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domingo, 20 de maio de 2018

Urano Saindo de Áries


Cuidemos do nosso coração porque é de lá que sai o que é bom e ruim, o que constrói e destrói.

Papa Francisco







Esse post foi todo reescrito graças a minha amiga Vânia Camargo, que leu e não entendeu nada. Ela ainda me mostrou ponto a ponto o que estava obscuro, e sou muito grata a ela por esse cuidado. Então, vamos lá. 


Quando um astro transpessoal muda de signo, costumo olhar para as notícias mundiais para ver o que está acontecendo que pode se conectar simbolicamente a essa mudança. Dia 15 de maio de 2018 Urano começou sua jornada de quase 8 anos pelo signo de Touro, um dia depois do início dos conflitos onde 116 palestinos morreram e 2.700 ficaram feridos (últimos números obtidos antes dessa postagem) pelo exército israelense na Faixa de Gaza durante protestos pacíficos contra a transferência da Embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém. Nessa noite tivemos também uma Lua Nova no finalzinho desse signo, e a Lua Nova sempre traz as sementes de um novo ciclo. Em novembro ele volta para Áries para os retoques finais e em 2019 vai definitivamente para Touro. Aqui vou refletir um pouco sobre os últimos 8 anos, quando Urano caminhou por Áries, para depois pensar sobre os caminhos taurinos desse Transaturnino.

Urano em Áries trouxe um estranhamento social quase instintivo, criando verdadeiros vingadores. Apesar de só ter adentrado o signo de Áries no início de 2011, os primeiros sinais dados por esse posicionamento foi a Primavera Árabe, onda revolucionária de manifestações e protestos que ocorreram no Oriente Médio e no Norte da África a partir de 18 de dezembro de 2010, precedido de um eclipse em Escorpião em novembro. Se iniciou na Tunísia e no Egito, depois começaram as guerras civis na Líbia e na Síria, além dos grandes protestos na Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã e Iémen e protestos menores no Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental. Um bom filme para entender como foi essa onda é The Square (A Praça) da diretora Jehane Noujaim, de 2013, que retrata os 2 anos de protestos no Egito. Resistência civil, greves, manifestações, passeatas, comícios, e o uso das mídias sociais para organizar, comunicar e sensibilizar a população e a comunidade internacional, em contrapartida às tentativas de repressão e censura na Internet pelo Estado, foram usados. A violência do Estado foi brutal e as grandes potencias se aproveitaram para criar mais caos e incentivar a violência nessa zona amaldiçoada pelo petróleo. O resultado foi muito frustrante para a população que reivindicava mudanças, quando não se transformou em genocídio. Urano traz essa ânsia de mudanças que leva as pessoas para a rua, mas Áries, enquanto Fogo Cardinal, tem a força do movimento, não da construção de algo novo. No Brasil pudemos viver um paralelo disso, quando as passeatas e manifestações iniciadas em 2013 pelo “Passe Livre” resultaram no golpe de 2016. Assim como a primavera árabe juntou fundamentalistas religiosos, democratas, comunistas, liberais e monarquistas, a movimentação aqui também começa com a necessidade de ir pra rua tentar mudar algo que incomoda na grande estrutura sem muita consciência do que estava acontecendo. Vendo uma entrevista da filósofa Marilena Chauí, ela conta que foi pra rua na passeata do Passe Livre em São Paulo e saiu perguntando o que as pessoas estavam fazendo lá, e descobriu que muitas pessoas estavam lá porque haviam brigado com o namorado, porque os amigos chamaram, porque não queriam voltar pra casa, e outras razões bem pessoais que nada tinham a ver com o protesto. Urano, como movimento coletivo, em Áries, o Guerreiro do Zodíaco, traz essa ânsia de ir pra rua, mas o resultado não é uma transformação social ou estrutural, mas uma rachadura na normalidade. Mesmo as pessoas que estão ali por alguma motivação ideológica, não são capazes de prever qual é a mudança que está acontecendo. Quando olhamos para os transaturninos estamos olhando para uma mudança coletiva, o que significa algo novo no horizonte que precisa ser experimentado para fazer sentido, pois a necessidade de mudança vai além das ideologias ou medos pessoais.

