quarta-feira, 26 de março de 2008

O Guerreiro Mítico de Áries

Áries é o deus grego da guerra, e seu correspondente romano é chamado de Marte. Qualquer história de guerreiros corajosos, que têm que cumprir uma difícil missão e salvar o mundo, pode servir para ilustrar esse signo, de Robin Hood a Guerra nas Estrelas, de Joana D’Arc ao Cavaleiro do Dragão, Eragon. Aqui vou falar do mito clássico ligado a esse signo: Jasão e os Argonautas, que vão em busca do Tosão de Ouro.

O Tosão é o velo de ouro de um carneiro, o que vêm bem a calhar, pois esse animal é o símbolo de Áries. Podemos vê-lo como o objetivo final desse signo, seja como a realização da própria individualidade, o término de uma investigação ou a morte do dragão. Filho de Esão e Alcímede, Jasão havia sido exilado de sua terra com seus pais, pois o tio, Pelias, usurpara o trono de Iolco, destronando e ameaçando de morte Esão. Após sua educação e iniciação por Quiron, Jasão, volta a Iolco para retomar o trono de direito de seu pai, e, como bom ariano, faz um acordo de trazer o fantástico tosão de ouro guardado no bosque consagrado ao deus Áries-Marte pelo “dragão que nunca dorme”, sendo que a impossibilidade de achá-lo apenas o anima. Reúne seu bando de Alegres Companheiros - os cinqüenta heróis Argonautas - e vai para a Cólquida, onde passa por muitas aventuras e toma o tosão para si. Mas essa história não tem o final feliz de Robin Hood. Jasão conta com a ajuda de uma feiticeira, Medéia, filha de Eetes, rei da Cólquida, que se apaixona por esse herói tão intrépido, bravo, audacioso e nobre. Eetes, que não poderia simplesmente dar o tosão ao herói, impõe quatro tarefas impossíveis a um mortal: subjugar dois touros bravios, presente de Hefesto, com cornos e cascos de bronze, que soltavam fogo pelas narinas; atrelá-los a uma charrua de diamantes; lavrar com eles uma vasta área e nela semear os dentes do dragão de Cadmo; matar os gigantes que nasceriam desses dentes; e finalmente matar o dragão que nunca dorme, guardião do velocino de ouro; sendo que o herói teria um dia, do nascer ao por do sol, para fazer tudo. Jasão já estava começando a pensar na idéia de desistir, quando Medéia se apresenta e promete ajudá-lo a sair vitorioso, desde que ele se casasse com ela e a levasse para a Grécia. Ele aceita o acordo e deixa que Medéia faça, com sua magia, o que deveria ser o seu trabalho. O conjunto dessas tarefas preliminares representa a luta contra as tendências à dominação perversa, de que o aspirante ao trono terá primeiro que purificar-se. O herói tem que mostrar não apenas que tem méritos para apossar-se do velo de ouro e assumir o poder, mas ainda, em razão da força que o anima, de permanecer como digno detentor do troféu conquistado. “Arar a terra” significa torná-la fecunda, e fazer isso com a ajuda de touros domados é uma prova da força sublime, da sabedoria, que doma o perigo e a tentação do abuso brutal, inerentes ao poder. Os touros com pés de bronze retratam a tendência dominadora, a ferocidade e o endurecimento do espírito. Medéia dá a Jasão um balsamo para que cubra seu corpo e suas armas que o torna invulnerável. Esse bálsamo, assim como o fio que Ariadne dá a Teseu, é símbolo do amor, que converte o impossível em possível, desde que as intenções da alma sejam puras. A questão é: Jasão tem esse amor ou está se servindo dele? Medéia é de uma família ligada à noite e aos poderes malignos da terra, e somente um herói já purificado poderia fazer essa sizígia sem sucumbir ao egoísmo e à intriga perversa que alimentam os poderes ctônios. Jasão é dotado de força heróica, mas está se respaldando em forças obscuras, por isso não lhe basta dominar os touros, e a prova “se repete”, para que o herói mostre com exatidão sua verdadeira intenção. O poder “semeia” inveja, ciúme e intriga, por isso Jasão tem que matar os gigantes de ferro, que se erguem contra o pacificador em busca de uma dominação perversa à custa do governante. Em vez de usar sua força heróica nessa prova, ele aceita o conselho ctônio de Medéia, e joga uma pedra em meio aos recém nascidos gigantes, que acabam se massacrando entre si, pois um pensa que está sendo atacado pelo outro, já que num ambiente de intrigas cada um se sente ameaçado pela inveja exaltada do outro e espera tirar proveito da briga. A astúcia não pode vencer a violência de maneira definitiva, pois trata-se de um emaranhado perverso que reina sobre o mundo e que, incessantemente conduz às explosões de violência. Jasão percorre muito rapidamente as 3 primeiras provas, e aquilo que deveria fortificar sua intenção sublime ameaça arrastá-lo para uma futura realização banal. Apesar do mal presságio, essas foram apenas preparações para seu real objetivo, que é o velocino de ouro. Mas aqui também Jasão usará das artimanhas de Medéia em vez de sua força heróica. A filha de Eetes adormece o dragão que guardava o velo, e Jasão não mata o monstro, que é a imagem de sua própria perversão, em luta heróica, e sim de uma maneira inglória, apenas se apossando do velocino sem maiores dificuldades. Utilizando o poder mágico de Medéia para cumprir seus trabalhos, Jasão se torna insolente face ao espírito e suas exigências de aperfeiçoamento, e assim se prende às suas intenções mais exaltadas, à corrupção dominadora, graças ao desencadeamento inescrupuloso dos desejos egoístas, e isso equivale a vender a alma ao demônio. Assim sendo, o rei não pode deixar que lhe levem o tesouro espiritual, representado pelo velo, e isso ocorre não só no plano externo, mas também no íntimo de Jasão, através de um grande sentimento de culpa por se saber não merecedor do troféu que leva. A fuga de Jasão e Medéia é a tentativa de recalcar essa falta, e por isso a feiticeira trai o próprio pai, e, ao fugir da Cólquida com Jasão, esquarteja seu irmão e vai jogando os seus pedaços no mar para atrasar o pai que os persegue, assim como em muitos tempos e lugares se costuma sacrificar os “filhos da verdade”, por ser essa insuportável. Mas eles escapam e tudo parecia ir bem até a volta, quando a vitória sobe à cabeça de Jasão e, claro, ele passa a se comportar como um carneiro estúpido e não como o possuidor de um velo de ouro: ele tenta descartar Medéia para se casar com uma princesa mais jovem, Creusa, vaidosa e ambiciosa filha do rei de Corinto. Só que Medéia não é mulher de se deixar afastar, e Jasão terá que aprender que não se faz pactos com o lado obscuro do inconsciente de forma leviana. Em vez de deixar o caminho livre, ela trucida os dois filhos que teve com Jasão, envenena a nova favorita com um manto mortífero, fugindo em seguida em uma carruagem puxada por dragões. Jasão se torna rei, mas com uma tirania tão perversa, que acaba devastando seu reino até ser expulso. O ex herói morre quando descansava sobre a nau Argos, atingido por uma viga caída do próprio barco que deveria tê-lo conduzido a uma vida heróica.

