quarta-feira, 14 de maio de 2014
Por Hoje ser Lua Cheia
E em Escorpião, em conjunção com Saturno
"E não podemos admitir que se impeça o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico como qualquer outra serie de idéias e atos humanos" carta aos diretores de asilo de loucos. Antonin Artaud
sábado, 19 de abril de 2014
E Quiron Caminha Por Peixes

“Nada disso pode estar acontecendo de verdade. Se você se sentir mais confortável assim, pode pensar no acontecimento simplesmente como uma metáfora. Religiões são, por definição, metáforas, apesar de tudo: Deus é um sonho, uma esperança, uma mulher, um escritor irônico, um pai, uma cidade, uma casa com muitos quartos, um relojoeiro que deixou seu cronômetro premiado no deserto, alguém que ama você – talvez até, contra todas as evidências, um ente celestial cujo único interesse é assegurar-se de que o seu time de futebol, o seu exército, o seu negócio ou o seu casamento floresça, prospere e triunfe sobre qualquer oposição.
Religiões são lugares para ficar, olhar e agir, pontos vantajosos a partir dos quais se observa o mundo.
Então nada disso está acontecendo. Tais coisas não podem ocorrer. Nunca nenhuma palavra sobre isso é literalmente verdadeira.”
Neil Gaiman in Deuses Americanos
Em fevereiro de 2011 Quiron entrou em Peixes e ficará por lá até março de 2019. Em 2012 Netuno também entrou em Peixes e fez conjunção com Quiron. Desde o final do ano passado até o meio desse, Saturno em Escorpião estará em trígono com Quiron. Agora estamos com Júpiter, regente do ano, também em trígono com esse estranho asteroide-meteoro-centauro. O que ando observando esses anos é que Quiron vem se mostrando como sub tom de todos os processos mais profundos que andam ocorrendo nas vidas íntimas das pessoas, e a cada dia, a cada consulta e a cada aula isso fica mais claro. Também a cada sessão de terapia. O enorme barulho que Urano em Aries enquadrando-se com Plutão em Capricórnio vem fazendo (principalmente esse mês, com a enorme Cruz que envolve os Luminares, Mercúrio, Marte e Júpiter em um eclipse!), faz com que esse subtexto de Quiron pareça mais delicado ainda. Claro que estamos muito atentos para essa briga toda no Céu como na Terra em signos cardeais, que iniciam novos tempos e movimentam-nos para fora, mas esses movimentos sutis da alma muitas vezes nos levam a novos patamares de compreensão interna que podem muito bem nos trazer caminhos mais interessantes, principalmente quando é tão claro o quão doente estamos em nossa humanidade.
Quiron traz em si a dor mais profunda do paradoxo que somos enquanto seres conscientes capazes de transcender a própria individualidade, mas que existem a partir de um corpo físico mortal e limitado. Por isso o tema central do mito de Quiron é a ferida que não pode ser curada (se você precisar de informações mais detalhadas a respeito, talvez seja melhor ler primeiro http://tecadias.blogspot.com.br/2008/09/quiron-visita-do-sbio.html). “Ferida” em grego é “traûma”, e os estudos dos traumas psíquicos têm sido das coisas mais interessantes que ando lendo ultimamente e tem me ajudado bastante a pensar sobre o que está acontecendo.
De maneira bem generalizada podemos considerar como traumatizante qualquer experiência que tenha sido rápida demais, forte demais ou ameaçadora demais para a existência. A palavra chave aqui é “demais”. Essa medida do que é demasiado para a criatura é absolutamente pessoal, pois coisas que são apenas um susto para alguns, se transformando em riso após 5 minutos, pode deixar outra alma absolutamente destroçada, criando uma situação em que não é possível nem correr nem lutar, como nosso cérebro réptil sabe fazer, e então algo em nossa psique se paralisa e se finge de morto para enganar ao predador. Essa é uma boa estratégia para o momento da ameaça, se conseguíssemos recuperar o movimento e a vida quando passasse o problema, como fazem os outros animais. O mais comum entre nós humanos, porém, é darmos um jeito de nos separarmos dessa parte para sobreviver, como uma lagartixa que deixa o rabo para traz e assim consegue escapar. Só que essa parte da nossa psique nunca vai poder nascer de novo enquanto não curamos essa fragmentação e essa paralisação decorrentes do trauma, e nunca teremos o sentimento de sermos inteiros enquanto isso não acontece. Todos nós passamos por traumas de uma maneira ou de outra ao longo do nosso desenvolvimento: nascer, ganhar um irmão, entrar na escola, mudar de casa, perder um animal de estimação, presenciar uma briga entre os pais, achar que estava fazendo algo superbacana e ser duramente repreendido ou qualquer outra situação aparentemente normal pode criar um sentimento de vulnerabilidade sem saída que gera a paralisação da alma que é o trauma. Essas situações “cotidianas” podem ser mais difíceis de detectar por conta das explicações e justificativas que podemos acumular sobre elas, diferentes de situações mais claras de perda e/ou abuso físico, mental ou psicológico, claramente traumatizantes e externamente reconhecidos. Além disso, a genética moderna tem apontado para a possibilidade da expressão de um gene ser modificada por estresse traumático sem alterar o DNA subjacente desde 1941, com a “diversidade do efeito de posição” do geneticista vencedor do prêmio Nobel Hermann Joseph Muller. Essa modificação é transmitida por várias gerações, e isso significa que podemos também herdar traumas de nossos antepassados, que genes podem ser “ligados e desligados como um interruptor e os efeitos são transferidos, mesmo quando a situação inicial já passou. A expressão de genes muda, mesmo quando o hardware subjacente não é afetado” (Felsenfield, 2007).
Olhando para isso com cuidado, podemos perceber que sentimentos bem difíceis como os de estar perdido na vida, de não ser amado, de vazio, de que falta algo ou que precisamos de algo que não vemos, de medo e vontade de fugir, de falta de vida e significado, com todas as suas manifestações emocionais básicas, como ansiedade, depressão e pânico – para falar das mais populares – e para as quais não encontramos explicações racionais, podem ser usadas exatamente para nos levar ao encontro dessa parte traumatizada que ficou no passado, paralisada e fragmentada, para que conseguíssemos sobreviver até nos tornarmos adultos e desenvolvêssemos os recursos necessários para resgatá-la. Enquanto isso não ocorre, o trauma nos “rapta”, nos envolve em um tipo de transe que nos remete novamente à situação traumática, nos fazendo reagir de maneira inadequada – ou excessivamente restritiva ou através de suporte inadequado – recriando o trauma e aprofundando nossa dor. Devemos a essa parte da psique que se sacrifica a nossa sobrevivência e realização adulta, e é a consciência desses sintomas que nos levam a buscar ajuda para fazer esse resgate. Quando se desiste de tentar colocar marido/esposa, filhos, pai/mãe, trabalho, ideologia, nicotina, álcool, comida, vida social, títulos, estudos, viagens, ou seja lá o que a gente tenha tentado empurrar buraco abaixo para enterrar de vez essa nossa parte e/ou substituí-la sem sucesso, Quiron se mostra como a nosso potencial mais importante para ser feliz, pois é aquele que sabe o caminho até a ferida imortal que carregamos e como fazer para resgatar aquilo que deixamos para traz e que agora, como adultos, precisamos para estar completos. É por isso que ele é o mestre de todo e qualquer aspirante a herói da mitologia greco-romana e um arquétipo tão poderoso de nossa psique. E afinal, o que mais nos mantêm vivos, enfrentando todos esses limites e frustrações de viver em um corpo físico cercado por um monte de outros seres igualmente limitados, senão continuar a acreditar que podemos ser muito muito felizes? Pois me parece que os sonhos de felicidade estão diretamente conectados com essa nossa parte traumatizada que espera por resgate.
E aí pegamos nosso cavalo branco, recebemos a benção de Quiron e vamos lá, resgatar nossa parte ferida, que sorri feliz em nos ver finalmente, né? Se isso acontecer tenha certeza que você está sendo enganado. Afinal, quem poderia receber sem muita desconfiança aquele que nos deixou ali para morrer, mesmo que possamos nos encher de explicações e justificativas muito razoáveis a respeito.
Quando Quiron e sua ferida começam a fazer contato com algo em nosso mapa, as coisas pouco a pouco vão se tornando bastante desagradáveis, para usar um eufemismo educado.
