domingo, 7 de abril de 2013

Planetas Retrógrados



"O livre-arbítrio é a capacidade de fazer com alegria aquilo que devo fazer"

C. G. Jung




Resolvi falar sobre os Planetas Retrógrados porque tenho encontrado gente justificando seus problemas na vida por conta desse aparente “movimento para trás”, que faz parte da nossa visão do Cosmos. Sim, é verdade que os retrógrados dão mais trabalho para serem conscientemente assimilados, mas o que significa isso na prática? Eu saio do pressuposto que ser quem se é não pode ser um problema, e o mapa ajuda a se entender como a pessoa funciona. Não pretendo levar em conta as questões ligadas a Karma ou outras vidas ou outras dimensões, pois essa não é a minha praia. Como a grande maioria das pessoas possui ao menos um planeta retrógrado no mapa, o que me interessa é entender como as pessoas usam essa ferramenta para se expressar.

A dificuldade central dos planetas retrógrados é que eles trabalham fora da nossa linha de tempo linear passado-presente-futuro, e por isso as áreas em que atuam precisam ser encaradas também diferentemente. De maneira bem simplificada, quando aqui da Terra vemos um planeta andar para trás, projetamos sua ação no futuro e agimos de acordo com essa projeção, e, portanto, teremos que rever os acontecimentos dessa área para poder seguir e continuar agindo. Na prática isso significa que se ligarmos o automático nas áreas em que temos planetas retrógrados teremos dificuldades ao ver que muito do que cremos e a maneira como agimos não se encaixam naquilo que estamos vivendo no presente, o que nos faz repetir situações bem desconfortáveis e duvidosas. A natureza desses desconfortos e confusões irá variar muito conforme as características do planeta, do signo e da casa em que o movimento retrógrado acontece.

Vamos pegar um exemplo cheio de dificuldades: um Marte Retrógrado em Touro e na casa XII. Marte, por sua natureza expansiva, vai se sentir muito bem na sua projeção de futuro, pois esse é um planeta que busca ação e no futuro tudo pode acontecer, mas tanto Touro quanto a casa XII têm uma natureza mais passiva, segurando essas ações e fazendo com que elas não sejam tão imediatas quanto Marte geralmente é. Em um segundo momento, quando esse Marte colocar a mão na massa e agir, ele terá ideias muito férteis a respeito do que quer, pois de alguma maneira já viveu aquilo, mas depois terá que recuar um tanto para analisar as consequências de seus atos. Um tanto cansativo, eu reconheço, mas conforme a pessoa se habitua ao próprio modo de agir marciano, ela será capaz de atuar conscientemente e aproveitar para realmente conseguir o que quer. Em um exemplo como esse a pessoa vai se sentir mais confortável na hora de realmente agir, confirmando suas visões de futuro, mas ela tem que passar pelo desconforto de ver o futuro e não agir anterior e pela revisão de suas ações posteriormente. Os problemas, dores e dificuldades aparecem quando se busca estar apenas no lugar de conforto, onde esse retrógrado cria situações mais harmoniosas com a casa e o signo em que se encontra. Por isso, ao analisar um planeta retrógrado, precisamos entender em qual fase a pessoa costuma parar, para então entender todo o processo e buscar maneiras de se restabelecer o fluxo.

Os planetas que costumam nos dar mais trabalho são os pessoais, Mercúrio, Vênus e Marte, já que eles estão diretamente ligados à identidade que criamos. Júpiter já é um planeta que nos ajuda a antever os benefícios que teremos com a expansão de nossos horizontes, e os problemas com seu movimento retrógrado são os costumeiros excessos e otimismo exagerado. Saturno retrógrado também não traz tantos problemas, já que ele por si mesmo nos faz andar com mais cuidado e consciência. Os transaturninos, como são geracionais e nos mostram movimentos coletivos, quando estão em movimentos retrógrados trazem a possibilidade de a pessoa entender como ações coletivas atuam em sua vida pessoal, o que, idealmente, pode ajudar muito na hora de escolher um caminho ideológico, espiritual ou filosófico. Com Urano, Netuno e/ou Plutão retrógrados, a pessoa terá que ver como o coletivo atua em seu ser antes de aderir mais profundamente. Esse é um ótimo antídoto para as cegueiras coletivas.

Vamos cuidar, então, dos planetas pessoais retrógrados.

Mercúrio atua na maneira de nos comunicarmos, na forma como transmitimos aos outros aquilo que vivemos e compreendemos interiormente e também como captamos as ideias que o mundo nos apresenta. Esse planeta nos traz a gama de curiosidades que temos tanto a nosso próprio respeito quanto a respeito do mundo, o que pode variar desde a roupa que a pop star usou em seu show, às maravilhas da cura pelo limão, até as palavras em sânscrito de algum mantra aprendido ou as delícias de se decifrar um filósofo mais erudito. Quando Mercúrio está retrógrado, a comunicação pode ser bem confusa e o aprendizado intelectual sofrer alguns contratempos, pois é bem complicado para a mente se manter apenas no presente e estabelecer uma relação de reciprocidade com os que estão ao seu redor. Isso não quer dizer um mau rendimento escolar, mas sim uma necessidade de resolver as questões não compreendidas antes de passar para frente, o que pode criar alguns conflitos com professores ou colegas que acham que o conhecimento dado foi suficiente. Ao mesmo tempo esse Mercúrio trará muitos insights que dificilmente poderão ser explicados através de uma lógica linear ou aparente, o que pode ser bem interessante para o portador desse planeta retrógrado, mas não ajuda na hora que se tenta explicar algo para outra pessoa. Martin Shulman comenta que existem muitos talentos musicais com Mercúrio Retrógrado, e isso, provavelmente, conecta as dificuldades da comunicação verbal com a busca de uma maneira mais sutil de comunicação. Eu, particularmente, encontro muitos bailarinos contemporâneos com esse Mercúrio. Dificuldades de comunicação isola a pessoa, e é comum encontrarmos nervosismo e irritação quando se tem que lidar com isso. É como viajar para Praga, na Republica Checa, sozinho e sabendo se comunicar apenas em português, por exemplo. A pessoa vai ter que desenvolver sua capacidade de fazer mímica e buscar palavras em comum nas duas línguas, além de outras palavras de outros idiomas que conheça se quiser sobreviver em um país onde se fala Checo. Se ficar por ali tempo suficiente vai conseguir aprender a nova língua e se comunicar de maneira satisfatória. Ou pode se tornar um ótimo mímico.

Enquanto Mercúrio tem como motivação a curiosidade, a força motriz de Vênus é o prazer, seja ele estético, afetivo ou físico. É através desse planeta que harmonizamos o que vivemos internamente como valores pessoais e aquilo que encontramos exteriormente no mundo. Onde encontramos com Vênus somos naturalmente receptivos ao mundo externo para aproveitar o que há de bom na vida, e por isso temos a capacidade de transformar aquilo que encontramos em algo mais belo, e, portanto, mais prazeroso. Acredito que seja fácil imaginar uma pessoa se decepcionando com o prazer e alegria que consegue da vida futura levando em conta apenas uma satisfação do passado vivida em situações diferentes. História didática exemplar: era uma vez uma menina de 4 anos que um dia resolveu se arrumar toda com as roupas da mãe para esperar o pai. Naquele dia seu pai chegou especialmente bem humorado e com tempo e vendo sua pequena filha divertidamente fantasiada, com a cumplicidade da mãe, entra na brincadeira e fala como ela está linda e lhe dá um grande abraço e um beijo cheio de ternura. A pequena criatura pega esse momento de alegria familiar e a projeta no futuro, e então, muuuuuuuuuuuitos anos depois, toda vez que essa sua alegria e prazer não acontecem em seus relacionamentos amorosos adultos ela se sente não amada, ou rejeitada, ou então rejeitará o parceiro dando demasiada ênfase àquilo que ele não é, ou seja, seu pai em um momento particularmente amoroso e tranquilo. Esse momento mágico da infância nunca mais será repetido, mesmo porque quando somos pequenos nossos pais são tudo que existe de importante na vida e quando crescemos o mundo fica – ou deveria ficar – bem maior. A capacidade de nossos valores e prazeres se ampliarem conforme crescemos é um dos atributos principais que temos que cultivar em nossa Vênus para seguir pela vida com alegria em estar vivo. Isso não significa descartar valores antigos, mas aperfeiçoá-los e ampliá-los conforme nossas necessidades e consciência se transformam, agradecendo os momentos felizes do passado e seguindo em busca de novos prazeres. Qualquer tensão que Vênus sofra (que pode ser desde uma conjunção com Saturno ou Urano até uma quadratura ou oposição) costumam trazer problemas para que esse processo seja feito dessa maneira “bonitinha”. A particularidade da Vênus retrógrada é a insistência que ela costuma apresentar em pré-programar, muitas vezes inconscientemente, seus relacionamentos para que eles se encaixem nos padrões passados. A dor que isso causa não vêm necessariamente da busca por um ideal irrealizável de amor ou beleza, mas pela falta de noção real a respeito do que traria prazer e alegria para sua vida atual. É comum pessoas com Vênus retrógradas manterem casamentos longos, mas insatisfatórios. A insatisfação muitas vezes não é por conta de não gostarem da parceria, mas por não saberem o que fazer com aquilo que não encaixa em seu passado.