Áries tem que aprender com a vida que não se pode subestimar ou negligenciar o poder e o valor yin, feminino, assim como o mundo povoado por heróis e nobres causas ariano tem que abrigar também o poder da gentileza, da paciência, do compromisso, da compreensão, da justiça e da concórdia, que lhe mostra seu signo oposto, Libra. Esse herói, para conquistar o reino que lhe é destinado, tem que usar sua força e audácia não para conquistar uma gloria aparente que justifique sua vida, mas sim para domar seus desejos egoístas que levam à banalização da violência e das suas tarefas mais profundas. Só quando Áries confronta o seu ditador interior - que quer tudo de sua maneira e já, sem admitir as fraquezas dos outros e as suas próprias, sem admitir nada que não esteja de acordo com seu universo mítico -, essa enorme força pode ser libertada de modo positivo. A derrota, como Áries tem que acabar aprendendo em sua vida e em suas relações, não está no fato de não conseguir alcançar sua meta, seja ela ter o Tosão de ouro ou qualquer outra coisa que Áries coloque como meta para si, e sim aprender a refletir sobre suas ações, reter sua mente crítica e muitas vezes cheia de preconceitos, levando em conta as verdades do Outro, como ensina Libra. Aí sim esse herói de capa e espada poderá amadurecer e não precisará buscar saídas fáceis nem matar aliados. Quando Áries se transforma no verdadeiro herói que é potencialmente, então todos nós poderemos aproveitar a nova trilha aberta que só esse guerreiro é capaz de abrir.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Áries e o Impulso de Ser

Todos os que militam
Debaixo dessa bandeira,
Já não durmam, já não durmam
Pois não há paz na terra.


Se como capitão forte
Quis Nosso Deus morrer,
Comecemos a segui-lo,
Pois damos a ele nossa morte,
Oh venturosa sorte,
Se o seguimos nessa guerra.
Já não durmam, já não durmam,
Pois falta Deus na terra.


Com grande contentamento
Se oferece a morrer na cruz
Para dar luz a todos
Com seu grande sofrimento.
Oh, gloriosa vitória!
Oh, afortunada esta guerra!
Já não durmam, já não durmam
Pois falta Deus na terra.


Não haja nenhum covarde,
Aventuremos a vida,
Pois não há quem melhor a guarde
Que aquele que a dá por perdida
Pois Jesus é nosso guia
E também o prêmio dessa guerra.
Já não durmam, já não durmam
Pois não há paz na terra.

Teresa de Jesus - Sta. Teresa D’Ávila - Amante ariana de Deus.

Com o Equinócio de Outono no Hemisfério Sul, o Sol entra em Áries e iniciamos o ano astrológico. O mais impulsivo dos signos de Fogo mostra exatamente a energia necessária para sairmos da força regressiva da massa emocional de onde viemos e afirmarmos nossa individualidade única. Além de ser regido por Marte, o deus da guerra, e ser o exílio de Vênus, a senhora da beleza, o Sol, princípio da individuação, está exaltado em Áries e Saturno, o estruturador, em queda. Dá para se notar que ordem e harmonia não são a praia desse signo guerreiro. Geralmente as pessoas se dão muito bem ou muito mal com arianos. Os que tiveram experiências ruins com Áries dizem que ele é egoísta e autoritário, incapaz de escutar os outros. Já os que ficaram amigos de arianos falam de sua enorme capacidade de lutar pelo que quer, da incrível velocidade mental e da generosidade com que compartilha suas conquistas. Pois Áries é tudo isso ao mesmo tempo.

A personalidade ariana tende a ser iniciadora e pioneira, mostrando alguém ambicioso, que luta por aquilo que quer ou acredita. Desta forma, os atos e decisões tomadas são coloridas com traços de espontaneidade, impulsão e impaciência, justificadas através de uma idealização das causas que defende. Colocando-se sinceramente (às vezes ingenuamente) como defensor dos injustiçados e oprimidos, os arianos conseguem lutar contra as próprias amarras, que impedem a independência e liberdade que anseiam para agir. O ariano realmente parece sofrer daquilo que Liz Greene chama de “Síndrome do Cavaleiro Andante” ou “Síndrome de Joana D’Arc”. Dê-lhe uma causa - que pode ser desde o combate ao fumo ou o direito ao aborto, até as grandes revoluções políticas, contanto que se refira ao bem estar geral - onde exista um mal a ser desafiado e se possa trucidar o inimigo - que o ariano logo saca sua velha armadura, devidamente limpa e polida. O elemento Fogo mitifica a vida e Áries necessita achar alguma causa para defender, pois assim pode mostrar todo seu gênio e coragem. Essa descrição pode dar a impressão de que Áries é um signo um tanto quanto anacrônico, porém o espírito cavalheiresco é decididamente uma das qualidades arianas. No fundo da alma do ariano a época do amor cortês ainda existe, e ele procura alguma Ordem que possa declará-lo Real e Fiel Cavaleiro e lançá-lo na aventura de caçar dragões e defender donzelas. Áries se portará sempre honradamente, seja como amigo ou como inimigo; será generosos e leal com os amigos e raramente se inclinará a revanchismos ou mesquinharias para com os inimigos. Isso faz com que haja sempre um forte traço de impaciência, no limite da arrogância em Áries, pois ele não suporta nada que considere bobagem, atraso, insubordinação, estupidez e indiretas; enfim, não suporta nada de boa vontade, mas sim com nobreza. Como todo signo de Fogo, Áries é, na verdade, uma criança, o que quer dizer que ele pode parecer infantil, mas também que tem uma inocência corajosa e de bom coração. Deslealdades, intrigas e maldades de qualquer espécie realmente o desnorteiam e ferem. E isso acontece sempre, pois, vivendo em um mundo de ideais nobres, ele tende a se esquecer dos fatos e situações reais, onde as coisas são diferentes do que poderiam ou deveriam ser. Áries não tem grandes preocupações com o status quo, pois sua maior necessidade é de ação, de algo que o desafie e que lhe permita colocar sua energia, estimulando e oferecendo novas possibilidades, de preferência com muita liberdade pessoal para dar andamento a seus projetos sem interferência. Nem todos os arianos tem a disposição física do deus da guerra, mas a maioria aprecia esportes e competições, pois aí encontram o espírito de desafio e vitória que procuram. Isso se dá com freqüência também no plano intelectual, onde a energia dinâmica que Áries possui é mostrada na sua impressionante vivacidade mental. Mercúrio, o planeta da comunicação, é considerado o regente de Áries na Astrologia Esotérica. Seja como estudante, filósofo, profeta, artista ou líder religioso, o ariano mais mental adora desafios intelectuais, problemas difíceis de resolver, textos impenetráveis que o faça batalhar.