E a primeira parte da cura é exatamente desenvolver a capacidade de suportar a dor e sofrimento que esse fragmento traumatizado de si mesmo guarda e que Quiron aponta. O truque mais comum utilizado por Quiron é o de nos levar a uma situação que desejamos ou julgamos boa e então nos dizer que podemos ter muito mais se nos atrevermos a enfrentar a ferida que ele nos mostra e que compreendemos – muitas vezes como um estalo - como nos impede de sermos mais felizes. Essa primeira compreensão de que é o nosso medo/ansiedade/desconfiança que nos impede de alcançar a felicidade que buscamos, pois é essa barreira que nos leva a correr da vida ou brigar com ela, é o primeiro passo para nos atrevermos a olhar para isso com mais atenção. E o segundo é conseguir aguentar toda a raiva, frustração, rebeldia, mau humor, prepotência e acusação guardadas ali sem paralisar-se, nem brigar com isso e nem sair correndo de volta aos hábitos de amortização dessa dor. Então, depois de muitas tentativas e perseverança, você consegue ficar consigo mesmo nesse lugar desagradável sem sair correndo nem brigar consigo nem culpar o mundo (o Outro, o trabalho, o chefe, o orientador, a família, os amigos, a sociedade, a humanidade, etc, etc, etc ad infinitum) e merece o prêmio da felicidade eterna, certo? Vamos lá, amiguinhos: o herói que se aventura nos emaranhados da existência e acha que a brincadeira termina quando ganha o Reino – a princesa, o reconhecimento da humanidade ou a aprovação da mãe – acaba perdendo sua coragem e se transformando em um tirano. Para esses, que até fizeram um trabalho bacana, até conquistaram o Reino-princesa-reconhecimentodahumanidade-aprovaçãodamãe, mas pararam por aí, os greco-romanos criaram a Ilha da Bem Aventurança, governada por Saturno depois que ele perde a batalha com os filhos. As descrições do lugar são bem bacanas também, parecendo férias no Caribe, com margueritas e camarões saindo da Cornucópia sem que ninguém precise mais trabalhar, um monte de outros heróis para bater papo e ficar lembrando as aventuras, um belo visual e boas ondas para surf matinal. Tipo capa de Caras, onde Jasão exibe seu Tosão de Ouro na estreia da nova banda de Orfeu. Muito bom para quem acha que Saturno é suficiente, já dá bastante trabalho e eu mereço algum descanso, puxa vida... Mas quando se trata de Quiron, podemos escolher ir além das férias no Caribe. Para se ter uma idéia de como isso é incomum e nem sempre possível, a mitologia grega tem apenas um herói que consegue isso, e em vez de ir para a Ilha da Bem Aventurança conquista um lugar no Olimpo junto aos deuses: Héracles-Hércules. Alcides para os íntimos. E é por isso que quando estudamos em mitologia as aventuras dos heróis temos histórias para cada um dos signos, preciosos ensinamentos morais e criativas discussões filosóficas, mas quando estudamos o mito de Hércules falamos de um processo de individuação. Algumas vezes uso o mito de Hércules para falar dos desafios de todos os 12 signos e das 12 casas através dos seus 12 trabalhos impossíveis. Não é coincidência que tenha sido exatamente Hércules quem fere a Quiron, trazendo para seu corpo sua ferida incurável, sua dor insuportável de alma para a consciência. De muitas maneiras, Hércules é o anti herói, sofrendo de demência, sendo humilhado, aviltado, traído, possuído por orgulho, matando e ferindo a quem ama, cheio de fraquezas e brutalidade. E é exatamente essa falta de virtudes que o encaminha cada vez mais profundamente para a busca de purificação, encontrada finalmente através da própria morte. Mas essa não é qualquer morte, mas sim a morte-ponte, que conduz da morte dos mortais à morte que imortaliza. Assim também é a morte de Quiron, que não é a morte para fugir da dor, que seria a morte suicida, mas a possibilidade de ir além da dor, ver o que está acontecendo e fazer o que se tem que fazer para se purificar e contribuir com o coletivo.
Pois Quiron está agora em Peixes, o último dos signos do Zodíaco, nesse fluxo com os outros signos de Água através de Saturno e Júpiter. Se Ar nos traz a capacidade de compreender e comunicar, Fogo nos dá o desejo de criar e agir, Terra nos mostra a forma do que queremos e do que somos, Água fala da Vida que flui através de nós. Esse elemento é o que falta para os cientistas que acham que podem criar vida inteligente, aos economistas que acreditam poder prever a história, aos artistas que tentam controlar sua criação. A Água destrói quando em excesso e também quando falta, por isso é preciso estar sempre atento a seus movimentos e aprender a conversar com ela para manter-se em equilíbrio. Quando tentamos descrever esse elemento, falamos de alma, de inconsciente, de psiquê, de emoções, sentimentos e uma série de outras coisas e conceitos que experimentamos, mas sabemos mesmo muito pouco como traduzir. Ainda entendo o elemento Água como nossa possibilidade de Mágica, e isso é muito desconcertante. Principalmente quando tenho que falar sobre ela usando conceitos e não imagens/poesia/música/dança etc. para pessoas que ainda acham que o Ser Humano é especial por suas capacidades mentais e neurais e que isso que chamo de mágica é loucura ou inocência, numa escala menor de valores e conquistas.
Quando falamos de Quiron em Peixes, falamos da ferida que temos na Alma Humana em sua conexão mais profunda com todos os seres. Ou se você prefere uma linguagem simbólica psicológica, na nossa conexão com o Self, o centro do nosso ser e ao mesmo tempo do Inconsciente Coletivo. Essa cisão é representada pelos dois peixes nadando em direções opostas, mas presos por um fio de ouro, e Quiron, com a ajuda dos outros planetas em Água, está apontando para isso e mostrando maneiras de irmos mais fundo. Se quisermos.
Podemos pensar em Saturno em Escorpião como a necessidade de encararmos e fazermos algo de concreto com nossos desejos, medos e apegos mais pessoais e Júpiter em Câncer como a possibilidade de criarmos vínculos profundos para além da família de sangue – inclusive com a própria família de sangue. A possibilidade de olharmos com mais profundidade a ferida de alma que carregamos pode ser muito mais rápida e profunda do que esperamos, estando Quiron tão bem apoiado e sustentado. Sim, isso significa ter também que fazer as tarefas saturninas e correr os riscos jupiterianos. As curas proporcionadas por Quiron são aquelas da consciência que conquistamos através da auto reflexão e auto observação, por praticas como meditação, yoga, caminhadas, revisão diária ou qualquer outra coisa que ajude a construir um olhar objetivo sobre o que se passa dentro de nós. Quiron nos mostra que somos capazes de olhar para nosso próprio sofrimento com compaixão sem nos deixar “raptar” pela dor, e assim fazer o que tem que ser feito para a cura. Isso muitas vezes vai significar o sacrifício de algo importante, como deixar ir um relacionamento que traz frustração e dor, ou deixar de lutar para obter o reconhecimento por algo que se merece, mas que custaria o abandono dos valores internos, ou mesmo passar por algo que seja dolorido e difícil entendendo que não se trata de algo pessoal, que os personagens da história não tem como saber o que está acontecendo desde o seu ponto de vista. Isso é mais do que desapego motivado por alguma crença religiosa ou moral. É a capacidade de permanecer consigo mesmo quando as coisas não são como devem ser, é aceitar a morte daquilo que aparentemente é tão precioso em nome de uma capacidade de olhar para si com compaixão, sem pena ou vitimismo, e ir além. Só depois de vivenciar isso podemos entender que o Amor que estava sendo desperdiçado naquele relacionamento permanece consigo, que o Mérito que não foi reconhecido externamente é realmente seu, que a vivencia dolorosa tem uma parte de responsabilidade pessoal que pode ser transformada independente do que os outros façam com aquela experiência. E isso cura. E nos torna mais compassivos com relação às dores dos outros também.
E como amanhã é Páscoa e festejamos a libertação, espero que possamos estar aproveitando bem esse tempo estranho em que vivemos para irmos além. Segundo o mito, Deus ressuscita em corpo, com todas as suas chagas e feridas reluzentes, e se apresenta em Sua Gloria primeiramente para Maria Madalena, aquela que não foi condenada e se tornou a padroeira dos ciganos. Eu acho isso lindo, e precioso de ser comemorado.
domingo, 2 de março de 2014
A Vida Prevista e a Vida Vivida
“Caminante,
son tus huellas
el
camino y nada más;
Caminante,
no hay camino,
se
hace camino al andar.
Al
andar se hace el camino,
y
al volver la vista atrás
se
ve la senda que nunca
se
ha de volver a pisar.
Caminante
no hay camino
sino
estelas en la mar.”
Antônio
Machado
“Caminhante,
suas pegadas são
O
caminho e nada mais;
Caminhante,
não há caminho,
O
caminho se faz ao andar.
Ao
andar se faz o caminho
E
ao se voltar a vista para traz
Vê-se
a trilha que nunca
Se
irá voltar a pisar.
Caminhante
não há caminho
Apenas
estrelas no mar.”
Se
entendermos como os arquétipos dos astros de nosso mapa se constelaram em nossa
vida, podemos seguir adiante e progredi-los para continuar contando nossa
história. O que se observa é que as progressões mostram situações de
desdobramento desses momentos, e assim conseguimos aprofundar a compreensão
daquilo que nos faz ser o que somos. Teoricamente isso pode ser usado como
oportunidade de mudança através de maior compreensão, pois se entendemos como
nossa consciência se formou e quais padrões de medo e distorção se
cristalizaram em nossas vidas, podemos trabalhar para mudar esses padrões e
criar outros mais felizes. Bonito isso, né? É bem comum ouvir dizer que o nosso
mundo e destino funcionam assim hoje em dia. Mas eu ainda sinto que esse é um
ponto espinhoso de reflexão – e por isso tão interessante. Desde o século XVIII,
com a invenção do indivíduo para além da unidade biológica, ficou mais complexo
pensar sobre o que move o Ser Humano e sobre nossos impulsos de liberdade e de
destino, de acaso e necessidade. Mais ainda nessa sociedade globalizada de
massa transaturnina em que vivemos. Responsabilidade pessoal x destino
pré-determinado: como conciliar o trabalho das Moiras que determinam nosso
destino com a epígrafe do Templo de Delfos, “Conhece-te a Ti Mesmo”?