Marte é o planeta da energia vital direcionada para fora, que nos impulsiona para o mundo na busca por expressão e satisfação pessoal. Qualquer coisa que limite os movimentos marcianos costuma ser sentido como algo que impede a pessoa de conquistar aquilo que quer, e quando retrógrado isso aparece como uma inadequação temporal, ou seja a pessoa age imaginando um futuro e depois percebe que se precipitou e que precisa aprender a ajustar a quantidade de energia que disponibiliza para conseguir o que quer. Muitas vezes a pessoa também não se sente com forças para romper situações que o aborrecem, e quando questionada do porque em geral traz uma série de razões sem sentido. Esse é um planeta com energia intuitiva e instintiva, portanto não é nossa face mais dada a reflexões. O sentimento de que suas realizações pessoais não são satisfatórias parece acompanhar esse Marte retrógrado. Por isso quem tem que agir através dele vai precisar aprender a andar em zig zag e descobrir que isso não tem nada a ver com seu entorno e com as pessoas que se acredite terem que contribuir com suas ações. O Marte retrógrado vai realmente deslumbrar grandes ações futuras, mas toda vez que agir nesse sentido terá que voltar atrás para avaliar os efeitos de sua ação antes de dar outro passo para poder adequar-se à sua realidade atual. Quando a projeção no futuro se mostrar exagerada, a sensação de rejeição vai obrigar a um recuo, e é importante que a pessoa pense nisso como uma necessidade de reavaliação, e assim possa experimentar a possibilidade de estar no presente para criar esse futuro desejado em vez de culpar as pessoas ou o mundo por sua insatisfação. Independente do posicionamento ou condição de nosso Marte, uma das coisas mais importantes no processo de amadurecimento e crescimento de nossa personalidade consiste exatamente no aprendizado que temos que fazer de focar nossa energia marciana para aquilo que realmente queremos, no sentido mais profundo desse querer. Quem tem um Marte retrógrado aprende a fazer isso mais cedo. 

terça-feira, 19 de março de 2013

Palestra em Floripa


Dia 25 de março estarei fazendo uma palestra aberta no espaço Reverbera em troca de 1kg de alimentos não perecíveis para doação, aqui em Florianópolis. A ideia que tenho é de combinar astronomia e astrologia para poder entender melhor o que é mapa astral.

Aproveitando o início de um novo ciclo do Sol em volta do zodíaco, vamos formar também uma turma para estudar astrologia mais profundamente durante o ano no Reverbera. As aulas começarão dia 14/4, e nossos encontros serão mensais, um domingo inteiro por mês, até novembro. 

Estão todos convidados.

O Reverbera fica na Rua Clodorico Moreira, 43, em Santa Mônica, ao lado do Shopping Iguatemi, e o telefone de lá é 48 3365 5606

segunda-feira, 4 de março de 2013

Urano e a Construção do Indivíduo Moderno


“Somos um olho por meio do qual o mundo exterior se faz visível, mas um olho que não pode ver-se a si mesmo quando vê”

Rüdiger Safranski



Tive uma série de problemas no mundo virtual que andaram me impedindo de escrever aqui. Aproveitei para estudar um pouco de filosofia do século 18 para ver se conseguia entender umas coisas que Urano estava me fazendo pensar, agora que ele transita por Áries e começa um novo ciclo zodiacal. Com o blog se reabrindo de novo pra mim (obrigada Rui Alão!!), volto o compartilhar o que andei pensando com vocês.

Durante o século 16 o mundo começa a se transformar em algo completamente diferente daquilo que era até então. Copérnico deixa para nós, após sua morte em 1543, “Das Revoluções das Esferas Terrestres”, tirando a Terra do centro do Universo e a colocando na terceira órbita em volta do Sol. Lutero se rebela contra as indulgências da Igreja Católica e publica sua tradução da Bíblia para o alemão vulgar em 1534, tirando da Igreja o monopólio sobre as interpretações da vontade de Deus e da essência da Vida.

Com o Ser Humano mandado para um canto do Universo e os guardiões da metafísica destituídos de seu poder, a teologia deixa de ser a base necessária para o conhecimento, e se inicia uma busca empírica pelos saberes do mundo. A ciência que nasce no século 17 tem como principal expoente Galileu Galilei, que junta observação experimental com descrição teórica de fenômenos, criando leis naturais explicadas através da matemática e confirmadas através de suas observações concretas. Deve ter sido ele que criou o ditado "contra fatos não há discussão".

Esse novo lugar no Universo modifica nosso olhar para a vida e para nós mesmos. A busca pelo conhecimento com base empírica e não mais teológica  nos faz desenvolver a capacidade de encontrar outras respostas para as “questões finais” filosóficas (imortalidade da alma, liberdade/livre arbítrio, existência de Deus, princípio e fim do mundo), que sustentam a religião e o Homem no Mundo, sem que precisemos recorrer à metafísica. O nome que damos a isso é Racionalidade. Nasce assim a biologia, a mineralogia, paleontologia e também a antropologia, a ciência política, a economia, pois a ideia de que “a natureza tende à organização”, deixa de ser uma máxima que nos obriga a acreditar em Deus e passa a ser uma porta para se entender a Natureza e o Mundo em que vivemos.

Quando Rene Descartes (1596-1650) aparece no século 17, há uma busca por motivos racionais para a existência de Deus. Ele sai do pressuposto de que assim como existe o mundo, Deus tem que existir. Na verdade o que Descartes acaba demonstrando é que  Deus é uma ficção necessária a partir da autorreflexão da razão. Sua famosa frase “cogito ergo sun” (penso logo existo), quer demonstrar que o exercício da razão é a maneira que Deus tem de se expressar no Ser Humano: “Não sou eu que me aproprio de Deus através do poder da minha razão, mas bem o contrário: é Deus que toma posse de mim enquanto exerço minha razão”. Essa tentativa de usar a racionalidade para conhecer a Deus ainda sai do pressuposto de que o mundo é um reflexo de Deus, mas abre as portas para os Empiristas, que buscam conhecer o mundo através da atividade racional e da confiança na percepção sensível.

Quem se contrapõe a essa ficção de Descartes é Jean Jacques Rousseau (1712-1778), que inverte a proposição cartesiana ao afirma não ser possível o pensamento antes da existência: “primeiro preciso existir para depois poder pensar”. Rousseau combate toda ideia de um Deus revelado – o que enfurece católicos e protestantes – e o coloca no coração dos Seres Humanos: “quantos homens entre mim e Deus!”, costumava dizer. Isso significa que o conhecimento só é possível a partir da experiência interna que se tem de um mundo externo. Ele percebe que as várias maneiras de se experimentar o mundo através dos sentidos precisa de um princípio organizador que é chamado de Eu. O “visto” e o “tocado”, por exemplo, se converteriam em 2 objetos diferentes por meio apenas da percepção do mundo exterior. Somente um “Eu” é capaz de realizar a síntese e coloca-los em conexão como sendo um único objeto. Portanto é a identidade do Eu que garante a unidade dos objetos exteriores a si. Assim nasce a ideia de um Ego psicologicamente equipado para  experimentar e conhecer a vida humana.