O carneiro de Fogo é capaz de pensamentos profundos e considerável ternura, mas é também capaz de largar qualquer compromisso mundano para se embrenhar em alguma Cruzada. Isso quer dizer que Áries tem uma tendência a criar crises se não houver uma pronta para enfrentar. Ele poderá atormentar pessoas e abalar situações muito estáveis, que ele considere paradas e estagnadas, até a grande explosão final. Ele gosta de fazer o papel de Advogado do Diabo, mesmo que o preço seja o de que todos se aborreçam com isso, pois isso gera ação, e ação, para Áries é sinônimo de vida.

domingo, 2 de março de 2008

NETUNO



Em 1841, observando Urano no céu, dois jovens astrônomos começaram a levantar a hipótese de que haveria um oitavo planeta orbitando o nosso Sol, pois o caminho uraniano parecia perturbado por algo que só poderia ser outro planeta, e não poderia ser nem Saturno nem Júpiter. Somente cinco anos depois essa hipótese foi comprovada por observações telescópicas. Ao se encontrar Netuno, também foi corroborada a órbita elíptica de Kepler, e tivemos que aceitar definitivamente que o Sol possui um companheiro invisível como foco do centro do nosso sistema. Nessa época, Helena Blavatsky, organizadora da Sociedade Teosófica, está fazendo suas viagens pelo Oriente, Allan Kardec visita mesas girantes, a parapsicologia está se tornando ciência e Charcot trata a histeria com hipnose. E assim tomamos consciência do novo regente de Peixes, que se exila quando no prático signo de Virgem, fica em queda no auto centrado signo de Leão e exaltado quando no coletivo signo de Aquário. Sua órbita ao redor do Sol dura quase 165 anos, ficando cerca de 13 anos e meio em cada signo, ou seja, praticamente o dobro de Urano.

Misticismo, ilusão, dissolução do ego e confusão são os termos mais utilizadas pelos astrólogos quando falam desse planeta que recebeu o nome de Netuno, o Senhores dos Mares, dos rios e das águas subterrâneas, conhecido como Poseidon pelos Gregos. Esse deus vivia em um palácio no fundo dos oceanos e podia emergir dos mares com a água se abrindo calmamente ao seu redor ou com furiosos vendavais e ondas assassinas. O elemento Água, em astrologia, é associado ao campo dos sentimentos e das emoções, que, como o deus, podem tanto ser plenos e divinamente inspirados quanto passar por cima de nós como uma onda gigantesca da qual não podemos escapar. O ser humano carrega em si uma ânsia por pertencer a algo maior e mais pleno do que a sua individualidade, e Netuno nos mostra a possibilidade de dissolver as fronteiras do que é separado e vivenciar a totalidade da vida. Mas a ambigüidade de sermos todos Um, embora separados, de sermos abençoados e malditos, de sermos seres com grandes potenciais, feitos à imagem e semelhança de Deus, mas também fracos e frágeis, capazes de regredir ao desamparo infantil e à inadequação humilhante, nos causa grande conflito. Como conseguir penetrar nessa confusão com a confiança de que esse é o caminho de transição para uma maior clareza e abundância? Novamente é Saturno - o princípio estruturante do eu - que faz a contraparte de Netuno. Possêidon era filho de Saturno, irmão mais velho de Zeus, e também foi devorado pelo pai temeroso de ser destruído. A idéia de desintegração da identidade individual é algo atemorizante, pois não sabemos o que somos sem ela, por isso nosso desejo de re-ligação com a totalidade da vida é cercado por tantas dificuldades. O mais comum é que entreguemos essas questões para o inconsciente. Como tudo que é jogado ao porão da psique acaba se disfarçando para aparecer na frente da casa, na área do mapa astral em que temos Netuno é comum encontrarmos situações onde não temos outra escolha senão sacrificar os desejos pessoais e aceitar as forças que não conseguimos mudar ou aliviar. A dor e a delícia de Netuno é a força com que ele despoja nossa vontade pessoal de seu sentimento de poder superior e de isolamento e, purificados, nos envia aos braços de algo amorosamente maior. Na área onde temos Netuno há uma fugidia lembrança do Paraíso Perdido e passamos a procurá-lo na terra, na crença de que ali estará nossa redenção. Barganhamos com Netuno nada menos que o êxtase absoluto, ficando invariavelmente desapontados quando o mundo exterior não nos oferece tudo aquilo que vislumbramos. Com amargura e feridos, olhamos para outros lados em busca de consolação - seja no divã do analista, no bar ao lado ou na igreja mais próxima. A desilusão de não obter o que se sonhava de Netuno pode ser o marco de entrada em outra dimensão de experiência se esse sofrimento fizer com que se volte para o interior em vez de buscar a redenção em uma realidade externa. É a descoberta de que a felicidade que procuramos está lá, escondida no indestrutível palácio de ouro de Netuno dentro do oceano.

Este é um planeta coletivo, que vai influenciar nos em nossa busca por redenção humana. Uma maneiras interessante de observar a influência de Netuno é através da moda, que nos mostra como as pessoas estão se “fantasiando” para mostrar com o que sonham. Quando usamos as lentes nebulosas de Netuno para observar a moda das ruas, o vestuário das tribos ou os desfiles de alta costura, podemos sentir, através dos símbolos, das cores, formas e texturas, como as pessoas estão abrindo mão da identidade única para se misturar àquilo que coletivamente se coloca como Belo. Quando se pergunta porque alguém se veste como se veste, a resposta geralmente se baseia em algum gosto subjetivo, o que também nos ensina muito sobre Netuno. Esse planeta nos coloca em meio a uma nuvem densa onde não conseguimos diferenciar o que é nosso, o que é do outro ou o que é coletivo, e, como quando dirigimos sob neblina, precisamos caminhar de faróis baixos, com calma e atenção, pois um caminhão pode simplesmente aparecer de uma hora para outra, como por encanto, e causar um acidente. É por conta dessa dificuldade, muitas vezes assustadora, que a casa que esse planeta comanda é onde procuraremos um salvador. Iremos nos comportar como vítimas, recusando responsabilidades e esforço pessoal, esperando que alguém apareça para tomar conta dessa área para nós. Há também a possibilidade da dinâmica contrária, fazendo-nos salvadores dos outros por causa da simpatia pela dor alheia dada por Netuno. Normalmente oscilamos entre um extremo e outro. Esse é um deus escorregadio e as coisas que pensamos desejar parecem nos escapar misteriosamente, dificultando a visão dos fatos e fazendo-nos escolher apenas o que dá sustentação à nossas fantasias, até o dia em que a realidade nos cai na cabeça tirando-nos qualquer pequena certeza.