Esse
é um tema que vira e mexe reaparece nas minhas conversas internas, e que me
ocupou enquanto relia um pequeno e interessante livro que traz uma vida
codificada astrologicamente, uma espécie de autobiografia progredida. Trata-se da
vida de J.B. Morin de Villefranche, grande astrólogo contemporâneo de Kepler,
que viveu entre 1583 e 1656. Professor de Matemática do Collége de France,
Villefranche fez uma revisão muito importante das progressões e de várias
regras astrológicas de interpretação. Em sua grande obra, Astrologia Gallica, ele muitas vezes utiliza sua biografia para
exemplificar as progressões (direções, revolução solar e lunar principalmente)
e trânsitos. O astrólogo francês Jean Hièroz colecionou esses exemplos
autobiográficos e nos presenteou com Minha
Vida Perante os Astros (traduzida no Brasil por Marcia Bernardo, Ed. Espaço
do Céu Centro de Astrologia, 2002).
Vamos
fazer uns parênteses aqui para dar uma ideia melhor do que estamos falando quando
nos referimos às progressões utilizadas por Villefranche. A progressão
primária, antigamente chamada de direção, é usada de maneira privilegiada em
seu trabalho. Essa progressão transforma o movimento diário de cada astro em
movimento anual. Cada planeta tem seu próprio movimento médio anual, levando em
conta inclusive seus movimentos diretos e retrógrados. Apenas o Sol e a Lua têm
um movimento constante e sempre direto, o que os fazem ser parâmetro para
progressões secundárias, como na Revolução Solar (aqui você pode ter uma ideia
do que é isso: http://tecadias.blogspot.com.br/2009/09/revolucao-solar-face-rebelde-do-sol.html)
e na Lunar (que é uma progressão mensal feita através da Lua em seu ciclo de 28
dias em volta da Terra). Se você quiser investigar as direções no seu mapa – o
que recomendo muito -, aqui vai uma lista do movimento médio anual dos planetas
progredidos, e aí é só avançar os astros nesses graus para cada ano de vida
(lembrando que um signo tem 30°, um grau 60’ e um minuto de grau 60”), ver quem
encontra com quem de que jeito, quando muda de casa e de signo, e construir sua
própria biografia progredida:
Sol
– 1° por dia
Lua
– 12º por dia
Mercúrio
– 1°23’ por dia
Vênus
– 1°12’ por dia
Marte
– 0°31’ por dia
Júpiter
– 0°5’ por dia
Saturno
– 0°2’ por dia
Os
Transaturninos são bem lentos, e por isso não faz sentido usá-los nesse tipo de
progressão, e para Villefranche eles não eram nem sonhados, mas para sua
cultura geral:
Urano
– 0°0’42” por dia
Netuno
– 0°0’24” por dia
Plutão
– 0°0’01” por dia
A
leitura de “Minha Vida Perante os Astros” é interessante em muitos sentidos, e
tentar ler esses relatos autobiográficos e astrológicos com os olhos do século
XVII - ou seja, muito antes da penicilina, de Freud e Jung ou da física
quântica -, dá muito material para nosso Mercúrio se divertir. Mas
ver como Morin de Villefranche trabalha os acontecimentos de sua vida de modo a
explicar seus problemas através dos astros não é apenas didático, mas também
instigante. Claro que muito das desgraças que lhe acontecem são culpa de
Saturno e Marte, os grandes vilões da astrologia tradicional, e ele só não se
acaba de vez por conta das saídas criadas por Vênus, Júpiter e a Misericórdia
Divina. Mas o grande problema de sua existência e de seu destino é o incrível stellium no signo de Peixes na casa XII:
Vênus, Sol, Júpiter, Saturno e Lua! Todo mundo junto naquela que era conhecida
como “Casa da Miséria e do Aprisionamento”. Para expressar tanta “piscianisse”,
Villefranche conta com um ascendente ariano, que, digamos assim, não é dos
signos mais introvertidos que conhecemos, e não irá facilitar muito o processo
de introversão necessário para elementos de casa XII. Se você quiser dar uma
olhada no mapa todo, seus dados de nascimento são: 23/02/1583 às 8h33min, em
Villefranche, Beaujolais, França.
“Minha
Vida Perante os Astros” é estruturado de maneira bem didática, com a descrição
de um evento na vida de Villefranche, seguida de uma descrição astrológica da
progressão e/ou trânsito que “causou” o evento. Apesar de escrito em
“astrologuês”, portanto um tanto enfadonho para quem não domina essa linguagem,
são muito divertidos os relatos do que esse senhor aprontou em sua vida. Para
se entender o que estou falando, aqui vai um exemplo. Primeiro ele cita o fato que irá analisar de sua biografia (os comentários entre parênteses são meus):
“No dia 30 de maio (de 1612), dia do grande eclipse do Sol, após uma bebedeira
exagerada com dois amigos suíços, meus colegas de Filosofia, e após exercícios
físicos bastante violentos em pleno meio-dia, apesar do ardor do Sol, eu fui
tomado por uma longa e grave doença. Essas doença se complicou com febre
crônica, (...), icterícia e hidropisia, durando mais de 6 meses e foi
tão grave que os médicos me condenaram e aconselharam a ir, se possível, morrer
na minha região (SIC). Eu fiz esta longa viagem com meus dois amigos suíços que
retornaram a sua pátria. O exercício, a mudança de ar e o uso de um generoso
vinho branco tiveram por consequência suores noturnos abundantes e muito
cansativos, que ao fim de um mês, livraram-me desta doença. No decorrer desta,
meus cabelos tornaram-se completamente ruivos e encrespados como os de um
etíope. Retornaram em seguida sua cor normal”.
Para
fazer uma explicação astrológica do ocorrido, Villefranche utiliza Direções no
tema radical (ou seja, ele progride os astros conforme seu movimento dia/ano),
a Revolução Solar do seu aniversário daquele ano, a Revolução Lunar do mês em
que caiu doente, e ainda faz direções no mapa da Revolução Solar e no da
Revolução Lunar! Muito didático realmente, mas tanto detalhamento de
responsabilidades astrológicas deixa muito pouco espaço para qualquer
responsabilidade pessoal. Aqui um trecho de uma dessas tantas explanações
astrológicas para se entender do que estou falando (lembrando novamente que
Villefranche só conhece o céu até Saturno): pg 41/42 “(...) esta (enfermidade)
deve sua importância ao Sol e à Lua feridos por Saturno. Ela teve por origem
uma bebedeira e jogos sob o Sol ardente, por causa do Sol e de Mercúrio, donos
da V - casa das voluptuosidades - em ambas as cartas (Revolução Solar e mapa
radical), feridos por Saturno, e porque Júpiter, dono da VIII e XII (onde se
encontra Sagitário e Peixes) em ambas as cartas se encontrar na V. Ela foi
longa por causa de Saturno e bastante perigosa devido à Lua na VII da Revolução
Solar com uma estrela fixa violenta (Antares, também chamada Coração do
Escorpião) que cai precisamente sobre a cúspide da VIII.”
Vejamos:
esse senhor toma o maior porre pela manhã e vai fazer exercícios violentos com
sol a pino, seu fígado e seus rins lhe perguntam de maneira bem enfática para
onde ele pensa que vai, e o problema é a ferida feita por Saturno. E claro que
ele só fez essas coisas todas por conta do Sol e Mercúrio atiçando sua
voluptuosidade de casa V. Então tá, né? Não acho que precisaria de tantos
detalhamentos astrológicos para aconselhar Villefranche a não fazer esse tipo
de coisa senão ele pode ficar doente. E com Saturno conjunção ao Sol e
enquadrado com a Lua na Revolução Solar, eu diria que estar atento às
limitações seria sábio. Mas falar isso para um pisciano/ariano não é a coisa
mais bem recebida do mundo, certo? Em um ano em que sua Revolução Solar tem uma
Lua em Sagitário então... Como esperar que esse senhor seja comedido para não
ficar doente esse ano? E gente, que médicos do SUS são esses que mandam
Villefranche ir morrer em casa, estando ele no sul da França e a casa dele
estando na Suíça? Mas interessante mesmo é que a cura de sua enfermidade vem
exatamente dos mesmos elementos que a causaram: bebida e exercícios físicos, ou
seja, aquilo que começa como imprudência e descomedimento se transformam em
expurgo e purificação.
E
aí tenho sempre essa dúvida quando tenho que responder às demandas de previsão
daqueles que me procuram. A maioria das pessoas que buscam algum tipo de
olhar preventivo para o futuro têm em mente a pergunta “qual o melhor caminho?”
ou então “qual o caminho correto?”. E uma voz ancestral sempre pergunta dentro
de mim: “melhor para quem, cara pálida?”, “correto para quem, caraíba?”.
