Inimigo. Sabe aquele dom artístico que você tinha quando pequeno, por exemplo, e que desapareceu de tanto você ouvir que arte é coisa de vagabundo (ou o prazer em se arrumar e se exibir que foi considerado superficial e errado, ou o interesse por matemática visto como coisa de cdf idiota, etc. ad infinitum)? Então, esse dom vai para a sombra inconsciente e toda vez que você cruza com um artista você se irrita, acha que ele deveria trabalhar em algo bem burocrático e pouco criativo para ser respeitado, e ai de um filho seu que queira tocar piano. Essa Sombra vai te encher de cobiça, raiva, inveja, melancolia e te convencer a abandonar ações positivas. Quanto mais inconsciente ela for, mais julgamos o mundo como um lugar triste, sem esperança, onde as pessoas não são confiáveis. Uma merda, mesmo.

Essa é uma fase considerada muito perigosa, pois o chumbo ao ser manipulado solta gases venenosos que podem enlouquecer, quando não mata o alquimista. É recomendado que esse trabalho seja feito de maneira protegida e acompanhado de alguém mais experiente. O risco que corremos ao encarar todas as coisas pesadas que fazem parte de nós é a de esquecermos do Mercurius que habita o coração de todo Saturno, deixando que a sombra tome conta de tudo e nos destrua sem que nada novo nasça. Qualquer pessoa que experimentou depressão profunda pode dar testemunho das dificuldades e dos perigos do Nigredo, de como é estar envenenado pelos vapores do chumbo. Enlouquecedor e muitas vezes fatal. Esse é um momento de introversão e também de incubação, onde encaramos nossos limites, fraquezas, frustrações e negatividades para reconhecermos que isso também faz parte de quem somos, e ao nos juntarmos com nossa Sombra realizamos o “coito entre o Rei e a Rainha”. Reconhecemos como sendo nossa responsabilidade cuidar dessa parte que por qualquer motivo mantínhamos escondido em um quarto escuro e fechado do inconsciente. Eva Pierrakos, que canalizava o Guia do Pathwork, dizia que quando o mal é compreendido como fluxo de energia divina momentaneamente distorcido devido às ideias errôneas, a conceitos e imperfeições específicos, ele não é mais rejeitado em usa essência. Com o reconhecimento da Sombra, trazendo-a para a luz, sua força diminui e podemos aprender a não nos deixar dominar por ela ao mesmo tempo que nos tornamos mais inteiros. É Mercurius se revelando no coração de Saturno, que de quebra ainda nos traz os dons que estavam sendo guardados pelo Inimigo.

ALBEDO é o branqueamento da matéria: fase lunar, onde se usa a prata e a água para purificar e clarificar. Entramos na segunda fase, onde as impurezas são filtradas, analisadas, separadas, destiladas, organizadas e algumas até dissolvidas. É uma fase passiva, onde os conteúdos emocionais e inconscientes contaminados que vão aparecendo podem ser analisados e conseguimos separar as emoções das memórias e entender como somos, como nossas vivências foram nos construindo, quais são nossas motivações mais profundas. Mercurius descoberto no coração de Saturno começa um trabalho de destilação que resulta na purificação da matéria pesada, que pode agora ser entendida através principalmente do olhar sobre o próprio universo emocional e inconsciente. É a construção do Cálice Sagrado. Sabe aquela sensação depois de um workshop terapêutico de imersão, ou um fim de semana xamânico, ou uns dias de retiro de silêncio, etc., que você se sente mais leve e um monte de coisas passam a fazer sentido? Isso é Albedo. Mas claro que não é uma fase totalmente isenta de perigos. Lembram-se que é uma fase lunar? Pois então. Aqui, estamos conectados com nossos estados emocionais mais primários, nossos mecanismos de sobrevivência inconscientes, e entre eles temos nosso precioso sentimento de clã. O perigo é começar a pensar que somos alguém iluminado e limpinho, passando a criticar todos que não seguem o mesmo caminho e que não fazem parte da nossa tchurma, caindo no maior pecado para os gregos e que já derrotou muitos heróis: a hibris, o orgulho. Essa é uma fase introspectiva e Mercurius tem que vencer a tentação de se animar demais com suas sacadas brilhantes sobre a própria história e passar a generalizar seu processo para toda a humanidade. Aí você pode começar a acumular rancores, raivas e mal-entendidos e tem que voltar uma casa para encarar mais um pouco de Nigredo. O que não é um grande problema depois de já conhecer o caminho. Essa é uma etapa de compreensão passiva, onde nosso eu mercuriano tem que ligar A com B, encaixando o quebra-cabeças de quem somos e passando pelas emoções que fazem parte da nossa história para deixa-las transparentes. As tentativas de ação aqui, seja entrando em uma análise sem fim achando que vai encontrar as leis universais ou querendo que todo mundo faça igual, ou mesmo querendo continuar por aqui quando essa fase já se esgotou, pode fazer com que seja necessário retornar à fase anterior por conta da putrefação que acaba gerando.