Cristo é considerado o Mestre Netuniano - seu nascimento é tido como marco do início da Era de Peixes -, aquele que é ao mesmo tempo vítima e salvador, ensinando a redenção do pecado através do sacrifício total ao Amor Divino. Mas o simbolismo desse planeta me parece mais claro quando pensamos nos arquétipos femininos do Amor e da Compaixão, como a Virgem Maria católica ou a Kuan Yin e a Tara do Budismo. É em Yemanjá, porém, a Grande Mãe e Rainha dos Mares dos Iorubás, que encontramos mais elementos para entender Netuno. Diz a lenda que quando Yemanjá recebeu o mar como presente de sua mãe, Olocum, as águas salgadas eram tranqüilas e fonte de serenidade. Mas quando os humanos começaram a abusar e causar mau ao mar, a deusa foi em busca do auxílio de Olorum, Senhor dos Céus, e criou as ondas e marés para proteger seu reino e devolver à praia o lixo jogado em suas águas. Assim também quando não respeitamos nossas emoções e o trabalho a ser realizado para maior desenvolvimento da consciência, enchendo o inconsciente com aquilo que não queremos reconhecer de nós mesmos, receberemos de volta todo o medo, a confusão, os conflitos e distorções que essa negação gera em nosso interior. Mas se em lugar de usarmos nossas fantasias e sonhos para tentar escapar da responsabilidade pessoal e do sacrifício voluntário de nossas imagens idealizadas, usarmos essas inspirações divinas para mergulharmos nesse espaço onde a limitada mente racional não consegue entrar, poderemos ver que é exatamente onde nos acreditamos frágeis e vulneráveis que encontraremos as portas para uma maior sensibilidade criativa e afetividade amorosa. Só assim teremos como vislumbrar o coração amoroso da Grande Mãe em lugar de sermos jogados, cheios de desilusão, repetidamente na praia.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Barquinhos no Oceano: Mitos para Peixes



Muitas histórias falam de seres mágicos que vêm à terra para se unir a seres mortais, como a mulher-foca dos esquimós ou as ondinas - também chamadas de sereias -, que vivem nas profundezas do mar ou de um lago, se apaixonam por um ser humano de carne e osso, e buscam a união em um outro nível de realidade. Em todas as variantes dessas histórias, o encontro é cheio de dificuldades: existem condições a serem preenchidas e, normalmente, termina em desastre. Não porque estivesse condenado desde o princípio, mas por causa da inaptidão do mortal, que tenta impor suas próprias leis e valores ao parceiro misterioso. Como os dois peixes que tentam nadar em direções opostas mas estão presos um ao outro por um cordão de ouro, que simbolizam o signo, Peixes carrega em si o dilema de duas dimensões: o lado mortal, que precisa da realidade tangível do comer, beber, reproduzir-se e morrer; e o lado misterioso que habita as profundezas e, ocasionalmente, abana a calda acima da água, fazendo-a brilhar ao sol e encantando o mortal que passeia pela praia. O processo desse encontro é a vida de cada pisciano. Alguns simplesmente seguem a sereia, esquecendo que seus pulmões são humanos, e se afogam. Esses acabam experimentando a vida dos delinqüentes, drogados ou bêbados desse signo. Mas há aqueles que conseguem traduzir o ser mágico que avistam, mostrando o brilho de outros reinos e de um universo quase incompreensível à mente humana em sua majestade e imensurabilidade, gerando filhos que circulam pelos dois mundos e oferecendo à humanidade um mapa de universos desconhecidos. Então encontramos físicos como Einstein, músicos como Chopin e artistas plásticos como Michelangelo.
Os mitos gregos estão cheios de histórias que nos mostram como lidar com os perigos do reino de Netuno. No mito de Ulisses, por exemplo, ele faz sua tripulação tapar os ouvidos e se amarra ao mastro quando tem que atravessar o mar cheio de sereias. Essa história é brilhantemente analisada pelo filósofo e crítico literário Walter Benjamin em seu livro Kafka, (trad. e introd. Ernesto Sampaio, Lisboa, Hiena, 1994), e vale a pena ler se você quiser aprofundar mais o assunto. Walter Benjamim tinha o Sol em Cãncer e a Lua em Peixes, portanto entendia bastante desses reinos profundos. Na Odisséia de Homero há também um trecho onde Menelau, marido legítimo de Helena, conta sua volta para Esparta após a guerra de Tróia, e de uma parada prolongada que foi obrigado a fazer em uma ilha. Tendo lá parado para pernoitar, acordou no dia seguinte com uma enorme ventania na direção oposta da que precisaria para zarpar. E assim passou-se o dia inteiro na expectativa do vento amainar ou mudar de direção. Passaram-se muitos dias assim e a situação acabou se tornando crítica, pois as provisões chegaram ao fim e a pescaria era difícil por causa da agitação do mar. Menelau caminhava sozinho e preocupado pela praia, pois percebia que aquilo só podia significar algum desagrado dos deuses, quando subitamente apareceu-lhe um ser de beleza tão radiante que só poderia ser uma imortal. Era uma nereida, filha de Nereu, o Velho do Mar. Com a expressão severa, ela lhe pergunta o que ele fazia a tanto tempo em sua ilha. O rei de Esparta contou-lhe que estava preso pela tempestade e pediu que o ajudasse a descobrir o que queriam os deuses, que não o deixavam partir. Ela lhe conta que o único que poderia interpretar as mensagens dos deuses enviadas pela tempestade seria o próprio Nereu, habitante das profundezas do oceano, conhecedor dos segredos da terra, do mar e dos ventos. Explicou-lhe também que Nereu tinha o poder de se transformar no que quisesse, e a única forma dele dizer algo seria agarrando-o enquanto dormia e segurar firme, fosse qual fosse a forma que ele tomasse, até ele voltar à forma de Velho do Mar, pois aí ele seria obrigado a responder qualquer pergunta que lhe fizessem. A nereida mostra a caverna em que seu pai se deitava para descansar com os botos, e Menelau, junto com alguns de seus homens, se esconde à espera da estranha criatura. Quando Nereu chega e se deita para dormir, é agarrado pelas pernas e pelos pés e imediatamente começa a se transformar nas mais estranhas criaturas desse e de outros mundos. Mesmo com o coração cheio de medo, Menelau e seus companheiros seguram firmes e em silêncio, até que os encantamentos cessem e Nereu volte a sua forma de Velho do Mar. Então o imortal pergunta ao mortal o que ele quer, e Menelau questiona-o sobre a razão da tempestade que o impede de partir. Nereu diz que o rei de Esparta, na pressa de partir de Tróia, havia negligenciado seus deveres para com os deuses, esquecendo-se de fazer as oferendas necessárias para que tivesse paz e fosse guiado com tranqüilidade para casa. Então Menelau agradece à Nereu, presta suas homenagens aos deuses e consegue seguir seu caminho.
Esse parece ser o trajeto que Peixes precisa fazer toda vez que se vê paralisado pelas tempestades em sentido contrário que o envolve, se ele não dá as oferendas exigidas por seus deuses internos. Sua salvação está em conseguir segurar firme e em silêncio o senhor de suas profundezas e enfrentar suas transformações até conseguir a resposta que necessita. Quando se apavora e se solta, acaba sendo devorado. Se, porém, encara corajosamente a consciência que tem das duas dimensões em que vive - com toda a confusão que isso gera - todos nós seremos beneficiados. Afinal, Peixes representa o potencial desperdiçado, porém divino, de toda a humanidade, e é preciso coragem para poder encarar algo muito - mas muito mesmo -, superior à nossa compreensão humana.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Peixes