Sempre
que olho para um mapa minha mente se enche de perguntas e não de respostas ou
de certezas. A primeira pergunta quase sempre é “quem é essa pessoa, e como ela
faz para que esses símbolos se concretizem em sua vida”? Principalmente quando
olho o mapa de pessoas muito jovens, essa minha curiosidade básica costuma
gerar leituras bem ricas e muito mais interessantes do que aquelas que vendem
nos manuais de astrologia. Outro dia uma cliente, que é psicóloga e que entende
de astrologia, me dizia que algumas vezes ela olha para um mapa e não consegue
ler nada (o que é bem comum no início, não se incomodem quando isso ocorrer), e
pensando sobre isso com ela através de pontos do seu mapa, chegamos à conclusão
que muitas vezes ficamos tão presos àquilo que sabemos de um jeito, que quando
a mesma coisa se apresenta de outra maneira acabamos por rejeitá-la. O que é
uma pena, e uma perda importante. Acredito que é por isso que
muitas vezes me dizem que não conseguem ler o próprio mapa. Estamos tão presos
à nossa auto imagem idealizada, ou às histórias do nosso passado que justificam
sermos como somos, que se torna difícil olharmos para nós mesmos com
curiosidade, refazendo a pergunta de quem somos nós, qual o significado do que
estamos vivendo, e, a melhor de todas pra mim, o que que eu quero mesmo?
Outra
coisa que tenho reparado, principalmente quando olho para meu próprio mapa, é
que essa curiosidade a respeito de si mesmo faz com que o tal futuro deixe de
ser uma ameaça e passe a ser uma aventura. Assim, quando aquilo que você “previu”
acontece, ou seja, ganha uma forma reconhecível em sua vida, a sua atenção pode
se voltar para aquilo que está sendo revelado de novo em você. Isso significa
que, mesmo que o final da história não seja exatamente aquele para o qual você
estava torcendo, e haja algum nível de dor e/ou perda, a energia despertada
pelo auto conhecimento pode trazer a alegria de mais um passo e a possibilidade
de caminhar para um lugar onde essa dor não precise mais ser vivida, onde as
coisas possam ser diferentes, pois você abre a possibilidade de reagir de
maneira diferente e por isso a história muda. A isso eu chamo de cura.
Bom,
e depois de tantos anos vocês já devem estar acostumados com essa coisa d’eu
começar a escrever pensando que vou chegar a um lugar específico e quando vejo
escrevi um monte e perdi o lugar de chegada. Mas é por isso que gosto tanto de
escrever... Ultimamente está sendo bem difícil conseguir ser muito específica pois estou tentando aproveitar esse Netuno em Peixes para entender – mais uma vez – um pouco
melhor a física quântica. Depois de ler uma biografia do Einstein escrita por um físico, caiu nas
minhas mãos uma coletânea de textos do Neils Bohr que são pura poesia, muitos
deles verdadeiros koans que me fazem ficar horas delirando (obrigada Antônio
Celso). Um deles tem vindo à minha cabeça em algumas leituras e previsões
feitas nos últimos dias, e acho que pode traduzir o que queria falar para vocês
sobre previsões aqui:
“O
oposto de uma verdade é uma mentira, mas o oposto de uma verdade profunda pode
muito bem ser outra verdade profunda”.
A
Astrologia e a Vida muitas vezes podem trazer uma verdade profunda que é oposta
à verdade profunda que havíamos descoberto antes. E isso é bom. E leiam
Villefranche.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
PROGRESSÕES I: PREVENDO O PASSADO
"Aquele singular comando
Não o entendo,
Agradeço ao que há de existir
A que devo obedecer, pois
Para que mais sou feito
Concordando ou discordando?”
Não o entendo,
Agradeço ao que há de existir
A que devo obedecer, pois
Para que mais sou feito
Concordando ou discordando?”
(“That singular command
I do not understan
Bless what there is for being,
Which has to be obeyed, for
What else am I made for,
Agreeing or disagreeing?”)
Tradução livre de trecho do poema Precious Five de W.H. Auden
Sempre que vou falar de previsões fico com uma sensação de estar comentando a previsão do tempo (que me desculpe a analogia, minha querida Olivia Nunes), com frases do tipo: “no verão há grandes possibilidades de fazer calor e no inverno de fazer frio”. Acho que isso acontece porque se você conhece com um pouco de profundidade as quatro bases da astrologia – signos, planetas, casas e aspectos – as previsões são deduções lógicas que com um pouco de treino e bom senso podem ser feitas sem grandes problemas.
Outra coisa que ajuda nas previsões é tempo de vida, simplesmente porque se você já passou por algum processo será mais fácil entender mais profundamente como ele funciona, o que ajuda e o que atrapalha enquanto se está vivenciando algo. Um exemplo simples: se você tem mais de 30 anos já passou pelo retorno de Saturno, ou seja, já teve a visita desse titã por todas as áreas da sua vida, por todos os pontos e astros do seu mapa, e, portanto vai poder entender como os trânsitos e progressões de Saturno possibilitam realizar coisas com foco, seriedade e estruturação e também o porquê das coisas precisarem ser mais lentas para fazer isso direito. Claro que se poderá trabalhar com previsões e tudo mais de Saturno antes disso, mas depois dessas vivências você entenderá melhor o que significa “obstáculos e dificuldades” – palavras comuns de se encontrar quando se busca algo sobre Saturno – em seus processos. E isso ajuda.
Os Trânsitos são as primeiras formas de previsão que aprendemos e a que mais uso em consultas gerais para saber o que está acontecendo naquele momento específico da consulta. Vemos onde estão os astros agora e como eles estão se relacionando com o mapa da pessoa. Exemplificando com Saturno novamente. Nosso amigo titã está em Escorpião ficará por ali até dezembro de 2014. Se você tem alguma coisa nesse signo ele estará fazendo conjunção com sua(s) face(s) escorpiniana(s), ou seja, você vai precisar olhar com foco e seriedade os mergulhos em suas motivações internas e construir uma estrutura que permita a utilização adulta desse potencial. Saturno também estará agindo sobre aquilo que você tiver em Touro, signo oposto de Escorpião, mas de maneira mais tensa, pois estará fazendo oposição aos seus modos taurinos de viver. A maneira mais comum de vivermos oposições é através de relacionamentos, então se prestarmos atenção naquelas pessoas que parecem nos limitar e criar obstáculos para nossa expressão mais espontânea se entenderá o que está precisando de foco e estruturação para crescer nesse momento. E se temos algo nos outros signos fixos – Leão e Aquário - no mapa natal, Saturno estará trabalhando através de quadraturas com isso, ou seja, estará criando uma tensão interna que obriga a olharmos mais atentamente para esse elemento. Como tenho falado ao longo dos anos em trânsitos e esse é um assunto que sempre me trazem reflexões, vou me limitar a essa geral aqui.
Vamos falar um pouco mais sobre outro método de estar olhando para o futuro e saber se faz frio ou calor, e que pode ser bem útil se você resolver dar uma festa ao ar livre. Vamos entender o que são as Progressões.
As progressões “pensam” o mapa natal como algo que avança no tempo, criando situações astrológicas que mostram vivências através dos anos. Progredir significa avançar, mas não significa mudar aquilo que somos. Elas mostram situações que farão parte de nossa história, mas sem alterar os recursos que temos ou o trabalho de consciência que precisamos fazer dado pelo mapa natal. Mesmo que as progressões possam nos contar histórias sobre nosso futuro, eu as utilizo muitas vezes – muitas mesmo – para ouvir histórias do passado. Geralmente quando vivemos algo marcante na nossa vida temos progressões envolvidas, e fazer a análise simbólica astrológica pode nos ajudar a entender e incorporar o vivido de maneira muito rica, inclusive encontrando chaves que ajudam a mudar padrões que se repetem em nossas vidas e não entendemos o porquê. Essas marcas que vamos acumulando pelo caminho mostram onde criamos as bases de nossas respostas prontas, que tipos de crenças construímos e, portanto entendemos melhor os padrões repetitivos que vivemos e não conseguimos mudar por não entendermos o que são.
O conceito básico das progressões é derivada da máxima atribuída a Hermes Trismegisto, “o que está acima é igual ao que está abaixo”, que se transforma em “um dia acima é igual a um ano abaixo”. Temos três tipos básicos:
- Primárias (também chamadas direção), que podem ser zodiacais, onde se olha para os astros nos signos e seus aspectos, ou mundanas que consideram as posições nas esferas celestes sem considerar o zodíaco. Aqui se utiliza os movimentos reais dos astros que acontecem durante as horas que se seguem ao nascimento;
- Secundárias, que trabalham com o movimento da Terra em torno de seu eixo e um dia em torno do Sol corresponde a um ano, avançando um dia para cada ano e utilizando os movimentos reais nos dias que se seguem ao nascimento, como na Revolução Solar, por exemplo;
- Simbólica ou arco solar, onde se faz a progressão do mapa segundo a progressão do Sol, movimentando todo o conjunto do mapa igualmente pelo zodíaco.