Sem um “Eu”, não há um “Outro”, e, assim a percepção do Eu é que produz o “Ser” individualizado. A Percepção e o Conhecimento passando a ser um fenômeno psicológico de autoconsciência faz do Eu o responsável de compor e instalar o mundo através do prazer, da intensidade, da alegria de viver, da tristeza, etc. O Ser Humano deixa de ser expectador para se tornar o diretor da vida: “o ser humano (...) tornou-se capaz de recolher todas as riquezas que haviam sido anteriormente espalhadas pelo céu”. Ao se entender que os antigos tesouros da metafísica eram obras das mãos humanas, ficaram todos muito animados com esse poder, mas logo essas riquezas perderam sua magia e se mostraram incapazes de cumprir suas promessas. Nasce daí o temor da História construída por nós mesmos.

Urano, o sétimo planeta a partir do Sol e o mais massivo de nosso sistema, foi avistado pela primeira vez em maio de 1781, rompendo as fronteiras do Universo que até então eram guardadas por Saturno. Esse foi o primeiro planeta avistado por um telescópio, portanto fruto dessa nova mentalidade que surge no século 18 que tenta conhecer o mundo de maneira racional e não mais teológica, aperfeiçoando seu olhar sobre a natureza e o Ser Humano. Esse é um tempo de grandes avanços de nossa capacidade técnica. Queremos ver mais longe, ouvir mais acuradamente, expandir nossos sentidos físicos para conhecer o Mundo e o Humano. Essa é a consciência que Urano nos traz. Saturno nos mostra as regras e dogmas sociais, que temos que conhecer e aprender a usar se quisermos ultrapassá-los, e Urano atua no sentido de mostrar que essas regras e dogmas são obras humanas, e, portanto, podem ser construídas e desconstruídas a partir da busca por valores e conceitos que nos tornem mais livres enquanto humanos. Kant aparece nesse contexto em busca do “a priori” do pensamento humano para entender o como e o que se pode conhecer. 

Immanuel Kant (1724-1804) mostra que conhecemos através da intuição e utilizando o espaço e o tempo concreto. Ele reconstrói minuciosamente nossa maneira de pensar o mundo através de 12 categorias do entendimento. O nosso entendimento é a faculdade que temos de usar conceitos que nos possibilitam fazer juízos. Os Juízos são divididos por ele em 4 formas e 3 tipos (Relação:  a mesa é de madeira; Hipótese:  se colocar água sobre a mesa ela se mancha; Disjuntiva: se é verdade que isso é uma mesa então não é um fogão). O que ele quer demonstrar é que o conhecimento humano tem como aprioridade a apercepção, ou seja, a capacidade de perceber e interpretar os estímulos sensoriais. Esse conhecimento só pode ser feito através de um “sujeito” que percebe o mundo antes de se defrontar com a experiência concreta material, e através disso constrói representações de si e do mundo que permitem o entendimento de sua existência concreta. 

Uma das consequências dessa compreensão que me interessa destacar aqui é a de que o nosso pensamento deixa de nos ligar ao transcendente, pois não estão além da experiência, mas são transcendentes em si, pois existe antes da experiência, criando conceitos onde as nossas experiências pessoais fazem sentido: “se as submetemos a um exame cuidadoso perante nosso olhar intelectual, transcenderemos a experiência em direção às condições da possibilidade da experiência (construiremos conceitos), ou seja, (em sentido) horizontal, mas não verticalmente”. Resumindo: “não existe nenhum caminho que conduza do Transcendental ao Transcendente”. Isso significa que nossa razão humana não tem como conhecer a “Deus”, o “Absoluto”, a “Causa Primeira”, ou seja lá como você queira chamar aquilo que criou o mundo e o ser humano. O Transcendente, que Kant vai chamar de “Coisa em Si” é aquilo que não podemos apreender e nos escapará sempre, pois nosso conhecimento depende dos órgãos de percepção que sempre projetará sua sombra sobre o que é captado. O que fazemos ao conhecer o mundo é criar representações. Nosso entendimento vem da ordenação dos elementos obtidos pela experiência, mediante o princípio de causa e efeito (causalidade) e de necessidade. 

Portanto, a causalidade e a necessidade são os princípios da nossa mente projetados de dentro para fora sobre o mundo. A principal consequência disso é que não podemos deduzir a existência de Deus como causa primeira da existência do mundo (como fez Descartes), ou como primeiro motor (como descrito pelo mecanicismo), ou o “Arquiteto Divino” (como fazem os Maçons), pois isso significa ultrapassar o âmbito de toda experiência possível, e estaremos “fazendo um uso indevido de uma categoria do entendimento. Isso rompe com a metafísica tradicional e com a possibilidade de sustentar a existência de Deus através da razão. O que cria o Transcendental são as nossas imagens, sonhos e devaneios”. Kant separa o pensamento racional dos campos especulativos pertencentes à emoção e ao sentimento, e, assim, paramos de tentar entender o mundo “em si” e buscamos o como é representativo do mundo. Um exemplo concreto dessa diferenciação é dado por Kant em seu “ENSAIO SOBRE ENFERMIDADES DA MENTE”, onde analisa Jan Komar Nicki, o “Profeta das Cabras”, que vivia em sua cidade vestido com pele de animais, descalço e com rebanhos de vacas, ovelhas e cabras que precisavam ter sempre o mesmo número, e fazia profecias sobre Deus e o Mundo. Esse é o modelo Transcendental Metafísico de Kant, onde o Maravilhoso é apenas Extravagante. Isso torna impossível que qualquer pessoa ou grupo de pessoas possam reivindicar a Verdade sobre nossa existência.

A impossibilidade de conhecer a “Coisa em Si” pode parecer uma limitação muito dura -e é mesmo -, mas o que ocorre é uma libertação individual, a possibilidade de encontrar parâmetros subjetivos para a própria existência. Essa é a experiência que temos de Urano na astrologia. Nenhum dogma, verdade, espiritualidade ou formação resiste à necessidade de liberdade subjetiva e rompimento com aquilo que oprime a autoexpressão quando se trata desse planeta, seja no mapa natal, seja em trânsitos ou progressões. Uma constatação que faço há muitos anos é que pessoas que conseguiram conquistar uma autoexpressão em suas vidas e buscam isso conscientemente (no trabalho, nos relacionamentos, na espiritualidade, etc.), não vivenciam rompimentos significativos com os movimentos uranianos, e sim maiores oportunidades de expressão.

Kant demonstra a impossibilidade de encontrar o Absoluto através do uso da Razão, portanto não se trata mais de uma transcendência do “Além” do Mundo, mas a transcendência do que não é nem mais nem menos do que a faceta sempre visível de todas as Representações: “a Razão Humana... tem o singular destino... de ser assediada por perguntas a que não pode desdenhar porque são apresentadas pela própria natureza da razão, mas que tampouco pode responder, visto que superam toda capacidade da razão humana”. A função da nossa Razão não é de encontrar o conhecimento absoluto, mas permitir “atravessar os ritos de passagem que nos dão acesso ao mundo das vivências”. Joseph Campbell irá trabalhar com essa premissa para analisar mitos. Podemos encontrar verdades parciais que nos ajudam a viver, mas sempre estaremos lidando com representações do mundo, do outro e de nós mesmos. A existência humana passa a ser algo mais complexa, pois entendemos que “somos uma ‘Coisa em Si’ e também uma representação para nós mesmos”. A Transcendência deixa de ser algo sublime para se transformar em um ponto cego. É isso que Freud e a psicologia que nasce com ele vão chamar de Inconsciente, confirmando a ideia de Kant de que “a ‘Coisa em Si’ é o "re-verso de todas as nossas re-presentações”.

Essa dupla natureza que Kant demonstra (uma fenomenológica, “célula do mundo sensível que pode ser refletida pela Razão” e uma numinosa, chamada de “Nômeno” por Kant e de “Numinosidade” por Jung, que é criada através da “Coisa em Si), cria a possibilidade de exploração do universo interno do indivíduo a partir das experiências vividas pelo próprio individuo, e é isso que Freud vai buscar nas histéricas e Jung nos esquizofrênicos.