Regido por Netuno, o Senhor das Águas, Peixes é o último signo do zodíaco, e o mais complexo dos signos de Água, capaz de combinar coisas tão paradoxais quanto um Einstein e um sem-teto das ruas de São Paulo. Aqui temos a exaltação da Lua, o astro que rege nossas emoções, e também o exílio de Mercúrio e a queda de Urano, os dois planetas que falam de nosso raciocínio lógico e de nossas ideologias. Assim, não há como abordar Peixes através da mente racional e da lógica. Liz Greene chama esse signo de “senhor das latas de lixo da humanidade“, pois tudo que foi jogado fora, desdenhado ou não compreendido, Peixes acolhe. Ele está à procura de, nada mais nada menos, que o verdadeiro segredo da fonte da vida. Por isso é tão fácil ele se perder e se desiludir com o mundo, acabando por buscar uma via escapista. Peixes tem um pouco de cada um dos outros signos, e observando-o de perto se tem a impressão de estar diante de um ser camaleônico. Não se trata das várias personalidades vividas por Gêmeos, mas de uma espécie de empatia e identificação fluida e complexa com toda a raça humana, que faz com que ele se mimetize com qualquer um que lhe seja próximo, como o herói do filme Zelig, de Wood Allen. Isso trás bastante problemas para os piscianos, principalmente por que os outros acabam subestimando-os. Além disso, eles costumam ficar realmente muito passivos e inertes quando atravessam períodos de crise. O problema maior de Peixes é que lhe é difícil fazer escolhas rápidas, pois todos os caminhos são válidos e contêm alguma verdade, se olhado mais profundamente. Tudo para ele é relativo. Isso faz parte de seus dons, pois é a fonte da sua impressionante tolerância, mas pode gerar uma atitude incrivelmente vaga. Por isso alguns almanaques dizem que Peixes nasceu para servir ou para sofrer, pois é comum encontrar pessoas desse signo que continuam passivos enquanto as coisas ao seu lado desabam. Pode ser desconcertante observar essa total aceitação do infortúnio que Peixes tem, mas parece que ele sabe algo que nenhum outro sabe: que todo esse sofrimento significa pouco se você não estiver fortemente ligado à vida desse mundo.
Peixes é conhecido como signo do misticismo, e isso quer dizer um monte de coisas. Uma delas é um profundo sentimento religioso, não no sentido ortodoxo, mas na idéia de viver Deus, religando-se a uma outra realidade transcendental, mágica e intangível, que faz com que a vida normal seja amorfa, sem significado e um verdadeiro vale de lágrimas. “Morrer ou sofrer”, clamava Santa Tereza D’Ávila para seu Deus. Por outro lado, Peixes tem uma profunda sabedoria a respeito da futilidade de muitos desejos humanos, como ambição frenética, paixão pelo poder ou cobiça e avidez. Ele é tão capaz como qualquer outro de sentir essas emoções, mas no fundo ele não as leva muito à sério, pois sabe que é tudo ilusão. Como seus companheiros de Água, ele é profundamente sensível às correntes invisíveis que estão por trás das máscaras do comportamento das pessoas. É difícil enganar um pisciano. Mas, enquanto Câncer e Escorpião estão fortemente ligados às próprias emoções - por isso, quando acham que alguém não é confiável, Câncer protegerá a si e aos seus e Escorpião atacará o inimigo ou o deixará sozinho depois de mostrar seu desgosto -, Peixes vai olhar, sentir, ficar triste, perdoar e deixar que o outro se aproveite ou o destrate, apesar de toda sua perspicácia. Quando se busca a razão desse comportamento geralmente descobrimos que para ele isso não tem real importância. Esse parece ser um signo de outro mundo, inseguro e não acostumado com as leis que regem o nosso claro e frio mundo de matéria e fatos intelectualmente apreendidos. Peixes parece não conhecer os limites humanos, sendo comum vê-lo comer até passar mal, beber até cair, ou fazer tanta algazarra que ofende todo mundo e depois ficar tão quieto e esquisito que assusta todo mundo. Ele não entende como descriminar, limitar, escolher. Em compensação ele tem uma imaginação também ilimitada, sendo que muitos músicos, pintores e físicos modernos são piscianos. É como se ao nascer ele recebesse a chave para as portas da fonte da vida, do reino dos sonhos, podendo entrar e sair quando quiser. O problema é que às vezes ele não quer sair de lá. A realidade limitada por tempo, espaço, estruturas, fatos e outras pessoas geralmente é irritante para Peixes, fazendo com que ele deixe de ver coisas simples, como a conta de luz que tem de ser paga. Não que eles não tenham senso prático, mas, de vez em quando, podem se mostrar mesquinhos e ter idéias esquisitas de como ganhar dinheiro, se metendo em muitos rolos que deixam pessoas mais convencionais de cabelos em pé. Isso acaba lhes dando fama de irresponsáveis, o que é relativamente injusto, pois Peixes é muito responsável com aquilo que gosta; só que sua concepção de realidade difere, completa e radicalmente, da de outras pessoas. Vivendo tanto em sua imaginação, onde tudo se move constantemente, esse signo se aborrece facilmente com a banalidade do cotidiano em terra firme. Isso também o faz um romântico incurável, não só em relação à casos de amor, mas também à sua casa, que tem que ser um castelo, à sua família, cheia de pessoas nobres, ao carro, que é especial... Bem, tudo ao qual Peixes se ligar ganhará luzes coloridas e especiais. Esse anseio e a intimidade que tem com o mundo dos sonhos fará com que o conceito de realidade ligada ao bem estar social, da comida e teto sobre a cabeça, convênio médico e saída uma vez por semana para jantar fora, não signifique nada. Peixes é tremendamente adaptável, e pode muito bem viver num porão, pois porões são românticos, conjuntos habitacionais, não.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Astrologia de Boteco Revolucionário: Descubra seu Urano e Encontre os Camaradas