CITRINITAS, a terceira fase, é amarela, do enxofre, do trabalho com Marte. Aqui saímos da fase passiva para a ativa. A imagem que mais aparece nos tratados alquímicos dessa fase é a do Lobo ou do Leão que devora o Sol. Uma receita citrinitas fala de se pegar o Lobo, cortar suas patas e misturá-lo com o Velho Rei (que já não tem forças nem virilidade para fertilizar o reino) em um recipiente bem fechado e cozinhar em fogo lento até eles se misturarem e se transformem no novo rei. Os dois ficam se batendo ali e você tem que continuar firmemente mantendo o recipiente fechado até acontecer a transformação. Assim, temos o casamento de Mercúrio com Marte, que dá ao espírito de Mercurius uma força ígnea capaz de cortar o que prejudica seu desenvolvimento e possibilita nossa psique passar das questões pessoais para as questões mais amplas, que envolvem o mundo e as pessoas que estão além do nosso umbigo. O Velho Rei, em sua senilidade, é aquele que traz as crenças e verdades ultrapassadas, que já não servem se queremos avançar no caminho, ao mesmo tempo que possui a experiência e sabedoria adquirida com o tempo. O Lobo é a forma teriomorfa do ouro alquímico, que não pode morrer mas precisa ser contido para que sua força possa ser utilizada. Mercurius vai ganhar sabedoria e força nesse processo e assim se transformar. O enxofre, enquanto fogo alquímico, transforma o mercúrio feminino, volátil e frio, no “Mercúrio dos Sábios”, um Mercurius livre para explorar para além de si de maneira ativa. Essa fase é chamada de “morte amarela”, pois aquela noção de “eu” que tínhamos tem que morrer para que o novo ser possa nascer e entender o mundo além de si. Ao nos purificarmos nas duas primeiras etapas nos transformamos no “cálice sagrado” capaz de conter a nova vida que nasce da união de Marte com Mercúrio, da transformação do Velho Rei e do Lobo. Mercúrio passa a contar com a intuição e a conexão com o supra consciente para além da sua capacidade cognitiva, pois dizem os alquimistas que o Sol desce até ele para iluminá-lo. Nossa psique aprende, através das batalhas que agora pode enfrentar, a pensar por si mesma em vez de aceitar o que os “outros” (a família, a sociedade, a TV, a igreja, a Veja, etc.) dizem ser a verdade e passa a se basear em suas próprias percepções e experiências, não só externas, mas principalmente internas, aquelas que vêm do contato com o divino dentro de si e que mora em seu coração, representado pelo Sol que desce no recipiente puro que Mercurius se transformou. Aqui temos o ouro mas de uma maneira instável, que ainda precisa ser trabalhado para se fixar. Há uma busca por compartilhamento das experiências e nossa mente é capaz de entender o significado mais profundo de compaixão, o que irá possibilitar a passagem para a quarta e última fase.


O RUBEDO é a fase vermelha, de Vênus, que irá possibilitar que o Sol/ouro se estabilize. É o processo de síntese interna, unindo as forças opostas que atuam dentro da gente e que gera a Pedra Filosofal, aquela que transforma qualquer coisa em ouro. Uma boa imagem que resume essa fase é dada por Zózimo de Panópolis (meados dos anos 300 d.C): “Ele (o divino) aparece junto ao demiurgo, mas é um opositor das esferas planetárias; rompe o círculo das esferas e se inclina para a terra e a água (isto é, está prestes a projetar-se nos elementos). Sua sombra cai sobre a terra, mas sua imagem se reflete na água, incendiando o amor dos elementos. A imagem refletida da beleza divina o embevece de tal modo, que gostaria de habitar dentro dela. No entanto, mal desce, a Physis o envolve em abraço apaixonado. Deste abraço surgem os primeiros sete seres hermafroditas (que são os próprios astros). ” (C.G.Jung – Psicologia e Alquimia – pg 313). 

Na mitologia Afrodite/Vênus e Hermes/Mercúrio se unem e geram o Hermafrodita, que é masculino e feminino ao mesmo tempo. Esse é o coniunctio, a união do Céu e da Terra, do Sol e da Lua, do Deus e da Deusa, do Animus e da Anima, de Logos e Eros, quando o lado masculino e o feminino da alma se integram. Quando os opostos se apaixonam e se entregam um ao outro, algo maior e mais poderoso nasce, “rompendo o círculo das esferas”, pois a matéria (physis) e a divindade passam a ser uma coisa só. "Algo firme nasceu, algo que está além dos altos e baixos da vida, e simultaneamente nasceu algo muito vivificante, que participa do fluxo vital sem inibições ou restrições da consciência", diz Marie- Louise von Franz in Alquimia. “O psicanalista Carl Jung também descreve com poesia esse momento. Para ele, é como estar no pico de uma montanha, acima da tempestade. Vemos as nuvens negras, os relâmpagos e a chuva caindo, mas algo em nós paira acima de tudo e podemos simplesmente observar os elementos em fúria. Talvez esse momento ainda não seja definitivo - é provável que ainda caiamos sob a emoção de um estado negativo. Mas algo em nós já é capaz de dizer que essa cantiga é nossa velha conhecida e, de certa forma, não seremos tão capturados por ela. ” (Edson Cruz http://edsoncruzemquimica.blogspot.com.br/p/pagina-3.html).

Isso é ou não é a Pedra Filosofal, transformando sua vida em ouro?

Uma observação que a maioria dos tratados alquímicos traz é sobre a importância do meditatio e do imaginatio para que o Alquimista consiga lograr seu objetivo. Meditação e imaginação ativa (que Jung diferencia veementemente da mera fantasia) são uma maneira de fazer com que se conheça a própria mente e aos poucos se abra espaço para o Mercurius alquímico e sua transformação. Dos místicos cristãos aos sábios budistas, de xamãs Yanomami a guias espirituais das mais variadas vertentes, todos os que encontraram uma maneira de entrar em contato com a divindade interna, unindo o celeste com o terreno, falam dessa necessidade de trabalho com a mente para direcioná-la ao que há além do “eu”, da nossa pequena identidade, e utilizam para isso a meditação. O estado meditativo da mente possibilita a comunicação com o Eu divino através da imaginação.

