sábado, 15 de janeiro de 2011

Mercúrio na Sinastria - ou o que é diálogo

" Instintivamente, (as pessoas) supõem que sua própria constituição psíquica seja generalizada, e que todas as pessoas são essencialmente semelhantes às outras, isto é, a elas próprias... como se a sua própria psique fosse uma espécie de psique-matriz que servisse para todas as situações, e as autorizassem a supor que a sua própria situação fosse a regra geral. As pessoas ficam profundamente espantadas, ou mesmo horrorizadas, quando essa regra geral não se aplica – quando descobrem que outra pessoa é, na verdade, muito diferente delas. De forma geral, não consideram essas diferenças psíquicas, de modo nenhum curiosas e muito menos atraentes, mas, sim, falhas desagradáveis difíceis de tolerar, ou defeitos insuportáveis que devem ser condenados”.
C.G.Jung – Tipos Psicológicos

Aproveitando que o ano de 2011 será um ano mercuriano, vamos falar um pouco de Mercúrio nas sinastrias, na comparação de mapas. Quem sabe podemos aproveitar o ano para despertar a curiosidade e a alegria de encontrar os “diferentes” de nossa vida.

Mercúrio é um ponto importante no nosso mapa natal, apesar de sua rapidez e transitoriedade. Como nossa mente. Madame Blavatsky dizia, na Doutrina Secreta, que “Mercúrio e o Sol são um”, mostrando a unidade entre a essência, representada pelo Sol, e a função que nos permite conhecer e transmitir a essência, Mercúrio. Quando entendemos esse pequeno planeta no nosso mapa, entendemos melhor como funciona nossa mente, o que possibilita tanto aproveitar mais esse recurso valioso quanto aprender o que fazer quando nossa cabeça não para de ficar dando voltas vazias sem chegar a lugar nenhum. O objetivo de Mercúrio não é chegar a algum lugar. Mercúrio serve para recolher informações, buscar novas explicações, enriquecer nossa maneira de observar o mundo, entender aquilo que é diferente de nós e em nós e trocar tudo isso com os outros. Assim sendo, claro que é importante verificar como é o relacionamento mercurial quando a proposta é a nos entendermos com algum tipo de Outro. Muitas vezes conseguimos resolver os conflitos encontrados nos relacionamentos exatamente porque os Mercúrios estão em uma relação harmônica e entendemos a lógica com a qual o Outro funciona. Assim, podemos contornar e mesmo dissolver os nós que aparecem pelo meio da relação e que nos afasta d@ parceir@. Mas é também a terrível mania humana – e parece que todas as culturas de todos os tempos possuem essa característica em algum grau – de acreditar que a minha maneira de ver e entender a mim e ao mundo é a melhor e mais evoluída maneira de se fazer isso, que traz a maioria das Guerras e Discórdias entre pessoas e povos.

Como sempre, voltamos à base dos elementos e modalidades para entender como funciona a dinâmica astrológica. Aos estudantes e diletantes astrológicos sugiro que estudem, entendam e revejam sempre isso. Eu sempre encontro novas maneiras de estudar essa parte. (Falando nisso, vocês assistiram "O Último Mestre do Ar"? Bacana. Uma técnica diferente de arte marcial para cada elemento. E o desenho Avathar também é legal.)

Quando os Mercúrios de duas pessoas estão no mesmo elemento – Fogo, Ar, Água ou Terra – elas irão pensar e buscar informação da mesma maneira. Fogo vai querer informações inspiradas e entenderá as coisas de maneira mais intuitiva que racionalmente. Água vai buscar a lógica emocional que está por baixo da racionalidade aparente, mais obvia, e fazer um julgamento afetivo a respeito. Já Ar buscará a lógica abstrata daquilo que se apresenta, entendendo como uma idéia se combina e encaixa com outra, numa construção que possibilita a generalização dos raciocínios. Terra, por sua vez, entenderá como as idéias funcionam no mundo concreto e prático, baseado principalmente naquilo que seus sentidos físicos dizem. É fácil perceber, então, que se duas pessoas possuem Mercúrio no mesmo elemento, vai ficar mais fácil estar explicando o que se está vivendo e como se entende aquilo que é vivido, tanto no plano pessoal quanto no relacionamento, de uma maneira que o outro possa entender e pensar junto.

É bem interessante perceber como os elementos complementares atuam através de Mercúrio. Quando encontramos alguém com Mercúrio no signo oposto do nosso, essa pessoa provavelmente poderá nos mostrar outro lado do nosso raciocínio, o que é sempre enriquecedor. Claro que quando nos apoiamos demais na nossa maneira de raciocinar e pensar, alguém nos dizer que não conseguimos ver tuuuuuudo, pode ser um golpe no ego, principalmente se estamos muito entusiasmados com alguma idéia particular. E você vai sentir isso como provocação se o seu real objetivo não for um diálogo, mas a imposição da sua idéia a respeito de algo.

Fogo se complementa com Ar, e o Mercúrio em Fogo gosta de criar idéias originais. O Mercúrio em Ar vai pegar a idéia de Fogo e generalizá-la, o que a despersonaliza para colocá-la em um contexto mais coletivo. O Mercúrio em Fogo não vai achar isso divertido, mas pode ampliar seu horizonte, com um pouco de boa vontade. Já o Mercúrio em Ar vai estar envolto com as teorias e ideologias que norteiam o “bom pensar”, e o Mercúrio em Fogo vai pegar aquelas teorias e dar personalidade e ação a essas idéias todas, intuindo caminhos. Isso pode fazer com que toda a harmonia ideal dos raciocínios de Ar se veja desarrumada por tantas cores fortes e movimento, mas entender como esses ideais podem ser aproveitados de maneira mais pessoal traz muitas vantagens para o raciocínio aéreo, indo além da teoria.

Água e Terra também vão criar pensamentos complementares. O Mercúrio em Água vai estar ligado ao subtexto do que vê e conhece para poder entendê-lo, sendo muito comum que a compreensão venha através de imagens e sons. Terra vai pegar todas essas idéias emocionalmente carregadas e buscar uma aplicação prática para isso, de modo a poder utilizá-la para entender melhor a maneira que o mundo funciona. Claro que as imagens muito delirantes e as mensagens de outras dimensões podem se sentir um tanto esvaziadas quando precisam ser colocadas em prática, mas também vai ajudar a perceber o que é apenas brincadeira mercuriana e o que realmente pode ser aprofundado. O pragmatismo de um Mercúrio em Terra muitas vezes pode ser dissolvido quando o Mercúrio em Água capta a raiva, ternura, inveja ou insegurança emocional, por exemplo, que há por baixo de pensamentos e idéias aparentemente tão isentos de emoções e tão “realistas”. Isso ajuda muito o Mercúrio terráqueo a não levar seus pensamentos tão ao pé da letra e também a perceber que as idéias que se apresentam no consciente têm uma ligação direta com o mundo inconsciente. Aliás, essa é uma função bem importante de Mercúrio: trazer e levar mensagens do inconsciente para o consciente e “vice-versa-ao-contrário”.

Se a complementaridade é razoavelmente fácil de detectar e apreciar com um pouco de boa vontade – no mapa astral aparece como oposição, ou signo oposto -, as quadraturas e quincuncios costumam ser bem mais irritantes e frustrantes. Isso acontece em relação a qualquer planeta ou ângulo do mapa, mas com Mercúrio costuma nos fazer entrar em discussões bem difíceis, algumas vezes de modo compulsivo. Eles são reconhecíveis no mapa por uma distância de 90° e 150°. Terra e Água fazem esses tipos de aspectos com Ar e Fogo, e vice-versa. O negócio é mais ou menos assim: você faz uma piada maldosa sobre uma notícia no jornal e o outro começa a falar de política a sério; ou você tenta marcar um cinema e o outro pergunta se você está querendo compromisso; ou você quer falar sobre compromisso e o outro fala do jogo du coríntia no domingo; ou se planeja uma viagem juntos e um quer ir conhecer as maravilhas exóticas da Índia e o outro sonha com a maravilhosa civilidade da água de torneira da Holanda. Acordar no dia seguinte da balada ao lado daquele gostoso que você descobre ter perdido o cérebro ou da frágil Barbie que se levanta sendo professora titular da Sorbonne e falando em aramaico, pode ser um tanto chocante, mas depois acaba se transformando em uma história divertida para compartilhar com amigos – também conhecidos como “aqueles que realmente me entendem”. Mas se a coisa já passou dessa fase, é bom prestar mais atenção no que se escuta e no que se fala com uma relação conflituosa desse tipo entre os Mercúrios. Principalmente se a relação não for romântica, no sentido popular, mas se tratar de um pai/mãe com filho/filha, ou com sócios de negócios ou com algum chefe ou subordinado no trabalho.