Urano - como os outros transaturninos, Netuno e Plutão - é chamado de planeta geracional por passar bastante tempo em um mesmo signo. Como, porém, esse é o planeta mais rápido dos três e o que traz as revoluções políticas e ideológicas, é muito mais fácil reconhecermos nossa geração através dele. Durante os 7 anos que Urano fica em cada signo, novas rebeldias vêm à tona, novos conceitos de liberdade são formados, e a geração que nasce durante determinado transito uraniano é portadora de uma mesma necessidade de transformação. Assim, nosso signo uraniano é aquele que compartilhamos com nossa tchurma da escola, com os que se divertiram com os mesmos personagens infantis, brincaram da mesma coisa, ouviram as mesmas músicas e se apaixonaram pelos mesmos ídolos, com os que saíram nas baladas juntos, com os que tiveram filhos na mesma idade, com os que passaram pela mesma crise na meia idade e também os que estão compartilhando a sabedoria, as lembranças e os limites da terceira idade. O que vai ser diferente é a área em que Urano irá atuar, conforme a casa em que se encontra, mostrando sua face mais pessoal. Como eu gosto particularmente de estudar os transaturninos, Urano tem me dado bastante material, e merece um texto mais detalhado sobre seu caminhar pelo zodíaco. Aqui, tive que fazer uma seleção um tanto aleatória dos acontecimentos, pois o objetivo é dar uma visão geral para que se possa entender a ação uraniana no próprio mapa e na própria geração. A casa em que Urano se encontra no mapa tem uma força elétrica que faz com que aquela área da vida tenha sempre uma dinâmica libertária, e é muito mais interessante estar aberto para mudanças súbitas do que buscar algum tipo de estabilidade ou segurança externa. Assim sendo, veja a casa em que está Urano para saber em que área de sua vida você é portador da mensagem desse planeta na sua geração.

Urano no Ascendente - Em Áries de 1926 a 1933
Quem tem Urano ascendendo no mapa vai ter que desenvolver a coragem necessária para determinar as próprias verdades para sua vida, sendo comum que em muitos momentos pareça não haver caminho possível e se tenha que fazer um por si mesmo. Original e inventivo, esse Urano dá eletricidade para a personalidade, fazendo com que a pessoa muitas vezes se coloque de forma obstinada e desconcertante, gostando de ser diferente por puro prazer. Esse posicionamento uraniano precisa de muita liberdade pessoal, pois impede que a pessoa crie um sentido de identidade por meio das representações coletivas tradicionais, mostrando que sempre há algo melhor e diferente que se poderia ser. Isso muitas vezes dificulta o estabelecimento definitivo do que se é, o que pode ser visto como uma benção ou uma maldição. Geralmente se oscila entre algo maravilhoso e dolorosamente irritante. Associa-se Urano em conjunção com o ascendente com algo inusitado no nascimento ou na primeira infância, o que pode ser desde casos extremos, como o citado por Sasportas de uma criança que nasceu com duas cabeças que comiam e respiravam separadamente e tinha Urano em Virgem no ascendente, até casos de filhos de mães adolescentes. Seja como for, a pessoa terá dificuldades para aderir aos padrões de comportamento, querendo apenas ser deixada em paz para prosseguir naquilo que acredita e não terá muita paciência com aqueles que perturbem o seu caminho.
Urano esteve em Áries entre a primeira e a segunda Guerra Mundial, libertando muita agressividade reprimida e encorajando o caminho bélico como solução para os problemas. Jung, que nessa época era simpatizante dos regimes fascistas que emergiam na Europa como muitas outros seres pensantes, fala do arquétipo de Wotan, o demoníaco guerreiro da mitologia germânica, dominando o inconsciente coletivo. James Dean tinha Urano em Áries, e a imagem do rebelde solitário é muito boa para simbolizar essa geração. Os nascidos nessa época foram responsáveis pela reconstrução do mundo após a 2ª Guerra, e que provocou o “Baby Boom“ dos anos 50. Dessa geração são as primeiras mulheres que experimentaram a pílula anticoncepcional e educaram suas filhas para serem do mundo e não da família. Possuem o Urano ariano mulheres como Shirley Maclaine e Yoko Ono, e também Santa Teresa D‘Avila, que fez uma reforma tremenda na estrutura de clausura feminina de sua época. Também é dessa geração o inspirado e inspirador dos direitos civis que tinha um sonho, Martin Luther King e o ícone revolucionário, Che Guevara.

Urano na casa II - em Touro de 1933 a 1940
Ter um Urano na área dos valores pessoais e dos recursos financeiros costuma gerar o desejo de não ser limitado pelas necessidades materiais, e o valor do dinheiro será dado pela liberdade que proporciona para se prosseguir fazendo o que realmente se quer. A segunda casa do mapa fala das coisas que considero minhas, meu valores, minhas posses, minhas fronteiras. Urano aqui fará com que se compartilhe aquilo que se tem com os outros e também fará com que a pessoa se aproprie dos patrimônios da humanidade. Tenho observado um grande interesse por todas as maquininhas tecnológicas que surgem no mercado em pessoas com esse Urano, e muitas vezes se gasta mais do que se tem para adquirir aquele computador de bolso com acesso à Nasa. Existe aqui o desafio de se contrapor ao sistema coletivo de valores tradicionais, e a maneira de ganhar seu sustento costuma ser também incomum, muitas vezes através de áreas recém desenvolvidas, do trabalho com tecnologia de ponta ou de trabalhos totalmente individualizados. Urano na II é freqüentemente associado a mudanças rápidas e repentinas nas finanças e nas condições materiais - para o bem e para o mal - fazendo com que a pessoa tenha que mudar de padrão da noite para o dia várias vezes na vida. Desse modo se tem que experimentar mudança, rompimento ou desestruturação no seu sentido de segurança pessoal, forçando a reavaliação dessa esfera da vida, como se as necessidades de liberdade do inconsciente a coagisse a romper os laços materiais com o passado. Quando não se conhece essa necessidade profunda, a pessoa acaba escolhendo situações que parecem seguras mas que acabam se revelando instáveis, até aprender a dar espaço para as fontes inatas de originalidade e inventividade que devem ser desenvolvidas na relação com os recursos pessoais.
Urano esteve em Touro durante o início da 2ª Guerra, entre 1933 e 1940, e toda a destruição dos bens materiais e a escassez de recursos que isso gerou na Europa pode demonstrar bem o que significa uma transformação de valores, já que muitos tiveram que dar tudo o que tinham para fugir da Guerra e recomeçar do zero. Em compensação, países como o Brasil começaram a reinventar e fabricar a tecnologia que vinha da Europa e dos EUA, dando um grande salto tecnológico e adquirindo maior liberdade e independência depois do fim da Guerra. A geração de Urano em Touro vai se tornar adulta durante os anos 60, e toda a ideologia ligada aos bens comunitários e a um mundo sem fronteiras terão o colorido dessa revolução taurina. Sua Santidade Dalai Lama tem esse Urano em Touro e ele diz que a invasão do Tibet pela China representou a expansão do budismo tibetano pelo mundo para benefício de todos os seres. John Lennon e Carlos Castañeda também fazem parte dessa geração, que começou a explorar as fronteiras interiores, principalmente através das drogas: o LSD foi sintetizado pela primeira vez em 1938, com a ativa contribuição de Netuno em Virgem, diga-se de passagem. Interessante notar que os famosos perfumistas Paco Rabane e Azarro nasceram também sob influência desse revolucionador taurino, signo reconhecido pelo seu olfato refinado.