Astrologicamente falando, tanto o Mercúrio pessoal, que encontramos no mapa astral (por signo, casa e aspectos), quanto os trânsitos de Mercúrio ao longo do seu ciclo pelo zodíaco, que o faz entrar em contato com os vários pontos de nosso mapa, podem nos mostrar caminhos para essa transformação se estivermos empenhados nessa direção. Esse planeta, sendo o mais próximo do Sol (o representante da divindade), está em sintonia com nossa estrela mais do que qualquer outro. Tenho visto que pessoas com os maiores desafios mercurianos no mapa (coisas como aspecto com Saturno ou com Plutão, ou o famigerado Mercúrio Retrógrado, por exemplo) acabam tendo um refinamento intelectual acima da média e histórias internas de dificuldades com a expressão mental que os levou nessa direção de introspecção e auto superação e lhes trouxe um tesouro afinal.

Um intelecto refinado, porém, não é o suficiente. Não é difícil encontrar pessoas refinadas intelectualmente que continuam com o coração de chumbo e que fogem do processo de Nigredo. Até Citrinitas conseguimos chegar através de esforço consciente e disciplina, porém a entrega à união dos opostos, que põe fim à dualidade em que vivemos, pensamos e construímos nossa identidade, só é possível através de nosso refinamento amoroso. Em Rubedo deixamos de pensar para sermos pensados pela “divindade que habita nossa alma”, como disse Sócrates a Fedro através de Platão quando lhe explica o que é o Amor. Esse é o Amor que precisa ser despertado na última fase. Ou, como diria Santa Teresa D’Ávila:

“Ó vida, que posso eu dar
A meu Deus, que vive em mim,
A não ser perder-te, a fim
De O poder melhor gozar
E não tenho outro querer;
Que morro de não morrer”

“Vida, qué puedo yo darle
A mi Dios, que vivi em mí,
Se no es perderte a ti,
Para mejor en El gozarle?
Quiero muriendo alcanzarle
Pues a El solo es el que quiero,
Que muero porque no muero”

Sim, Mercúrio também pode nos levar até o Amor maior, além de fazer a lista de compras do mercado. 

PS. O filme "A Revolução do Altruísmo" (2015), documentário de Tierry de Lestrade e Sylvie Gilman, traz boas informações para entender Mercurius. A Globosat oferece esse filme free pelo link http://globosatplay.globo.com/globosat/v/5399360/ 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Quem Tem Medo de Mercúrio Retrógrado?

“A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc. 
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.”
Manoel de Barros


Continuo ouvindo histórias de terror quando se fala sobre Mercúrio Retrógrado, por isso vamos tentar olhar para isso de maneira um pouco mais ampla.

Duas coisas me levaram a estar aqui, buscando esse entendimento com vocês: a fala de um astrólogo bem bacana – ou seja, que pensa astrologia parecido comigo, hehe - chamado Tom Kaypacha Lesher (www.newparadigmastrology.com), que a amiga querida Tatiana Schreiner me apresentou, e umas gravuras Etruscas que caíram na minha mão e me encantaram, como essa de abertura da postagem. Etruscos era como os gregos denominavam o povo que habitava em cidades-estado a região que hoje seria a Toscana, entre os rios Arno e Tigre na Itália, em torno de 1200 e 700 a.C.

A maior parte das informações que recebemos dos povos da Antiguidade (período que vai da descoberta da escrita, aproximadamente 4000 a.C, até a queda do Império Romano, cerca de 476 d.C) vieram até nós através dos Gregos, que se transformaram nos relatores oficiais daquilo que “valia a pena ser conhecido”. Por isso sabemos bastante sobre os Egípcios e tão pouco sobre a Gália e a cultura Celta, por exemplo, pois os gregos viviam trocando figurinhas com os Egípcios, mas achavam que os Celtas eram uns bárbaros ignorantes.  Mesmo a astrologia, que tem referencias pré-históricas, chegou até nós através dos filtros gregos elaborados por Ptolomeu (90-167) – que era egípcio de nascimento e vivia  em Alexandria, também no Egito – através do seu incrível Tetrabiblos. Uma das dificuldades que isso nos traz é que muitas coisas que os gregos desqualificavam, são importantes hoje em dia para se compreender o mundo e as pessoas. Sem desonrar toda a importância do pensamento grego para a construção do mundo que conhecemos, uma das dificuldades mais problemáticas que herdamos da cultura greco-romana que nos constitui - em minha opinião - é uma incrível misoginia (do grego miseó = ódio, gyné = mulher). Quando se estuda mitologia greco-romana nos deparamos constantemente com o tema do estupro “necessário” para que mulheres se entreguem a homens e filhos possam ser gerados; as deusas mais louvadas são as que não exercem sua sexualidade – daí a maneira como a castidade feminina foi assimilada pelos cristãos -, além da substituição de elementos femininos, yin, como a força das Águas ou da Morte, por deuses masculinos, mesmo que as práticas cotidianas e iniciáticas ligadas a esses temas sejam exercidas por mulheres. Afrodite/Vênus parece ser a única que conseguiu conservar um pouco da força original, mesmo tendo sido rapidamente casada para mantê-la dentro de uma estrutura social aceitável. É sempre bom nos lembramos de que ela é fruto dos genitais de Urano que fertilizaram o Oceano (ou já podemos dizer a Oceano?). Essa é a razão pela qual eu utilizo a mitologia de outros povos para entender e explicar alguns elementos astrológicos e acredito que isso tem ajudado a ampliar minha compreensão e também a de meus alunos. Muitas vezes é através da leitura de mitos bem distantes dos Greco-romanos que aparece aquela luzinha de compreensão para meu Mercúrio. Então, e Mercúrio retrógrado com tudo isso?