Um Mercúrio em Ar privilegia o mundo das idéias em sua compreensão do mundo e de si, e estabelece as diferenças entre “isto” e “aquilo”, pesando uma coisa contra a outra, classificando informações e possibilitando uma avaliação impessoal das coisas e situações. O Mercúrio em Água estará interessado em todo o espectro do mundo do sentimento, desde suas partes mais claras até as profundezas mais escuras, já que no sentimento não há distinções baseadas em princípios “certos” ou “errados”, isto ou aquilo. Em Fogo, Mercúrio se encanta com os infinitos caminhos que a mente pode seguir, e estará sempre construindo sua compreensão exterior a partir daquilo que sua mente experimenta interiormente. Quando em Terra, Mercúrio estará curioso a respeito daquilo que existe no mundo concreto, principalmente sobre aquilo que chega até seu corpo físico desde fora, e costuma também fazer seus raciocínios mais apurados através de fatos que lhe acontecem. Se cairmos em uma discussão para saber qual o raciocínio “melhor” ou mais “evoluído”, tudo irá travar e não chegamos a lugar nenhum. Esse é um antigo e eficiente truque de Mercúrio para perdermos ao outro e a nós também. Quando você entrar em alguma discussão que parece não ter fim, ou em uma mesma conversa que fica se repetindo e repetindo – muitas vezes consigo mesmo – talvez seja bom lembrar que estamos em um sistema comandado por uma estrela de quinta grandeza, na periferia de uma galáxia menor. Não dá para saber tudo. Simplesmente não dá. Muitas vezes, mesmo prestando muita atenção, nós realmente não conseguimos entender o que o outro quer nos comunicar. Se aceitarmos isso, podemos compreender que há momentos em que o outro também não vai entender nada do que estamos falando, mesmo prestando atenção naquilo que dizemos. Esse desconcertante momento de reconhecimento da própria ignorância pode ser o começo de uma verdadeira e mais profunda compreensão, de si, do outro, do mundo, da vida. Muitos amigos músicos que compõem me disseram que a música começa no silêncio. Talvez aqui seja a mesma coisa.

terça-feira, 23 de março de 2010

Sinastria 2 - Comparando Sol e Lua

“Se atacas o erro noutra pessoa, ferir-te-ás. Não pode conhecer teu irmão quando o atacas. O ataque é feito sempre a um estranho. Fazes dele um estranho porque o percebes erroneamente e, assim, não pode conhecê-lo. Tu temê-lo porque fizeste dele um estranho. Percebe-o corretamente para que o possa conhecer. Não há estranhos na criação de Deus. Para criares como Ele criou só podes criar o que conheces e, portanto, aceitas como teu. Deus conhece Suas crianças com perfeita certeza. Ele criou-as pelo fato de conhecê-las. Ele reconhece-as perfeitamente. Quando elas não reconhecem umas às outras, elas não O reconhecem.”
Um Curso em Milagres

A sinastria geralmente é buscada porque encontramos um Outro que queremos que faça um Nós conosco. Sócrates ensina isso a Fedro quando lhe diz que o Amor é a capacidade que temos de reconhecer nos olhos do Outro o deus que habita nossa alma. Nenhum relacionamento está fadado ao sucesso ou ao fracasso de antemão, pois sempre há dificuldades, mesmo em relações entre pessoas de mapas com muitas relações harmônicas, e onde há conflitos entre pontos do mapa existe também grandes oportunidades de crescimento e ampliação de horizontes. Então, é importante pensar no que se busca através de um relacionamento. Muitas vezes encontrar a tal “cara metade” vai significar que você não estará inteiro na relação, e isso vai causar problemas.

Então, depois de olhar para os ascendentes seu e da sua parceria e ver como eles se relacionam, começamos a olhar para o Sol e para a Lua, que são os dois luminares da nossa personalidade.

Como já falei na última postagem, quando os sóis estão no mesmo signo ou em signos do mesmo elemento há grande facilidade na compreensão dos processos de desenvolvimento individual dos envolvidos. Sóis em sextil – distância de 60° entre astros, ou seja, dois signos antes ou depois – também trazem facilidade para respeitar e compartilhar naturalmente as experiências de vida. Apesar de poder existir algum grau de competição entre as pessoas aqui, há também uma facilidade em criar um mesmo estilo de vida e um reforço na autoconfiança um do outro. Assim, é fácil assumir os elementos solares, reforçando nossa vitalidade e posicionamento individual. O problema é que se pode criar uma identificação tão forte que nos “esquecemos” da sombra, e evitamos olhar para as facetas mais problemáticas do Outro porque elas espelham nossas próprias zonas sombrias. Para manter essa imagem “perfeita” é preciso abrir mão do aprofundamento e do crescimento que os relacionamentos precisam para evoluir. Além disso, há o risco de se evitar as coisas mais difíceis de nossa própria personalidade que estão em conflito com nosso Sol, criando problemas em nossos processos de autoconhecimento. Apesar desses perigos, sempre haverá figurinhas a serem trocas, pois as informações que um recolhe em seu caminho poderá ser útil no caminho do outro.

Quando os Sóis se encontram em conflito, geralmente sentimos forte atração ou repulsa pelo outro, principalmente se eles se encontram em oposição. O Outro vai representar algo fascinante, mas perigoso, pois tem um potencial com motivações diferentes da nossa. Sóis em conflito significam caminhos diferentes no processo de individuação, portanto respeito e tolerância são elementos fundamentais para relacionamentos desse tipo. É preciso consciência de que outros caminhos de vida são possíveis e necessários. Quando os sóis estão em oposição, o Outro poderá mostrar muito daquilo que deixamos oculto ou obscuro em nossa personalidade, mas, se temos algum grau de consciência de nossas limitações, é fácil entender que o Outro representa uma complementação importante para nossa visão de mundo, o que pode ser fascinante. Já quando em quadratura – distância de 90° entre os signos – a sensação de que o Outro traz limites e frustração à nossa expressão livre costuma gerar muita tensão. Se não há um cultivo de flexibilidade e um bom grau de comunicação entre as partes, isso pode se tornar uma verdadeira “quebra de braços”, onde um cede e se sente desvitalizado, pois tem que abandonar a si mesmo para “facilitar” a convivência, e depois se “vinga”, pressionando o outro para que faça o mesmo. Essa brincadeira pode ser muito dolorida. Relacionamentos do tipo vítima/carrasco são bem comuns, e se você se pegar reclamando por que o Outro não te entende, pare tudo e lembre-se: o Outro não tem obrigação nenhuma de te entender, e isso significa que você tem que saber o que é importante e se posicionar de maneira clara, além de criar espaço para que o outro faça a mesmo. Um exemplo simples e cotidiano a respeito: um casal onde um precisa de muito tempo para acordar e o outro levanta da cama imediatamente, cheio de energia. O ser energético terá que aprender a gastar sua vitalidade com o cachorro pelas manhãs, e o que tem um processo mais demorado para despertar terá que entender que não haverá alguém para se aninhar de manhã e se contentar com o travesseiro. Haverá dias inspirados em que um poderá acompanhar o outro, mas isso não pode ser colocado como regra.