A divisão que surge, e que se torna cada vez mais forte, entre “nós, os bons” X “vocês, os horrorosos”, tomou conta das pessoas e fizeram com que os diálogos tivessem a profundidade de um pires. Essa situação demonstra que estamos sob a influência negativa de um arquétipo constelado, que se manifesta como possessão, fanatismo cego e rigidez ideológica. O arquétipo é um complexo, ou seja um monte de ideias, imagens e sentidos que se misturam pra criar uma forma no inconsciente que nos dão estrutura psíquica. Os arquétipos são coletivos, existem dentro daquilo que C.G.Jung conceituou como Inconsciente Coletivo, compartilhado por todos os seres humanos de todos os tempos. Eles são o material de mitos e contos, por exemplo, e isso faz com que você entenda um mito Yanomami constelado - ou seja, com forma consciente - contado há milênios atrás. Quando um arquétipo entra em ação dizemos que ele foi constelado e a marca de um arquétipo constelado é o afeto com o qual ele atua. Por exemplo, quando você nasceu já veio com um arquétipo de pai no seu inconsciente e ele é 'atualizado' através da sua experiência concreta com um ser humano concreto que você chama de pai. Então, quando você ouve a história de João e Maria por exemplo, e lá diz que os irmãos - outro arquétipo - foram abandonados pelo pai, você tem condições de entender afetivamente o que isso significa, mesmo nunca tendo passado por essa experiência. Quando uma pessoa individual é tomada por um arquétipo ela pode transformar o que sente em arte, por exemplo, e fazer um quadro ou uma dança que transmite para outras pessoas esse afeto arquetípico. Essa é a força criativa de um arquétipo traduzido individualmente. Quando o arquétipo é constelado - ou seja, ganha forma - através do coletivo, ele vai gerar sentimentos coletivos e nossa capacidade de dialogar com o arquétipo internamente se apaga, já que ele estará sendo projetado fora. É aqui que se estabelece de maneira irresistível o 'nós x eles', que é semelhante aos estados de possessão descrita por gente que trabalha com espíritos, pois o ego, a identidade pessoal, é eclipsada por essa força inconsciente e nos deixa cegos para as qualidades individuais. Toda possessão arquetípica é mórbida, e não temos mais (ou está ainda muito distante) a sabedoria de povos tradicionais que conseguem fazer a distinção entre uma pessoa “possuída” por um conteúdo arquetípico, e que portanto precisa de tratamento, e um pajé ou curandeiro que sabe controlar os “espíritos” e pode deixar que exerçam livremente seus poderes por meio dele sem se deixar possuir (Psicologia e Religião – C.G.Jung – Obras Completas vol. XI/1 – Ed. Vozes). Encontramos várias maneiras químicas para silenciar os espíritos que assombram esses tempos, mas isso não os elimina ou amansam, apenas os manda para longe da consciência. Parece que esse é o preço que estamos tendo que pagar para impedir a desintegração da consciência individual, já que não fomos educados ou preparados para manter nosso ego inteiro frente ao imenso poder emocional dos arquétipos inconscientes.

Os efeitos positivos dos arquétipos, porém, estão por trás de todas as criações e realizações humanas, seja no âmbito da Cultura e das Artes, seja nos novos modelos científicos e das novas ideias que caracterizam uma época. Sim, a retirada de filosofia e arte das escolas, que já eram ínfimas, é um crime de lesa humanidade, pois eliminam das escolas áreas importantes para aprender a fazer esse diálogo conosco mesmos. Alguns historiadores como Arnold Toynbee (Um Estudo da História, em 12 volumes, onde 23 civilizações são estudadas), falam dos ciclos vitais das culturas determinadas por formas arquetípicas. Aion, obra de C.G.Jung, é a tentativa de demonstrar os processos arquetípicos do inconsciente coletivo se manifestando na cultura da Era Cristã.

Urano em Áries constela o arquétipo do Guerreiro Revolucionário que vai salvar o oprimido (seja ele o empresário coberto de impostos ou o trabalhador explorado). O problema é que o arquétipo – e Urano – por ser coletivo, está trabalhando em uma dimensão que diz respeito ao Humano e busca nos libertar dos moldes que nos definem individualmente e dão segurança em uma rede social ao custo de nosso potencial criativo único, e, portanto, vai passar por cima de tudo isso que é muito precioso para o nosso ego, como a tchurma com a qual me identifico e que me faz ter estranhamento com relação ao Outro, da outra tchurma. O Guerreiro não constrói nada, ele só tem função no combate. Um bom exemplo disso foi Che Guevara, nascido com Urano em Áries no ascendente, e que foi um líder incrível na Revolução Cubana, mas que depois de estabelecido o novo governo se sente sem função e vai para a África e para a América Latina para continuar a libertar o mundo. Seus diários desse período falam das grandes frustrações que viveu, e ele termina sendo assassinado e se transformando em ídolo pop.

Se olharmos os períodos anteriores de Urano em Áries, após seu avistamento, de 1843 a 1850 (1848 conjunção com Plutão, ainda não avistado) e de 1927 a 1934, observamos algumas semelhanças interessantes que podem ajudar a entender esse período que estamos terminando e fazer uma ponte para o próximo movimento uraniano.