Hermes-Mercúrio é o Macunaíma (o herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade, que se você ainda não conhece vai adorar conhecer) da mitologia grego-romana. Já escrevi sobre o mito e as aventuras mercurianas, então só vou recordar aqui que Mercúrio é um deus amoral sem ser imoral, que ajuda e atrapalha heróis com a mesma desenvoltura, assim como exerce funções femininas e masculinas com o mesmo charme. Da união desse deus dúbio com a poderosa Afrodite-Vênus nasce Hermafrodito, o herói que não precisa definir seu gênero, pois contem os dois. Nas imagens dos Alquimistas Mercúrio algumas vezes aparece vestido de mulher e se casando com Marte-Ares (Enxofre), como nessa aqui de G. van Vreeswyk, alquimista holandês do século 17:



Podemos entender hoje em dia essas características mercurianas que simbolizam o pensamento humano de maneira muito mais científica, através das pesquisas feitas com o nosso cérebro, que mostram como temos realmente dois tipos de raciocínio, um baseado no lado esquerdo e outro no lado direito desse órgão, que funcionam simultaneamente. O lado esquerdo é caracterizado pelo pensamento abstrato, que utiliza uma lógica de causa e efeito, que olha as partes de algo e tenta juntá-las de uma maneira que faça sentido racional em uma esfera de tempo, e assim aprendemos e construímos a comunicação verbal e nosso aprendizado linguístico, a compreensão de regras e estruturas, etc. O hemisfério direito busca a compreensão do todo trabalhando com várias informações ao mesmo tempo e é por onde aprendemos a linguagem não verbal e construímos uma compreensão espacial/corporal. O bom funcionamento do nosso cérebro depende da boa comunicação entre os dois hemisférios, assim como o bom funcionamento da nossa sociedade e da nossa pessoa depende da boa comunicação entre homens e mulheres, entre yang e yin, masculino e feminino. Há quem diga que um lado é mais desenvolvido em homens e o outro mais em mulheres, mas hoje sabemos que nosso cérebro é treinado pela formação que recebemos, então na época que meninos ganhavam bolas e meninas bonecas tínhamos um lado mais treinado em homens e outro lado em mulheres. A carência de um lado significa dificuldades para o outro lado e comunicação exagerada entre os dois lados cria sobrecarga no corpo caloso, o feixe de nervos que liga um hemisfério ao outro, gerando convulsões tipo epiléticas.  Já vi Amor sendo definido dessa maneira: respeito entre duas partes que colaboram com seu melhor... Enfim, especula-se que nosso cérebro processa em torno de 400 bilhões de bits de informação por segundo, sendo que aproveitamos cerca de 2 mil para nossa consciência cotidiana do mundo. Apesar de não se conseguir ainda a confirmação exata desses números, parece que a proporção entre quantidade de informação inconsciente e consciente está correta. Por isso cada vez se tem melhores resultados ao se trabalhar com as ideias de sistemas complexos, fenômenos emergentes, campos mórficos e morfogenéticos, onde observamos e usamos os resultados a partir de processos muito difíceis de captar conscientemente, individualmente.

Pois então. A cada quatro meses mais ou menos Mercúrio parece se movimentar para traz no céu durante uns 20 dias, e chamamos isso de movimento retrógrado. Já falei sobre isso em termos práticos em outra postagem.



No cotidiano nossa mente está muito mais consciente das nossas atividades externas, e aí fazemos a lista de supermercado, xingamos o apressadinho que nos deu uma cortada no trânsito, conferimos o extrato do banco e lemos um texto técnico para o trabalho enquanto planejamos a viagem de férias, as contas a serem pagas, quando vai entrar o dinheiro que vou receber por aquele trabalho, em quantas prestações eu poderia comprar aquela moto, as dúvidas a respeito daquela resposta do chefe ser um elogio ou uma crítica, quando será que vou encontrar  novamente aquele homem interessante que conversei na padaria e onde foi parar o boné preferido do filho.  Os pensamentos são fenômenos emergentes, como qualquer sistema complexo, e Mercúrio, com sua capacidade de caminhar por todos os reinos e encontrar caminhos e atalhos através da Matéria, da Alma e do Espírito representa isso.