Vamos começar entendendo um pouco mais sobre essa progressão simbólica, e assim você pode olhar o seu mapa e descobrir esses pontos importantes em sua história. Acredito que essa técnica de progressão é a melhor para se treinar o entendimento e a prática com progressões tanto por sua simplicidade quanto pela auto reflexão e auto conhecimento que proporciona. Ela também pode ser trabalhada com arredondamentos, já que trabalha com o simbolismo de uma época de vida e não com a precisão de dia/mês/ano de algo ocorrido. ‘Bora lá:
O Sol se movimenta pelo zodíaco na velocidade de 0°59’08’’ (lembrando: cada signo tem 30°, 1° tem 60’ e 1’ tem 60’’), que arredondamos para 1° por dia. Tomando o movimento solar diário como referência, olhamos para nosso mapa e vemos a quantos graus está cada um dos astros, transformamos esses graus em idades e refletimos sobre o que aconteceu naquela idade. Essa vai ser a idade em que o simbolismo ou arquétipo daquele astro foi condensado. Exemplo: Uma pessoa com a Lua a 12°37’ de Câncer, se parar para olhar o que estava acontecendo em sua vida familiar entre 12 e 13 anos, pode encontrar as vivências que teve e que deram a ela os padrões de família, lar, nutrição, vínculo afetivo e relacionamentos que ela repete ao longo da vida, e que provavelmente irão se renovar, inclusive externamente, a cada 12/13 anos.
É importante estar olhando não só para o astro em si, mas também para a casa em que ele se encontra e os aspectos feitos. Pegando esse nosso exemplo, suponhamos que essa Lua canceriana à 12°37’ está na casa 9: pode ser que o pai fosse militar e a família teve que mudar de cidade nessa época, ou então essa criança pode ter sido enviada para algum tipo de intercâmbio internacional, ou talvez ela tenha feito uma viagem bem marcante nessa idade que a fez cantar com Roberto Carlos “além do horizonte deve ter/algum lugar bonito pra viver em paazz ♪”. Mas vamos deixar essa história mais interessante: digamos que essa pessoa tem um Saturno a 12°50’ de Libra, na casa 12, fazendo uma quadratura (ângulo de 90°) com a Lua. Entre 12 e 13 anos ela teve a condensação da Lua, de Saturno e da quadratura. Isso sim é entrar na puberdade... Enfim, junto com essa experiência de mudança da Lua existe a experiência de isolamento de Saturno e de carência de nutrição dessa quadratura. Vamos continuar a história do pai militar para exemplificar: digamos, então, que aos 12 anos essa criança teve que mudar de cidade por conta do emprego do pai, e foi parar em uma cidadezinha que tem problemas em assimilar pessoas novas, e assim ela acaba sendo isolada na escola e na vizinhança, gerando um sentimento interno de solidão e a crença de ter que fazer muito esforço para ser aceita.
E atenção: esse exemplo é pura ficção. Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais terá sido mera coincidência astrológica. Mas deu pra pegar o espírito da coisa?
Apesar das progressões se prestarem muito bem para truques de salão astrológicos, do tipo “com tantos anos aconteceu isso na sua vida” - o que é bem divertido e deixa os céticos confusos -, um trabalho profundo com as progressões simbólicas podem trazer grandes insights para os processos de autoconhecimento. Para isso é necessário tempo e auto reflexão. Ter alguém para contar nossas histórias passadas ou escrever a respeito também ajuda muito nosso Mercúrio a construir uma compreensão significativa.
Apesar da resistência que tenho a receita de bolos astrológicos, aqui vai uma listinha de vivências ligadas aos astros para ajudar a memória:
Sol – consciência de si, objetivos de vida, descoberta do que se quer ser, criatividade, e muitas vezes experiências com o pai;
Lua – família, vínculos afetivos, auto idealização, exposição pública, conforto, nutrição, mãe,
Mercúrio – ensino/aprendizagem, comunicação, transporte, colegas de escola, irmãos, vizinhos;
Vênus – relacionamento amoroso, sedução, parcerias, prazer, dinheiro;
Marte – ação, agressividade, desejo e energia pessoal, liderança;
Esses são os astros pessoais e explorar suas progressões simbólicas nos mostra como e onde fomos construindo a noção de quem somos (e muitas vezes de quem “deveríamos” ser...). Isso nos leva à nossa identidade pessoal, e quando entendemos onde construímos crenças errôneas a respeito de nós mesmos que nos trazem dificuldades e/ou uma autoestima equivocada, podemos trabalhar para re-significar essas experiências. Vamos pegar a “vitima-exemplo” com Lua em Câncer enquadrada com Saturno em Libra: após essa época de condensação do seu arquétipo lunar ela vai perceber que quanto mais ela tentar se moldar para se enturmar, mais isolada ela irá se sentir, pois isso vai fazer com que ela se isole dela mesma. E aí vamos imaginar que a mãe leva esse filho ao astrólogo por não saber mais o que fazer com tanta infelicidade (a história é minha então vou puxar a sardinha para o meu lado, rs). E para termos um final feliz, digamos que essa pessoa entenda que precisa fazer um trabalho de introversão e não de extroversão para conseguir nutrir suas carências, e que precisa levar a sério seus vínculos afetivos, e que aquilo que tem para oferecer é precioso demais para que seja apreciado por qualquer um. Assim, ao longo dos anos, aquilo que se sentia como isolamento se transforma em oportunidade para encontrar-se consigo mesmo e os vínculos que foram sendo criados são agora baseados em respeito e responsabilidade, e essa Lua de casa 9 pode ir para qualquer lugar do mundo que ela sempre vai estar conectada e sendo nutrida pelos fortes laços que a liga àqueles que ama. Que lindo!! Não espere um caminho assim linear e iluminado em sua vida, ok? Geralmente os processos de transformação em nossas vidas levam muitos parágrafos para serem contados.
E já que falamos de Saturno, vamos dar uma olhada na dupla Júpiter & Saturno nas progressões.
Generalizar sempre traz armadilhas, mas vamos correr esse risco dizendo que o grau em que encontramos Júpiter e Saturno correspondem às idades em que formamos nossos valores sociais, onde Júpiter nos mostra como aprendemos a nos expandir através do ambiente externo à nossa família e Saturno como somos limitados pelo ambiente social. Isso pode nos ser mostrado através de alguém da família, como um tio que nos presenteia com um monte de exemplares de revistas de viagem e vivenciamos Júpiter, ou através de um avô autoritário que toda vez que visitamos fica nos dizendo como ele chama meninas de calça comprida ou meninos que brincam com meninas, e assim encorporamos Saturno. O aspecto que esses astros fazem com nossos planetas pessoais vai mostrar o como e onde mais detalhado da nossa experiência de condensação desses arquétipos sociais de expansão e limitação, vide nossa história ficcional. Quando Júpiter e Saturno estão em uma relação conflituosa com astros pessoais geralmente lembramo-nos de situações mais difíceis, Júpiter por exagero e Saturno por inadequação e insuficiência, e quando em relações mais harmônicas temos memórias de boas lições aprendidas.
Os transaturninos (Urano, Netuno e Plutão), também generalizando, mostram idades de grandes mudanças, em que o mundo vivido até em tão passa por algo que muda a maneira de encararmos a vida. Como já falei demais (para variar um pouco), vou deixa-los com essa imagem de mudanças para especularem sobre suas vidas.
Por último, uma explicação a respeito das limitações dessa análise progressiva do mapa: quando os astros estão muito no início do signo, isso significa uma condensação em idades muito “tenras”, ou seja, se você tem um Mercúrio a 0°30’ de Leão, por exemplo ficcional novamente, significa que a experiência que construiu esse arquétipo para você foi aos 6 meses de idade, e a menos que se seja um Buda renascido, vai ser bem difícil ter uma lembrança disso. Sempre existe a chance de ser algo que se tornou parte da crônica familiar, tipo seu irmãozinho mais velho querido querendo te enforcar, mas nem sempre a memória da família pode ser acessada assim. Isso também significa que a cada 6 meses esse padrão é retomado, por tanto pode ser algo que você já tenha tão incorporado que nem perceba, ou então algo que se já tem previsto no seu calendário anual, tipo ter uma briga com o tal irmãozinho querido que você encontra quando vai visitar seus pais duas vezes ao ano.
Outro problema desse estudo é quando o astro está no outro extremo do signo, mais perto do seu final, tipo um Marte a 29° de Áries. Isso não quer dizer que você só irá experimentar seu Marte - ou seja, sua agressividade e capacidade para ação pessoal - aos 29 anos, mas que nessa idade você vivenciou (ou vivenciará) esse Marte de maneira a criar um padrão consciente mais definido. Na literatura a respeito se diz que quando um astro está a mais que 10 graus de um signo, dividimos a idade por 2 para encontrar a vivencia condensadora desse simbolismo: esse Marte a 29° de Aries teria sua experiência matriz entre 14 e 15 anos, então, e se dividimos essa idade por 2 encontramos uma primeira vivencia significativa lá pelos 7 anos. Nunca encontrei nenhuma explicação sobre o porque de se dividir a idade por 2 (e não por 3 ou 5 ou 30), mas como na maioria das vezes tem funcionado, continuamos a usar, certo? A única coisa que me ocorre quando penso no porque disso é que como o máximo que se pode chegar nesse trabalho é uma idade de 30 anos, metade disso dá uma idade suficientemente consciente. Seja como for, a experiência marciana dos 29 anos vai dar mais material para ser trabalhado, e poderá ser usada para re-significar mais conscientemente a experiência dos 14/15 anos e dos 7 anos.