O grande combate do período entre 1843 e 1850 foi contra o tráfico humano para trabalho escravo na América. Os conservadores no Brasil - país estruturado na escravidão - diziam que sem o trabalho escravo a economia iria falir. Os movimentos contra o tráfico de humanos da África foram motivados por razões econômicas da Europa (principalmente da Inglaterra) que viram no continente africano uma grande fonte de riqueza com a descoberta de ouro, diamante, minério de ferro, carvão e manganês. A manutenção do sistema de comércio de pessoas era inviável para a exploração desses recursos naturais, principalmente por que os mercadores de escravos eram, em geral, chefes e governantes locais que limitavam a entrada do europeu além da costa. Mesmo ainda não tendo sido avistado, é bem forte o cheiro plutoniano desse processo (sim, preciso escrever sobre os tempos de encontro entre Urano e Plutão). Apesar da Inglaterra estar tentando acabar com o tráfico desde 1807, é durante os anos de Urano em Áries que o tema ganha a força necessária para que se avance no sentido de romper uma estrutura limitante. No Brasil a Lei Eusébio de Queiroz, que proíbe a entrada de africanos como escravos por aqui, foi aprovada em 4 de setembro de 1850 – a lei “para inglês ver”. A lei que acaba com a escravidão só virá em 1888, com Urano no signo oposto, Libra.

O período de 1927 a 1934 de Urano em Áries é a antessala da 2ª Grande Guerra, onde a ideia de salvar o mundo “higienizando” a raça humana ganha força e cria os movimentos nazifascistas na Europa, depois de toda uma revolução comportamental e econômica pós Primeira Grande Guerra de Urano em Peixes. Jung tentou mostrar que a antiga imagem de Wotan (Odin) – antigo deus da sabedoria, da guerra e da morte, pai de todos, da mitologia germânica – havia sido reativado no movimento nacional-socialista alemão. Mas não só na Alemanha. Também é nessa época que Trotsky, a maior oposição de Stalin, é expulso da Rússia e depois morto no México, que a Inglaterra invade a China, que é fundada a Opus Dei, e no Brasil temos o golpe de Estado que instala a ditadura de Getúlio Vargas, o Pai do Povo.
 

Porém, no mesmo período, se generaliza o sufrágio feminino pelo mundo e no Brasil Celina Guimarães Viana, a primeira mulher a votar, consegue votar em si mesma através de uma artimanha jurídica, no Rio Grande do Norte, quebrando a grade “homem-branco-rico” em que se sustentava a vida política e econômica; é descoberta, ”por acaso”, a penicilina, a grande combatente das infecções bacterianas que matava milhares de pessoas; se realiza a primeira viagem transatlântica aérea, ligando os continentes muito mais rapidamente; Chico Xavier encontra com seu guia Emmanuel e inicia um trabalho que, para além de popularizar o espiritismo, traz para a pauta da mídia, da academia e do judiciário a questão da mediunidade e do mundo além túmulo. Ou seja, ao mesmo tempo que fronteiras se fecham e a enorme Sombra Humana se agiganta, as pessoas começam a ganhar novas significações simbólicas através de realizações individuais que avançam no sentido de uma redenção coletiva, que supera os limites regionais e que podem ser usadas para uma outra forma de expressão. Segundo Jung, a função criadora da dinâmica psíquica formadora de símbolos sempre se manifesta na pessoa individual: somente no indivíduo as novas ideias, as inspirações artísticas e fantasias construtivas podem ser criadas. Sendo assim, enquanto a constelação mórbida de um arquétipo estiver tomando conta do coletivo, devemos olhar para as mudanças trazidas por indivíduos para entender a mudança positiva em formação.

Não sou a primeira a falar das semelhanças entre os últimos anos que vivemos e a época que antecedeu a 2ª Grande Guerra, com o crescimento dessa Sombra de intolerância e fanatismos que acompanha o Guerreiro Revolucionário constelado. Com todas as provocações que os EUA andam fazendo comandado por Donald Trump, é impossível conter a ideia de uma guerra nuclear se armando. Mas algumas histórias que correm paralelas a essas grandes narrativas mundiais falam de uma mudança da atitude unilateral para atitudes novas e mais completas, apontando para uma humanidade integrada e que seria a realização do divino anthropos, imagem alquímica do ouro e que Jung utilizava para representar o arquétipo final do processo de individuação. Segundo Marie-Louise von Franz – C.G.Jung, Seu Mito em Nossa Época, ed. Cultrix – o anthropos é ’‘visto como uma ‘alma grupal’ da humanidade, (...), uma imagem do vínculo que une todos os homens, ou do Eros inter-humano’‘. Esse talvez seja o arquétipo que todos os transaturninos estejam conectados, e as desestruturações que causam seriam, então, uma maneira de nos fazer avançar nesse sentido.