Acontece que quando Mercúrio está retrógrado as atividades externas ganham mais informações do que aquelas que precisamos para cumprir nossas tarefas. Aí nos lembramos do gosto do bolo de festa da mãe enquanto falamos com um cliente, surgem milhares de possibilidades mais interessantes do que aquele texto chato que precisamos ler, músicas estranhas que nos remetem a outros tempos surgem na cabeça (principalmente aquela que só lembramos uma frase horrível), sabemos exatamente o que queremos dizer, mas sem encontrar as palavras, lembramos de levar cangaprotetorguardasolcadeirachapeu para a praia e na hora de pagar o sorvete percebemos que esquecemos a carteira em cima da mesa. Isso significa em primeiro lugar que os tempos de Mercúrio retrógrado são para verificar como vai o seu humor e sua capacidade de rir de si mesmo. Tem muita gente que sofre durante os tempos de Mercúrio Retrógrado porque têm uma autoimagem idealizada de pessoa séria e focada, e aí quando vivenciam essas coisas precisam sair da zona de conforto e vivenciar um descontrole bem incômodo. Esses são períodos em que precisamos treinar pedir ajuda, o que também é muito incômodo para a maioria das pessoas, mas que é a melhor estratégia que encontrei: se você tem que assinar algum documento, peça para alguém que você confia dar uma lida antes; se você precisa apresentar algo para seu chefe ou para a escola, treine antes com alguém que sabe do que você está falando e escute as críticas e recomendações. Se der para adiar atividades que precisam de uma linha reta para serem resolvidas, bacana, mas você não vai adiar sua viagem de férias com a família, por exemplo, porque Mercúrio estará aparentemente andando para trás! Vai haver mais riscos de você perder a mala, principalmente se você não queria mesmo passar as férias na casa da sogra mas não conseguiu achar nenhum argumento suficientemente lógicos para mudar os planos para os Lençóis Maranhenses, além do “eu quero tanto”. Muitas vezes a lógica interna é diferente da lógica externa e isso fica evidente nessas épocas. Mercúrio retrógrado deixa em maior evidência a lógica interna, por isso tanta confusão.

Essas razões que a própria razão desconhece são atribuídas normalmente ao feminino, e, aliás, muitas vezes para chamar a mulherada fraca. Ou de louca. Ou de bruxa. Por isso ficamos tão receosos de confiar nessa outra racionalidade. Bom para ouvir música, visitar museu, dançar, ler novela e conversar com o inconsciente. Por que isso tem que ser assim horripilante, feito filme B de terror? Um pouco de cuidado e bom humor pode fazer com que esse seja um tempo bem frutífero. O seu trabalho exige foco mental? Você está em época de provas? Você tem um monte de coisas sérias e importantes para fazer e não tem tempo para fazer essas coisas? Então meditação por 20 minutos, 3 vezes ao dia, pode ajudar você a relaxar. Ou reservar algum tempo do seu dia e/ou da sua semana para fazer essas coisas para que elas não precisem invadir sua vida devidamente controlada. Realmente seria interessante que você começasse a viver esses dias de Mercúrio retrógrado como uma oportunidade de saber como você está com você mesmo, e não como algo que vai atrapalhar sua vida.

E é por isso que as gravuras Etruscas me fizeram pensar na alegria do Mercúrio Retrógrado. Os Romanos arrasaram a maioria das construções etruscas, que parece que eram tão avançadas como a dos próprios romanos, e só sobraram os túmulos. Aquilo que sabemos sobre esse povo vem, então, da relação que eles tinham com a morte, e ali encontramos homens e mulheres unidos e felizes, sexo abundante e muita gente fazendo música e dançando. Uma das funções de Mercúrio é de psicopompo (psyque = alma + pompo = guia), um guia da alma humana através dos caminhos até o reino dos mortos e de volta ao reino dos vivos. Podendo ele caminhar pelas polaridades da vida – céu e terra, nascer e morrer, dia e noite –, existe nesse planeta o potencial de trazer para a consciência uma compreensão muito mais abrangente e profunda do que a que estamos acostumados cotidianamente, quando Mercúrio se encontra retrógrado. Aqui pode estar a solução para o problema insolúvel, a verdade pressentida, a intenção não revelada. Seja no mapa natal ou no trânsito, vale a pena deixar a alma acompanhar Mercúrio em sua jornada, pois pode ser que ele te mostre algo muito melhor do que seu medo permitiria enxergar. 



Obs. Esse texto foi pensado, elaborado e publicado durante o movimento retrógrado de Mercúrio como um desafio para mim mesma. Escolhi um período em que, mesmo retrógrado, ele estaria em trígono com o Mercúrio do meu Mapa Natal, que afinal, né?.. Não foi o texto mais fluido para trabalhar, mas também não foi nada muito diferente do meu normal, e eu não tenho Mercúrio Retrógrado no mapa. Uma coisa bem interessante que aconteceu, foi encontrar muito mais informações não verbais. Eu tive que me controlar para não colocá-las todas aqui. Elas serão bastante úteis para as aulas desse ano...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Mercúrio na Sinastria - ou o que é diálogo

" Instintivamente, (as pessoas) supõem que sua própria constituição psíquica seja generalizada, e que todas as pessoas são essencialmente semelhantes às outras, isto é, a elas próprias... como se a sua própria psique fosse uma espécie de psique-matriz que servisse para todas as situações, e as autorizassem a supor que a sua própria situação fosse a regra geral. As pessoas ficam profundamente espantadas, ou mesmo horrorizadas, quando essa regra geral não se aplica – quando descobrem que outra pessoa é, na verdade, muito diferente delas. De forma geral, não consideram essas diferenças psíquicas, de modo nenhum curiosas e muito menos atraentes, mas, sim, falhas desagradáveis difíceis de tolerar, ou defeitos insuportáveis que devem ser condenados”.
C.G.Jung – Tipos Psicológicos

Aproveitando que o ano de 2011 será um ano mercuriano, vamos falar um pouco de Mercúrio nas sinastrias, na comparação de mapas. Quem sabe podemos aproveitar o ano para despertar a curiosidade e a alegria de encontrar os “diferentes” de nossa vida.