Tem muita coisa que ainda quero falar sobre Progressão Simbólica, mas aqui já tem material suficiente para se passar um tempo examinando o mapa e a memória. Vale a pena pesquisar com família e amigos de infância/adolescência para recuperar essas vivências e também perceber como esse tipo de vivência se repete ao longo da vida. Mas vamos voltar a falar disso.
domingo, 7 de abril de 2013
Planetas Retrógrados
"O livre-arbítrio é a capacidade de fazer com alegria aquilo que devo fazer"
C. G. Jung
A dificuldade central dos planetas retrógrados é que eles
trabalham fora da nossa linha de tempo linear passado-presente-futuro, e por
isso as áreas em que atuam precisam ser encaradas também diferentemente. De
maneira bem simplificada, quando aqui da Terra vemos um planeta andar para
trás, projetamos sua ação no futuro e agimos de acordo com essa projeção, e,
portanto, teremos que rever os acontecimentos dessa área para poder seguir e
continuar agindo. Na prática isso significa que se ligarmos o automático nas
áreas em que temos planetas retrógrados teremos dificuldades ao ver que muito
do que cremos e a maneira como agimos não se encaixam naquilo que estamos
vivendo no presente, o que nos faz repetir situações bem desconfortáveis e duvidosas.
A natureza desses desconfortos e confusões irá variar muito conforme as
características do planeta, do signo e da casa em que o movimento retrógrado
acontece.
Vamos pegar um exemplo cheio de dificuldades: um Marte
Retrógrado em Touro e na casa XII. Marte, por sua natureza expansiva, vai se
sentir muito bem na sua projeção de futuro, pois esse é um planeta que busca
ação e no futuro tudo pode acontecer, mas tanto Touro quanto a casa XII têm uma
natureza mais passiva, segurando essas ações e fazendo com que elas não sejam
tão imediatas quanto Marte geralmente é. Em um segundo momento, quando esse
Marte colocar a mão na massa e agir, ele terá ideias muito férteis a respeito
do que quer, pois de alguma maneira já viveu aquilo, mas depois terá que recuar
um tanto para analisar as consequências de seus atos. Um tanto cansativo, eu
reconheço, mas conforme a pessoa se habitua ao próprio modo de agir marciano,
ela será capaz de atuar conscientemente e aproveitar para realmente conseguir o
que quer. Em um exemplo como esse a pessoa vai se sentir mais confortável na
hora de realmente agir, confirmando suas visões de futuro, mas ela tem que
passar pelo desconforto de ver o futuro e não agir anterior e pela revisão de
suas ações posteriormente. Os problemas, dores e dificuldades aparecem quando
se busca estar apenas no lugar de conforto, onde esse retrógrado cria situações
mais harmoniosas com a casa e o signo em que se encontra. Por isso, ao analisar
um planeta retrógrado, precisamos entender em qual fase a pessoa costuma parar,
para então entender todo o processo e buscar maneiras de se restabelecer o
fluxo.
Os planetas que costumam nos dar mais trabalho são os
pessoais, Mercúrio, Vênus e Marte, já que eles estão diretamente ligados à
identidade que criamos. Júpiter já é um planeta que nos ajuda a antever os
benefícios que teremos com a expansão de nossos horizontes, e os problemas com
seu movimento retrógrado são os costumeiros excessos e otimismo exagerado.
Saturno retrógrado também não traz tantos problemas, já que ele por si mesmo
nos faz andar com mais cuidado e consciência. Os transaturninos, como são
geracionais e nos mostram movimentos coletivos, quando estão em movimentos
retrógrados trazem a possibilidade de a pessoa entender como ações coletivas
atuam em sua vida pessoal, o que, idealmente, pode ajudar muito na hora de
escolher um caminho ideológico, espiritual ou filosófico. Com Urano, Netuno
e/ou Plutão retrógrados, a pessoa terá que ver como o coletivo atua em seu ser
antes de aderir mais profundamente. Esse é um ótimo antídoto para as cegueiras
coletivas.
Vamos cuidar, então, dos planetas pessoais retrógrados.
Mercúrio atua na maneira de nos comunicarmos, na forma como
transmitimos aos outros aquilo que vivemos e compreendemos interiormente e
também como captamos as ideias que o mundo nos apresenta. Esse planeta nos traz
a gama de curiosidades que temos tanto a nosso próprio respeito quanto a
respeito do mundo, o que pode variar desde a roupa que a pop star usou em seu
show, às maravilhas da cura pelo limão, até as palavras em sânscrito de algum
mantra aprendido ou as delícias de se decifrar um filósofo mais erudito. Quando
Mercúrio está retrógrado, a comunicação pode ser bem confusa e o aprendizado
intelectual sofrer alguns contratempos, pois é bem complicado para a mente se
manter apenas no presente e estabelecer uma relação de reciprocidade com os que
estão ao seu redor. Isso não quer dizer um mau rendimento escolar, mas sim uma
necessidade de resolver as questões não compreendidas antes de passar para
frente, o que pode criar alguns conflitos com professores ou colegas que acham
que o conhecimento dado foi suficiente. Ao mesmo tempo esse Mercúrio trará
muitos insights que dificilmente
poderão ser explicados através de uma lógica linear ou aparente, o que pode ser
bem interessante para o portador desse planeta retrógrado, mas não ajuda na
hora que se tenta explicar algo para outra pessoa. Martin Shulman comenta que
existem muitos talentos musicais com Mercúrio Retrógrado, e isso,
provavelmente, conecta as dificuldades da comunicação verbal com a busca de uma
maneira mais sutil de comunicação. Eu, particularmente, encontro muitos
bailarinos contemporâneos com esse Mercúrio. Dificuldades de comunicação isola
a pessoa, e é comum encontrarmos nervosismo e irritação quando se tem que lidar
com isso. É como viajar para Praga, na Republica Checa, sozinho e sabendo se
comunicar apenas em português, por exemplo. A pessoa vai ter que desenvolver
sua capacidade de fazer mímica e buscar palavras em comum nas duas línguas,
além de outras palavras de outros idiomas que conheça se quiser sobreviver em
um país onde se fala Checo. Se ficar por ali tempo suficiente vai conseguir
aprender a nova língua e se comunicar de maneira satisfatória. Ou pode se
tornar um ótimo mímico.
Enquanto Mercúrio tem como motivação a curiosidade, a força
motriz de Vênus é o prazer, seja ele estético, afetivo ou físico. É através
desse planeta que harmonizamos o que vivemos internamente como valores pessoais
e aquilo que encontramos exteriormente no mundo. Onde encontramos com Vênus somos
naturalmente receptivos ao mundo externo para aproveitar o que há de bom na
vida, e por isso temos a capacidade de transformar aquilo que encontramos em
algo mais belo, e, portanto, mais prazeroso. Acredito que seja fácil imaginar
uma pessoa se decepcionando com o prazer e alegria que consegue da vida futura
levando em conta apenas uma satisfação do passado vivida em situações
diferentes. História didática exemplar: era uma vez uma menina de 4 anos que um
dia resolveu se arrumar toda com as roupas da mãe para esperar o pai. Naquele
dia seu pai chegou especialmente bem humorado e com tempo e vendo sua pequena
filha divertidamente fantasiada, com a cumplicidade da mãe, entra na
brincadeira e fala como ela está linda e lhe dá um grande abraço e um beijo
cheio de ternura. A pequena criatura pega esse momento de alegria familiar e a
projeta no futuro, e então, muuuuuuuuuuuitos anos depois, toda vez que essa sua
alegria e prazer não acontecem em seus relacionamentos amorosos adultos ela se
sente não amada, ou rejeitada, ou então rejeitará o parceiro dando demasiada
ênfase àquilo que ele não é, ou seja, seu pai em um momento particularmente
amoroso e tranquilo. Esse momento mágico da infância nunca mais será repetido,
mesmo porque quando somos pequenos nossos pais são tudo que existe de
importante na vida e quando crescemos o mundo fica – ou deveria ficar – bem
maior. A capacidade de nossos valores e prazeres se ampliarem conforme
crescemos é um dos atributos principais que temos que cultivar em nossa Vênus
para seguir pela vida com alegria em estar vivo. Isso não significa descartar
valores antigos, mas aperfeiçoá-los e ampliá-los conforme nossas necessidades e
consciência se transformam, agradecendo os momentos felizes do passado e
seguindo em busca de novos prazeres. Qualquer tensão que Vênus sofra (que pode ser
desde uma conjunção com Saturno ou Urano até uma quadratura ou oposição)
costumam trazer problemas para que esse processo seja feito dessa maneira
“bonitinha”. A particularidade da Vênus retrógrada é a insistência que ela
costuma apresentar em pré-programar, muitas vezes inconscientemente, seus
relacionamentos para que eles se encaixem nos padrões passados. A dor que isso
causa não vêm necessariamente da busca por um ideal irrealizável de amor ou
beleza, mas pela falta de noção real a respeito do que traria prazer e alegria
para sua vida atual. É comum pessoas com Vênus retrógradas manterem casamentos
longos, mas insatisfatórios. A insatisfação muitas vezes não é por conta de não
gostarem da parceria, mas por não saberem o que fazer com aquilo que não
encaixa em seu passado.
