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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Quiquié Quincúncio


Eu sempre gostei de trabalhar o Quincúncio no Mapa Natal e agora preparando a oficina dos Conflitos Astrológicos as pessoas estão trazendo muitos Quincúncios como fonte de dificuldades na vida, então aqui vai um pouco desse aspecto que rende tantas histórias.

Na geometria astrológica, Quincúncio (ou quincunce ou quincôncio) é um aspecto de 150° entre dois elementos no círculo astrológico, ou seja, 30° antes ou depois da oposição.

Este é um dos chamados aspectos menores na astrologia pitagórica, mas que é muito característico na criação de padrões de personalidade. Na prática, esse é um aspecto que costuma ser acompanhado por bastante compulsão e irritação. Se “o zodíaco é o ciclo harmonioso da Totalidade”, como dizia Dane Rudhyar, o Quincúncio é aquele vizinho que coloca música alta quando você está tentando meditar e acaba com sua disposição harmônica. Mas assim que você desiste da meditação ele desliga a música e aparece na sua porta com pãezinhos de queijo quentinhos que acabou de fazer. Como não odiar e amar ao mesmo tempo esse horrível vizinho querido? Pois o Quincúncio faz isso na nossa vida.

Se pensarmos que o Quincúncio está no meio do caminho entre a oposição (distância de 180°) e o trígono (distância de 120°), podemos entender melhor essa mistura de atração e repulsão ao mesmo tempo. Quando vivenciamos um trígono as coisas fluem, a troca é fácil e os movimentos se apoiam construindo juntos uma ação com sentido. Usando a imagem dos vizinhos, são aqueles vizinhos que quando um faz pão de queijo, outro faz bolo de fubá e alguém ainda aparece com uma garrafa de café pra acompanhar (ou se for aqui no Sul, com a cuia de mate). Em geral a gente nem se dá conta de como isso é harmonioso e bacana, pois facilmente entra na rotina e a gente pensa que todos os vizinhos são assim, e a vida tem esse ritmo. Já a oposição é aquele vizinho que parece ser o seu contrário: um é noturno e outro é diurno, um é recluso e solitário enquanto o outro é social e participativo. Mas um pensa no outro quando gostaria de acordar mais cedo para caminhar ou quando precisaria ficar até mais tarde para aproveitar melhor uma festa, e assim, um sabe que poderia aprender mais com o outro. É bem comum que esses vizinhos se casem, e aí um cuida da parte social noturna e a outra da parte interna diurna. Claro que isso também traz muitos problemas, principalmente quando um quer a participação do outro, seja na caminhada matinal, seja na festa de noite. Aí precisam sentar e ter a tal discussão sobre a relação muitas vezes, até um aprender a desenvolver as qualidades do outro, ao menos em certo grau. Ou não... mas aí é outra história, sem final feliz. Às vezes vira história sem fim.

Uma maneira boa de entender a lógica dos aspectos no mapa é pensando nos signos. Algumas vezes, quando os planetas ou pontos em aspecto estão muito no começo ou no fim do signo, esse modelo precisa ser “adaptado”, mas então você pode fazer esse raciocínio através das casas envolvidas. O que vou fazer aqui é uma brincadeira caricatural, “a la” meme de Facebook (que eu adoro), então, porfavorporfavorporfavor, use essa postagem para pensar a respeito, não para encontrar uma verdade universal. E vamos cantar, pois é Páscoa!

Um trígono de Fogo pode cantar assim:
Áries: Vamos fugir (tiubialow)
Leão: Desse lugar, baby
Sagitário: Tô cansado de esperar, que você me carregue...
E seguem todos Reggaeando pelo tobogã de infinitas possibilidades futuras

Áries faz Quincúncio com Virgem e com Escorpião, então no que Áries canta “vamos fugir”, antes mesmo do tiubialow (give me your love), Virgem pergunta: “fugir pra onde, menin@? Como é que você vai se sustentar? E vai deixar seu cachorro com quem? Ou vai levar o bicho nessa fuga maluca?”. E Escorpião vai dar toda a razão para Virgem e perguntar: “Tá fugindo do que? Não vai adiantar nada, que seus medos seguem com você” E o que era uma música bacana pra cantar no carro vira uma questão. Ou o que era uma viajem pra Jamaica vira um rolê na Praia do Rosa.  Tanto Virgem quanto Escorpião admiram a capacidade ariana de ação e de se arriscar em novas possibilidades, mas também sabem que a ação pela ação simplesmente pode trazer mais problemas que aventuras bacanas. Por mais irritado que Áries fique com esse questionamento, se ele tiver um pouco de discernimento (ou experiencia de vida suficiente), vai poder perceber a importância dessas questões para que ele possa seguir seu caminho em liberdade sem ter que voltar para arrumar as coisas que ele deixou pendente. Bacanamente irritante, não? Mas a Praia do Rosa é maravilhosa.

Leão tá lá em seu lugar, baby, aprendendo a brilhar e transformar sua luz em novas criações, até que aparecem Capricórnio e Peixes pra fazer Quincúncio com ele. Capricórnio vai logo perguntar “o que vamos fazer desse lugar? Tudo muito ensolarado, muito brilhante, mas precisamos fazer planos práticos para utilizar esse espaço de modo a construir algo, que sem estrutura esse lugar não serve para nada.” E Peixes arremata: “você já pensou nos outros seres desse lugar? E todos os outros lugares que sustentam esse lugar? Não seria melhor dissolver essa sua individualidade para que todos pudessem brilhar juntos?” E Leão, tão preocupado em se tornar algo maior e melhor para ocupar com brilho seu lugar vai ficar bem incomodado de ter que se preocupar com essas coisas que não lhe diz respeito. Tanto Peixes quanto Capricórnio em geral admiram a capacidade Ludmilla de Leão chegar e ocupar seu lugar, mas sabem que de nada vale tanto brilho sem a preocupação em construir algo e distribuir com generosidade isso, senão essa busca de autoconhecimento e expressão pessoal se transforma em narcisismo patológico. Essa é a chance preciosa do leonino sair do “ninguém me entende” para o desenvolvimento de seu maior dom, que é a generosidade.