Existem vários movimentos de coletivos marginalizados que agregam novos discursos nesse período reivindicando essa integração humanitária, como o movimento Queer, que fala de uma não definição de gênero para os seres humanos ou o movimento feminista, que passa a apontar a importância da solidariedade feminina para o combate ao machismo, rompendo corajosamente a estrutura social aprisionante. Pensando em um personagem que possa estar trazendo essa nova criação do anthropos na trama em que vivemos, chama a minha atenção Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, 266º Papa da Igreja Católica, primeiro Latino-Americano e primeiro jesuíta a ocupar o trono de Pedro. É também o primeiro Papa a usar o nome Francisco. A biografia de Jorge Mario Bergoglio é bem corriqueira dentro da estrutura da Igreja Católica, nem progressista nem conservador, recebendo elogios e críticas de ambos os lados. Subiu ao trono de Pedro em março de 2013, depois da renúncia de seu antecessor, Bento XVI, que, com a desculpa de estar com idade muito avançada para o cargo, se retira em meio a graves acusações de pedofilia dentro da Igreja e, segundo o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris, Philippe Portier, por conta da "descoberta de um informe elaborado por um grupo de cardeais que revelava os abismos nada espirituais nos quais a Igreja Católica havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas" (Carta Maior, 14 de março de 2013 – A História Secreta da Renúncia de Bento XVI). As primeiras ações do novo Papa foi a condenação e expulsão da Igreja dos padres acusados de pedofilia e começar a mexer num dos maiores vespeiros da Igreja, o IOR, o Instituto para as Obras de Religião, famoso banco do Vaticano, uma instituição financeira que durante o século 20 foi o epicentro de inúmeros escândalos, entre lavagem de dinheiro, evasões de divisas, cobertura de políticos corruptos, fraudes tributárias, ligações com a máfia italiana e com outros grupos criminosos internacionais. O Papa que anteriormente havia sido entronado com a promessa de mexer no IOR foi João Paulo I, “morrido” aos 33 dias de empossado. Em junho de 2013 o recém-eleito papa Francisco criou de surpresa a Comissão Pontifícia para o IOR, com o objetivo de controlar e reformar a instituição financeira vaticana. Menos de seis meses depois o pontífice substituiu quatro dos cinco membros da comissão de cardeais por suspeita de corrupção, exonerando entre outros o atual arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, e Tarcisio Bertone, que presidia o grupo e que teria que responder a processo por ter usado dinheiro destinado a um hospital infantil para a reforma da sua luxuosa cobertura de 400 metros quadrados ao lado do Vaticano. Aqui temos o tradicional início de uma estrutura heroica, onde o personagem sai da esfera comum em que vivia para atender, de forma relutante, o chamado heroico de enfrentamento do Dragão que outros falharam em derrotar. O herói é exatamente aquele que combate a sombra coletiva, que no caso de Urano em Áries se apresenta como o guerreiro que quer salvar os seus e destruir o outro. No seu agir individual o herói traz algo que não havia antes, e ele vence - esperamos até o último capítulo da história - o dragão que leva o coletivo para a guerra.

Mas não é apenas as estruturas corruptas mundanas do Vaticano que o Papa Francisco vai enfrentar. Logo depois de sua posse é publicada a encíclica Lumen fidei, segundo Francisco idealizada e grandemente já redigida pelo seu predecessor, mas assinada por ele, que aborda uma das questões mais espinhosas da teologia católica, que é a fé em um deus encarnado em ser humano. Eugenio Scalfari, ateu, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, publica no jornal de 07-07-2013 um artigo direcionado ao Papa, baseando-se nessa encíclica, pois, segundo ele, "o assunto é importante porque toca o ponto central da doutrina cristã: o que é a fé, de onde ela provém, como ela é vivida pelos crentes, quais reações ela suscita em quem não é cristão, como ela explica a existência da raça humana e como responde a perguntas que cada um de nós se faz e às quais, na maioria das vezes, não encontra resposta: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Esse é o tema da encíclica, e quase todos os papas o enfrentaram durante o seu pontificado, especialmente a partir do século XIX, isto é, quando a modernidade reavaliou a razão e colocou em discussão o conceito de "absoluto", começando pela verdade. Existe uma única verdade ou tantas quantas os indivíduos e a sua mente racional configurarem? ". Todo o artigo é muito interessante e coloca ótimas questões comparando várias religiões de teologias diferentes. Termina perguntando diretamente ao Papa, "enfim, uma palavra que diz respeito aos judeus e ao seu Deus, que também é o Deus cristão sob outros despojos: esse Deus não havia prometido a Abraão prosperidade e felicidade para o seu povo? Mas durou muito pouco essa prosperidade. Eles foram escravizados pelos egípcios, depois pelos assírios e pelos babilônios, depois, quase sem intervalo, pelos romanos, depois a diáspora, depois as perseguições, por fim o Holocausto. O Deus de Abraão, portanto, não manteve a sua palavra. Qual é a resposta, reverendíssimo Papa Francisco? "