A Lua, por sua vez, representa nossos processos mais passivos e adaptáveis. É onde inconscientemente nos sentimos bem e buscamos conforto. Relações harmônicas entre Luas costumam ser mais comuns do que entre Sóis, principalmente se estamos falando de relacionamento amoroso. Isso porque um reconhece imediatamente o estado de espírito do outro, as emoções comuns são facilmente partilhadas, e se lida com os sentimentos de maneira similar, o que cria uma sensação de segurança e afinidade íntima que favorece o fluxo emocional criativo e confortável. Como a Lua também guarda os registros de nosso corpo, a compatibilidade lunar oferece facilidades no contato físico. As dificuldades aparecem quando o casal se encontra em situações emocionais negativas, pois também serão partilhadas, o que pode dificultar bastante as coisas para se mudar o estado de espírito para algo mais positivo. Há também o risco de contaminação, e a tristeza de um leva à depressão do outro. A Lua é reativa, não ativa, e isso significa também que, se temos consciência do que está acontecendo, é possível buscar motivação no outro para sair desse lugar negativo.

Quando as Luas se encontram em conflito, tudo fica mais difícil, e se não houverem outros aspectos mais harmônicos é realmente complicado conseguir uma relação de cumplicidade. Existem casos onde nos sentimos atraídos por Luas que conflitam com a nossa, e um sentimento de excitação é comum nesses casos. Mas quando a excitação se encaminha para um relacionamento, o mais comum é que um ou ambos se sintam isolados, pois não há fluxo emocional entre as partes. Quando o Outro tem motivações emocionais muito diferentes da nossa, uma barreira costuma se impor. Diferente do Sol, onde é possível uma ação consciente, a Lua reage inconscientemente ao ambiente vivido, e isso pode gerar jogos inconscientes bem doloridos e brincadeiras de gato e rato, onde um nega ao outro a segurança necessária para aprofundar a intimidade. Insegurança emocional gera defesas inconscientes, e se os parceiros ficam se defendendo, não há como criar intimidade. Se não conseguimos satisfação emocional em um relacionamento amoroso, não há como nutrir a parceria. A menos que existam outros pontos de contato entre os mapas, onde haja uma possibilidade de compreensão mutua, provavelmente nem mesmo os parceiros saberão o porquê da relação ser tão frustrante.

Vamos continuar a falar de sinastrias nas próximas postagens. Desculpem a falta de tempo para estar escrevendo com mais constância. Mas pouco a pouco vamos desvendando essa ferramenta.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sinastria: Comparando Mapas


Já que estamos em um ano de Vênus, resolvi falar um pouco de Sinastria, a comparação do mapa de duas pessoas que se relacionam. Esse é um estudo bem interessante, e ainda hoje, depois de tantos anos, ainda me surpreende. Para isso você vai precisar do seu mapa e do seu filho(a)-pai-mãe-irmã(o)-marido-esposa-sócio-amante-cachorro-chefe ou seja lá quem você resolveu investigar a relação. Vamos olhar, então, para aquilo que é fácil e o que precisará de trabalho consciente para que a relação cresça. Ou seja, onde se pode contar com a imediata empatia do Outro e onde a bola de cristal da sua parceria não funciona, e você vai ter que encontrar disposição para olhar as coisas por um ângulo diferente do seu.

Algumas coisas devem ser levadas em conta antes de se fazer a Sinastria. A primeira delas é a idade das pessoas envolvidas. As preocupações de um relacionamento aos 15 anos é muito diferente dos casais de 25, que ganham novas expectativas depois dos 30, outra dimensão depois dos 40, etc. É preciso verificar também se as pessoas envolvidas são da mesma geração, ou seja, possuem os transaturninos nos mesmos signos ou não, já que isso fará com que esses planetas tenham ou não maior importância. Outra coisa que parece óbvia mas que é bom lembrar, é o tipo de relação entre as pessoas envolvidas, já que em uma relação amorosa você vai ter que prestar mais atenção em uns planetas, em uma relação de trabalho em outros, e se você está comparando seu mapa com o do seu filho ou de um dos seus pais, precisa estar atento a outros pontos.

As pessoas continuam me perguntando se combinam com X ou Y sabendo apenas o signo solar, mas vamos conhecendo o Sol de alguém na medida em que vamos convivendo com uma pessoa, pois esse luminar fala dos nossos processos criativos internos. A menos que se tenha um Sol junto ao Ascendente, normalmente, ele não será a marca mais evidente de alguém, inclusive não é necessariamente o signo em que mais nos reconhecemos. Nossa combinação Sol/Ascendente mostra a melhor maneira de expressarmos nossa essência no mundo, e em um relacionamento isso é bem importante. Normalmente começamos esse trabalho com a comparação dos ascendentes, pois é ele que mostra a aparência externa da pessoa, ou seja, aquilo que nos atraiu à primeira vista e também aquilo que o Outro viu em nós no primeiro olhar. Ou exatamente o contrário: aquilo que repelimos no Outro desde o começo e vice versa. (É bem interessante comparar o nosso mapa com o daqueles que não engolimos de jeito algum. Sempre temos algumas surpresas). Se o seu Sol tem contato com algum ponto do mapa do seu parceiro, isso significa que você irá iluminar esse ponto do mapa do Outro, e o mesmo acontece com você se o Sol do parceiro toca algo do seu mapa. Quando os sois se encontram em signos do mesmo elemento (Terra, Ar, Água ou Fogo), as pessoas envolvidas costumam ter facilidade em entender e respeitar o processo individual um do outro, o que facilita muito a convivência. Mas é preciso dar bastante atenção à Lua, pois é ela que mostra a maneira como construímos vínculos e como nos sentimos mais a vontade. É com a Lua que geralmente temos mais intimidade conosco mesmos e, em função disso, com o outro também. Se você tem um conflito interno no seu mapa entre esses luminares, provavelmente esse conflito irá ficar mais claro ainda através das suas relações - afetivas ou não -, e o mais comum é se identificar com um ponto e projetar o outro no parceiro, reproduzindo externamente o que se vive dentro de si. Principalmente se você encontrou alguém “compatível“ com seu Sol. Se esses astros se relacionam sem obstáculos em seu mapa natal, haverá mais chances de você conseguir vivenciar um relacionamento sem exigir que o outro carregue o peso daquilo que é mais difícil de reconhecer em si. Isso é válido para todos os pontos do mapa.

Uma maneira didática para se começar a entender sinastria, então, é pegar um ponto do seu mapa e comparar com o mesmo ponto do mapa d@ parceir@ e ver como eles se relacionam. Vamos começar pensando os elementos.

Terra gosta de fazer as coisas devagar e com cuidado, além de possuir uma criatividade prática que ajuda muito na hora de concretizar as coisas. Fogo, por sua vez, está mais preocupado em agir logo e gosta de encontrar soluções enquanto se movimenta em direção àquilo que quer. Ar precisa conversar a respeito das coisas, e se entende a racionalidade do que está acontecendo irá colaborar e criar soluções. Enquanto isso, Água precisa se envolver emocionalmente com aquilo que faz, e pode contar com uma boa dose de imaginação nos seus processos criativos. Então, se você e sua parceria têm pontos no mesmo elemento, um entende como o outro funciona com relação àquilo. Quando @ parceir@ possui elementos no signo complementar (Terra com Água ou Fogo com Ar) o mais comum é uma brincadeira inconsciente de projeção que pode vir em forma de conflito, mas que é fácil reconhecer como complementar. A Terra sem Água ficar árida e a Água sem Terra fica sem forma, e isso significa que a vida material sem a emocional perde o sentido assim como a vida emocional sem concretização se transforma em delírio. Por isso pessoas de Terra costumam chamar os de Água de malucos e os de Água acham os de Terra muito ambiciosos e materialistas. Se a sua parceria tem essa combinação com você, o Outro sempre terá coisas a ensinar se você tiver disposição para aprender. Água é mestre em mostrar a importância da afetividade, do vínculo amoroso, de perceber as lições que a alma ensina, enquanto Terra costuma ser um ótimo parceiro para ensinar os passos necessários para se transformar sonho em realidade.