E Sagitário, cansado de esperar que você me carregue, vai ouvir de Câncer: “Tá cansado de me esperar, é? Mas quando é para ter aconchego, receber bem seus amigos, preparar o ambiente pra você dar seu show, aí tudo bem eu fazer tudo com capricho e cuidado, né?” No que Touro complementa: “e pode sentar para esperar, que não vou te carregar mesmo! Se você quiser, que leve seu próprio lençol limpinho e cheiroso, sua própria água potável, seu próprio travesseiro confortável, ou pague o preço para alguém carregar isso para você, e já te aviso que o preço é alto.” Mesmo gostando muito do entusiasmo e fé contagiante sagitariano, Câncer e Touro vão se preocupar com o lugar onde se vai repousar depois da grande viagem e como garantir ao menos um banheiro limpo e um banho quente depois de caminhar na chuva. As necessidades e cuidados tanto de Touro quanto de Câncer ensinam Sagitário a viajar equipado, o que com certeza faz a viagem mais agradável e garante abrigo em roubadas que ele acaba se metendo. O prazer contagiante e otimista sagitariano de ir além do horizonte dá, tanto para a Terra Fixa quanto para a Água Cardinal, coragem para correr mais riscos. Mas tem que ter muita DR interna antes desse crescimento potencial.

Não vou poder postar a música para todos os elementos e ficar brincando com os Quincúncios, sinto. O trabalho detalhado que faço com os mapas da Oficina mais os acontecimentos históricos do país não estão me deixando muito tempo. Mas acho que já dá para vocês terem uma ideia e brincarem por conta própria. Avante, sin perder el humor jamás.  





domingo, 2 de março de 2014

A Vida Prevista e a Vida Vivida

“Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.”
Antônio Machado


“Caminhante, suas pegadas são
O caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho
E ao se voltar a vista para traz
Vê-se a trilha que nunca
Se irá voltar a pisar.
Caminhante não há caminho
Apenas estrelas no mar.”

Se entendermos como os arquétipos dos astros de nosso mapa se constelaram em nossa vida, podemos seguir adiante e progredi-los para continuar contando nossa história. O que se observa é que as progressões mostram situações de desdobramento desses momentos, e assim conseguimos aprofundar a compreensão daquilo que nos faz ser o que somos. Teoricamente isso pode ser usado como oportunidade de mudança através de maior compreensão, pois se entendemos como nossa consciência se formou e quais padrões de medo e distorção se cristalizaram em nossas vidas, podemos trabalhar para mudar esses padrões e criar outros mais felizes. Bonito isso, né? É bem comum ouvir dizer que o nosso mundo e destino funcionam assim hoje em dia. Mas eu ainda sinto que esse é um ponto espinhoso de reflexão – e por isso tão interessante. Desde o século XVIII, com a invenção do indivíduo para além da unidade biológica, ficou mais complexo pensar sobre o que move o Ser Humano e sobre nossos impulsos de liberdade e de destino, de acaso e necessidade. Mais ainda nessa sociedade globalizada de massa transaturnina em que vivemos. Responsabilidade pessoal x destino pré-determinado: como conciliar o trabalho das Moiras que determinam nosso destino com a epígrafe do Templo de Delfos, “Conhece-te a Ti Mesmo”?

Esse é um tema que vira e mexe reaparece nas minhas conversas internas, e que me ocupou enquanto relia um pequeno e interessante livro que traz uma vida codificada astrologicamente, uma espécie de autobiografia progredida. Trata-se da vida de J.B. Morin de Villefranche, grande astrólogo contemporâneo de Kepler, que viveu entre 1583 e 1656. Professor de Matemática do Collége de France, Villefranche fez uma revisão muito importante das progressões e de várias regras astrológicas de interpretação. Em sua grande obra, Astrologia Gallica, ele muitas vezes utiliza sua biografia para exemplificar as progressões (direções, revolução solar e lunar principalmente) e trânsitos. O astrólogo francês Jean Hièroz colecionou esses exemplos autobiográficos e nos presenteou com Minha Vida Perante os Astros (traduzida no Brasil por Marcia Bernardo, Ed. Espaço do Céu Centro de Astrologia, 2002).

Vamos fazer uns parênteses aqui para dar uma ideia melhor do que estamos falando quando nos referimos às progressões utilizadas por Villefranche. A progressão primária, antigamente chamada de direção, é usada de maneira privilegiada em seu trabalho. Essa progressão transforma o movimento diário de cada astro em movimento anual. Cada planeta tem seu próprio movimento médio anual, levando em conta inclusive seus movimentos diretos e retrógrados. Apenas o Sol e a Lua têm um movimento constante e sempre direto, o que os fazem ser parâmetro para progressões secundárias, como na Revolução Solar (aqui você pode ter uma ideia do que é isso: http://tecadias.blogspot.com.br/2009/09/revolucao-solar-face-rebelde-do-sol.html) e na Lunar (que é uma progressão mensal feita através da Lua em seu ciclo de 28 dias em volta da Terra). Se você quiser investigar as direções no seu mapa – o que recomendo muito -, aqui vai uma lista do movimento médio anual dos planetas progredidos, e aí é só avançar os astros nesses graus para cada ano de vida (lembrando que um signo tem 30°, um grau 60’ e um minuto de grau 60”), ver quem encontra com quem de que jeito, quando muda de casa e de signo, e construir sua própria biografia progredida:

Sol – 1° por dia
Lua – 12º por dia
Mercúrio – 1°23’ por dia
Vênus – 1°12’ por dia
Marte – 0°31’ por dia
Júpiter – 0°5’ por dia
Saturno – 0°2’ por dia

Os Transaturninos são bem lentos, e por isso não faz sentido usá-los nesse tipo de progressão, e para Villefranche eles não eram nem sonhados, mas para sua cultura geral:

Urano – 0°0’42”  por dia
Netuno – 0°0’24” por dia
Plutão – 0°0’01”  por dia

A leitura de “Minha Vida Perante os Astros” é interessante em muitos sentidos, e tentar ler esses relatos autobiográficos e astrológicos com os olhos do século XVII - ou seja, muito antes da penicilina, de Freud e Jung ou da física quântica -, dá muito material para nosso Mercúrio se divertir. Mas ver como Morin de Villefranche trabalha os acontecimentos de sua vida de modo a explicar seus problemas através dos astros não é apenas didático, mas também instigante. Claro que muito das desgraças que lhe acontecem são culpa de Saturno e Marte, os grandes vilões da astrologia tradicional, e ele só não se acaba de vez por conta das saídas criadas por Vênus, Júpiter e a Misericórdia Divina. Mas o grande problema de sua existência e de seu destino é o incrível stellium no signo de Peixes na casa XII: Vênus, Sol, Júpiter, Saturno e Lua! Todo mundo junto naquela que era conhecida como “Casa da Miséria e do Aprisionamento”. Para expressar tanta “piscianisse”, Villefranche conta com um ascendente ariano, que, digamos assim, não é dos signos mais introvertidos que conhecemos, e não irá facilitar muito o processo de introversão necessário para elementos de casa XII. Se você quiser dar uma olhada no mapa todo, seus dados de nascimento são: 23/02/1583 às 8h33min, em Villefranche, Beaujolais, França.