Urano na casa III - em Gêmeos de 1940 a 1947
Urano instalado na área da comunicação vai buscar liberdade e caminhos próprios para entender o que acontece ao seu redor. Isso pode ser tanto fruto de uma educação alternativa como a negação dos aspectos mais conservadores da forma como se foi educado para ver as coisas. Há uma capacidade especial de observar e compreender o mundo de um modo diferenciado e inventivo, fazendo muitas vezes com que os outros só saibam exatamente o que Urano disse depois de algum tempo. A casa III governa também os movimentos e esse Urano pode fazer com que a se seja muito nervoso em sua necessidade de explorar e experimentar novos e variáveis aspectos da vida, mudando rapidamente de curso e de ponto de vista. Há uma tendência a se tornar um verdadeiro atleta mental. Urano gera dificuldades para se ajustar aos sistemas de ensino tradicional, o que leva ao questionamento dessa área, sendo comum esse posicionamento em pessoas que trazem contribuições originais nos campos da pedagogia e da comunicação. Também é comum irmãos adotivos e de outras etnias, o que ajuda a comportar várias culturas em uma mesma formação.
Na última passagem de Urano por Gêmeos a 2ª Guerra foi concluída, e todos os debates e reconstruções de direito internacional, como o Tribunal de Nurembergue e a Conferência de Potsdam por exemplo, foram feitas sob esse trânsito. A geração nascida nos fins da 2ª Guerra teve muito o que dizer: no Brasil, Chico Mendes, com seu Urano geminiano, acaba assassinado por falar demais. O povo da Tropicália, como Gil, Caetano, Rita Lee, assim como os Novos Baianos Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, têm esse Urano “antropofágico“, capaz de assumir várias culturas, temperando-as com brasilidades e fazendo algo novo. Janis Joplin e Jimi Hendrix também possuíam esse Urano geminiano e trouxeram com certeza uma nova forma de se comunicar através da música que faziam. Com esse Urano temos também Paulo Coelho, que pega histórias tradicionais e as reconta com o maior sucesso de público, o que indica uma sintonia com a expressão coletiva.

Urano na casa IV - em Câncer de 1947 a 1954
Seja por escolha pessoal ou por inevitáveis circunstâncias externas, quem tem Urano na quarta casa não pode ser limitado pela unidade familiar biológica, pois esse posicionamento implica uma necessidade de encontrar o lugar a que se pertence no mundo, na família humana. Na maioria das vezes, Urano requer muito espaço e liberdade para procurar sua verdadeira família universal. Ele irá abalar as sensação de conforto e segurança do lar até a pessoa encontrar a liberdade de ser um membro da família humana. É comum, encontrar um Urano familiar em casa de filhos de militares e diplomatas, que têm que se desenrraizar de tempos em tempos, criando uma sensação de se pertencer a vários lugares ou a lugar nenhum. Outra maneira de se vivenciar Urano em família é quando os pais reúnem em casa grupos políticos ou filosóficos, e a pessoa cresce em um meio de debates sobre os rumos da Humanidade. Quando esse Urano está inconsciente a pessoa pode temer se ligar afetivamente e criar raízes por achar que o “destino” não o quer. O que está sendo pedido com esse Urano, porém, é que se desenvolva uma identidade que vá além da estabelecido pela família, pelo clã, de modo a que participem das atividades que beneficiem ou melhorem a Humanidade, recebendo e acolhendo as mudanças e evoluções do homem dentro da própria casa.
A virada dos anos 40 para os 50 marca o início da Guerra Fria, com o lançamento do Plano Marshall em 1948 para reconstrução da Europa em geral e da Alemanha em particular, que é repartida pelos Países Aliados vencedores da Guerra. Surge então dois Estados, e a Alemanha torna-se o marco divisório de dois blocos e sistemas político-econômicos antagônicos liderados pelos EUA, de um lado, e pela União Soviética, de outro. A Alemanha pós guerra também é um modelo de nação uraniana: dividida e desestruturada, tendo muitas famílias separadas, tem que reconstruir sua identidade sobre uma nova base, absorvendo culturas externas e encontrando a essência do que é ser alemão independente daquilo que é concebido externamente. Só isso tornará possível a reconstrução real do país após a queda do Muro de Berlim. De 51 a 53 temos também a Guerra da Coréia, para deixar bem claro quem está de um lado e quem está do outro. Mahatma Gandhi é um ótimo exemplo do significado transformador de se ter Urano em Câncer, tendo revolucionado sua própria casa, a Índia, através da política de luta não violenta, acolhendo muçulmanos e hindus em uma mesma pátria e servindo de modelo e inspiração para a os movimentos de direitos civis no mundo todo até hoje. Ao mesmo tempo, Gandhi voltava às tradições mais elementares de sua cultura, retomando o voto de castidade e a fabricação de roupas de maneira artesanal, por exemplo. No Brasil temos uma família bem uraniana para representar essa geração com Baby do Brasil (ex Baby Consuelo) e Pepeu Gomes, ambos com Urano em Câncer, que tiveram filhos e formaram família vivendo em comunidade. Essa é a geração dos jovens revolucionária dos anos 60, que contestou as estruturas familiares, queimaram sutiã em praça pública e praticaram sexo fora do instituição do casamento. Para essa geração a família é a humana, e não são mais as instituições que irão garantir a sua segurança ou a noção de civilidade.