O mesmo tipo de complementaridade vamos encontrar entre Fogo e Ar. Fogo sem Ar, morre, e o Ar ganha leveza com o calor. A ação fogosa sem a compreensão do que está sendo feito se torna inútil e se desgasta por si só, enquanto as milhares de idéias aéreas se perdem se não gerarem ação pessoal. Os encontros entre esses elementos implica em saber manter a chama suficientemente forte para que haja a transformação dos alimentos, mas sem gastar todo o oxigênio do ambiente, ao mesmo tempo em que o Ar quente precisa ser mantido em um espaço fechado para continuar leve, senão se perde e se torna frio novamente. A paixão de fogo e seu olhar mágico para a vida ajuda Ar a sair de suas dimensões muito abstratas, generalizadas e teóricas para a experimentação da aventura da vida pessoal, enquanto Ar trará para Fogo a compreensão de um todo maior em que nossas ações pessoais estão inseridos. Em conflitos entre esses elementos o povo de Ar costuma achar os de Fogo egoístas e irracionais e os de Fogo acham que os de Ar complicam demais as coisas e só sabem falar. Se você tem esse tipo de partilha com seu parceiro, preste atenção onde está havendo ação sem consciência e onde o medo da ação leva a uma discussão sem coração. É muito comum jogos de manipulação nessas parcerias, onde Ar fica lembrando tudo o que Fogo falou - sem pensar - e Fogo, com a desculpa de estar se sentindo acuado, vai agindo de maneira cada vez mais independente d@ parceir@. Isso não vai dar certo. Quando Fogo pára para realmente escutar o que Ar está dizendo, sua capacidade de mudar de rumo e seguir um caminho com maior sentido faz grande diferença em sua vida, assim como Ar, quando para de pensar tanto e tenta acompanhar o movimento de Fogo tem mais vida em sua capacidade de compreensão, o que o ajuda no despertar da intuição, que não tem sua lógica compreendida de ante mão.

Os desafios que costumam dar mais trabalho, porém, são aqueles entre Terra ou Água com Fogo e Ar e vice versa, pois esses elementos fazem quadratura e quincuncio entre si. Terra acha Água um tanto perdido, mas precisa desse elemento para que sua vida não vire um deserto. Agora se tratando de Fogo e Ar, o mais comum é Terra achar que essa turma definitivamente viaja na maionese, o que não facilita a convivência. A paixão pela vida de Fogo parece demasiado dramática e os raciocínios de Ar demasiado abstratos para os terráqueos. Já Água pode entender a necessidade de contornos que Terra lhe dá, mas costuma se sentir invadido pela “violência e cara de pau” - segundo uma amiga aquática - de Fogo, e acham que Ar é muito inteligente, mas não entende nada de sentimentos, o que os torna bem estúpidos. Fogo, por sua vez, sabe que precisa de Ar para alimentar sua paixão, mas acha a vida de Terra um tédio, com todos aquele “pessimismo” e precauções antes de agir, e Água é muito melindroso e se magoa fácil demais. Ar pode aprender a gostar do calor de Fogo, porém acha Terra um tanto limitado intelectualmente por conta do seu pragmatismo, e Água é molhado demais com tantas emoções e contradições. Podemos ter relações bem frustrantes quando encontramos esse tipo de combinação, mas é exatamente aí que vemos o quanto é possível aumentar nossa consciência. No meu trabalho tenho visto muitos encontros desse tipo ao fazer sinastria, e sempre me surpreende a quantidade de geminianos com parceiros escorpinianos ou de virginianos casados com arianos, para citar alguns exemplos. Acredito que exista um fascínio por aquilo que não compreendemos, o que pode nos trazer relacionamentos difíceis mas que, com uma boa dose de amor e tolerância, pode nos levar ao crescimento também.

Nossa, já escrevi demais. Prometo voltar ao assunto para falar dos detalhes da sinastria. Apesar das imagens caricaturais, aqui já tem bastante material para se pensar sobre suas parcerias.

domingo, 6 de dezembro de 2009

2010 - Ano de Vênus


“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”

Eros e Psique – Fernando Pessoa


Começamos o último mês do ano e já me perguntam sobre a regência de 2010. Pois vamos entrar em um ano regido pelo planeta Vênus, miticamente a deusa da Beleza, do Amor e do Prazer. Se estamos aproveitando 2009 para enfrentar nossos desafios solares, será possível no ano venusiano de 2010 estar suficientemente centrado para aproveitar as bênçãos dessa deusa.

Tradicionalmente os anos regidos por Vênus são abundantes, com boas colheitas, crescimento do rebanho e fertilidade das mulheres. Santo Antônio costuma casar @s solteiros e abençoar @s casados, e todos ficarão felizes e saltitantes o ano inteiro. Fim do ano.

Ok, esse não é o meu estilo. Vamos aprofundar um pouco a coisa.

As sacerdotisas de Vênus conhecidas como vestais eram as pontífices que materializavam na Terra as bênçãos de vida dos deuses. Também as grandes cidades da Mesopotâmia e do Egito tinham seu centro nos templos da Grande Deusa, onde mulheres sagradas eram portadoras do poder de vida que era distribuído aos homens através de encontros sexuais. Um amigo que esteve faz pouco na Turquia contou que, ao visitar a biblioteca de uma cidade que era o centro do poder dos sábios, o guia lhe mostrou uma passagem secreta que ia até o templo das meretrizes, onde, em uma fonte, havia muitas estátuas da Deusa oferecidas pelos homens para obter potência sexual.

Vênus está diretamente ligada ao nosso poder de criar prazer e beleza em nossa vida, materializando no mundo os atributos divinos de alegria, prazer, abundância e amor. Quando olhamos para o centro de nosso sistema a partir do pequeno ponto azul em que vivemos, temos que passar por Vênus e Mercúrio antes de chegarmos ao Sol. Isso significa que entender o que valorizamos, do que gostamos, o que nos dá prazer, o que nos agrada esteticamente, como gostamos de seduzir e de sermos seduzidos, é um passo importante na busca para entendermos quem somos e encontrarmos o nosso centro. A busca por pessoas com quem possamos compartilhar nossos valores e prazeres também faz parte do desenvolvimento de nossa Vênus natal, e é através dela que encontraremos parceiros e nos associaremos aos outros. Sempre conseguimos olhar mais profundamente para nossa alma através dos olhos de nossos parceiros de caminhada. Alem disso, a necessidade de encontrar um equilíbrio harmônico entre um “eu” e um “outro” é uma das maneiras mais rápidas de desenvolvimento pessoal.

Assim sendo, o ano regido por Vênus é um momento bom para assumir e compartilhar os nossos valores mais profundos e também descobrir o que realmente nos traz alegria à existência. Nem precisa ser algo tão profundo assim, pois muitas vezes sair pra dançar e sentar com um amigo para falar bobagem vale mais do que algumas sessões de terapia. Na Vênus natal encontramos nossa capacidade de transformar aquilo que está ruim, feio e desarmônico em coisas belas, boas e agradáveis. 2010 será um ano para treinarmos e incorporarmos isso à nossa vida, e também descobrirmos o que trava e impede esse importante elemento de nossa personalidade se expressar. Oxum, a deusa Yorubá correspondente à Vênus/Afrodite, é aquela que consegue domar o indomável, convencer os teimosos e restituir a fertilidade à Terra quando os deuses ficam de mau humor com os homens, através de seus encantos. Dizem que gentileza atrai gentileza, por tanto é hora de colocarmos nossos encantos no palco.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Revolução Solar: A Face Rebelde do Sol?