“Minha Vida Perante os Astros” é estruturado de maneira bem didática, com a descrição de um evento na vida de Villefranche, seguida de uma descrição astrológica da progressão e/ou trânsito que “causou” o evento. Apesar de escrito em “astrologuês”, portanto um tanto enfadonho para quem não domina essa linguagem, são muito divertidos os relatos do que esse senhor aprontou em sua vida. Para se entender o que estou falando, aqui vai um exemplo. Primeiro ele cita o fato que irá analisar de sua biografia (os comentários entre parênteses são meus): “No dia 30 de maio (de 1612), dia do grande eclipse do Sol, após uma bebedeira exagerada com dois amigos suíços, meus colegas de Filosofia, e após exercícios físicos bastante violentos em pleno meio-dia, apesar do ardor do Sol, eu fui tomado por uma longa e grave doença. Essas doença se complicou com febre crônica, (...), icterícia e hidropisia, durando mais de 6 meses e foi tão grave que os médicos me condenaram e aconselharam a ir, se possível, morrer na minha região (SIC). Eu fiz esta longa viagem com meus dois amigos suíços que retornaram a sua pátria. O exercício, a mudança de ar e o uso de um generoso vinho branco tiveram por consequência suores noturnos abundantes e muito cansativos, que ao fim de um mês, livraram-me desta doença. No decorrer desta, meus cabelos tornaram-se completamente ruivos e encrespados como os de um etíope. Retornaram em seguida sua cor normal”.

Para fazer uma explicação astrológica do ocorrido, Villefranche utiliza Direções no tema radical (ou seja, ele progride os astros conforme seu movimento dia/ano), a Revolução Solar do seu aniversário daquele ano, a Revolução Lunar do mês em que caiu doente, e ainda faz direções no mapa da Revolução Solar e no da Revolução Lunar! Muito didático realmente, mas tanto detalhamento de responsabilidades astrológicas deixa muito pouco espaço para qualquer responsabilidade pessoal. Aqui um trecho de uma dessas tantas explanações astrológicas para se entender do que estou falando (lembrando novamente que Villefranche só conhece o céu até Saturno): pg 41/42 “(...) esta (enfermidade) deve sua importância ao Sol e à Lua feridos por Saturno. Ela teve por origem uma bebedeira e jogos sob o Sol ardente, por causa do Sol e de Mercúrio, donos da V - casa das voluptuosidades - em ambas as cartas (Revolução Solar e mapa radical), feridos por Saturno, e porque Júpiter, dono da VIII e XII (onde se encontra Sagitário e Peixes) em ambas as cartas se encontrar na V. Ela foi longa por causa de Saturno e bastante perigosa devido à Lua na VII da Revolução Solar com uma estrela fixa violenta (Antares, também chamada Coração do Escorpião) que cai precisamente sobre a cúspide da VIII.”

Vejamos: esse senhor toma o maior porre pela manhã e vai fazer exercícios violentos com sol a pino, seu fígado e seus rins lhe perguntam de maneira bem enfática para onde ele pensa que vai, e o problema é a ferida feita por Saturno. E claro que ele só fez essas coisas todas por conta do Sol e Mercúrio atiçando sua voluptuosidade de casa V. Então tá, né? Não acho que precisaria de tantos detalhamentos astrológicos para aconselhar Villefranche a não fazer esse tipo de coisa senão ele pode ficar doente. E com Saturno conjunção ao Sol e enquadrado com a Lua na Revolução Solar, eu diria que estar atento às limitações seria sábio. Mas falar isso para um pisciano/ariano não é a coisa mais bem recebida do mundo, certo? Em um ano em que sua Revolução Solar tem uma Lua em Sagitário então... Como esperar que esse senhor seja comedido para não ficar doente esse ano? E gente, que médicos do SUS são esses que mandam Villefranche ir morrer em casa, estando ele no sul da França e a casa dele estando na Suíça? Mas interessante mesmo é que a cura de sua enfermidade vem exatamente dos mesmos elementos que a causaram: bebida e exercícios físicos, ou seja, aquilo que começa como imprudência e descomedimento se transformam em expurgo e purificação.

E aí tenho sempre essa dúvida quando tenho que responder às demandas de previsão daqueles que me procuram. A maioria das pessoas que buscam algum tipo de olhar preventivo para o futuro têm em mente a pergunta “qual o melhor caminho?” ou então “qual o caminho correto?”. E uma voz ancestral sempre pergunta dentro de mim: “melhor para quem, cara pálida?”, “correto para quem, caraíba?”.

Sempre que olho para um mapa minha mente se enche de perguntas e não de respostas ou de certezas. A primeira pergunta quase sempre é “quem é essa pessoa, e como ela faz para que esses símbolos se concretizem em sua vida”? Principalmente quando olho o mapa de pessoas muito jovens, essa minha curiosidade básica costuma gerar leituras bem ricas e muito mais interessantes do que aquelas que vendem nos manuais de astrologia. Outro dia uma cliente, que é psicóloga e que entende de astrologia, me dizia que algumas vezes ela olha para um mapa e não consegue ler nada (o que é bem comum no início, não se incomodem quando isso ocorrer), e pensando sobre isso com ela através de pontos do seu mapa, chegamos à conclusão que muitas vezes ficamos tão presos àquilo que sabemos de um jeito, que quando a mesma coisa se apresenta de outra maneira acabamos por rejeitá-la. O que é uma pena, e uma perda importante. Acredito que é por isso que muitas vezes me dizem que não conseguem ler o próprio mapa. Estamos tão presos à nossa auto imagem idealizada, ou às histórias do nosso passado que justificam sermos como somos, que se torna difícil olharmos para nós mesmos com curiosidade, refazendo a pergunta de quem somos nós, qual o significado do que estamos vivendo, e, a melhor de todas pra mim, o que que eu quero mesmo?