Mercúrio é um ponto importante no nosso mapa natal, apesar de sua rapidez e transitoriedade. Como nossa mente. Madame Blavatsky dizia, na Doutrina Secreta, que “Mercúrio e o Sol são um”, mostrando a unidade entre a essência, representada pelo Sol, e a função que nos permite conhecer e transmitir a essência, Mercúrio. Quando entendemos esse pequeno planeta no nosso mapa, entendemos melhor como funciona nossa mente, o que possibilita tanto aproveitar mais esse recurso valioso quanto aprender o que fazer quando nossa cabeça não para de ficar dando voltas vazias sem chegar a lugar nenhum. O objetivo de Mercúrio não é chegar a algum lugar. Mercúrio serve para recolher informações, buscar novas explicações, enriquecer nossa maneira de observar o mundo, entender aquilo que é diferente de nós e em nós e trocar tudo isso com os outros. Assim sendo, claro que é importante verificar como é o relacionamento mercurial quando a proposta é a nos entendermos com algum tipo de Outro. Muitas vezes conseguimos resolver os conflitos encontrados nos relacionamentos exatamente porque os Mercúrios estão em uma relação harmônica e entendemos a lógica com a qual o Outro funciona. Assim, podemos contornar e mesmo dissolver os nós que aparecem pelo meio da relação e que nos afasta d@ parceir@. Mas é também a terrível mania humana – e parece que todas as culturas de todos os tempos possuem essa característica em algum grau – de acreditar que a minha maneira de ver e entender a mim e ao mundo é a melhor e mais evoluída maneira de se fazer isso, que traz a maioria das Guerras e Discórdias entre pessoas e povos.

Como sempre, voltamos à base dos elementos e modalidades para entender como funciona a dinâmica astrológica. Aos estudantes e diletantes astrológicos sugiro que estudem, entendam e revejam sempre isso. Eu sempre encontro novas maneiras de estudar essa parte. (Falando nisso, vocês assistiram "O Último Mestre do Ar"? Bacana. Uma técnica diferente de arte marcial para cada elemento. E o desenho Avathar também é legal.)

Quando os Mercúrios de duas pessoas estão no mesmo elemento – Fogo, Ar, Água ou Terra – elas irão pensar e buscar informação da mesma maneira. Fogo vai querer informações inspiradas e entenderá as coisas de maneira mais intuitiva que racionalmente. Água vai buscar a lógica emocional que está por baixo da racionalidade aparente, mais obvia, e fazer um julgamento afetivo a respeito. Já Ar buscará a lógica abstrata daquilo que se apresenta, entendendo como uma idéia se combina e encaixa com outra, numa construção que possibilita a generalização dos raciocínios. Terra, por sua vez, entenderá como as idéias funcionam no mundo concreto e prático, baseado principalmente naquilo que seus sentidos físicos dizem. É fácil perceber, então, que se duas pessoas possuem Mercúrio no mesmo elemento, vai ficar mais fácil estar explicando o que se está vivendo e como se entende aquilo que é vivido, tanto no plano pessoal quanto no relacionamento, de uma maneira que o outro possa entender e pensar junto.

É bem interessante perceber como os elementos complementares atuam através de Mercúrio. Quando encontramos alguém com Mercúrio no signo oposto do nosso, essa pessoa provavelmente poderá nos mostrar outro lado do nosso raciocínio, o que é sempre enriquecedor. Claro que quando nos apoiamos demais na nossa maneira de raciocinar e pensar, alguém nos dizer que não conseguimos ver tuuuuuudo, pode ser um golpe no ego, principalmente se estamos muito entusiasmados com alguma idéia particular. E você vai sentir isso como provocação se o seu real objetivo não for um diálogo, mas a imposição da sua idéia a respeito de algo.

Fogo se complementa com Ar, e o Mercúrio em Fogo gosta de criar idéias originais. O Mercúrio em Ar vai pegar a idéia de Fogo e generalizá-la, o que a despersonaliza para colocá-la em um contexto mais coletivo. O Mercúrio em Fogo não vai achar isso divertido, mas pode ampliar seu horizonte, com um pouco de boa vontade. Já o Mercúrio em Ar vai estar envolto com as teorias e ideologias que norteiam o “bom pensar”, e o Mercúrio em Fogo vai pegar aquelas teorias e dar personalidade e ação a essas idéias todas, intuindo caminhos. Isso pode fazer com que toda a harmonia ideal dos raciocínios de Ar se veja desarrumada por tantas cores fortes e movimento, mas entender como esses ideais podem ser aproveitados de maneira mais pessoal traz muitas vantagens para o raciocínio aéreo, indo além da teoria.

Água e Terra também vão criar pensamentos complementares. O Mercúrio em Água vai estar ligado ao subtexto do que vê e conhece para poder entendê-lo, sendo muito comum que a compreensão venha através de imagens e sons. Terra vai pegar todas essas idéias emocionalmente carregadas e buscar uma aplicação prática para isso, de modo a poder utilizá-la para entender melhor a maneira que o mundo funciona. Claro que as imagens muito delirantes e as mensagens de outras dimensões podem se sentir um tanto esvaziadas quando precisam ser colocadas em prática, mas também vai ajudar a perceber o que é apenas brincadeira mercuriana e o que realmente pode ser aprofundado. O pragmatismo de um Mercúrio em Terra muitas vezes pode ser dissolvido quando o Mercúrio em Água capta a raiva, ternura, inveja ou insegurança emocional, por exemplo, que há por baixo de pensamentos e idéias aparentemente tão isentos de emoções e tão “realistas”. Isso ajuda muito o Mercúrio terráqueo a não levar seus pensamentos tão ao pé da letra e também a perceber que as idéias que se apresentam no consciente têm uma ligação direta com o mundo inconsciente. Aliás, essa é uma função bem importante de Mercúrio: trazer e levar mensagens do inconsciente para o consciente e “vice-versa-ao-contrário”.