A resposta papal foi publicada em La Repubblica em setembro do mesmo ano, e diz que "chegou o tempo (...) de um diálogo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro sério e fecundo. " Me contenho aqui para não ficar analisando o conteúdo desse diálogo, mas recomendo a leitura das cartas trocadas entre os dois para pensar a respeito desse paradoxo entre a luz divina e a luz da razão nos dias de hoje. Essa possibilidade de buscar pontes e pensar junto com o Outro, que consegue ver no questionamento um "convite (...) para fazermos um pedaço de estrada juntos ", é o diferencial que instrumentaliza o Papa para a batalha. Esse foi o início de uma série de colocações da autoridade papal que atinge pontos antes irredutíveis daqueles que professam essa fé e que serviam para exclusão de fiéis não adaptados aos cânones, como os separados, homossexuais, agnósticos, etc. Não, o Papa não é a favor do casamento gay ou da consagração sacerdotal de mulheres, pois ele não é um Guerreiro Revolucionário em combate. Mas tem feito várias declarações para que se pare de usar a condenação aos infernos, grande arma dos religiosos para manter os fieis na linha, e se enfatize o amor divino que dá preferência aos pobres e ao auxílio dos mais necessitados para aproximar a hierarquia eclesiástica do povo de deus. Achei particularmente interessante o episódio onde o Papa responde para um menino de uns 8 anos chamado Emanuel, que, muito nervoso, queria saber se o pai dele, que havia morrido havia pouco tempo, iria para o inferno por ser ateu. Diz o Papa que Deus, sendo Pai, não abandonaria um homem bom, que foi capaz de batizar seus filhos mesmo sem crer, e que deu ao menino a coragem para se expor, se emocionar e dar testemunho da bondade do seu pai em frente a tantas pessoas por amor a esse pai. Isso significa colocar todo o peso na consciência individual em detrimento das regras. Jung dizia que essa era a premissa para não se deixar engolir pela projeção coletiva de um arquétipo constelado, pois a luz da consciência do ego, que cria valores subjetivos capazes de guiar-nos para um futuro pessoal, é quem pode fazer o esforço moral necessário para que as dúvidas como do jovem Emanuel venham questionar os fanatismos e certezas que nos torna "bons" em luta contra os "maus". Essa é a maneira como podemos nos proteger da sombra coletiva que aparece com Urano em Aries, pois toda vez que duvidamos e encaramos o desconforto de não estar de acordo com o coletivo estamos usando nossa pequena consciência de ego para não mergulhar no arquétipo ou não deixar que ele nos comande. Vale a pena continuar observando os movimentos desse Papa Francisco, que tem sua Lua em Aquário sendo regida pelo Urano em Touro de sua volta anterior, para ver como repercute seus movimentos dentro da sua religião e fora dela.

Para fechar deixo aqui uma entrevista da Linn da Quebrada onde ela fala sobre sua caminhada e dos novos corpos políticos que surgem como necessidade nesses tempos em que vivemos. Essa entrevista apareceu para mim exatamente quando estava terminando de escrever essa postagem e traduz muito bem a ideia de como se cria mudança através do estranhamento, do não se encaixar, de se perceber como algo que ainda não é nominado e que portanto precisa ser inventado. Aquilo que vivemos em solidão precisa vir para o mundo para criarmos novas formas de nos conectar e tirar outras pessoas da solidão




quarta-feira, 26 de março de 2008

O Guerreiro Mítico de Áries

Áries é o deus grego da guerra, e seu correspondente romano é chamado de Marte. Qualquer história de guerreiros corajosos, que têm que cumprir uma difícil missão e salvar o mundo, pode servir para ilustrar esse signo, de Robin Hood a Guerra nas Estrelas, de Joana D’Arc ao Cavaleiro do Dragão, Eragon. Aqui vou falar do mito clássico ligado a esse signo: Jasão e os Argonautas, que vão em busca do Tosão de Ouro.