Outra coisa que tenho reparado, principalmente quando olho para meu próprio mapa, é que essa curiosidade a respeito de si mesmo faz com que o tal futuro deixe de ser uma ameaça e passe a ser uma aventura. Assim, quando aquilo que você “previu” acontece, ou seja, ganha uma forma reconhecível em sua vida, a sua atenção pode se voltar para aquilo que está sendo revelado de novo em você. Isso significa que, mesmo que o final da história não seja exatamente aquele para o qual você estava torcendo, e haja algum nível de dor e/ou perda, a energia despertada pelo auto conhecimento pode trazer a alegria de mais um passo e a possibilidade de caminhar para um lugar onde essa dor não precise mais ser vivida, onde as coisas possam ser diferentes, pois você abre a possibilidade de reagir de maneira diferente e por isso a história muda. A isso eu chamo de cura.

Bom, e depois de tantos anos vocês já devem estar acostumados com essa coisa d’eu começar a escrever pensando que vou chegar a um lugar específico e quando vejo escrevi um monte e perdi o lugar de chegada. Mas é por isso que gosto tanto de escrever... Ultimamente está sendo bem difícil conseguir ser muito específica pois estou tentando aproveitar esse Netuno em Peixes para entender – mais uma vez – um pouco melhor a física quântica. Depois de ler uma biografia do Einstein escrita por um físico, caiu nas minhas mãos uma coletânea de textos do Neils Bohr que são pura poesia, muitos deles verdadeiros koans que me fazem ficar horas delirando (obrigada Antônio Celso). Um deles tem vindo à minha cabeça em algumas leituras e previsões feitas nos últimos dias, e acho que pode traduzir o que queria falar para vocês sobre previsões aqui:

“O oposto de uma verdade é uma mentira, mas o oposto de uma verdade profunda pode muito bem ser outra verdade profunda”.

A Astrologia e a Vida muitas vezes podem trazer uma verdade profunda que é oposta à verdade profunda que havíamos descoberto antes. E isso é bom. E leiam Villefranche.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

PROGRESSÕES I: PREVENDO O PASSADO

"Aquele singular comando
Não o entendo,
Agradeço ao que há de existir
A que devo obedecer, pois
Para que mais sou feito
Concordando ou discordando?”






(“That singular command
I do not understan
Bless what there is for being,
Which has to be obeyed, for
What else am I made for,
Agreeing or disagreeing?”)

Tradução livre de trecho do poema Precious Five de W.H. Auden

Sempre que vou falar de previsões fico com uma sensação de estar comentando a previsão do tempo (que me desculpe a analogia, minha querida Olivia Nunes), com frases do tipo: “no verão há grandes possibilidades de fazer calor e no inverno de fazer frio”. Acho que isso acontece porque se você conhece com um pouco de profundidade as quatro bases da astrologia – signos, planetas, casas e aspectos – as previsões são deduções lógicas que com um pouco de treino e bom senso podem ser feitas sem grandes problemas.

Outra coisa que ajuda nas previsões é tempo de vida, simplesmente porque se você já passou por algum processo será mais fácil entender mais profundamente como ele funciona, o que ajuda e o que atrapalha enquanto se está vivenciando algo. Um exemplo simples: se você tem mais de 30 anos já passou pelo retorno de Saturno, ou seja, já teve a visita desse titã por todas as áreas da sua vida, por todos os pontos e astros do seu mapa, e, portanto vai poder entender como os trânsitos e progressões de Saturno possibilitam realizar coisas com foco, seriedade e estruturação e também o porquê das coisas precisarem ser mais lentas para fazer isso direito. Claro que se poderá trabalhar com previsões e tudo mais de Saturno antes disso, mas depois dessas vivências você entenderá melhor o que significa “obstáculos e dificuldades” – palavras comuns de se encontrar quando se busca algo sobre Saturno – em seus processos. E isso ajuda.

Os Trânsitos são as primeiras formas de previsão que aprendemos e a que mais uso em consultas gerais para saber o que está acontecendo naquele momento específico da consulta. Vemos onde estão os astros agora e como eles estão se relacionando com o mapa da pessoa. Exemplificando com Saturno novamente. Nosso amigo titã está em Escorpião ficará por ali até dezembro de 2014. Se você tem alguma coisa nesse signo ele estará fazendo conjunção com sua(s) face(s) escorpiniana(s), ou seja, você vai precisar olhar com foco e seriedade os mergulhos em suas motivações internas e construir uma estrutura que permita a utilização adulta desse potencial. Saturno também estará agindo sobre aquilo que você tiver em Touro, signo oposto de Escorpião, mas de maneira mais tensa, pois estará fazendo oposição aos seus modos taurinos de viver. A maneira mais comum de vivermos oposições é através de relacionamentos, então se prestarmos atenção naquelas pessoas que parecem nos limitar e criar obstáculos para nossa expressão mais espontânea se entenderá o que está precisando de foco e estruturação para crescer nesse momento. E se temos algo nos outros signos fixos – Leão e Aquário - no mapa natal, Saturno estará trabalhando através de quadraturas com isso, ou seja, estará criando uma tensão interna que obriga a olharmos mais atentamente para esse elemento. Como tenho falado ao longo dos anos em trânsitos e esse é um assunto que sempre me trazem reflexões, vou me limitar a essa geral aqui.

Vamos falar um pouco mais sobre outro método de estar olhando para o futuro e saber se faz frio ou calor, e que pode ser bem útil se você resolver dar uma festa ao ar livre. Vamos entender o que são as Progressões.

As progressões “pensam” o mapa natal como algo que avança no tempo, criando situações astrológicas que mostram vivências através dos anos. Progredir significa avançar, mas não significa mudar aquilo que somos. Elas mostram situações que farão parte de nossa história, mas sem alterar os recursos que temos ou o trabalho de consciência que precisamos fazer dado pelo mapa natal. Mesmo que as progressões possam nos contar histórias sobre nosso futuro, eu as utilizo muitas vezes – muitas mesmo – para ouvir histórias do passado. Geralmente quando vivemos algo marcante na nossa vida temos progressões envolvidas, e fazer a análise simbólica astrológica pode nos ajudar a entender e incorporar o vivido de maneira muito rica, inclusive encontrando chaves que ajudam a mudar padrões que se repetem em nossas vidas e não entendemos o porquê. Essas marcas que vamos acumulando pelo caminho mostram onde criamos as bases de nossas respostas prontas, que tipos de crenças construímos e, portanto entendemos melhor os padrões repetitivos que vivemos e não conseguimos mudar por não entendermos o que são.