Apesar de não poder ser conhecida através da razão, a “coisa em si” se manifesta quando agimos no agora e experimentamos a nós mesmos de tal maneira que não nos encontramos interligados em uma cadeia causal, mesmo que mais tarde possamos encontrar uma necessidade ou causalidade para nossa ação. O exemplo de Kant: levantar de uma cadeira “completamente livre e sem influxo determinante de causas naturais” é um ato gerado pela “coisa em si”, enquanto uma ação gerada por “necessidade” ou “causalidade”, como levantar-se para movimentar as pernas ou chamar a atenção das pessoas na sala, são categorias do nosso “entendimento representativo, e desse modo do mundo representativo, do mundo como ele aparenta ser”. Olhando para o Mundo não há como saber o que é um ato gerado pela “Coisa em Si” e o que é fruto do nosso entendimento representativo. A Coisa em Si é algo que já é antes que eu possa compreender ou explicar. Quem já teve a experiência de querer fazer algo, mas a “Vida” (“Deus”, o “Destino”, etc.) tinha outros planos, sabe que não conhecemos nem a Coisa em Si em nós mesmos. Urano trabalha com a mudança em nossas representações, já que ele faz parte do nosso sistema solar, mas, assim como os outros transaturninos, ele parece ter maior proximidade com a Coisa em Si, pois tem também um aspecto numinoso que torna suas ações irresistíveis e muitas vezes imprevisíveis.

Entendermos a limitação de nossa racionalidade humana traz o incrível paradoxo de nos libertar dessa mesma racionalidade. Essa é porta que permite a entrada de Charles Darwin e sua “A Origem das Espécies”, publicado em 1859, onde ele demonstra que não somos muito mais do que macacos mais espertinhos. Mas isso já é assunto para Netuno, que foi avistado graças aos movimentos estranhos de Urano...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Lilith, a Lua Negra


“Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra (...)’. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. (...) E assim se fez. Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”.

Gênese 1 – 26.31




E enquanto Deus descansava de seu grande trabalho de criar o mundo, Adão só queria fazer sexo papai/mamãe e a primeira mulher se revoltou com essa falta de criatividade. Segundo o Alfabeto de Ben-Sira (600 – 1000 d.C.), que encontrei na Wikipédia, Adão e Lilith começaram a brigar e Lilith disse: "’Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’ Quando reclamou de sua condição a Deus, Adão retrucou: ’Eu não vou me deitar abaixo de você, apenas por cima. Pois você está apta apenas para estar na posição inferior, enquanto eu sou um ser superior.’  Lilith respondeu: ‘Nós somos iguais um ao outro, considerando que ambos fomos criados a partir da terra’. Mas eles não deram ouvido um ao outro. Quando Lilith percebeu isso, ela pronunciou o Nome Inefável (que é o nome de Deus) e voou para o ar. Adão permaneceu em oração diante do seu Criador: ‘Soberano do universo! A mulher que você me deu fugiu!’. Ao mesmo tempo Deus enviou três anjos para trazê-la de volta.”

A lenda continua dizendo que quando os anjos a encontram, Lilith se nega a voltar para Adão, e então esses seres sensíveis como um bando de rinocerontes sem Rivotril a ameaçam de afogamento se ela não obedecer. A Lei Maria da Penha ainda não tinha sido aprovada no tribunal divino, pelo jeito. Ainda por cima rogam a praga de que ela irá perder cem filhos por dia, o que a transforma em uma ameaça para recém-nascidos. Aí ela se alia aos anjos caídos e se transforma em demônio. Pois comecei a pensar em escrever sobre a Lilith enquanto acompanhava as várias “Marchas das Vadias” e “Marchas pela Humanização do Parto” pelo Brasil e sempre me vinha imagem de um monte de Liliths dizendo “eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual”.

Vamos olhar algumas imagens que peguei nas páginas do Facebook da Marcha das Vadias de Brasília e da Marcha do Parto em Casa antes de falarmos da Lua Negra e sua equipe de 
demônios:













E aqui algumas campanhas desses dois grupos







Lilith é aquele aspecto humano (sim, de homens e mulheres), que não pode obedecer aos mandatos da cultura vigente que signifiquem injustiça ou opressão, mesmo que esses mandatos venham com rótulos de virtude ou civilidade. Na Cabala, (Patai 81: 455f) ela é referida como a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido e alguns filósofos, a partir do Romantismo, utilizaram a metáfora de Adão e Eva comendo do fruto da Árvore do Bem e do Mal para falar do inicio da vida consciente do Ser Humano. Nesse sentido é que a Lilith em nosso mapa nos obriga a uma maior consciência sobre o Bem e o Mal, pois é um ponto onde não podemos nos acomodar ao status quo, onde um instinto mais forte de vida tem lugar, onde existe a crença de que acomodar-se é igual a se deixar afogar, e a única maneira de se lidar com isso é através da consciência do que é marginalizado em nós.

O encontro desse ponto orbital demorou muito tempo, assim como a nova consciência que Lilith nos traz demorou em ser aceita nas nossas psiques.  Os primeiros registros astronômicos que falam de Lilith apareceram na mesma época em que Netuno foi avistado, em 1846, e compartilha com ele, além de muita confusão, esse lugar misterioso e cheio de ilusões. Frederic Petit, diretor do observatório de Toulouse, na França, anuncia nesse ano a descoberta de uma segunda lua da Terra, podendo inclusive calcular sua órbita. Muitos profissionais e amadores passaram a olhar para o céu em busca desse segundo satélite da Terra. Os relatos dessa segunda lua falavam de um corpo nebuloso ou nuvem de poeira, difícil de identificar, somente podendo ser observada nas noites de Lua Nova e em posição diretamente oposta ao Sol. Em 1898, o Doutor George Waltemath, de Hamburgo, comunicou ter descoberto um sistema de pequenas luas da Terra, fornecendo elementos orbitais de uma delas, predizendo que passaria em frente ao Sol em fevereiro de 1898. Em 1918, Sepharial, um astrólogo de renome, começa a fazer investigações a respeito dessa lua de Waltemath, chamando esse satélite hipotético de Lua Negra ou Lilith, interpretando-a como um satélite escuro, obstrutivo e fatal, abrindo um novo campo de pesquisa para os astrólogos. Com os elementos orbitais de Waltermath, calculou suas efemérides para uso astrológico. Quando os primeiros satélites artificiais foram lançados em 1957 e 1958, porém, se verificou que aquilo que se consideravam luas terrestres, na verdade, eram meteoroides que tocam a atmosfera superior e perdem velocidade, fazendo com que alguns deles entrem em órbita, com um número de revoluções entre uma e cem, por um máximo de tempo de 150 horas. É possível que aquilo que Petit e Waltermath avistaram se referisse a um desses satélites efêmeros (obrigada Dani Rossi).

Mas antes mesmo dos satélites artificiais acabarem com a ilusão de outra lua orbitando nosso planeta, os astrólogos começaram a pesquisar a Lua Negra através do apogeu lunar, conforme proposto por Don Néroman, fundador do Collège Astrologique de France em 1933 - mesma época em que Plutão foi descoberto -, e que usamos até hoje.

Vamos entender o que é esse apogeu lunar, então: a Lua descreve uma trajetória elíptica ao redor da Terra, assim como os planetas ao redor do Sol. Como a elipse possui dois pontos focais, a órbita lunar é uma elipse que tem um dos focos no centro da Terra; e o foco vazio, que coincide com o apogeu lunar verdadeiro, é a Lua Negra ou Lilith, conforme esse conceito de Néroman. A projeção do apogeu da Lua no zodíaco (Lilith) desloca-se 6 minutos e 30 segundos por dia, 40 graus ao ano, percorrendo um signo zodiacal a cada 9 meses e levando 3.232 dias para dar uma volta completa no zodíaco, aproximadamente, 9 anos.


Como Plutão e Lilith foram descobertos na mesma época, alguns astrólogos acham que a Lua Negra é a contraparte feminina de Plutão, mas a Lua Negra parece trazer para nós a distorção das forças de todos os astros: egocentrismo (Sol), mágoas (Lua), dissimulação (Mercúrio), luxúria (Vênus), agressividade (Marte), exagero (Júpiter), rigidez (Saturno), rebeldia (Urano), ilusão (Netuno), sede de poder (Plutão). Um verdadeiro instrumentum diaboli essa menina, não? Na prática o que observamos é que todas as distorções que não conseguimos aceitar e elaborar conscientemente nas áreas em que atuam os outros astros irão se manifestar no ponto onde encontramos nossa Lilith, principalmente do regente do signo em que ela está. Isso pode ser tão perturbador quanto um sonho erótico para um celibatário, pois obriga a um questionamento a respeito de quão dignos somos de nossas escolhas conscientes.