"O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; e eu, infelizmente, sou Borges"
Jorge Luis Borges


A Revolução Solar é o mais popular dos métodos de progressão. Muitas pessoas, porém, pedem para fazer a revolução achando que o mapa progredido substitui o mapa natal. Sinto informar aos que têm problemas com seu mapa natal que o Sol não é um rebelde que resolveu mudar quem você é. A carta astrológica de nascimento indica o padrão formado pelos astros que circundam a Terra e é chamada de mapa radical por ser o fator raiz em toda interpretação astrológica. Rudhyar prefere o termo seminal, pois o horóscopo natal simboliza a semente onde está guardado todo o potencial arquetípico da pessoa, assim como a semente guarda todas as características da futura planta. Sendo assim, uma carta de nascimento é a representação simbólica da plenitude potencial de um microcosmo totalmente aperfeiçoado, mostrando como seria aquela planta plenamente desenvolvida. Porém, não há como garantir que essa planta vá se desenvolver, pois a potencialidade astrológica é um fator abstrato mostrado por uma representação simbólica. Isso significa que quando trabalhamos o mapa astral não temos a indicação de nada factual, nada concreto, nada rigorosamente “destinado”, mas a delineação daquilo que seria a personalidade se ela amadurecesse à semelhança do arquétipo representado, gerando frutos na sua realidade. Através desse paradigma é possível fazer julgamentos em termos de “sucessos” e “fracassos”, no sentido de observar se a pessoa está ligada a esse núcleo central de si mesma e de sua vida, ou não. É com esse argumento que afirmamos ser a astrologia um instrumento de autoconhecimento e de busca de completude, no sentido de um destino que deve ser completado por ser o desdobramento que manifesta concretamente aquilo que as condições interiores representam, e não um sistema de previsão do futuro: destino astrológico é saber que uma semente de maçã tem como “Karma” virar macieira.

Quando estamos trabalhando um mapa temos um universo como definido por Einstein, finito mas ilimitado, numa continuidade espaço-tempo com forma cíclica e não uma esfera fechada. As progressões e direções derivadas visam determinar os desdobramentos de um indivíduo em determinado momento da vida, criando um elemento temporal de compreensão. As progressões e direções mostram fases de maturação ao converter valores de espaço em valores de tempo, transformando os 360 graus do zodíaco em símbolos de fases de desdobramento da vida. Progressões e direções baseiam-se numa análise da movimentação real de planetas e cúspides de casas após o momento do nascimento, como se o nascer não fosse um gesto final e sim algo que se prolonga no tempo, espalhando-se sobre um período de horas (direções primárias), ou dias (progressões secundárias), mostrando eventos que se tornam objetivos no decorrer da vida. Existem, pelo menos, doze métodos diferentes de progressão correntemente utilizadas pelos astrólogos, o que mostra a dificuldade que há em se estabelecer com rigor o seu emprego. No ocidente os métodos mais utilizados são as Progressões Secundárias (ou método “dia-ano”) e o método do Arco Solar de Progressão Primária, mas, como diz Arroyo, isso parece se dever muito mais ao fato de serem os únicos ensinados nas escolas de astrologia americanas do que a uma maior confiança em seus dados. As progressões secundárias parecem refletir acontecimentos psíquicos e períodos de aperfeiçoamento intensivo, embora possam corresponder também a acontecimentos externos específicos. Todos os planetas podem ser “progredidos”, mas é na progressão do Sol e da Lua que temos os dados mais perceptíveis, pois as pessoas geralmente estão muito mais em contato com os ciclos de aperfeiçoamento desses astros.

O mapa da progressão solar, conhecida como Revolução, deve ser calculado para o momento exato em que o Sol completa seu ciclo pelo zodíaco naquele ano, no local onde a pessoa faz aniversário. O movimento solar não é uma constante - variando de 0,51° a 1,23° por dia - e seu retorno exato deve ser buscado nas efemérides. Essa variação no movimento solar – sim, sabemos que é a Terra que se move em torno do Sol e não o contrário! – faz com que o Sol volte ao lugar de origem no seu mapa em momentos diferentes a cada ano. Assim, se a dona Maria, por exemplo, nasceu dia 12/10/1940, às 5h. da manhã em Chá de Alegria, PE (e existe mesmo essa cidade!), ela terá o Sol Natal à 18°50’37”, e o Sol estará nessa exata posição em 2009, se ela passar seu aniversário na cidade natal, dia 11 de outubro desse ano às 21:01:10h. Então você faz o mapa desse momento de aniversário e tem o mapa da Revolução Solar. O mapa criado a partir da posição do Sol Progredido em cada ano mostra como o processo de integração da personalidade prossegue após o nascimento. Podemos ver o modo como a substância pessoal está sendo assimilada em seu amadurecimento e complementação, pensando em uma personalidade que tende à plenitude. O Sol representa o fator de integração do mapa, e as suas progressões secundárias são significativas no sentido de mostrar o processo de incorporação da vontade pessoal. É nesse sentido que o Sol progredido dá as melhores indicações do significado dos próximos doze meses

Nas próximas postagens estarei dando dicas de como olhar para o mapa do seu ano.

sábado, 5 de setembro de 2009

Passeios de Plutão Pelo Mapa Natal

“Quem, se eu gritasse, entre a legião dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrível. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia valer? Nem Anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo nesse mundo definido.”
Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno

Em todos os mitos, contos, histórias e filmes, chega o momento em que o herói tem que enfrentar seu inimigo cara a cara se quiser ter um pouco de paz na vida. Nós também, mais dia menos dia, temos que olhar para nossa Sombra e enfrentá-la no lugar de ficar justificando nossas distorções negativas por que o mundo é mau, como se não participássemos dele. Jung dizia que o objetivo de nossa existência era a individuação, que ele definia como o processo onde criamos, a partir de nos mesmos, aquele ser único que no fundo sentimos que somos. Os trânsitos de Plutão são bons períodos para fazer essa confrontação e aprender a se aceitar como se é, com toda a força, sombra, luz e vulnerabilidade, pois esse é o início de uma verdadeira e positiva auto-estima, aquela que vem de um conhecimento profundo de quem se é. Se você está passando por algum processo difícil de Plutão, lembre-se que nossa destrutividade tem mais força quando está na sombra, no inconsciente, mas perde seu poder quando conscientizamos e trabalhamos com isso. Você pode se tornar mais livre e autêntico se tiver coragem de aceitar o que está acontecendo em vez de tentar controlar ou lutar contra o que quer que seja. Aqui vão algumas dicas e receitas de bolo a respeito de como Plutão pode agir sobre os astros do nosso mapa, mas que não devem ser tomadas ao pé da letra, e sim servir para reflexão sobre os processos.

Trânsitos de Plutão pelo Sol Natal
Plutão é tradicionalmente associado à idéia de regeneração e renascimento, portanto, quando ele entra em contato com a essência simbolizada pelo Sol, vamos ter períodos de grandes transformações internas. Uma das características desses processos é que nossas crenças e opiniões ganham muita força, e parece mesmo que se fica mais seguro das próprias idéias e objetivos de vida. Esse parece ser o caminho mais comum para entender como aquilo que acreditamos nos faz criar o mundo que vivemos, e então nos estouramos e temos que rever quem somos e o que queremos. O Sol é nossa grande fonte de Luz e Plutão é o portador da Sombra que essa Luz pode produzir. O encontro dos dois significa ter que olhar para o que fazemos com nossas vidas sem esconder as motivações egoístas ou os objetivos mesquinhos. Algumas pessoas me relatam uma necessidade obsessiva de mudar e abrir mão de situações seguras durante esses trânsitos. Esgotos estouram, não temos como cumprir promessas feitas assim como os outros também não cumprem as feitas a nós, percebemos com clareza as más intenções alheias, podemos descobrir muitos podres de pessoas que gostamos, e nos deparamos, sem querer, com a colônia de cupins que estava destruindo nossa linda casa de madeira. Como seus irmãos transaturninos, Plutão também está trabalhando em função de um maior amadurecimento da nossa humanidade, e aqui isso significa olhar para a verdade daquilo que vivemos sem os enfeites morais, materiais, espirituais, ideológicos, etc. Como o Sol fala de nossos processos internos de desenvolvimento, muitas vezes é difícil trabalhar o que está acontecendo em nossas entranhas quando o resto do mundo parece continuar do mesmo jeito. É importante dar credito a essa percepção interna e buscar a mudança de direção, mesmo com todo o medo e insegurança que isso traga, pois Plutão faz com que se tenha que renunciar ao passado para se começar algo novo e mais verdadeiro que ainda não se experimentou. É preciso limpar os sótãos e porões e aceitar que não há como um ser humano controlar o Universo, apesar das crenças e sensações que tivemos quando pequenos. E é bom não tentar forçar as coisas no sentido contrário se você não quiser se machucar mais.