O conceito básico das progressões é derivada da máxima atribuída a Hermes Trismegisto, “o que está acima é igual ao que está abaixo”, que se transforma em “um dia acima é igual a um ano abaixo”. Temos três tipos básicos:

- Primárias (também chamadas direção), que podem ser zodiacais, onde se olha para os astros nos signos e seus aspectos, ou mundanas que consideram as posições nas esferas celestes sem considerar o zodíaco. Aqui se utiliza os movimentos reais dos astros que acontecem durante as horas que se seguem ao nascimento;

- Secundárias, que trabalham com o movimento da Terra em torno de seu eixo e um dia em torno do Sol corresponde a um ano, avançando um dia para cada ano e utilizando os movimentos reais nos dias que se seguem ao nascimento, como na Revolução Solar, por exemplo;

- Simbólica ou arco solar, onde se faz a progressão do mapa segundo a progressão do Sol, movimentando todo o conjunto do mapa igualmente pelo zodíaco.

Vamos começar entendendo um pouco mais sobre essa progressão simbólica, e assim você pode olhar o seu mapa e descobrir esses pontos importantes em sua história. Acredito que essa técnica de progressão é a melhor para se treinar o entendimento e a prática com progressões tanto por sua simplicidade quanto pela auto reflexão e auto conhecimento que proporciona. Ela também pode ser trabalhada com arredondamentos, já que trabalha com o simbolismo de uma época de vida e não com a precisão de dia/mês/ano de algo ocorrido. ‘Bora lá:

O Sol se movimenta pelo zodíaco na velocidade de 0°59’08’’ (lembrando: cada signo tem 30°, 1° tem 60’ e 1’ tem 60’’), que arredondamos para 1° por dia. Tomando o movimento solar diário como referência, olhamos para nosso mapa e vemos a quantos graus está cada um dos astros, transformamos esses graus em idades e refletimos sobre o que aconteceu naquela idade. Essa vai ser a idade em que o simbolismo ou arquétipo daquele astro foi condensado. Exemplo: Uma pessoa com a Lua a 12°37’ de Câncer, se parar para olhar o que estava acontecendo em sua vida familiar entre 12 e 13 anos, pode encontrar as vivências que teve e que deram a ela os padrões de família, lar, nutrição, vínculo afetivo e relacionamentos que ela repete ao longo da vida, e que provavelmente irão se renovar, inclusive externamente, a cada 12/13 anos.

É importante estar olhando não só para o astro em si, mas também para a casa em que ele se encontra e os aspectos feitos. Pegando esse nosso exemplo, suponhamos que essa Lua canceriana à 12°37’ está na casa 9: pode ser que o pai fosse militar e a família teve que mudar de cidade nessa época, ou então essa criança pode ter sido enviada para algum tipo de intercâmbio internacional, ou talvez ela tenha feito uma viagem bem marcante nessa idade que a fez cantar com Roberto Carlos “além do horizonte deve ter/algum lugar bonito pra viver em paazz ♪”. Mas vamos deixar essa história mais interessante: digamos que essa pessoa tem um Saturno a 12°50’ de Libra, na casa 12, fazendo uma quadratura (ângulo de 90°) com a Lua. Entre 12 e 13 anos ela teve a condensação da Lua, de Saturno e da quadratura. Isso sim é entrar na puberdade... Enfim, junto com essa experiência de mudança da Lua existe a experiência de isolamento de Saturno e de carência de nutrição dessa quadratura. Vamos continuar a história do pai militar para exemplificar: digamos, então, que aos 12 anos essa criança teve que mudar de cidade por conta do emprego do pai, e foi parar em uma cidadezinha que tem problemas em assimilar pessoas novas, e assim ela acaba sendo isolada na escola e na vizinhança, gerando um sentimento interno de solidão e a crença de ter que fazer muito esforço para ser aceita.

E atenção: esse exemplo é pura ficção. Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais terá sido mera coincidência astrológica. Mas deu pra pegar o espírito da coisa?

Apesar das progressões se prestarem muito bem para truques de salão astrológicos, do tipo “com tantos anos aconteceu isso na sua vida” - o que é bem divertido e deixa os céticos confusos -, um trabalho profundo com as progressões simbólicas podem trazer grandes insights para os processos de autoconhecimento.  Para isso é necessário tempo e auto reflexão. Ter alguém para contar nossas histórias passadas ou escrever a respeito também ajuda muito nosso Mercúrio a construir uma compreensão significativa.

Apesar da resistência que tenho a receita de bolos astrológicos, aqui vai uma listinha de vivências ligadas aos astros para ajudar a memória:

Sol – consciência de si, objetivos de vida, descoberta do que se quer ser, criatividade, e muitas vezes experiências com o pai;
Lua – família, vínculos afetivos, auto idealização, exposição pública, conforto, nutrição, mãe,
Mercúrio – ensino/aprendizagem, comunicação, transporte, colegas de escola, irmãos, vizinhos;
Vênus – relacionamento amoroso, sedução, parcerias, prazer, dinheiro;
Marte – ação, agressividade, desejo e energia pessoal, liderança;

Esses são os astros pessoais e explorar suas progressões simbólicas nos mostra como e onde fomos construindo a noção de quem somos (e muitas vezes de quem “deveríamos” ser...). Isso nos leva à nossa identidade pessoal, e quando entendemos onde construímos crenças errôneas a respeito de nós mesmos que nos trazem dificuldades e/ou uma autoestima equivocada, podemos trabalhar para re-significar essas experiências. Vamos pegar a “vitima-exemplo” com Lua em Câncer enquadrada com Saturno em Libra: após essa época de condensação do seu arquétipo lunar ela vai perceber que quanto mais ela tentar se moldar para se enturmar, mais isolada ela irá se sentir, pois isso vai fazer com que ela se isole dela mesma. E aí vamos imaginar que a mãe leva esse filho ao astrólogo por não saber mais o que fazer com tanta infelicidade (a história é minha então vou puxar a sardinha para o meu lado, rs). E para termos um final feliz, digamos que essa pessoa entenda que precisa fazer um trabalho de introversão e não de extroversão para conseguir nutrir suas carências, e que precisa levar a sério seus vínculos afetivos, e que aquilo que tem para oferecer é precioso demais para que seja apreciado por qualquer um. Assim, ao longo dos anos, aquilo que se sentia como isolamento se transforma em oportunidade para encontrar-se consigo mesmo e os vínculos que foram sendo criados são agora baseados em respeito e responsabilidade, e essa Lua de casa 9 pode ir para qualquer lugar do mundo que ela sempre vai estar conectada e sendo nutrida pelos fortes laços que a liga àqueles que ama. Que lindo!! Não espere um caminho assim linear e iluminado em sua vida, ok? Geralmente os processos de transformação em nossas vidas levam muitos parágrafos para serem contados.