Marte é o planeta da
energia vital direcionada para fora, que nos impulsiona para o mundo na busca
por expressão e satisfação pessoal. Qualquer coisa que limite os movimentos
marcianos costuma ser sentido como algo que impede a pessoa de conquistar
aquilo que quer, e quando retrógrado isso aparece como uma inadequação
temporal, ou seja a pessoa age imaginando um futuro e depois percebe que se
precipitou e que precisa aprender a ajustar a quantidade de energia que
disponibiliza para conseguir o que quer. Muitas vezes a pessoa também não se
sente com forças para romper situações que o aborrecem, e quando questionada do
porque em geral traz uma série de razões sem sentido. Esse é um planeta com
energia intuitiva e instintiva, portanto não é nossa face mais dada a
reflexões. O sentimento de que suas realizações pessoais não são satisfatórias
parece acompanhar esse Marte retrógrado. Por isso quem tem que agir através
dele vai precisar aprender a andar em zig zag e descobrir que isso não tem nada
a ver com seu entorno e com as pessoas que se acredite terem que contribuir com
suas ações. O Marte retrógrado vai realmente deslumbrar grandes ações futuras,
mas toda vez que agir nesse sentido terá que voltar atrás para avaliar os
efeitos de sua ação antes de dar outro passo para poder adequar-se à sua
realidade atual. Quando a projeção no futuro se mostrar exagerada, a sensação
de rejeição vai obrigar a um recuo, e é importante que a pessoa pense nisso
como uma necessidade de reavaliação, e assim possa experimentar a possibilidade
de estar no presente para criar esse futuro desejado em vez de culpar as
pessoas ou o mundo por sua insatisfação. Independente do posicionamento ou
condição de nosso Marte, uma das coisas mais importantes no processo de
amadurecimento e crescimento de nossa personalidade consiste exatamente no
aprendizado que temos que fazer de focar nossa energia marciana para aquilo que
realmente queremos, no sentido mais profundo desse querer. Quem tem um Marte
retrógrado aprende a fazer isso mais cedo.
terça-feira, 19 de março de 2013
Palestra em Floripa
Dia 25 de março estarei fazendo uma palestra aberta no espaço Reverbera em troca de 1kg de alimentos não perecíveis para doação, aqui em Florianópolis. A ideia que tenho é de combinar astronomia e astrologia para poder entender melhor o que é mapa astral.
Aproveitando o início de um novo ciclo do Sol em volta do zodíaco, vamos formar também uma turma para estudar astrologia mais profundamente durante o ano no Reverbera. As aulas começarão dia 14/4, e nossos encontros serão mensais, um domingo inteiro por mês, até novembro.
Estão todos convidados.
O Reverbera fica na Rua Clodorico Moreira, 43, em Santa Mônica, ao lado do Shopping Iguatemi, e o telefone de lá é 48 3365 5606
segunda-feira, 4 de março de 2013
Urano e a Construção do Indivíduo Moderno
“Somos um olho por meio
do qual o mundo exterior se faz visível, mas um olho que não pode ver-se a si
mesmo quando vê”
Rüdiger Safranski
Tive uma série de problemas no mundo virtual que andaram me impedindo de escrever aqui. Aproveitei para estudar um pouco de filosofia do século 18 para ver se conseguia entender umas coisas que Urano estava me fazendo pensar, agora que ele transita por Áries e começa um novo ciclo zodiacal. Com o blog se reabrindo de novo pra mim (obrigada Rui Alão!!), volto o compartilhar o que andei pensando com vocês.
Durante o
século 16 o mundo começa a se transformar em algo completamente diferente
daquilo que era até então. Copérnico deixa para nós, após sua morte em 1543,
“Das Revoluções das Esferas Terrestres”, tirando a Terra do centro do Universo
e a colocando na terceira órbita em volta do Sol. Lutero se rebela contra as
indulgências da Igreja Católica e publica sua tradução da Bíblia para o alemão
vulgar em 1534, tirando da Igreja o monopólio sobre as interpretações da
vontade de Deus e da essência da Vida.
Com o Ser
Humano mandado para um canto do Universo e os guardiões da metafísica
destituídos de seu poder, a teologia deixa de ser a base necessária para o
conhecimento, e se inicia uma busca empírica pelos saberes do mundo. A ciência
que nasce no século 17 tem como principal expoente Galileu Galilei, que junta
observação experimental com descrição teórica de fenômenos, criando leis naturais
explicadas através da matemática e confirmadas através de suas observações concretas. Deve ter sido ele que criou o ditado "contra fatos não há discussão".
Esse novo
lugar no Universo modifica nosso olhar para a vida e para nós mesmos. A busca pelo conhecimento com base empírica e não mais teológica nos faz
desenvolver a capacidade de encontrar outras respostas para as “questões
finais” filosóficas (imortalidade da alma, liberdade/livre arbítrio, existência
de Deus, princípio e fim do mundo), que sustentam a religião e o Homem no
Mundo, sem que precisemos recorrer à metafísica. O nome que damos a isso é Racionalidade. Nasce
assim a biologia, a mineralogia, paleontologia e também a antropologia, a
ciência política, a economia, pois a ideia de que “a natureza tende à
organização”, deixa de ser uma máxima que nos obriga a acreditar em Deus e
passa a ser uma porta para se entender a Natureza e o Mundo em que vivemos.
Quando Rene Descartes (1596-1650) aparece no século 17, há uma busca por motivos racionais para a existência de
Deus. Ele sai do pressuposto de que assim como existe o mundo, Deus tem que
existir. Na verdade o que Descartes acaba demonstrando é que Deus é uma
ficção necessária a partir da autorreflexão da razão. Sua famosa frase “cogito
ergo sun” (penso logo existo), quer demonstrar que o exercício da razão é a
maneira que Deus tem de se expressar no Ser Humano: “Não sou eu que me aproprio
de Deus através do poder da minha razão, mas bem o contrário: é Deus que toma
posse de mim enquanto exerço minha razão”. Essa tentativa de usar a
racionalidade para conhecer a Deus ainda sai do pressuposto de que o mundo é um
reflexo de Deus, mas abre as portas para os Empiristas, que buscam conhecer o
mundo através da atividade racional e da confiança na percepção sensível.
Quem
se contrapõe a essa ficção de Descartes é Jean Jacques Rousseau (1712-1778), que inverte a
proposição cartesiana ao afirma não ser possível o pensamento antes da
existência: “primeiro preciso existir para depois poder pensar”. Rousseau
combate toda ideia de um Deus revelado – o que enfurece católicos e
protestantes – e o coloca no coração dos Seres Humanos: “quantos homens entre
mim e Deus!”, costumava dizer. Isso significa que o conhecimento só é possível
a partir da experiência interna que se tem de um mundo externo. Ele percebe que
as várias maneiras de se experimentar o mundo através dos sentidos precisa de
um princípio organizador que é chamado de Eu. O “visto” e o “tocado”, por exemplo, se
converteriam em 2 objetos diferentes por meio apenas da percepção do mundo
exterior. Somente um “Eu” é capaz de realizar a síntese e coloca-los em conexão
como sendo um único objeto. Portanto é a identidade do Eu que garante a unidade
dos objetos exteriores a si. Assim nasce a ideia de um Ego psicologicamente
equipado para experimentar e conhecer a vida humana.
Sem um “Eu”,
não há um “Outro”, e, assim a percepção do Eu é que produz o “Ser” individualizado. A Percepção
e o Conhecimento passando a ser um fenômeno psicológico de autoconsciência faz do Eu o responsável de compor e instalar o mundo através do prazer, da
intensidade, da alegria de viver, da tristeza, etc. O Ser Humano deixa de ser expectador
para se tornar o diretor da vida: “o ser humano (...) tornou-se capaz de
recolher todas as riquezas que haviam sido anteriormente espalhadas pelo céu”. Ao
se entender que os antigos tesouros da metafísica eram obras das mãos humanas, ficaram
todos muito animados com esse poder, mas logo essas riquezas perderam sua magia
e se mostraram incapazes de cumprir suas promessas. Nasce daí o temor da
História construída por nós mesmos.