O Tosão é o velo de ouro de um carneiro, o que vêm bem a calhar, pois esse animal é o símbolo de Áries. Podemos vê-lo como o objetivo final desse signo, seja como a realização da própria individualidade, o término de uma investigação ou a morte do dragão. Filho de Esão e Alcímede, Jasão havia sido exilado de sua terra com seus pais, pois o tio, Pelias, usurpara o trono de Iolco, destronando e ameaçando de morte Esão. Após sua educação e iniciação por Quiron, Jasão, volta a Iolco para retomar o trono de direito de seu pai, e, como bom ariano, faz um acordo de trazer o fantástico tosão de ouro guardado no bosque consagrado ao deus Áries-Marte pelo “dragão que nunca dorme”, sendo que a impossibilidade de achá-lo apenas o anima. Reúne seu bando de Alegres Companheiros - os cinqüenta heróis Argonautas - e vai para a Cólquida, onde passa por muitas aventuras e toma o tosão para si. Mas essa história não tem o final feliz de Robin Hood. Jasão conta com a ajuda de uma feiticeira, Medéia, filha de Eetes, rei da Cólquida, que se apaixona por esse herói tão intrépido, bravo, audacioso e nobre. Eetes, que não poderia simplesmente dar o tosão ao herói, impõe quatro tarefas impossíveis a um mortal: subjugar dois touros bravios, presente de Hefesto, com cornos e cascos de bronze, que soltavam fogo pelas narinas; atrelá-los a uma charrua de diamantes; lavrar com eles uma vasta área e nela semear os dentes do dragão de Cadmo; matar os gigantes que nasceriam desses dentes; e finalmente matar o dragão que nunca dorme, guardião do velocino de ouro; sendo que o herói teria um dia, do nascer ao por do sol, para fazer tudo. Jasão já estava começando a pensar na idéia de desistir, quando Medéia se apresenta e promete ajudá-lo a sair vitorioso, desde que ele se casasse com ela e a levasse para a Grécia. Ele aceita o acordo e deixa que Medéia faça, com sua magia, o que deveria ser o seu trabalho. O conjunto dessas tarefas preliminares representa a luta contra as tendências à dominação perversa, de que o aspirante ao trono terá primeiro que purificar-se. O herói tem que mostrar não apenas que tem méritos para apossar-se do velo de ouro e assumir o poder, mas ainda, em razão da força que o anima, de permanecer como digno detentor do troféu conquistado. “Arar a terra” significa torná-la fecunda, e fazer isso com a ajuda de touros domados é uma prova da força sublime, da sabedoria, que doma o perigo e a tentação do abuso brutal, inerentes ao poder. Os touros com pés de bronze retratam a tendência dominadora, a ferocidade e o endurecimento do espírito. Medéia dá a Jasão um balsamo para que cubra seu corpo e suas armas que o torna invulnerável. Esse bálsamo, assim como o fio que Ariadne dá a Teseu, é símbolo do amor, que converte o impossível em possível, desde que as intenções da alma sejam puras. A questão é: Jasão tem esse amor ou está se servindo dele? Medéia é de uma família ligada à noite e aos poderes malignos da terra, e somente um herói já purificado poderia fazer essa sizígia sem sucumbir ao egoísmo e à intriga perversa que alimentam os poderes ctônios. Jasão é dotado de força heróica, mas está se respaldando em forças obscuras, por isso não lhe basta dominar os touros, e a prova “se repete”, para que o herói mostre com exatidão sua verdadeira intenção. O poder “semeia” inveja, ciúme e intriga, por isso Jasão tem que matar os gigantes de ferro, que se erguem contra o pacificador em busca de uma dominação perversa à custa do governante. Em vez de usar sua força heróica nessa prova, ele aceita o conselho ctônio de Medéia, e joga uma pedra em meio aos recém nascidos gigantes, que acabam se massacrando entre si, pois um pensa que está sendo atacado pelo outro, já que num ambiente de intrigas cada um se sente ameaçado pela inveja exaltada do outro e espera tirar proveito da briga. A astúcia não pode vencer a violência de maneira definitiva, pois trata-se de um emaranhado perverso que reina sobre o mundo e que, incessantemente conduz às explosões de violência. Jasão percorre muito rapidamente as 3 primeiras provas, e aquilo que deveria fortificar sua intenção sublime ameaça arrastá-lo para uma futura realização banal. Apesar do mal presságio, essas foram apenas preparações para seu real objetivo, que é o velocino de ouro. Mas aqui também Jasão usará das artimanhas de Medéia em vez de sua força heróica. A filha de Eetes adormece o dragão que guardava o velo, e Jasão não mata o monstro, que é a imagem de sua própria perversão, em luta heróica, e sim de uma maneira inglória, apenas se apossando do velocino sem maiores dificuldades. Utilizando o poder mágico de Medéia para cumprir seus trabalhos, Jasão se torna insolente face ao espírito e suas exigências de aperfeiçoamento, e assim se prende às suas intenções mais exaltadas, à corrupção dominadora, graças ao desencadeamento inescrupuloso dos desejos egoístas, e isso equivale a vender a alma ao demônio. Assim sendo, o rei não pode deixar que lhe levem o tesouro espiritual, representado pelo velo, e isso ocorre não só no plano externo, mas também no íntimo de Jasão, através de um grande sentimento de culpa por se saber não merecedor do troféu que leva. A fuga de Jasão e Medéia é a tentativa de recalcar essa falta, e por isso a feiticeira trai o próprio pai, e, ao fugir da Cólquida com Jasão, esquarteja seu irmão e vai jogando os seus pedaços no mar para atrasar o pai que os persegue, assim como em muitos tempos e lugares se costuma sacrificar os “filhos da verdade”, por ser essa insuportável. Mas eles escapam e tudo parecia ir bem até a volta, quando a vitória sobe à cabeça de Jasão e, claro, ele passa a se comportar como um carneiro estúpido e não como o possuidor de um velo de ouro: ele tenta descartar Medéia para se casar com uma princesa mais jovem, Creusa, vaidosa e ambiciosa filha do rei de Corinto. Só que Medéia não é mulher de se deixar afastar, e Jasão terá que aprender que não se faz pactos com o lado obscuro do inconsciente de forma leviana. Em vez de deixar o caminho livre, ela trucida os dois filhos que teve com Jasão, envenena a nova favorita com um manto mortífero, fugindo em seguida em uma carruagem puxada por dragões. Jasão se torna rei, mas com uma tirania tão perversa, que acaba devastando seu reino até ser expulso. O ex herói morre quando descansava sobre a nau Argos, atingido por uma viga caída do próprio barco que deveria tê-lo conduzido a uma vida heróica.