E já que falamos de Saturno, vamos dar uma olhada na dupla Júpiter & Saturno nas progressões.

Generalizar sempre traz armadilhas, mas vamos correr esse risco dizendo que o grau em que encontramos Júpiter e Saturno correspondem às idades em que formamos nossos valores sociais, onde Júpiter nos mostra como aprendemos a nos expandir através do ambiente externo à nossa família e Saturno como somos limitados pelo ambiente social. Isso pode nos ser mostrado através de alguém da família, como um tio que nos presenteia com um monte de exemplares de revistas de viagem e vivenciamos Júpiter, ou através de um avô autoritário que toda vez que visitamos fica nos dizendo como ele chama meninas de calça comprida ou meninos que brincam com meninas, e assim encorporamos Saturno. O aspecto que esses astros fazem com nossos planetas pessoais vai mostrar o como e onde mais detalhado da nossa experiência de condensação desses arquétipos sociais de expansão e limitação, vide nossa história ficcional. Quando Júpiter e Saturno estão em uma relação conflituosa com astros pessoais geralmente lembramo-nos de situações mais difíceis, Júpiter por exagero e Saturno por inadequação e insuficiência, e quando em relações mais harmônicas temos memórias de boas lições aprendidas.

Os transaturninos (Urano, Netuno e Plutão), também generalizando, mostram idades de grandes mudanças, em que o mundo vivido até em tão passa por algo que muda a maneira de encararmos a vida. Como já falei demais (para variar um pouco), vou deixa-los com essa imagem de mudanças para especularem sobre suas vidas.

Por último, uma explicação a respeito das limitações dessa análise progressiva do mapa: quando os astros estão muito no início do signo, isso significa uma condensação em idades muito “tenras”, ou seja, se você tem um Mercúrio a 0°30’ de Leão, por exemplo ficcional novamente, significa que a experiência que construiu esse arquétipo para você foi aos 6 meses de idade, e a menos que se seja um Buda renascido, vai ser bem difícil ter uma lembrança disso. Sempre existe a chance de ser algo que se tornou parte da crônica familiar, tipo seu irmãozinho mais velho querido querendo te enforcar, mas nem sempre a memória da família pode ser acessada assim. Isso também significa que a cada 6 meses esse padrão é retomado, por tanto pode ser algo que você já tenha tão incorporado que nem perceba, ou então algo que se já tem previsto no seu calendário anual, tipo ter uma briga com o tal irmãozinho querido que você encontra quando vai visitar seus pais duas vezes ao ano. 

Outro problema desse estudo é quando o astro está no outro extremo do signo, mais perto do seu final, tipo um Marte a 29° de Áries. Isso não quer dizer que você só irá experimentar seu Marte - ou seja, sua agressividade e capacidade para ação pessoal - aos 29 anos, mas que nessa idade você vivenciou (ou vivenciará) esse Marte de maneira a criar um padrão consciente mais definido. Na literatura a respeito se diz que quando um astro está a mais que 10 graus de um signo, dividimos a idade por 2 para encontrar a vivencia condensadora desse simbolismo: esse Marte a 29° de Aries teria sua experiência matriz entre 14 e 15 anos, então, e se dividimos essa idade por 2 encontramos uma primeira vivencia significativa lá pelos 7 anos. Nunca encontrei nenhuma explicação sobre o porque de se dividir a idade por 2 (e não por 3 ou 5 ou 30), mas como na maioria das vezes tem funcionado, continuamos a usar, certo? A única coisa que me ocorre quando penso no porque disso é que como o máximo que se pode chegar nesse trabalho é uma idade de 30 anos, metade disso dá uma idade suficientemente consciente. Seja como for, a experiência marciana dos 29 anos vai dar mais material para ser trabalhado, e poderá ser usada para re-significar mais conscientemente a experiência dos 14/15 anos e dos 7 anos.

Tem muita coisa que ainda quero falar sobre Progressão Simbólica, mas aqui já tem material suficiente para se passar um tempo examinando o mapa e a memória. Vale a pena pesquisar com família e amigos de infância/adolescência para recuperar essas vivências e também perceber como esse tipo de vivência se repete ao longo da vida. Mas vamos voltar a falar disso.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sua Vida em 12 Casas II

Para entender melhor o tipo de vivencia ligada a cada casa podemos associar a expressão vivida em cada área com as modalidades dos signos. Assim, as casas angulares , ou seja, o Ascendente, o Fundo do Céu (casa IV) -, o Descendente (casa VII) - e Meio do Céu (casa X) serão análogas aos signos Cardeais (Áries, Câncer, Libra e Capricórnio); as casas sucedentes (II, V, VIII, XI) serão análogas aos signos Fixos (Touro, Leão, Escorpião e Aquário); e as casas cadentes (III, VI, IX, XII), análogas aos signos mutáveis (Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes).