A Lua visível e a Lua Negra estão diretamente conectadas, assim como Lilith e Eva. A Lua precisa do princípio masculino representado pelo Sol para ser vista, assim como Eva precisou da costela de Adão para vir ao mundo. A Lua em nosso mapa representa exatamente a nossa importantíssima capacidade de adaptação ao mundo, de criar vínculos afetivos e a possibilidade de segurança emocional nessa vida. Nosso satélite se associa à imagem da Mãe exatamente porque representa a parte receptiva do processo criativo, que precisa desenvolver cuidado e confiança na Vida para que o novo possa amadurecer e vir ao mundo. Mas quando nossa receptividade lunar, que se entrega ao princípio ativo com confiança e alegria, se distorce em medo, paralisia, estagnação, vício e dependência, teremos problemas sérios. É então que precisamos reverenciar nossa Lilith, mesmo que nos pareça um impulso demasiado primitivo e incivilizado. Não para tornarmo-nos histéricos malucos que saem matando e vampirizando, além de comer criancinhas, como falam algumas lendas que demonizam Lilith, mas porque, como nos ensina o Guia do Pathwork, “todos precisam fazer contato com a sua crueldade, brutalidade, sadismo, sede de vingança e malícia oculta para aprender realmente a superar essas emoções destrutivas, vendo-as, entendendo-as e aceitando-as. Só então podem convencer-se genuinamente de que não há necessidade da destrutividade. Enquanto a destrutividade não é encarada, fica faltando essa convicção e ela é contida principalmente por se temer a retribuição e outras consequências. Somente quando se tem a coragem e honestidade de ver e aceitar totalmente as emoções e desejos danosos do interior, apenas quando estes são completamente compreendidos e avaliados é que se pode ver, sem sombra de dúvida, que eles são supérfluos como defesas e que não servem a nenhum outro propósito.” (PW 169). Esse é o caminho para integração de Lilith.

Quando analisamos a Lilith astrológica olhamos para um ponto totalmente insensível a vitimismo, imaturidade emocional ou sentimentalismos de novela. Aqui temos o foco vazio da órbita lunar, e por isso associado a sentimentos de falta, de perda, de ausência, de frustração, de coisas insatisfatórias que precisam ser bem compreendidas para que haja realmente integração. Quem pode nos orientar de maneira muito boa nesse caminho é Carl Gustav Jung, que possuía uma forte Lilith sagitariana em conjunção com o Meio do Céu e em oposição a Plutão. Jung diz que um dos primeiros passos rumo à individuação – processo de nos tornarmos quem somos interiormente –, de maneira geral, é o confronto com nossa Sombra, pois ao abordarmos o inconsciente a partir de nossas próprias raízes psíquicas, não vamos nos deparar com nenhuma “luz interior”, mas com uma espessa camada de conteúdos pessoais reprimidos. Isso representa, ao menos para nós criados em uma cultura ocidental, um conflito moral doloroso. Como ele mesmo relata em suas “Memórias, Sonhos e Reflexões”: “nada pode nos poupar o tormento da decisão ética. Não obstante, por mais duro que possa soar, devemos ter, em algumas circunstâncias, a liberdade de evitar o bem moral conhecido e de fazer o que é considerado mal se nossa decisão ética assim exigir.” Para isso é necessário muito autoconhecimento, que revela à pessoa o que há nela de luz e de trevas. Isso é precisamente o que as pessoas desejam evitar, pois parece melhor projetar o mal em outra pessoa, nação, religião, classe, etc. Onde temos Lilith, essa projeção traz sofrimento e exige responsabilidade, ou, como diz Marie-Louise von Franz (C. G. Jung, Seu Mito em Nossa Época): “o malfeito, pretendido ou pensado, se vingará em nossa alma: o ladrão rouba a si mesmo, o assassino mata a si próprio.”

Existem duas maneira de se representar a Lilith no mapa. O mais comum nos programas de computador é um circulo com uma lua minguante dentro, mas o mais significativo é esse:


Que mostra uma ligação muito interessante com este, de Saturno:



Tanto Lilith quanto Saturno compartilham a fama de malignos e de criadores de frustração. Para mim, Lilith tem significado muito mais como lado feminino de Saturno do que de Plutão. Para apaziguar Lilith é preciso dos mesmos recursos usados para Saturno: seriedade, responsabilidade e paciência. Assim como Saturno quando trabalhado e integrado nos traz estrutura e autoridade internas que nos permite enfrentar com maturidade as aventuras da vida, a integração de Lilith nos traz a possibilidade de experimentar por inteiro a aventura de ser vivo, de se entregar à vida com maturidade e consciência.

Desde muuuuuito tempo o prazer feminino tem sido associado a algo ruim e não civilizado, inclusive relatos médicos da Idade Média pregavam que o orgasmo feminino prejudicava a concepção de filhos. O rótulo adotado para as pessoas com doenças psicossomáticas em geral e descontroladas em particular como histéricas – do grego hysterikós, relativo ao útero – já fala o suficiente sobre isso. Lilith traz a humanização do feminino. Durante os últimos nove meses, com a passagem de Lilith pelo signo de Touro, milhares de mulheres, com o maravilhoso apoio de muitos homens, foram às ruas mostrando peitos, barrigas e pernas para exigir respeito, cuidado e responsabilidade. Essa postagem é minha pequena homenagem a elas e também uma homenagem à minha Lilith, que, assim como Saturno, tem me mostrado um caminho de integridade.

Salve Lilith! Salve Nanã, Yemanjá, Oxum e Yansã (salve Lucia Cordeiro!)! Salve Eva, Maria e Madalena! Porque Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Parte da Fortuna II - A Missão


“O Reino dos céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo.”
Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – 13.44

         A primeira coisa para a qual temos que olhar quando se quer entender a nossa Fortuna, é para a fase de lunação em que nascemos, ou seja, se era Lua Nova, Cheia, Minguante ou Crescente quando chegamos. Lembrando: Lua Nova é conjunção de Sol e Lua, Lua Cheia é oposição dos Luminares, Minguante é a quadratura (distancia de 90°) que acontece antes da conjunção e a Crescente a quadratura que acontece depois.

         Se você nasceu durante uma Lua Nova, quando colocar o Sol no Ascendente, a Lua irá junto, e dependendo da exatidão da conjunção, a Roda estará em conjunção mais ou menos exata com o Ascendente, às vezes na casa 12 às vezes na casa 1. Como o Ascendente mostra a forma como chegamos ao mundo e como buscamos nossa maneira mais pessoal e subjetiva de expressão, esse Lot traz exatamente a possibilidade de se encontrar a alegria de ser quem se é. Quanto mais compreender a si mesmo e quanto mais desenvolver sua visão única do mundo, mais alegria e satisfação com a vida. Isso é resultado de uma utilização positiva da união entre Sol e Lua, onde as memórias e vínculos lunares servem para enraizar e alimentar esse Sol, que por sua vez aquece e ilumina essa Lua de modo que ela possa deixar no passado aquilo que não interessa mais no processo de desenvolvimento da pessoa. Isso significa aprender a olhar para si em vez de ficar se identificando o tempo todo de maneira subjetiva com o mundo externo, que muitas vezes é absolutamente impessoal, mas a pessoa vira e mexe reage emocionalmente como se aquilo dissesse respeito a si, como se o mundo estivesse olhando para tudo que está acontecendo dentro de sua vida. Isso pode se tornar um obstáculo para a criação de uma identidade pessoal, e geralmente é preciso um bom tanto de maturidade para começar a aproveitar esse Lot de Fortuna.

         Se você nasceu durante uma Lua Cheia, o Lot da Fortuna irá fazer conjunção com a casa 7 - mesmo estando no final da casa 6 -, criando um conflito aqui com o Ascendente que reflete o conflito entre os Luminares. As personalidades desenvolvidas através de uma Lua Cheia, em geral, sentem que têm um pé no passado e precisam corresponder àquilo que acham que as pessoas esperam delas, e um pé nas realizações presentes, naquilo que realmente querem ser e fazer da própria vida. A Parte da Fortuna na casa das associações faz com que as parcerias (afetivas, de negócios, etc.) habilitem a pessoa a resolver esse conflito interno aprendendo a dar e receber de maneira justa, pois se percebe muito claramente que o excesso de um ou do outro em qualquer parceria é destrutivo quando se busca completude. Essa parece ser a base mais importante para se ter um casamento feliz, em qualquer nível, já que o Outro não é alguém para salvar ou para ser salvo, mas alguém que realmente pode te acompanhar pelo Caminho em igualdade de condições.