Áries tem que aprender com a vida que não se pode subestimar ou negligenciar o poder e o valor yin, feminino, assim como o mundo povoado por heróis e nobres causas ariano tem que abrigar também o poder da gentileza, da paciência, do compromisso, da compreensão, da justiça e da concórdia, que lhe mostra seu signo oposto, Libra. Esse herói, para conquistar o reino que lhe é destinado, tem que usar sua força e audácia não para conquistar uma gloria aparente que justifique sua vida, mas sim para domar seus desejos egoístas que levam à banalização da violência e das suas tarefas mais profundas. Só quando Áries confronta o seu ditador interior - que quer tudo de sua maneira e já, sem admitir as fraquezas dos outros e as suas próprias, sem admitir nada que não esteja de acordo com seu universo mítico -, essa enorme força pode ser libertada de modo positivo. A derrota, como Áries tem que acabar aprendendo em sua vida e em suas relações, não está no fato de não conseguir alcançar sua meta, seja ela ter o Tosão de ouro ou qualquer outra coisa que Áries coloque como meta para si, e sim aprender a refletir sobre suas ações, reter sua mente crítica e muitas vezes cheia de preconceitos, levando em conta as verdades do Outro, como ensina Libra. Aí sim esse herói de capa e espada poderá amadurecer e não precisará buscar saídas fáceis nem matar aliados. Quando Áries se transforma no verdadeiro herói que é potencialmente, então todos nós poderemos aproveitar a nova trilha aberta que só esse guerreiro é capaz de abrir.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Áries e o Impulso de Ser

Todos os que militam
Debaixo dessa bandeira,
Já não durmam, já não durmam
Pois não há paz na terra.


Se como capitão forte
Quis Nosso Deus morrer,
Comecemos a segui-lo,
Pois damos a ele nossa morte,
Oh venturosa sorte,
Se o seguimos nessa guerra.
Já não durmam, já não durmam,
Pois falta Deus na terra.


Com grande contentamento
Se oferece a morrer na cruz
Para dar luz a todos
Com seu grande sofrimento.
Oh, gloriosa vitória!
Oh, afortunada esta guerra!
Já não durmam, já não durmam
Pois falta Deus na terra.


Não haja nenhum covarde,
Aventuremos a vida,
Pois não há quem melhor a guarde
Que aquele que a dá por perdida
Pois Jesus é nosso guia
E também o prêmio dessa guerra.
Já não durmam, já não durmam
Pois não há paz na terra.

Teresa de Jesus - Sta. Teresa D’Ávila - Amante ariana de Deus.