Se a complementaridade é razoavelmente fácil de detectar e apreciar com um pouco de boa vontade – no mapa astral aparece como oposição, ou signo oposto -, as quadraturas e quincuncios costumam ser bem mais irritantes e frustrantes. Isso acontece em relação a qualquer planeta ou ângulo do mapa, mas com Mercúrio costuma nos fazer entrar em discussões bem difíceis, algumas vezes de modo compulsivo. Eles são reconhecíveis no mapa por uma distância de 90° e 150°. Terra e Água fazem esses tipos de aspectos com Ar e Fogo, e vice-versa. O negócio é mais ou menos assim: você faz uma piada maldosa sobre uma notícia no jornal e o outro começa a falar de política a sério; ou você tenta marcar um cinema e o outro pergunta se você está querendo compromisso; ou você quer falar sobre compromisso e o outro fala do jogo du coríntia no domingo; ou se planeja uma viagem juntos e um quer ir conhecer as maravilhas exóticas da Índia e o outro sonha com a maravilhosa civilidade da água de torneira da Holanda. Acordar no dia seguinte da balada ao lado daquele gostoso que você descobre ter perdido o cérebro ou da frágil Barbie que se levanta sendo professora titular da Sorbonne e falando em aramaico, pode ser um tanto chocante, mas depois acaba se transformando em uma história divertida para compartilhar com amigos – também conhecidos como “aqueles que realmente me entendem”. Mas se a coisa já passou dessa fase, é bom prestar mais atenção no que se escuta e no que se fala com uma relação conflituosa desse tipo entre os Mercúrios. Principalmente se a relação não for romântica, no sentido popular, mas se tratar de um pai/mãe com filho/filha, ou com sócios de negócios ou com algum chefe ou subordinado no trabalho.

Um Mercúrio em Ar privilegia o mundo das idéias em sua compreensão do mundo e de si, e estabelece as diferenças entre “isto” e “aquilo”, pesando uma coisa contra a outra, classificando informações e possibilitando uma avaliação impessoal das coisas e situações. O Mercúrio em Água estará interessado em todo o espectro do mundo do sentimento, desde suas partes mais claras até as profundezas mais escuras, já que no sentimento não há distinções baseadas em princípios “certos” ou “errados”, isto ou aquilo. Em Fogo, Mercúrio se encanta com os infinitos caminhos que a mente pode seguir, e estará sempre construindo sua compreensão exterior a partir daquilo que sua mente experimenta interiormente. Quando em Terra, Mercúrio estará curioso a respeito daquilo que existe no mundo concreto, principalmente sobre aquilo que chega até seu corpo físico desde fora, e costuma também fazer seus raciocínios mais apurados através de fatos que lhe acontecem. Se cairmos em uma discussão para saber qual o raciocínio “melhor” ou mais “evoluído”, tudo irá travar e não chegamos a lugar nenhum. Esse é um antigo e eficiente truque de Mercúrio para perdermos ao outro e a nós também. Quando você entrar em alguma discussão que parece não ter fim, ou em uma mesma conversa que fica se repetindo e repetindo – muitas vezes consigo mesmo – talvez seja bom lembrar que estamos em um sistema comandado por uma estrela de quinta grandeza, na periferia de uma galáxia menor. Não dá para saber tudo. Simplesmente não dá. Muitas vezes, mesmo prestando muita atenção, nós realmente não conseguimos entender o que o outro quer nos comunicar. Se aceitarmos isso, podemos compreender que há momentos em que o outro também não vai entender nada do que estamos falando, mesmo prestando atenção naquilo que dizemos. Esse desconcertante momento de reconhecimento da própria ignorância pode ser o começo de uma verdadeira e mais profunda compreensão, de si, do outro, do mundo, da vida. Muitos amigos músicos que compõem me disseram que a música começa no silêncio. Talvez aqui seja a mesma coisa.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Trânsitos de Mercúrio

“Exu não tinha riqueza, não tinha fazenda, não tinha rio, não tinha profissão, nem artes, nem missão. Exu vagabundeava pelo mundo sem paradeiro. Então um dia, Exu passou a ir à casa de Oxalá. (...) Na casa de Oxalá, Exu se distraía vendo o velho fabricando os seres humanos. Muitos e muitos vinham visitar Oxalá, mas ali ficavam pouco (...). Exu ficou na casa de Oxalá dezesseis anos. Exu prestava muita atenção na modelagem e aprendeu como Oxalá fabricava as mãos, os pés, a boca, os olhos, o pênis dos homens, (...), a vagina das mulheres. Exu não perguntava. Exu observava. Exu prestava atenção. Exu aprendeu tudo.”
Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi

Se você olhar para um esquema do sistema solar, vai ver que Mercúrio parece um satélite do Sol, e no céu está sempre ou no mesmo signo, ou no anterior ou no posterior da nossa estrela. Em seu movimento direto caminha 1°30’ por dia, mas a cada 3 meses ele vai, aparentemente, parar e “andar para trás” - o que chamamos de movimento retrógrado - por cerca de 20 dias. É por isso que, apesar de seu movimento ser mais rápido que do Sol, ele completa seu caminho em torno do zodíaco mais ou menos junto com ele.