         Quando se nasce durante uma Lua Minguante ou Crescente, o Lot normalmente estará no Meio do Céu ou no Fundo do Céu, fazendo conjunção com a cúspide da casa 10 ou da casa 4. Mas dependendo do processo de dominação (divisão de casas) que você utiliza, pode ser que ela esteja na casa 9 ou na casa 3, como acontece algumas vezes para quem usa o método de Placidus, que é o mais popular. De qualquer maneira, a Roda estará enquadrando com o Ascendente mesmo que o MC e o FC não o façam, e assim retomando esse conflito entre os Luminares. Personalidades “minguantes” e “crescentes” normalmente acreditam que para se relacionar afetivamente têm que abrir mão de serem quem são, ou então que têm que abrir mão de seu passado, de suas origens e mesmo de vínculos afetivos muito fortes para se desenvolverem como indivíduos. A quadratura traz um impulso muito poderoso de auto superação, e isso é possível quando a pessoa entende que seus esforços têm que ser direcionados para seu desenvolvimento e não para a tentativa de provar que se é merecedor de atenção e/ou aceitação. Quando a Parte da Fortuna aparece na casa 4, as inadequações sentidas quando se é pequeno precisam ser aceitas e usadas como força para se ser aquilo que se é, e consequentemente se encontra a aceitação da Vida como um todo exatamente como ela é. Quando a Fortuna está no MC, a autoridade que parece barrar o desenvolvimento pessoal tem que ser encarada como mestre que encaminha a pessoa obrigatoriamente para a realização dos seus potenciais únicos para se libertar. Nesse trabalho de buscar o próprio potencial apesar das tempestades que parecem impedi-lo, a Roda da Fortuna começa a girar de modo a criar na vida pessoal a abundância e satisfação por ser quem se é e realizar algo significativo com sua vida.

         E já que estamos falando de relacionamentos entre Sol e Lua, não vamos nos esquecer do Trígono, (distância de 120°) entre os Luminares, que fará a Roda da Fortuna estar nas casas 5 ou 9, que são as duas casas além do Ascendente que falam da construção da nossa personalidade. Essa relação traz também um Trígono entre o Lot da Fortuna e o Ascendente que reforça a nossa maneira de ser no mundo. A facilidade de expressão representada pelo Trígono fazem com que a Roda da Fortuna na casa 5 traga mais força para a vontade de criar e na casa 9 mais benefícios para a personalidade através de inspirações e propósito de vida. Esse posicionamento da Parte da Fortuna geralmente se associa a golpes de sorte na vida, pois o Trígono nos mostra circunstâncias que muitas vezes estão em um nível inconsciente, mas que a pessoa aceita e colabora, pois não tem necessidade de controle e confia na vida. Fica mais fácil mesmo quando conseguimos ver  um propósito para nossa vontade e inspiração de modo a sustentar nossa vida e alimentar nossa personalidade. Esse Lot traz alegria e satisfação para o desenvolvimento de nossa vontade interior e para aprender as lições que a vida traz.

Agora vamos abrir o Boteco e dar uma passada na Parte da Fortuna através dos Signos. Lembrando que aqui vão apenas algumas imagens e dicas básicas para você pensar sobre o Lot que a Fortuna te reserva, ok? Para entender a casa onde está sua Fortuna, vale buscar a analogia entre signo e casa, ou seja, se seu Lot está na casa 2, dê uma lida em Touro, se na 3 em Gêmeos, etc., que sempre trazem algumas luzes para compreender a área de atuação desse ponto do mapa.

Lot em Áries
Esse é um Lot cheio de energia vital, e quando se conecta a ele, a pessoa é capaz de enfrentar e vencer os obstáculos que aparecem na sua frente se divertindo no processo. O problema aqui é conseguir focar sua energia em metas pessoais e ter independência com relação à opinião e às dificuldades dos outros. É comum a pessoa ter empatia com relação àqueles que não conseguem tomar decisões e agir, além de perceber com clareza quando os outros estão sendo insinceros por medo, e querer ajudar, o que só o desvia do caminho. Quando a pessoa consegue acreditar no valor dos próprios desejos de realização, é possível se libertar da influência das vidas das pessoas que lhe são próximas, criando uma unidade entre sua mente e sua vontade. Quanto mais fluir em direção a essa meta, mais satisfação com a vida pode trazer essa Parte da Fortuna.

Lot em Touro
A Fortuna taurina é baseada na habilidade em sustentar e desenvolver a substância da vida em algo sólido e duradouro seja em suas conquistas materiais seja nas afetivas. Para isso é preciso usar a consciência de que a vida em si tem uma imprevisibilidade e instabilidade inerente, e que há coisas que devem morrer para serem transformadas. Só assim é possível perceber o que é eterno de verdade e construir algo que realmente sustente sua existência de maneira profunda e feliz. Essa possibilidade de conquistar a alegria de estar vivo em um corpo físico em um mundo material dada pela Roda da Fortuna em Touro precisa, em primeiro lugar, aprender a deixar de lado a possível insatisfação que as pessoas ao seu redor sentem com a própria vida, para então poder aceitar e se entregar à possibilidade de vida bela, amorosa e pacífica que deseja e que pode conquistar.

Lot em Gêmeos
A alegria de poder se comunicar com tudo o que o cerca, juntando novas compreensões de tudo que encontra, percebendo as múltiplas facetas da vida que frequentemente se contradizem, que possibilita a pessoa agir e reagir rapidamente às mudanças que ocorrem na própria vida, é a felicidade prometida por essa Parte da Fortuna geminiana. Para isso é necessário um trabalho consciente em não julgar aos outros, de não se identificar com a autoridade de um juiz que o afasta de uma relação de camaradagem com o mundo ao seu redor, possibilitando o desenvolvimento dessa habilidade em lidar com a realidade imediata, com o aqui/agora, com todas as suas limitações e circunstâncias temporárias. O prazer e a alegria de se viver em um mundo em eterna mudança e saber aproveitar essa liberdade são as delícias desse Lot.

Lot em Câncer
A alegria de dar nascimento ao novo, seja qual for a sua manifestação, é a grande possibilidade de satisfação dada por essa Roda da Fortuna. A promessa de entrada no Reino dos Céus para aqueles que voltarem a ser crianças, pode ser alcançada por esse Lot se a pessoa conseguir se distanciar da demanda por concretização “correta” que percebe ao seu redor. O cuidado com aquilo que está nascendo ou crescendo não depende daquilo que surgirá quando chegar à maturidade, por isso quando somos pequenos podemos ser professor e astronauta ao mesmo tempo, casar e ter 12 filhos e ir dançar todas as noites com o príncipe encantado. O respeito amoroso para com esse potencial nascente é determinante para o resultado da sua maturação. A proximidade com a natureza pode ajudar nisso, pois é fácil observar a maneira integradora com que o cuidado dos pequenos gera a fortaleza dos grandes. Poder existir de uma maneira simples e vigorosa como uma criança, mas com a consciência da alegria e prazer de se poder alimentar generosamente tudo aquilo que o cerca – inclusive a si mesmo – é a Parte da Fortuna canceriana.

Lot em Leão
O prazer de criar a si mesmo, dando ao mundo o seu melhor, é a promessa de satisfação do Lot leonino. Para isso é preciso abrir mão da sensibilidade a respeito do que o resto da Humanidade pensa a seu respeito e se focar mais no próprio ideal daquilo que se quer ser. Então toda dificuldade externa de expressão virá acompanhada com maior força para afirmar internamente a própria vontade, alimentando o valor de quem se é, possibilitando que a pessoa desenvolva a sensibilidade para ver que sua generosidade, suas ambições pessoais e suas metas o estão levando pelo caminho correto. Honra, dignidade, prestígio e respeito são presentes derivados dessa Roda, cuja verdadeira satisfação vem da auto realização, de criar em si os valores nobres que acredita mais profundamente seu Ser, independente do que se vive exteriormente.