Trânsitos de Plutão pela Lua Natal
A Lua está diretamente conectada com nossas estratégias emocionais de sobrevivência e Plutão, ao se encontrar com esse luminar, vai mostrar que essas defesas não funcionam mais. Geralmente ouço relatos bem difíceis sobre esses períodos, pois o mais comum é uma sensação de profunda vulnerabilidade, como se todas as feridas de infância resolvessem infeccionar ao mesmo tempo e nada conseguisse abaixar a febre. As duas armas preferidas de Plutão são as paixões e as doenças, por serem experiências em que nossas fantasias de força, nossa auto-imagem como seres inteligentes e donos do próprio destino, caem por terra. Como a Lua rege as nossas reações emocionais, Plutão faz com que experimentemos mais intensamente aquilo que sentimos, o que pode trazer muita ansiedade e medo. As tentativas de controlar isso só trazem mais problemas e aumento da tensão. Esses são processos de profunda mudança emocional, que não é possível ser acompanhado por uma racionalidade comportamental, mas que ajuda muito ter um acompanhamento terapêutico. Uma das coisas que precisamos aprender rapidamente na infância é a esconder aquilo que não é bem visto pela família onde nascemos, para assim podermos ser aceitos e cuidados naquele ambiente. Isso pode significar não poder sentir raiva dos pais, ciúmes dos irmãos ou ter muita iniciativa por que a família tem dogmas religiosos muito rígidos que condenam essas atitudes; ou não se pode ser sensível, amoroso e sentimental porque isso é visto como fraqueza; ou nos vemos cercados por pessoas que vêem com maus olhos aqueles que lêem muito, são muito curiosos e mais introspectivos, por acharem que a vida tem que ser cheia de atividades externas e trabalho concreto. Sejam quais foram os ajustes emocionais que tivemos que fazer para nos adaptarmos à estrutura familiar, a Lua tem armazenado nossas estratégias para sobreviver e nos vincular afetivamente no nosso ambiente de origem. Plutão entra em contato com nosso ambiente lunar mostrando o que foi escondido, expondo o custo dessa adaptação e percebemos que não podemos continuar como estávamos. Isso nos abala profundamente por ameaçar nossa sensação de segurança e nossas fantasias de controle e, geralmente nos vemos com uma característica emocional plutoniana bem desagradável, chamada obsessão. Os jogos de poder e manipulações emocionais que fazemos e que somos vítimas ficam muito conscientes, e temos que fazer algo a respeito. Isso significa perder uma inocência fruto da imaturidade emocional para adquirir força intuitiva. É preciso deixar ir embora aquilo que nos faz mal, nos purificarmos das dores do passado, para que novas pessoas e oportunidades de vínculo possam surgir, e assim possamos ter maior intimidade e uma auto-imagem mais real.

Trânsitos de Plutão por Mercúrio Natal
Mercúrio mostra a maneira como trocamos informações com o mundo, e Plutão faz com que esse intercâmbio ganhe intensidade. É comum que passemos um tempo achando que nossos padrões de pensamento estão um tanto estranhos, o que causa certa tensão, mas que também estamos mais criativos e profundos, o que pode ser bem construtivo quando canalizado. Nossa mente sente atração pelos abismos misteriosos da psique e da vida em geral quando visitada por Plutão. Artistas e escritores costumam relatar que esses são períodos muito férteis. Mercúrio é o único deus da mitologia Greco-romana que consegue entrar e sair de todos os reinos, desde os picos olímpicos às profundezas do Tártaro, sem que isso crie problemas mais sérios. Se há alguma dificuldade de expressão mercuriana, algum trauma quanto à própria curiosidade ou preconceito com relação a algum tema de estudo, esses são períodos para se entender e limpar essas questões. As obsessões características de Plutão costumam aparecer também em suas visitas ao Deus dos Ladrões, e podemos nos perceber manipulando idéias para ganhar jogos de poder ou tentando controlar o que pensamos e retalhando as idéias dos outros. Esse não é um caminho muito proveitoso para essa energia, pois Plutão alimenta aquilo que escolhemos plantar, e então passamos a ficar bem paranóicos com a colheita que teremos. Mercúrio também rege os nossos 5 sentidos, e podemos passar por períodos em que nossa visão, olfato, paladar, tato e audição parecem não responder como costumavam. É sempre bom passar por um médico ao observar essas mudanças, mas lembrando que se está passando por um processo que visa mudar a interação com o mundo, e que coisas que parecem estranhas podem significar uma percepção mais aguda, não necessariamente a perda de algum sentido. Se conseguirmos abrir mão da necessidade de controle durante esses trânsitos - que é a fonte de tensão desses períodos -, é possível se abrir para novas experiências sem ter medo de parecer medíocre ou amador demais, e então novos aprendizados podem ser realizados e muitos dons adormecidos despertados.

Trânsitos de Plutão pela Vênus Natal
Plutão costuma seduzir nossa Vênus através de um narciso na beira do abismo, exatamente como o deus faz com sua sobrinha Core. Nossa maneira de dar e receber amor, beleza e prazer ganham intensidade e por isso precisamos perder a inocência para ganhar profundidade. Core tem que se transformar em Perséfone. O símbolo de Vênus é o escolhido para representar o próprio feminino, mas isso não quer dizer que é posse exclusiva do gênero, mas apenas que é mais incentivado nas mulheres, e por isso mais facilmente conscientizado nelas. Cada vez mais vemos homens tomando posse da sua capacidade de troca amorosa e de busca por beleza e prazer em suas vidas sem depender de uma esposa ou mãe. Sorte deles, principalmente durante uma visita de Plutão à Vênus. Mulheres que precisam de uma figura externa para exercer sua Vênus (o tipo que tem do vestuário ao gosto musical definido pelo parceiro) costumam ter muitos problemas nos processos Vênus/Plutão. A idade em que esses trânsitos acontecem também devem ser levados em conta, já que na adolescência nosso gosto é muito mais determinado pelo nosso grupo do que por nossa recém adquirida consciência de individualidade, e quando temos mais anos de estrada é mais fácil perceber o que nos dá realmente prazer e alegria na vida. Ao menos em teoria. O mais comum é encontrarmos parceiros plutonianos durante esses trânsitos, e vivemos relações com boas doses de manipulação, possessividade, desejos obscuros e sentimentos rudes que destroem os castelos com príncipes, princesas e finais felizes. Quanto mais obsessivo se fica, mais o objeto de nosso desejo costuma se afastar. Fica muito claro que estamos buscando segurança no outro e chamando isso de amor. A possibilidade contrária também é possível, e quanto mais nos afastamos daquela pessoa que se mostrou perigosa ou diferente daquilo que queremos em um companheiro, mais o outro se mostra empenhado em nos conquistar. Plutão traz para a consciência toda a destrutividade que confundimos com amor, quando se envolve com Vênus. Se atrairmos um carrasco é porque cremos que somos vítimas, ou seja, abrimos mão de nossa força por temê-la. Esse trânsito é a oportunidade de nos purificarmos e libertarmos dos equívocos destrutivos que acumulamos durante a formação da nossa identidade, e as desigualdades que antes aceitávamos em nossas relações vão se tornando insuportáveis. Quando Plutão transita por nossa Vênus ficam claras, também, as armas que temos para conquistar e nosso desejo por moldar os outros. Depois que se vê isso no próprio espelho é impossível falar que só temos boas intençõe nos nossos relacionamentos. É comum se ver na posição tanto de abusador quanto de abusado. Precisamos entender durante esses trânsitos que não há como se abrir para alguém que nos trata mal e chamar isso de amor. Plutão nos obriga a um profundo amadurecimento em nossa busca por Amor, Beleza e Prazer na vida, e isso significa ter que deixar muitas ilusões para trás de modo a criar espaço para a força que existe em nosso desejo de união com o outro. É a chance que temos de viver com maior intensidade quem somos. É comum que o gosto musical, a maneira de se vestir, o modo de experimentar o prazer mudem, e você vai poder ter certeza, no fim do processo, que aquilo que dá gosto em sua vida é algo que reverbera profundamente em você.