O mensageiro dos deuses é rápido demais para que possa ter alguma influência mais profunda em seus passeios pelo zodíaco. Mas, assim como o Sol e a Lua, a observação do seu movimento sobre nosso mapa pode ajudar na compreensão do nosso funcionamento cotidiano e ajuda muito no planejamento do dia-a-dia. A palavra chave para Mercúrio é comunicação, e seu trânsito estará trabalhando nessa dimensão. Quando em Fogo, esse planeta excita a mente a ficar mais extrovertida e direta, deixando as conversas entusiasmadas e acaloradas; quando em Água se conversa mais sobre relacionamento e disposições emocionais; quando em Terra os planejamentos e ambições concretas ganham maior destaque; se em Ar, as especulações e teorias mais abstratas e o encontro social parecem ter maior interesse. De forma bem semelhante à Lua, Mercúrio acaba refletindo as disposições gerais, o que pode ser levado em conta quando se planeja um dia específico. Esse deus é o protetor dos ladrões, do comércio e das encruzilhadas, e prestar atenção nele pode ajudar a entender muitos dos truques que nossa mente nos prega. Assim, por exemplo, se você precisa “discutir a relação” com alguém em um dia que Mercúrio está em signo de Fogo, seria bom que antes fosse à academia malhar bastante ou ao estádio assistir o jogo de futebol do seu time do coração, pois aí pode gastar um pouco dessa energia mais individualista que Mercúrio estará irradiando, evitando discussões inúteis. Do mesmo modo, se, por exemplo, é preciso tomar uma decisão sobre mudança de emprego em um dia que Mercúrio está mergulhado em signo de Água, é bom conversar antes com alguém sobre suas motivações inconscientes e suas necessidades emocionais para ter um pouco mais de clareza a respeito do que se está fazendo. Observando por onde anda esse planeta, você poderá aproveitar sua estada em Terra para analisar e colocar em movimento suas necessidades concretas ou aproveitar os momentos em que ele passeia pelo Ar para se dedicar à parte mais complexa da sua tese de mestrado ou se encontrar com amigos e conseguir novas motivações mentais.

Esse planeta tem muito do Mago do Tarô, e isso quer dizer que ele tem muitos truques. Um momento particularmente importante de se observar isso é quando ele está retrógrado, pois a comunicação se torna confusa, as ordens são mal interpretadas, os planos dão errado, as cartas postas no correio não chegam no destino, se fala sem pensar, somos mal compreendidos e também compreendemos mal os outros, fazendo com que muitos mal-entendidos ocorram por motivos fúteis. Saber quando Mercúrio está retrógrado pode nos ajudar a evitar alguns desses problemas, já que temos consciência de estarmos num momento potencial de mal-entendidos e devemos dedicar mais tempo no planejamento de uma viagem, ler com mais cuidado os contratos, assim como levar em conta a possibilidade de ser inevitável certas confusões na comunicação. É bom contar com atrasos e com ter que refazer alguma coisa nesses períodos. Os movimentos parecem truncados quando Mercúrio está retrogrado, e não vai adiantar tentar fugir do engarrafamento pegando um atalho, pois a rua paralela está mais parada ainda. Então, ligue o rádio, relaxe e tenha paciência.

Outra coisa interessante de observar no movimento mercuriano no céu é quando ele entra em aspecto com algum planeta de nosso mapa natal, pois sua energia comunicante pode nos mostrar como aquele ponto funciona em nós e criar sincronicidades que permitem vislumbrar novas soluções para as tensões internas representadas pelos planetas em conflito no mapa. Lembre-se que Mercúrio é rápido, e os aspectos com os pontos de nosso mapa duram apenas 4 ou 5 dias, então é sempre bom registrar os insights que vêm à mente nesses momentos para não perdê-los.

Observar Mercúrio nos ajuda a perceber os movimentos de nossa mente e como criamos a partir dela. Mercúrio é análogo a Exu, o mais jovem dos Orixás na mitologia dos povos iorubás, mas que é o primeiro a ser saudado. “No princípio era o Verbo“, nos conta São João. A curiosidade, a capacidade de compreender e de comunicar ligadas a esse planeta podem nos ajudar a construir nosso cotidiano de maneira mais consciente. Nossa mente pode não ser a única coisa responsável pelas nossas criações, mas é uma auxiliar muito importante. Aqui vai uma história para ilustrar isso:

“Bem no princípio, durante a criação do universo, Olofim-Olodumare reuniu os sábios do Orum para que o ajudassem no surgimento da vida e no nascimento dos povos sobre a face da Terra. Entretanto, cada um tinha uma idéia diferente para a criação e todos encontravam algum inconveniente nas idéias dos outros, nunca entrando em acordo. (...). Então, quando os sábios e o próprio Olofim já acreditavam que era impossível realizar tal tarefa, Exu veio em auxílio de Olofim-Olodumare. Exu disse que para obter sucesso em tão grandiosa obra era necessário sacrificar cento e um pombos como ebó. Com o sangue dos pombos se purificariam as diversas anormalidades que perturbam a vontade dos bons espíritos. Ao ouvi-lo, Olofim estremeceu, porque a vida dos pombos está muito ligada à sua própria vida. Mesmo assim, pouco depois, sentenciou: ‘Assim seja, pelo bem de meus filhos’. (...) Exu foi guiando Olofim por todos os lugares onde se deveria verter o sangue dos pombos para que tudo fosse purificado e para que seu desejo de criar o mundo assim fosse cumprido. Quando Olofim realizou tudo que pretendia, convocou Exu e lhe disse: ‘Muito me ajudaste e eu bendigo teus atos por toda a eternidade. Sempre será reconhecido, Exu, serás louvado sempre antes do começo de qualquer empreitada’.”
Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi

Esse é um planeta que, em seu caminhar pelo zodíaco, pode nos dar preciosas dicas para entender o que perturba os bons espíritos que nos ajudam a criar nosso mundo.