As casas angulares são aquelas que ficam após os quatro ângulos do mapa: a primeira casa começa com o ascendente (Asc.), a quarta com o fundo do céu (FC), a sétima com o descendente (Desc.) e a décima como o meio do céu (MC). Como em uma bússola, essas casas funcionam como pontos cardeais, e é através delas que todo o mapa é calculado e desenhado. Os signos cardeais geram e desencadeiam novas energias e, do mesmo modo, as casas angulares nos estimulam para a ação e representam áreas básicas da vida, tendo forte impacto sobre nossa noção de individualidade: identidade pessoal (Asc), o lar e o ambiente familiar (FC), relacionamentos pessoais (Desc.), carreira e projeção social (MC). Os signos que formam essa cruz se enquadram ou se opõem figurativamente uns com os outros, pois essas casas representam quatro esferas da vida que estão potencialmente em conflito umas com as outras. A oposição (separação de 180°) entre Asc e Desc. mostra que alguma condição de identidade e liberdade pessoal tem que ser sacrificada para funcionar num relacionamento, ou seja, mostra o equilíbrio que precisa haver entre nossa própria identidade (Asc) e o quanto precisamos nos ajustar àquilo que os outros necessitam e querem de nós (Desc). A oposição entre FC e MC mostra o conflito entre participar da união familiar e sair de casa para se tornar alguém no mundo. Já as quadraturas (separação de 90°), mostram uma pressão moral e emocional entre as casas. Assim, a quadratura entre Asc e FC mostra que o impulso para a independência e a liberdade pessoal (Asc) é inibida pela pressão do que é seguro e conhecido (FC), muitas vezes representada pela família. Na quadratura entre FC e Desc. vemos que problemas mal resolvidos com os pais ou padrões estabelecidos na família (FC) podem obscurecer nossa habilidade de ver claramente o parceiro ou outras pessoas com quem nos associamos (Desc.). Quando olhamos para a quadratura entre Desc. e MC percebemos que o tempo dedicado ao crescimento de uma parceria e o crescimento da própria carreira podem exercer pressões distintas e criar conflitos internos. A quadratura entre o MC e o Asc mostra que muitas vezes somos classificados somente pelo que fazemos no mundo, deixando de lado outras qualidades que temos, pois aquilo que a sociedade acha válido e aprova e a autodisciplina necessária para desenvolver uma carreira (MC), limita nossa liberdade e espontaneidade pessoal, restringindo o que somos naturalmente inclinados a fazer (Asc).

As forças colocadas em movimento nas casas angulares são concentradas, adornadas e desenvolvidas nas casas sucedentes. Essas casas (II, V, VIII e XI) são associadas aos signos fixos (Touro, Leão, Escorpião e Aquário), que consolidam a energia gerada nos signos cardeais. A casa II adiciona substância à identidade pessoal gerada pelo Asc, definindo nossas posses, recursos, condições e limites pessoais. Na casa V nos afirmamos e reforçamos o sentido de quem somos e de como impressionar os outros a partir da purificação feita no lugar de onde viemos (FC). Na atividade de nos relacionarmos com os outros do Desc., nos aprofundamos em nós mesmos e aumentamos nossos recursos através dos outros na casa VIII. Participando da manutenção e do funcionamento da sociedade no MC, ampliamos o conhecimento de nós mesmos como seres sociais e formamos a base para expandir nosso sentido de identidade através da casa XI, e desse modo englobamos maior e mais livres noções de ser. Aqui também teremos esferas da vida potencialmente conflituosas. Vamos exercitar um pouco os neurônios agora: a casa II mostra o valor explícito das coisas e a casa VIII os valores ocultos: como e porque isso pode entrar em oposição? Na casa V descobrimos o que queremos fazer e na casa XI como ajudamos o grupo a crescer: faço o grupo concordar comigo ou aceito o consenso dele? Na casa II temos nossa necessidade de segurança material e de entrada regular de dinheiro e na casa V nossa necessidade de sermos criativos, de nos divertirmos, de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho: que tipo de situação cria um conflito interno dessas áreas na vida de alguém? Se na casa V compreendemos a necessidade de sermos vistos como pessoas brilhantes, positivas, criativas e especiais, na casa VIII temos necessidade de sermos profundos e de aceitar o lado sombrio de nós mesmos: como as crises associadas à casa VIII podem incomodar o entusiasmo de viver da casa V e vice-versa? Se na casa VIII vivemos fortes emoções e paixões, na casa XI temos a visão de uma sociedade humana maior e melhor, onde temos nossos amigos e nosso grupo de afinidade: quando é que essas duas vivências entram em conflito? E finalmente, quando é que nossas necessidades pessoais concretas e nossas fronteiras individuais reais de casa II contradizem nossos ideais sociais e nossas esperanças de uma sociedade mais justa e equânime?

Enquanto as casas angulares geram energia e as casas sucedentes concentram energia, as casas cadentes (III, IV, IX e XII) distribuem e reorganizam a energia, e por isso são análogas aos signos mutáveis de Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes. Em casas cadentes nos reconsideramos, reajustamos e reorientamos, baseados no que vivemos na casa sucedente anterior. Na casa III aprendemos mais sobre o que somos, comparando e contrastando-nos com aqueles que nos cercam, pois à medida que as capacidades mentais se desenvolvem entramos em um mundo que vai além dos sentidos corporais e das necessidades de sobrevivência da casa II. A casa VI refletirá o bom ou mal uso das criações da casa V através dos cuidados com o próprio corpo e da aplicação dessa criatividade no trabalho prático. As explorações interpessoais e as lutas da casa VIII conduzem às reflexões da casa IX, criando leis mais profundas e nos fazendo conhecer os processos que governam a existência e as regras que nela se emaranham. A amplitude de visão criada para o indivíduo na casa XI é aumentada ao infinito pela casa XII, fazendo com que se perca completamente o significado da vontade pessoal. As estatísticas de Gauquelin sugerem que essas casas são mais importantes na determinação de caráter e de carreira, no mapa pessoal, do que as angulares, como prega a astrologia tradicional. Isso por que as casas cadentes mostram a ânsia de nos ligarmos a algo maior e de dar significado a nossas existências (casas IX e XII) e a ânsia de caracterizar nossa identidade específica (casas III e VI). As cadentes se opõem e enquadram por que mostram visões de vida e métodos diversos de se adquirir e processar informações. A casa III descreve a natureza da mente analítica e concreta, que procura o significado das partes, enquanto a casa IX mostra o processo de pensamento abstrato e intuitivo que olha primeiro para o todo. Como essas duas compressões podem se opor na vida de alguém? Na casa VI somos discriminativos e seletivos, buscando formas para utilizar nossos recursos de modo prático e direcionado para a realidade do dia-a-dia da vida. Na casa XII incluímos tudo que nos cerca, as fronteiras são dissolvidas e transcendemos tudo que é mundano, pois lá estamos cientes das ilusões da vida, e compreendemos que ela é desconhecida e misteriosa em suas bases. De que modo o planejamento da vida da casa VI pode entrar em oposição com a vida que flui pela casa XII? Nas quadraturas dessas casas veremos os conflitos e pressões internas na busca dos diversos conhecimento que precisamos na vida. Na casa III gostamos de saber um pouco de tudo, enquanto na casa VI queremos saber o máximo de algo para poder utilizá-lo com eficiência na prática. Como essas duas buscas podem se atrapalhar? Na prática casa VI, que olha cada coisa em particular para achar seu lugar adequado, buscamos formas indutivas de investigação científica, e na expansiva casa IX buscamos a verdade que aflora da fé, da habilidade que temos de perceber os significados cósmicos das coisas. Quais as maneiras que ciência e religião se pressionam? Tanto na casa IX quanto na XII perdemos os limites que restringem as fronteiras mundanas, abrindo nossos olhos para realidades além do alcance da vista dos pensamentos cotidianos. Mas na casa IX buscamos modelos e princípios básicos que nos façam compreender a vida e a existência, nos fazendo escalar novas alturas, enquanto na casa XII sentimos que há muitas coisas insondáveis e desconhecidas, encontrando inspiração não só nas alturas, mas também nas profundezas, pois percebemos que êxtase e dor, bem aventurança e sofrimento, estão intimamente ligados. De que modo essas inspirações transpessoais podem divergir? Na quadratura entre casa XII e casa III podemos falar das complicações geradas pela mente inconsciente, dominada por aquilo que é desconhecido e invisível, em contraponto com a mente consciente, que percebe aquilo que é imediato e está disponível no ambiente, mostrando que podemos ter uma compreensão gerada por aquilo que vemos e ouvimos (casa III) e outra gerada pelo que sentimos e percebemos (casa XII). Que tipo de brigas internas isso gera?