Urano, o
sétimo planeta a partir do Sol e o mais massivo de nosso sistema, foi avistado
pela primeira vez em maio de 1781, rompendo as fronteiras do Universo que até
então eram guardadas por Saturno. Esse foi o primeiro planeta avistado por um
telescópio, portanto fruto dessa nova mentalidade que surge no século 18 que
tenta conhecer o mundo de maneira racional e não mais teológica, aperfeiçoando
seu olhar sobre a natureza e o Ser Humano. Esse é um tempo de grandes
avanços de nossa capacidade técnica. Queremos ver mais longe,
ouvir mais acuradamente, expandir nossos sentidos físicos para conhecer o Mundo
e o Humano. Essa é a consciência que Urano nos traz. Saturno nos mostra as regras
e dogmas sociais, que temos que conhecer e aprender a usar se quisermos ultrapassá-los, e
Urano atua no sentido de mostrar que essas regras e dogmas são obras humanas, e,
portanto, podem ser construídas e desconstruídas a partir da busca por valores
e conceitos que nos tornem mais livres enquanto humanos. Kant aparece
nesse contexto em busca do “a priori” do pensamento humano para entender o como
e o que se pode conhecer.
Immanuel Kant (1724-1804) mostra que conhecemos através da intuição e
utilizando o espaço e o tempo concreto. Ele reconstrói minuciosamente nossa
maneira de pensar o mundo através de 12 categorias do entendimento. O nosso
entendimento é a faculdade que temos de usar conceitos que nos possibilitam
fazer juízos. Os Juízos são divididos por ele em 4 formas e 3 tipos (Relação: a mesa é de
madeira; Hipótese: se colocar água sobre
a mesa ela se mancha; Disjuntiva: se é verdade que isso é uma mesa então não é
um fogão). O que ele quer demonstrar é que o conhecimento humano tem como
aprioridade a apercepção, ou seja, a capacidade de perceber e interpretar os
estímulos sensoriais. Esse conhecimento só pode ser feito através de um
“sujeito” que percebe o mundo antes de se defrontar com a experiência concreta
material, e através disso constrói representações de si e do mundo que permitem
o entendimento de sua existência concreta.
Uma das consequências dessa compreensão que me
interessa destacar aqui é a de que o nosso pensamento deixa de nos ligar ao
transcendente, pois não estão além da
experiência, mas são transcendentes
em si, pois existe antes da experiência, criando conceitos onde as nossas
experiências pessoais fazem sentido: “se as submetemos a um exame cuidadoso
perante nosso olhar intelectual, transcenderemos
a experiência em direção às condições da possibilidade da experiência (construiremos
conceitos), ou seja, (em sentido) horizontal, mas não verticalmente”. Resumindo: “não existe
nenhum caminho que conduza do Transcendental ao Transcendente”. Isso significa
que nossa razão humana não tem como conhecer a “Deus”, o “Absoluto”, a “Causa
Primeira”, ou seja lá como você queira chamar aquilo que criou o mundo e o ser
humano. O Transcendente, que Kant vai chamar de “Coisa em Si” é aquilo que não
podemos apreender e nos escapará sempre, pois nosso conhecimento depende dos
órgãos de percepção que sempre projetará sua sombra sobre o que é captado. O
que fazemos ao conhecer o mundo é criar representações. Nosso entendimento vem
da ordenação dos elementos obtidos pela experiência, mediante o princípio de
causa e efeito (causalidade) e de necessidade.
Portanto, a causalidade e a
necessidade são os princípios da nossa mente projetados de dentro para fora
sobre o mundo. A principal consequência disso é que não podemos deduzir a
existência de Deus como causa primeira da existência do mundo (como fez
Descartes), ou como primeiro motor (como descrito pelo mecanicismo), ou o “Arquiteto
Divino” (como fazem os Maçons), pois isso significa ultrapassar o âmbito de
toda experiência possível, e estaremos “fazendo um uso indevido de uma
categoria do entendimento. Isso rompe com a metafísica tradicional e com a
possibilidade de sustentar a existência de Deus através da razão. O que cria o
Transcendental são as nossas imagens, sonhos e devaneios”. Kant separa o
pensamento racional dos campos especulativos pertencentes à emoção e ao
sentimento, e, assim, paramos de tentar entender o mundo “em si” e buscamos o como é representativo do mundo. Um exemplo
concreto dessa diferenciação é dado por Kant em seu “ENSAIO SOBRE ENFERMIDADES
DA MENTE”, onde analisa Jan Komar Nicki, o “Profeta das Cabras”, que vivia em
sua cidade vestido com pele de animais, descalço e com rebanhos de vacas,
ovelhas e cabras que precisavam ter sempre o mesmo número, e fazia profecias
sobre Deus e o Mundo. Esse é o modelo Transcendental Metafísico de Kant, onde o
Maravilhoso é apenas Extravagante. Isso torna impossível que qualquer pessoa ou
grupo de pessoas possam reivindicar a Verdade sobre nossa existência.
A impossibilidade
de conhecer a “Coisa em Si” pode parecer uma limitação muito dura -e é mesmo -, mas o que
ocorre é uma libertação individual, a possibilidade de encontrar parâmetros
subjetivos para a própria existência. Essa é a experiência que temos de Urano
na astrologia. Nenhum dogma, verdade, espiritualidade ou formação resiste à
necessidade de liberdade subjetiva e rompimento com aquilo que oprime a autoexpressão
quando se trata desse planeta, seja no mapa natal, seja em trânsitos ou
progressões. Uma constatação que faço há muitos anos é que pessoas que conseguiram
conquistar uma autoexpressão em suas vidas e buscam isso conscientemente (no
trabalho, nos relacionamentos, na espiritualidade, etc.), não vivenciam
rompimentos significativos com os movimentos uranianos, e sim maiores
oportunidades de expressão.
Kant
demonstra a impossibilidade de encontrar o Absoluto através do uso da Razão,
portanto não se trata mais de uma transcendência do “Além” do Mundo, mas a
transcendência do que não é nem mais nem menos do que a faceta sempre visível
de todas as Representações: “a Razão Humana... tem o singular destino... de ser
assediada por perguntas a que não pode desdenhar porque são apresentadas pela
própria natureza da razão, mas que tampouco pode responder, visto que superam toda
capacidade da razão humana”. A função da nossa Razão não é de encontrar o
conhecimento absoluto, mas permitir “atravessar os ritos de passagem que nos
dão acesso ao mundo das vivências”. Joseph Campbell irá trabalhar com essa premissa para analisar mitos. Podemos encontrar verdades parciais que nos
ajudam a viver, mas sempre estaremos lidando com representações do mundo, do
outro e de nós mesmos. A existência humana passa a ser algo mais complexa, pois
entendemos que “somos uma ‘Coisa em Si’ e também uma representação para nós
mesmos”. A Transcendência deixa de ser algo sublime para se transformar em um
ponto cego. É isso que Freud e a psicologia que nasce com ele vão chamar de
Inconsciente, confirmando a ideia de Kant de que “a ‘Coisa em Si’ é o "re-verso
de todas as nossas re-presentações”.
Essa dupla
natureza que Kant demonstra (uma fenomenológica, “célula do mundo sensível que
pode ser refletida pela Razão” e uma numinosa, chamada de “Nômeno” por Kant e
de “Numinosidade” por Jung, que é criada através da “Coisa em Si), cria a
possibilidade de exploração do universo interno do indivíduo a partir das
experiências vividas pelo próprio individuo, e é isso que Freud vai buscar nas
histéricas e Jung nos esquizofrênicos.
Apesar de
não poder ser conhecida através da razão, a “coisa em si” se manifesta quando
agimos no agora e experimentamos a nós mesmos de tal maneira que não nos
encontramos interligados em uma cadeia causal, mesmo que mais tarde possamos
encontrar uma necessidade ou causalidade para nossa ação. O exemplo de Kant:
levantar de uma cadeira “completamente livre e sem influxo determinante de
causas naturais” é um ato gerado pela “coisa em si”, enquanto uma ação gerada
por “necessidade” ou “causalidade”, como levantar-se para movimentar as pernas
ou chamar a atenção das pessoas na sala, são categorias do nosso “entendimento
representativo, e desse modo do mundo representativo, do mundo como ele
aparenta ser”. Olhando para
o Mundo não há como saber o que é um ato gerado pela “Coisa em Si” e o que é
fruto do nosso entendimento representativo. A Coisa em Si é algo que já é antes
que eu possa compreender ou explicar. Quem já teve a experiência de querer
fazer algo, mas a “Vida” (“Deus”, o “Destino”, etc.) tinha outros planos, sabe
que não conhecemos nem a Coisa em Si em nós mesmos. Urano trabalha com a
mudança em nossas representações, já que ele faz parte do nosso sistema solar,
mas, assim como os outros transaturninos, ele parece ter maior proximidade com
a Coisa em Si, pois tem também um aspecto numinoso que torna suas ações
irresistíveis e muitas vezes imprevisíveis.
Entendermos
a limitação de nossa racionalidade humana traz o incrível paradoxo de nos
libertar dessa mesma racionalidade. Essa é porta que permite a entrada de
Charles Darwin e sua “A Origem das Espécies”, publicado em 1859, onde ele demonstra
que não somos muito mais do que macacos mais espertinhos. Mas isso já é assunto
para Netuno, que foi avistado graças aos movimentos estranhos de Urano...
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