Lot em Virgem
A possibilidade de dar uma finalidade útil para tudo que existe em sua vida é a deliciosa promessa desse Lot virginiano, seja através de habilidades manuais, mentais e/ou emocionais. Sobras de comida da geladeira que se transformam em banquetes, latas velhas que se transformam em esculturas, ideais ultrapassados que ganham atualidade, sonhos desfeitos que se transformam em novas esperanças são possibilidades inerentes a essa Roda, que consegue juntar coisas aparentemente desconectas de maneira a lhe dar sentido, eliminando fatores externos desnecessários através da experiência de simplicidade de um pensamento claro. Para isso é preciso que a pessoa pare de se preocupar com as confusões mentais e emocionais que a cercam e aprenda a desfrutar da capacidade de perceber a vida e o mundo de uma maneira prática e presente, atuando no mundo concreto e trazendo para a matéria novas possibilidades de organização para a Vida.

Lot em Libra
O Lot libriano traz a imensa alegria de dividir a existência humana com outro ser de maneira equilibrada e harmônica. Para isso é necessário entender que toda ação gera uma reação, que toda associação significa o equilíbrio entre duas individualidades com vontades próprias. A Roda da Fortuna aqui significa a satisfação em poder observar de maneira impessoal as relações que são estabelecidas de maneira a entender como essa associação pode se realizar de maneira harmônica e prazerosa. Então o senso de Justiça libriano pode atuar através do Lot da Fortuna, equilibrando os sentimentos e as experiências de modo a encontrar paz nas relações, fluindo na vida junto com as pessoas às quais se associa de modo a dar e receber com igualdade.

Lot em Escorpião
A força de Escorpião vem da sua capacidade de ir além das belas aparências e encontrar as verdades escondidas, e essa Parte da Fortuna traz o prazer de enxergar o que precisa ser derrubado para que a verdade seja trazida à superfície, juntamente com a alegria de fazer picadinho daquilo que estava lá só para se ficar bem no filme. É fácil perceber que essa não é das Fortunas mais populares. Atire a primeira pedra quem não convive com pequenas mentiras que garantem alguma falsa segurança confortável ou uma harmonia aparente pela vida. Para que essa Roda possa girar a pessoa tem que aprender que aquilo que é real não pode ser destruído, e então aprender a fluir através dessa realidade mais profunda e intensa. Isso significa ter confiança em forças muitas vezes desconhecidas e invisíveis que podem inclusive contradizer aquilo que mostra a aparência. Essa Parte da Fortuna traz a possibilidade de se trabalhar ativamente na construção de uma vida verdadeiramente mais segura e pacífica, e, portanto mais íntima, pois confiável, já que não se tem medo de enfrentar aquilo que pareça feio, mau, incorreto ou desagradável. É muito mais fácil a existência sem ficar acumulando fantasmas no armário.

Lot em Sagitário
O Lot sagitariano faz com que novas experiências, paisagens e conhecimentos tragam mais alegria e satisfação para a própria vida. Quanto mais a pessoa entende que a vida pode ser abundante e feliz, mais naturalmente isso passa a ser experimentado. Para isso é preciso parar de se preocupar tanto com aquilo que as outras pessoas pensam e experimentam em suas vidas particulares, e perceber que muitas vezes o que vivemos em nossa existência não é compartilhável com aqueles que convivemos. Se conseguir superar a frustração de não ver a si mesma através dos olhos dos outros, a Fortuna poderá mostrar à pessoa que não há um objetivo na vida, que todas as direções tomadas levam ao centro, que qualquer lugar onde se pendure o chapéu (essa expressão é antiga, hem?) é seu lar, qualquer maneira que se ganhe a vida é boa, que quem estiver em sua companhia é seu amigo, e assim se vive em contínua expansão, quase a despeito de si mesmo. E assim, a vida vai se tornando cada vez mais ampla e significativa. Felicidade não é algo que possamos transferir para outra pessoa, mas isso não pode impedir quem tem essa Parte da Fortuna de acreditar na sua própria.

Lot em Capricórnio
Tudo que envolve Capricórnio precisa de tempo para se realizar, pois envolve uma estruturação que vai além do indivíduo. Para que essa Roda comece a girar é preciso desenvolver paciência, principalmente para consigo mesmo. O prazer de um Lot capricorniano está em construir sua vida com as próprias mãos, e isso significa trabalhar duro para superar as limitações impostas pela origem familiar e criar um projeto pessoal de existência. Para isso é preciso desenvolver habilidade e força através de suas experiências de vida, de modo a se capacitar a liderar a si próprio, independente das situações e circunstâncias externas. Com a maturidade a pessoa pode perceber que tudo em sua vida o levou para um objetivo que se torna cada vez mais claro, que nada em sua vida foi para distraí-lo ou desviá-lo, que tudo pode ser encaixado em um plano maior. Esse plano só pode se revelar depois de entender que o envolvimento com a negatividade emocional daqueles que o cerca só o deixa confuso e enfraquece seu autorrespeito, já que não há como salvar outras pessoas de seus próprios sentimentos, de suas próprias vidas. Apesar dessa Parte da Fortuna geralmente demorar bastante para se manifestar conscientemente, o desenvolvimento interior que ela permite  não depende de sorte ou de ajuda externa, e por isso pode trazer uma satisfação duradoura e poderosa.

Lot em Aquário
A alegria do Lot aquariano vem de compreender a enorme benção que é poder compartilhar essa vida humana preciosa, como dizem os budistas. Para isso a pessoa precisa começar a perceber que mesmo que cada individualidade – inclusive a sua – tenha vontade própria, não é preciso se envolver com os princípios pessoais dos outros para se viver a própria vida, o que leva à quebra dos preconceitos e do julgamento a respeito de como os outros devem levar a própria vida. Isso abre o horizonte pessoal permitindo que novas ideias e modos de ver o mundo estimulem seu espírito inventivo e a originalidade de perspectivas ao direcionar a própria vida. A existência passa a ser algo incrivelmente interessante, onde se quer saber de tudo a respeito do Homem, do Mundo, do Universo, em um incessante prazer por estar vivo e desenvolver a própria humanidade. Uma incrível liberdade pode fazer parte da vida da pessoa com essa Roda girando, e quase nada pode abalar essa vida onde há espaço para aceitar qualquer acontecimento como válido. Isso leva à alegria de conscientizar-se de tudo que pareça diferente em si mesmo, qualificando todos os seus desejos e ideias únicos, entendendo que assim como a Humanidade, a pessoa também se encaminha para uma maior consciência da vida e do universo.

Lot em Peixes
Com um Lot pisciano temos a promessa divina de se sentir em unidade com tudo o que o cerca, de viver em sintonia com toda a Vida por baixo de qualquer manifestação material. Claro que isso implica em conseguir se desligar das cobranças externas de que se deve planejar e objetivar a própria vida, o que não é simples nem fácil na sociedade em que vivemos, principalmente quando se é muito jovem. Acreditar nos próprios sonhos e desejos, por mais quiméricos que pareçam para os outros, é que permite essa Roda começar a girar, até que a pessoa perceba que tudo aquilo que ela imagina acaba se tornando realidade, e assim criar confiança no fluir suave através das experiências da vida. A Parte da Fortuna em Peixes significa a vantagem de saber que a vida, as ideias e todas as limitações humanas são apenas aparentes, e que é possível existir nesse mundo através da alegria e do amor de uma verdade maior e mais profunda. Essa parece ser a maior alegria e felicidade que um ser humano pode alcançar.

domingo, 27 de maio de 2012

Parte da Fortuna


“Desistam de viver superficialmente no sentido de satisfazer o mundo em vez de corresponder às suas próprias expectativas. Não vivam para manter as aparências em nenhuma área da sua vida. Vivam de acordo com a verdade e a realidade. Enfrentem todos os problemas na sua totalidade”
Palestra Pathwork 095

Esse é um dos elementos que herdamos das chamadas Partes Árabes, que eram muito usados na Antiguidade para entender o destino humano. Na verdade ficamos conhecendo esses elementos através dos gregos, sendo que os escritos mais antigos a respeito vêm do lendário Hermes Trimegistus. Aliás, a maioria das coisas que herdamos anteriores à Idade Média são creditadas a esse sábio mitológico. O Lot da Fortuna, como era chamado, muitas vezes se confunde com a Roda da Fortuna, apesar desse nome estar muito mais próximo ao Arcano 10 do Tarot, que fala dos altos e baixos do destino - geralmente significando mais os baixos que os altos -  e que tem uma conotação de movimento negativo e brusco - mas necessário -, que pode trazer instabilidade e inércia. Como diz Renata Freitas: “(...) a Roda é uma influência fatídica e irreversível, que nada ou ninguém pode deter e seu curso não poderá ser conhecido com antecedência”. Ui, durma-se com uma carta dessa na cabeça! Isso tem muito a ver com a Deusa da Fortuna (Tique para os gregos) que trazia a boa e má sorte aos homens e que foi cultuada principalmente em épocas de bastante turbulência, violência e sofrimento, como nos anos de disputas pelo poder dos herdeiros de Alexandre, o grande, ou durante a decadência de Roma, no processo que transforma o cristianismo em religião oficial do Estado. Não é a toa que os poetas gregos se referiam a essa senhora como uma “meretriz inconstante”, cheia de poder e caprichos. Mas gregos e romanos nunca foram muito bons para entender o feminino...