Outra forma de agruparmos as casas é por sua analogia com os elementos: há três casas de Fogo (Asc, V e IX), três de Terra (II, VI e MC), três de Ar (III, VII e XI) e três de Água (FC, VIII e XII). Elas mostram o desenvolvimento significativo e seqüencial dos princípios de cada elemento ligados a cada grupo de casas. Essas casas geralmente criam trígonos (distância de 120°), mostrando que as casas angulares trazem a natureza de um elemento a tona e o personifica, a casa sucedente diferencia e define esse princípio, e a casa cadente organiza, universaliza e dá expressão ao princípio.

As casa de Fogo mostrarão as ânsias de querer ser e de se exprimir num mundo externo, e são chamadas casas da Identidade. O Asc, enquanto casa angular, mostra o movimento inicial de sermos uma pessoa separada e distinta, e desenvolvê-la significa se vitalizar e vivificar. A segunda casa de Fogo é a sucedente casa V, onde a energia gerada para se ser uma pessoa única é focalizada, fixada e direcionada: reforçamos o senso de identidade dado pelo ascendente, criando soluções e interesses que nos façam sentir mais vivos e estampando nossa individualidade naquilo que fazemos e criamos. A casa cadente de Fogo (IX) reajusta e reorienta a maneira como focalizamos nossa energia de ser, de modo que nosso senso de identidade possa se expandir em um contexto mais amplo, e assim incorporamos nossas criações pessoais às leis que orientam toda a vida.

Nas casa de Terra teremos o plano da existência material, onde o espírito de Fogo se incorpora a formas concretas, sendo chamadas de casas da Produtividade. A casa II é a sucedente de Terra, mostrando a matéria em busca de segurança e estabilidade através dos próprios recursos e de um corpo concreto. Podemos dizer que aqui entendemos como lidamos com o nosso capital pessoal. Na casa VI temos a área cadente desse elemento, onde o princípio da matéria é reajustado e reorganizado de modo a aprimorar e aperfeiçoar nossas habilidades pessoais. Essa casa nos fala da saúde e do trabalho, já que o corpo físico necessita de atenção para funcionar de modo eficiente (quando adoecemos podemos observar as tentativas do corpo se reajustar), e é no trabalho que transformamos nossos capitais e recursos físicos na produção de força de trabalho - como diria o taurino Carl Marx. A última casa de Terra é o MC, uma casa angular, onde há a necessidade de gerar matéria, de produzir algo concreto no mundo material, por isso podemos dizer que essa casa representa as forças que ativamente organizam e supervisionam o capital e o trabalho, mostrando o capitalista de nós mesmos que todos temos. Por isso o MC está associado à carreira, ambição e a forma como queremos ser vistos pelo mundo, pois mostra como estruturamos e direcionamos propositadamente nossos recursos e habilidades para resultados concretos e definitivos.

Nas casas de Ar teremos a triplicidade do relacionamento humano, mostrando nossa capacidade de destacar e comparar as idéias pessoais e ver as coisas objetivamente à distância e em perspectiva. Essas são as casas relacionais e de interações. Começamos esse trígono com a casa cadente (III), onde o movimento e o desenvolvimento intelectual nos capacita a reajustar e redefinir nossa posição pessoal de modo a compreender o que nos cerca. A mente e a perspectiva de vida pessoal da casa III encontra a mente e perspectiva do Outro na angular casa VII e cria um relacionamento gerador de energia, sendo que os fracassos e sucessos dos relacionamentos pessoais irão influenciar enormemente o modo como nos entendemos e como compreendemos o mundo que nos cerca. Na casa XI teremos a forma, a estabilização e o reforço de nosso ponto de vista olhando para os outros que compartilham de nossas idéias, pois será a aqui que as mentes se encontrarão para que os relacionamentos sejam ampliados e aplicados à sociedade mais geral de modo a atingirem o maior número possível de pessoas, terminando esse triângulo com uma casa sucedente.

Já as casas de água são conhecidas como triângulo da alma, ou berço da identidade, onde vemos as razões sentimentais e as emoções criadas abaixo da superfície. A primeira das casas de Água é o angular FC, que descreve o ambiente e as influências familiares que geram nossa identidade e nossos condicionamentos afetivos e sentimentais de infância. Na casa VIII encontraremos o ambiente sucedente de Água, onde nosso sentimentos diferenciados e reconhecidos na casa angular fluem para dentro de outra pessoa e vice-versa, concentrando nossa energia emocional de modo a explorar os pontos obscuros de nossa alma. Na casa XII nossas energias emocionais são transformadas, diluídas e ampliadas de modo a progredirmos da união com uns poucos selecionados na casa VIII para um sentimento de unidade com toda a vida, de modo que, através da casa cadente de Água, tomamos conhecimento do coletivo do qual todos nós emergimos e que compartilhamos com tudo e com todos. Resumindo, no FC sentimos nossa própria alegria e dor, na casa VIII a alegria e dor do outro, e na XII sentimos a alegria e a dor do mundo.

É isso. Agora podemos voltar a falar dos Trânsitos á partir da próxima semana. Até lá.