Com o Equinócio de Outono no Hemisfério Sul, o Sol entra em Áries e iniciamos o ano astrológico. O mais impulsivo dos signos de Fogo mostra exatamente a energia necessária para sairmos da força regressiva da massa emocional de onde viemos e afirmarmos nossa individualidade única. Além de ser regido por Marte, o deus da guerra, e ser o exílio de Vênus, a senhora da beleza, o Sol, princípio da individuação, está exaltado em Áries e Saturno, o estruturador, em queda. Dá para se notar que ordem e harmonia não são a praia desse signo guerreiro. Geralmente as pessoas se dão muito bem ou muito mal com arianos. Os que tiveram experiências ruins com Áries dizem que ele é egoísta e autoritário, incapaz de escutar os outros. Já os que ficaram amigos de arianos falam de sua enorme capacidade de lutar pelo que quer, da incrível velocidade mental e da generosidade com que compartilha suas conquistas. Pois Áries é tudo isso ao mesmo tempo.

A personalidade ariana tende a ser iniciadora e pioneira, mostrando alguém ambicioso, que luta por aquilo que quer ou acredita. Desta forma, os atos e decisões tomadas são coloridas com traços de espontaneidade, impulsão e impaciência, justificadas através de uma idealização das causas que defende. Colocando-se sinceramente (às vezes ingenuamente) como defensor dos injustiçados e oprimidos, os arianos conseguem lutar contra as próprias amarras, que impedem a independência e liberdade que anseiam para agir. O ariano realmente parece sofrer daquilo que Liz Greene chama de “Síndrome do Cavaleiro Andante” ou “Síndrome de Joana D’Arc”. Dê-lhe uma causa - que pode ser desde o combate ao fumo ou o direito ao aborto, até as grandes revoluções políticas, contanto que se refira ao bem estar geral - onde exista um mal a ser desafiado e se possa trucidar o inimigo - que o ariano logo saca sua velha armadura, devidamente limpa e polida. O elemento Fogo mitifica a vida e Áries necessita achar alguma causa para defender, pois assim pode mostrar todo seu gênio e coragem. Essa descrição pode dar a impressão de que Áries é um signo um tanto quanto anacrônico, porém o espírito cavalheiresco é decididamente uma das qualidades arianas. No fundo da alma do ariano a época do amor cortês ainda existe, e ele procura alguma Ordem que possa declará-lo Real e Fiel Cavaleiro e lançá-lo na aventura de caçar dragões e defender donzelas. Áries se portará sempre honradamente, seja como amigo ou como inimigo; será generosos e leal com os amigos e raramente se inclinará a revanchismos ou mesquinharias para com os inimigos. Isso faz com que haja sempre um forte traço de impaciência, no limite da arrogância em Áries, pois ele não suporta nada que considere bobagem, atraso, insubordinação, estupidez e indiretas; enfim, não suporta nada de boa vontade, mas sim com nobreza. Como todo signo de Fogo, Áries é, na verdade, uma criança, o que quer dizer que ele pode parecer infantil, mas também que tem uma inocência corajosa e de bom coração. Deslealdades, intrigas e maldades de qualquer espécie realmente o desnorteiam e ferem. E isso acontece sempre, pois, vivendo em um mundo de ideais nobres, ele tende a se esquecer dos fatos e situações reais, onde as coisas são diferentes do que poderiam ou deveriam ser. Áries não tem grandes preocupações com o status quo, pois sua maior necessidade é de ação, de algo que o desafie e que lhe permita colocar sua energia, estimulando e oferecendo novas possibilidades, de preferência com muita liberdade pessoal para dar andamento a seus projetos sem interferência. Nem todos os arianos tem a disposição física do deus da guerra, mas a maioria aprecia esportes e competições, pois aí encontram o espírito de desafio e vitória que procuram. Isso se dá com freqüência também no plano intelectual, onde a energia dinâmica que Áries possui é mostrada na sua impressionante vivacidade mental. Mercúrio, o planeta da comunicação, é considerado o regente de Áries na Astrologia Esotérica. Seja como estudante, filósofo, profeta, artista ou líder religioso, o ariano mais mental adora desafios intelectuais, problemas difíceis de resolver, textos impenetráveis que o faça batalhar.

O carneiro de Fogo é capaz de pensamentos profundos e considerável ternura, mas é também capaz de largar qualquer compromisso mundano para se embrenhar em alguma Cruzada. Isso quer dizer que Áries tem uma tendência a criar crises se não houver uma pronta para enfrentar. Ele poderá atormentar pessoas e abalar situações muito estáveis, que ele considere paradas e estagnadas, até a grande explosão final. Ele gosta de fazer o papel de Advogado do Diabo, mesmo que o preço seja o de que todos se aborreçam com isso, pois isso gera ação, e ação, para Áries é sinônimo de vida.