A Parte da Fortuna astrológica não é isso, apesar de conter algumas qualidades de sua irmã do Tarô. A Parte da qual falamos aqui é aquilo que ganhamos com a realização de nossas vidas, a “parte que te cabe desse latifúndio”, para usar uma frase joãocabraldemelodiana. A idéia de Fortuna desse elemento astrológico está muito mais próxima do que entendemos atualmente quando nos referindo àquilo que mundanamente podemos desejar, como sucesso, posses, prestígio. Essa posição do mapa astral está diretamente conectado com os desejos lunares de realização, e com os quais sonhamos em ter num paraíso se fizermos tudo direitinho, só que recebendo aqui na Terra mesmo. Bacana, né? Agora que consegui sua atenção e você foi ver onde está sua Parte da Fortuna, vamos ver o que temos aqui de verdade.

Encontramos a Parte da Fortuna através de cálculos bem simples. Primeiro você localiza seu Sol, sua Lua e seu Ascendente e calcula a distância em graus entre seu Sol e sua Lua. Então você coloca o Sol em conjunto com seu ascendente e verifica onde estaria a Lua, respeitando a distância entre esses astros no mapa natal. Esse é o lugar da Parte da Fortuna. Exemplo: um Ascendente a 27° de Aquário, um Sol a 19° de Câncer e uma Lua a 17° de Gêmeos. A distância entre esse Sol e essa Lua é de 28° para frente (lembrando que cada signo tem 30°), então se colocarmos o Sol a 27° de Aquário, que corresponde ao Ascendente, a Lua estaria a 25° de Peixes. A Parte da Fortuna seria esse ponto lunar, em 25° de Peixes. Se você se confunde com números, é só ir no desenho do seu mapa e ver onde está este símbolo:

 
A Lua é quem nos ensina a criar vínculos com esse mundo desde que nascemos. Através dela é que aprendemos a sobreviver e a nos relacionar afetivamente com a vida, onde descobrimos a possibilidade de sermos receptivos, onde recebemos nosso alimento físico, emocional e mental para crescermos nessa existência. Assim como o Ascendente nos mostra o melhor caminho para expressar o Sol, a Parte da Fortuna nos mostra os instrumentos para construir um abrigo seguro para a Lua. Por isso muitas vezes vemos explicações sobre o Lot da Fortuna dizendo que ele é o Ascendente lunar. O nosso Ascendente natal é o ponto que deve expressar quem somos, e nesse sentido tem que ser a porta de todos os elementos do nosso mapa. Mas ele é encontrado a partir dos movimentos solares, e isso significa que nosso Sol deveria ter prioridade na hora de manifestar nosso Ascendente, pois é esse Luminar que traz nossa consciência de sermos únicos e encara o difícil processo de individuação que precisamos realizar. Mas não é bem isso que acontece na prática. A Lua, exatamente por ter essa força de nos mostrar a melhor maneira de sobreviver nesse nosso planetinha azul, muitas vezes acaba dominando o Ascendente em detrimento da expressão solar, principalmente quando temos dificuldades em lidar com situações externas. Resultado: o Ascendente se transforma em uma fachada voltada para aquilo que os outros esperam de nós, preocupado em amenizar nossos sentimentos e tornando nosso caminho muito frágil. Ao colocarmos o Sol em conjunção com o Ascendente estamos reforçando sua importância, colocando a essência da pessoa - com todo seu poder e vitalidade - na frente da personalidade. O ponto que se encontra a Lua nessa nova configuração irá mostrar exatamente onde a Lua poderá atuar de maneira a utilizar seus dons para auxiliar o caminho solar em vez de abafá-lo. Assim sendo, a Parte da Fortuna representa onde a pessoa terá grandes benefícios por ter equilibrado Sol, Lua e Ascendente. É nesse sentido que se diz que o Lot da Fortuna representa o lugar onde iremos encontrar Abundância, Sucesso e Riquezas.

Na verdade a Parte da Fortuna possui muitos dos nossos segredos pessoais mais íntimos. Nesse ponto temos nosso conceito único e pessoal de sucesso, aquelas coisas que intimamente gostaríamos de ser e de ter, e que temos necessidade de maneira bem forte e ideal. É a realização desses desejos mais íntimos que nos promete o Lot da Fortuna.

Apesar de podermos contar com a Sorte na posição da nossa Parte da Fortuna, o que percebemos é que na prática ela depende muito do nosso esforço em harmonizar quem somos. Isso é coisa de gente grande, e depende bastante do nosso auto conhecimento e da nossa honestidade conosco mesmos. Assim, se você se mostra como um homem que ostenta símbolos de sucesso financeiro, que acumula vários casamentos e divórcios, do tipo garanhão que não se envolve emocionalmente mas tem sempre uma gata a tira colo nas festas mais badaladas, mas possui uma amorosa Parte da Fortuna de casa 4 ou em Câncer, por exemplo, vai precisar primeiro reconhecer esse desejo antes de conseguir ver as coisas boas que esse Lot te presenteia durante a vida. Mesmo que seus amigos te digam muitas vezes que sua vida é o máximo, esse desejo íntimo de algo muito diferente não vai ficar quieto enquanto não for ouvido. Essa não é uma tarefa fácil. Na Lua temos nossas lembranças de infâncias, nossos hábitos e valores herdados, nossos traumas e alegrias, nossos vínculos amorosos e nossas perdas emocionais. É a Lua que nos leva à terapia ou ao astrólogo, ao SPA, ao grupo de meditação ou ao AA. O ideal é que nossa Lua seja um ponto fluido do nosso mapa, onde somos receptivos ao mundo ao nosso redor, metabolizando o que nos acontece de maneira a ampliar nossos valores e habilidades, harmonizando nossos relacionamentos, nos vinculando à vida que há para além de nossa mãe e assim aprendendo a nos alimentar mais e melhor em todos os sentidos. Se você conseguir encontrar alguém que pode dar esse SIM pleno à Vida, que consegue estar de acordo e buscar o melhor de tudo que acontece na própria vida, você encontrará também alguém que desfruta plenamente de toda a Fortuna que essa Parte é capaz de fornecer para a existência de um ser. Mas o mais comum é que a Lua se transforme muitas e muitas vezes em um depósito de mágoas, com valores fixados em pedra para a vida toda, em justificativas para nossas defesas emocionais e busca por tentar controlar a vida em vez de ser receptiva a ela. A Lua tem uma importância muito grande na resolução dos nossos problemas, pois nossas atitudes são baseadas principalmente aos nossos valores lunares, e elas determinam nossas perspectivas de vida.

Quando entendemos mais profundamente nossa Parte da Fortuna conseguimos focar as nossas dores emocionais de maneira a ir em busca de sua cura, pois deslumbramos a possibilidade de ser muiiiiiiiiito feliz, e não meio feliz, ou conformado com aquilo que se tem. Um bom uso de nosso Lot da Fortuna é como cenoura em frente ao nosso lado mais resistente à vida, que empaca quando as coisas não são como achávamos que deveria ser. Aos poucos, trabalhando nossas carências lunares, vamos realmente podendo usufruir de tudo isso que simboliza esse ponto sensitivo e bacana do nosso mapa. As promessas e recompensas da nossa Parte da Fortuna não são vazias ou feitas de ilusões, mas sim possibilidades reais de plena felicidade íntima.

Pra variar essa postagem também está ficando enorme e eu ainda nem comecei... Na próxima falarei mais especificamente das localidades do Lot da Fortuna no mapa, ok? E prometo não levar 9 meses para parir a continuação...