Trânsitos de Plutão pelo Marte Natal
Se você reclama de não ter energia para ir atrás do que quer, durante os trânsitos de Plutão por seu Marte seus problemas acabaram! Plutão intensifica a força marciana para ir atrás daquilo que se quer, e mesmo os Martes mais civilizados se sentem fortes para conquistar “a parte que te cabe desse latifúndio”. Se a pessoa é do tipo que tem problemas com essa energia marciana e acha de mau gosto ou egoísta agir de maneira direta, isso pode se transformar em tensão interna e causar muitos problemas. Plutão revela o que há por baixo do verniz educado da nossa personalidade e Marte é uma força bruta que faz nossa natureza vital se expressar, fazendo desse encontro algo um tanto bárbaro. Algumas pessoas mais idealistas ficam constrangidas com tanta intensidade, e tentam suprimi-la fechando-se, pois não sabem o que pode acontecer se essa força toda vier para fora. Geralmente essa é a base inconsciente para se criar doenças e acidentes para que a pessoa enfrente seus medos. Quando começamos a sofrer violências externas repetidamente, é importante estar vendo o que isso significa internamente. Como Marte simboliza nossa energia sexual, Plutão também irá estimular nosso desejo nessa área, o que ainda hoje representa um problema para alguns. É preciso mesmo lidar com muitas energias difíceis, que causam desconforto nas nossas relações sociais, como raiva, inveja, disputas, etc. Ir atrás daquilo que se quer muitas vezes significa ter que deixar um lugar tranqüilo e infeliz para abrir novas formas de se estar no mundo, o que provavelmente revelará aquilo que impedia seu desenvolvimento em nome de uma harmonia de fachada. O que fazer quando aquele amigo se mostra invejoso com suas conquistas, ou seu maior desejo sexual faz com que seu parceiro fique ciumento e possessivo porque não consegue acompanhar seu pique? Nas visitas de Plutão ao nosso Marte é preciso aprender a lidar com esses sentimentos que foram deixados no inconsciente por serem pouco civilizados. Mas se você tem um trabalho que gosta e onde pode exercer sua criatividade e uma parceria de confiança e respeito, não será tão difícil canalizar toda essa força de maneira construtiva, e assim os rompimentos necessários para uma expressão mais verdadeira logo se mostram libertadores, mesmo quando desconfortáveis. Mas se você está passando por uma fase mais solitária e seu trabalho não traz satisfação pessoal, é bom você começar a fazer alguma atividade extra para direcionar essa energia, como boxe ou yoga tântrica. Os relacionamentos que se formam nesses períodos costumam ter grande intensidade sexual e não levam muito em conta o caráter do parceiro, então se recomenda não levar para casa o primeiro ser interessante que aparecer pela frente, pois geralmente será um modelito “chave de cadeia” básico. Se você ainda não encontrou uma maneira criativa de utilizar seus dons para agir no mundo, a recomendação é parar de culpar o mundo e começar a experimentar coisas – que pode ser desde servir mesas até fazer esculturas de areia – para achar aquilo que quer fazer em vez de ficar acumulando rancor em seu interior até explodir em alguma doença ou experiência violenta. Cuidado e intensidade não costumam caminhar juntos, mas se você consegue articular essas duas características internamente, esses trânsitos costumam gerar as grandes viradas de vida que vemos se transformando em filme tempos depois.

Trânsitos de Plutão pelo Júpiter Natal
O otimismo jupiteriano e a intensidade plutoniana costumam fazer com que busquemos horizontes mais profundos em nossas vidas, mas isso não significa, necessariamente, períodos de maior introspecção. Na mitologia, Júpiter e Plutão são irmãos, mas cada um tem seu próprio reino e um não se mete na vida do outro. Nesse sentido, as visitas do senhor do Hades ao seu irmão caçula costumam nos trazer uma sensação de desconforto, pois nossa natureza aventureira e expansiva, representada por Júpiter, ganha um peso que dificulta o caminhar. Aqui, porém, saímos da espera dos astros pessoais e entramos na dimensão mais social da nossa personalidade, portanto, a mudança que precisamos realizar não nos atinge tão internamente. Um coisa que costuma acontecer com freqüência é a pessoa começar a fazer todos os workshops que aparecem pela frente, desde decoração de interiores até imersão terapêutica com os monges do Himalaia. “Tudo que é humano me interessa”, já dizia o jupiteriano Montaigne. Se tiver uma boa propaganda, então, nem me fale! Mas os trânsitos de Plutão nos enchem de intensidade para que nos livremos da fachada e encontremos o potencial escondido. Se juntarmos o exagero de Júpiter e a obsessão de Plutão, as coisas podem ficar um tanto difíceis de se viver, e é bom se cuidar para não ter um colapso nervoso com tantas coisas. Existe, porém, um momento de cumplicidade entre Júpiter e Plutão na mitologia que pode ilustrar bem o significado mais profundo desses trânsitos. Quando Plutão rapta Core para transformá-la em Perséfone, ele conta com total conivência de Júpiter, que, aliás, é pai da donzela. Demeter descobre que sua filha havia desaparecido e grita por ajuda, mas Júpiter sai de fininho como se não soubesse de nada. Só depois que Hélio, o Sol, tem compaixão da pobre deusa e lhe conta o que aconteceu, o senhor do Olímpio vai conversar com Demeter para que ela não destrua a Terra. Podemos entender, então, que a perda da inocência do trânsito plutoniano não é um problema quando se trata de nosso Júpiter natal, pois esse planeta nos anima a buscar a verdade: esse é o ponto do nosso mapa que acredita na possibilidade de nos tornarmos melhores e maiores. Os períodos em que Plutão visita Júpiter acabam se tornando muito férteis e abrindo novas dimensões de compreensão em nossas vidas, além de trazer para nosso mundo novas relações e grupos para compartilhar aquilo que estamos aprendendo.

Trânsitos de Plutão pelo Saturno Natal
Quando da Guerra dos Titãs, Saturno foi parar no Tártaro, sob custódia de Plutão. Saiu de lá muito mais manso, indo reinar na Ilha dos Bem Aventurados, para onde iam os heróis após sua vida terrena. Saturno marca o ponto em nosso mapa onde vivemos uma série de restrições que nos forçam a amadurecer e criar uma estrutura para nos estabelecermos como adultos. Nunca estamos totalmente satisfeitos onde temos Saturno, pois ali sabemos que quanto mais experiências acumulamos, melhor será nossa habilidade e possibilidade de atuação. Isso significa que, por mais terapia que fizermos, sempre haverá uma ponta de insegurança, uma sensação de ameaça à nossa auto estima, em nossa área saturnina. Isso nos ajuda a sermos prudentes e assumirmos a responsabilidade por aquilo que queremos ser, mas também pode criar uma estrutura que só visa fugir do medo, cristalizando uma prisão para nossa criança em lugar de construir nossa base de autoridade adulta. Onde há medo e confusão podemos apostar que há alguma distorção que alimenta as áreas inferiores de nós mesmos, e essa é a matéria prima para as transformações de Plutão. Saturno fala da construção de nossa autoridade no mundo, e Plutão tem uma ligação intensa com o poder, então uma das possibilidades desse período é a de encontrarmos pessoas em posição de poder que não possuem a devida experiência que lhes dariam autoridade. Esse tipo de confronto pode nos fazer olhar para todas as experiências, toda a seriedade e persistência que tivemos na vida e nos dar coragem para olhar nossas verdadeiras ambições, o lugar que queremos alcançar no mundo, nos libertando de muitos dos condicionamentos sociais que carregávamos. Assim podemos encarar o medo de sermos questionados ou de nos sentirmos insignificantes. Nessas épocas de visita de Plutão ao nosso Saturno questionamos profundamente as figuras de autoridade, pois conseguimos ver suas sombras com clareza. Plutão oferece a Saturno um olhar mais profundo para suas ambições e medos, sendo possível perceber, então, onde temos uma estrutura real e onde nos acomodamos em uma prisão triste que nos impede de crescer. Esses processos são bem bonitos no papel ou na boca de um astrólogo, mas é preciso mais do que boas intenções para explorar nossos condicionamentos e falsas estruturas de segurança. Plutão dá força e energia a Saturno para que tenhamos coragem de experimentar o quanto somos capazes, o quanto realmente estamos maduros, pois conseguimos entender e tomar consciência da origem de nossas apreensões e medos de expressão no mundo. Saturno sempre envolve uma dificuldade externa que nos obriga a buscar respostas internamente, e quando Plutão se envolve nesse processo isso fica ainda mais forte. É preciso estar atento a si mesmo nesses trânsitos para tirar proveito das dificuldades que podem surgir. Mas a promessa é que depois possamos ir para a Ilha da Bem Aventurança, desfrutar daquilo que heroicamente conquistamos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Trânsitos de Plutão

“A vida faz um apelo. Faz um pedido a cada ser humano vivo. A maioria das pessoas não percebe esse chamado. Só quando vocês se tornam conscientes das suas ilusões é que podem ao mesmo tempo tornarem-se mais conscientes da verdade em si mesma e, portanto, da vida. Por conseguinte, entenderão em cada momento o que o chamado da vida lhes quer transmitir. (...). O chamado da vida se manifesta de maneira diferente para cada pessoa. Ele é a um só tempo universal e notadamente pessoal. É universal no sentido de que visa exclusivamente o despertar do verdadeiro eu, a realidade absoluta. Realiza-se nisso de modo totalmente distante do sentimental. Ele desconsidera os apegos pessoais, as considerações sociais e quaisquer outros valores periféricos, incluindo o sofrimento e o prazer da pessoa.”
Guia do Pathwork – Entrega ao Deus Interior

As Ciências Sociais são estudos que nascem no século 19 para tentar responder o porquê de nós, seres humanos, insistimos em viver juntos, inclusive muitas vezes abrindo mão da nossa individualidade. Uma das respostas que mais reverberam para essa questão está ligada com a necessidade que temos do grupo para construir uma identidade, o que, por sua vez, acaba resultando em uma dependência do reconhecimento e aceitação social para se conseguir significar a própria existência. Nossa imagem social é como nosso cartão de visitas, que nos define através do nosso nome, da família que pertencemos, do nosso status profissional ou dos subgrupos que fazemos parte. A adesão social serve à sua estabilidade, mas é muitas vezes negativa para o desenvolvimento pessoal, pois os aspectos socialmente inaceitáveis da personalidade não têm onde se expressar e acabam se distorcendo no inconsciente. É assim que criamos nossa Sombra, e também a Sombra coletiva. Plutão é exatamente o portador da Sombra, aquele que vai revelar os aspectos banidos pela sociedade e que surgem como uma força destruidora do inconsciente, pois ameaça a crença de estabilidade e de coerência que vivemos. Geralmente as sociedades apodrecem de cima para baixo, pois a sedução do poder e da influência estimula a distorção de percepção do indivíduo. “O poder corrompe”, diz o ditado, e as características mais negativas de Plutão costumam aparecer progressivamente nos líderes à medida que seu poder aumenta. Plutão exerce um grande magnetismo sobre as massas, e isso significa que os governantes tornam-se um ótimo meio para Plutão penetrar na sociedade. Quando lidamos com Plutão temos que aprender a lidar com o Poder também.

Na mitologia, Plutão - Hades para os gregos – é o senhor do reino dos mortos e guardião do Tártaro, local de suplício eterno para os pecadores. Apesar da associação com o Inferno Cristão, existem diferenças fundamentais entre o que era pecado para gregos e para cristãos. Se dermos uma olhada nos Círculos do Inferno cristão de Dante - um tanto pagão, eu sei -, os condenados àqueles reinos são adúlteros, usurários, sodomitas e blasfemos, reflexos do problema que a Igreja tem com a vida mundana e sexual do Homem. Já os condenados gregos eram mortais que ultrapassaram seus limites, se encheram de orgulho e desafiaram os deuses e as leis da natureza. A isso eles chamavam hubris, e não havia como fugir do castigo por essa falta. Plutão não se interessa pela vida sexual alheia – ele mesmo era um estuprador – nem se preocupa com o que os homens fazem entre si no mundo da forma, pois sua lei não está a serviço do comportamento civilizado do grupo. As figuras míticas aprisionadas por Plutão são aquelas que cobiçaram deusas, zombaram da divindade, se comportaram como se fossem maiores que os deuses. Esses são condenados a uma existência de eterna frustração e desespero, humilhados por sua arrogância e orgulho, no Tártaro. O Plutão astrológico costuma nos mostrar exatamente onde nossa vontade e desejo pessoais são fracos e sem valor, onde somos humilhados ao querer muito alguma coisa que nos é tirada ou negada. O Senhor das Profundezas nos mostra onde nosso veneno cria nosso inferno particular, onde corrompemos nossa natureza por excesso de hubris.

Quando Plutão passeia por nosso mapa ele vai mostrando onde estão nossas sombras e temos que encarar a descoberta de nossos venenos e podridão. Geralmente pensamos em nós mesmos como pessoas decentes, capazes de perdoar as ofensas alheias e que evitam cultivar o ódio e a vingança. Quanto mais imaculada for a nossa auto-imagem idealizada, mais difícil será o confronto com Plutão. Ele pode surgir como aquela doença misteriosa ou distúrbio emocional capaz de manter nosso companheiro ou filhos ou pais presos a nós ou que servem para sabotarmos os esforços, inclusive pessoais, porque não conseguimos reconhecer que de alguma maneira inconsciente sentimos que os outros nos destroem e devem ser punidos. Outra maneira comum de Plutão se manifestar é através da paixão amorosa, daquelas que faz com que abramos mão de nossas defesas mais bem construídas, e aí se nos revela toda a necessidade de posse, o medo da perda, as manipulações para que o outro faça aquilo que queremos, e outras coisinhas fofinhas do gênero.

Parece que todos nós em algum momento de nossa infância fomos oferecer o nosso melhor a quem amamos e acabamos concluindo que amar dói muito. Então a lógica infantil nos convence que o melhor é não amar mais. Porém, como é impossível viver sem ser amado, começamos a construir subterfúgios para receber amor sem ter que dar nosso melhor em troca. Claro que isso não funciona, pois recebemos aquilo que oferecemos à vida. Enquanto crescemos esses mecanismos para tentar enganar a vida vão mergulhando no inconsciente, e vai ficando cada vez mais difícil perceber o porquê de uma constante sensação de insatisfação e vazio em nossas vidas. Até recebermos um trânsito mais forte de Plutão e sermos obrigados a olhar para todas as artimanhas montadas para não se entregar realmente à vida.

Os trânsitos dos Transaturninos estão a serviço de um crescimento maior de nossa existência e não querem nos destruir. Plutão fará isso estourando nossas defesas e mostrando todo o pus que se escondia por baixo. Sem anestesia. Depois dos processos plutonianos, porém, nossas feridas estão realmente limpas, sabemos de suas reais dimensões e descobrimos como fazer para cicatrizar realmente aquilo. Nossas vidas fiquem mais intensas e inteiras depois dessas visitas.