Urano na casa V - em Leão de 1954 a 1961A quinta casa fala de onde e como nos divertimos e namoramos, de nossos hobbies e criações pessoais, da gama de coisas que ganham a nossa assinatura. Urano se diverte e se encanta com coisas excêntricas, e tende a cultivar hobbies fora do comum. O mesmo vale para os romances, que costumam ser nada convencionais e com começos e fins repentinos. Como em qualquer lugar, Urano precisa de espaço e liberdade, e faz com que a pessoa tenha que aceitar isso e se desligue dos padrões socialmente impostos. Na casa da expressão criativa, Urano encontrará soluções diferentes para a vida, e muitas vezes é decepcionante quando as coisas acontecem como se esperava ou quando o preço do reconhecimento é o comprometimento da liberdade individual. Há um grande gosto por aventuras e verdadeiro prazer em se experimentar novas criações.
Apesar da imagem da Dona de Casa Feliz Americana que marca os anos 50, o processo de transformação social que estava ocorrendo alteraria para sempre as relações sociais do Ocidente, dando início às grandes lutas pelos direitos individuais. A pílula anticoncepcional se popularizou nessa época, e a função feminina voltada para o cuidado do outro, como esposa, mãe e prostituta, não conseguia mais se encaixar nos desejos das pessoas de carne e osso. A escritora francesa Simone de Beauvoir havia publicado o livro "O segundo sexo" em 1948 com uma análise da condição da mulher onde ela concluía que "não se nasce mulher: torna-se mulher" e em 1951 a OIT (Organização Internacional do Trabalho) já havia aprovado a Convenção de Igualdade de Remuneração entre trabalho masculino e trabalho feminino para função igual, o que faz parte do processo anterior da desestruturação familiar tradicional que Urano fazia em Câncer. É só em 1960 que, no Sri Lank (Antigo Ceilão) - Sirimavo Bandaransike torna-se a primeira chefe de Estado, marcando a real entrada da mulher na esfera social masculina. Surge uma nova luta do feminismo em paralelo com a luta dos negros norte-americanos pelos direitos civis e com os movimentos contra a Guerra do Vietnã. Em 1955 nos EUA, quando uma mulher negra, Rosa Parks, se recusa a dar lugar para uma mulher branca no ônibus, começam as manifestações públicas das organizações negras por direitos iguais. A Revolução Cubana também se faz durante esse trânsito uraniano, em 1959. Urano em Leão possibilitou a derrubada de muitos dos padrões individuais existentes e fez com que o sentido da criação pessoal fosse libertada dos velhos padrões e visto como um direito humano, portanto de todos, independente de credo, raça ou gênero. A maneira das pessoas se divertirem também se modifica nessa época: Elvis Presley grava seu primeiro disco, Walt Disney inicia seu império e a televisão fica colorida. O Brasil também passa por processos de mudanças profundas e criativas. Em 1954 Getúlio Vargas se suicida e em 1955 morre Carmem Miranda, finalizando toda uma Era. É eleito o presidente Bossa Nova, Juselino Kubitschek, que promete realizar no país o avanço de cinqüenta anos em cinco, a começar pela construção de uma capital federal futurista chamada Brasília. A criatividade leonina despertada pela eletricidade uraniana fez surgir a força para se conceber um mundo novo, onde o avanço tecnológicos liberaria o homem e a mulher de todas as cores para uma vida criativa e de exploração de novos rumos para a Humanidade.
A geração nascida com Urano em Leão sobe ao palco da vida de maneira bem excêntrica. Michael Jackson e Madonna têm um Urano leonino, e pudemos ver nas manchetes dos jornais como eles se divertem. Outro com Urano em Leão é Osama Bin Laden, e o que se pode falar do “espetáculo” transmitido ao vivo para o mundo todo da explosão das Torres Gêmeas? “Estranho, bizarro! Tudo isso aconteceu, acredite ou não. O inesperado. Normal só tem você e eu”, cantará Lenine e seu Urano leonino. No Brasil temos exemplos realmente bem mais interessantes para essa geração de Urano em Leão: tanto Almyr Klink, que se divertia vivendo grandes aventuras em seu “barquinho”, quanto Airton Senna, fazem parte dessa geração.

Urano na casa VI - em Virgem de 1961 a 1968
Existe uma conexão entre o que somos por dentro e o tipo de realidade diária que criamos para nós, e a sexta casa mostra como fazemos isso através do nosso trabalho e do nosso o corpo. Um Urano na casa VI não deixa dúvidas de que, para modificar o exterior, o interior tem que ser modificado primeiro. Essa pode ser uma idéia libertadora se pensarmos no corpo físico como um instrumento para o desenvolvimento, caso contrário pode fazer com que a pessoa seja “vítima” de doenças que a afastam de um trabalho limitado e sufocante ou que não leva em conta a necessidade de expansão. É comum encontrarmos essa posicionamento em pessoas que não têm rotina diária de trabalho, e com certeza terão dificuldades em ficar num emprego apenas por sentido de dever ou por segurança. Trocar idéias e experiências com colegas de profissão pode ser muito estimulante e positivo para traçar referências que ajudem a observar e enfrentar a vida, e será sempre estimulante trabalhar em grupos. O corpo e a saúde é melhor cuidado através de métodos e medicinas alternativas que englobem o ser como um todo e não apenas os sintomas físicos perceptíveis, quando temos um Urano residindo aqui. Para as pessoas com esse posicionamento a vida se torna muito mais fácil depois que elas conscientemente agem para modificar aquilo que não gostam e que as limita, já que param de provocar as forças exteriores para rompê-las para elas.
Os anos 60 é um período realmente bombástico na história do Ocidente e do Oriente. Em 1962 inicia-se um período de encontro entre Urano e Plutão em Virgem, algo que só acontece a cada século e meio mais ou menos, marcando momentos de grandes mudanças: quando os arquétipos do Revolucionário e do Senhor das Profundezas resolvem agir em conjunto é realmente impossível ficar indiferente e não há como se prever o que irá acontecer, por mais especulações que se faça. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a significativa quantidade de ícones libertários que são assassinados nessa época: Che Guevara, Martin Luther King, Malcom X, John F. e Bob Kennedy estão nesta lista. Em agosto de 1961 é erguido o Muro de Berlim, símbolo de uma Era sombria que se inicia. União Soviética e EUA se digladiam numa corrida armamentícia que ameaça destruir o mundo através da Bomba Atômica. A luta mais simbólica desse confronto foi a Guerra do Vietnã, que mostrou que se precisa mais do que bombas para se vencer uma luta. No Brasil caminhávamos do governo futurista de Juscelino para a promessa de Reforma Agrária de Jango quando tivemos que voltar para um governo militar com o Golpe de 64. Uma das conseqüências do Golpe foi a tentativa de eliminar todas as cabeças pensantes do país, que têm que fugir para não serem mortos ou presos. É retirado do currículo escolar básico os estudos de Filosofia e Sociologia e substituído por OSPB (Organização Socio-Política do Brasil), onde as crianças aprenderiam o Hino Nacional e as maravilhas do Exército brasileiro, para criar “bons patriotas”. As estruturas do mundo externo pareciam fechadas e ameaçadoras, a humanidade se divide em “bons” e “maus” e só resta buscar novos horizontes internos. Nasce então o movimento de contra-cultura hippie como reação à Grande Sociedade militarizada. Cabelos longos contra o corte de cabelo milico, jeans e roupas artesanais contra o visual limpo, industrial e engravatado do americano médio. Jovens do mundo inteiro se mobilizavam contra o Sistema com manifestações estudantis na América Latina, criação de exércitos revolucionários como a FARC da Colômbia, revoltas no México, Alemanha e Itália, o ETA reivindicando o direito de se emancipar da Espanha franquista, a marcha de maio de 68 em Paris. Marxistas ocidentais, como o filósofo Herbert Marcuse, acreditavam que a verdadeira revolução seria feita através dos estudantes, dessa juventude que se recusava a aderir à sociedade de consumo. Filmes como Hair e Jesus Cristo Super Star retratam esse conflito de existências que estavam transformando o mundo em busca de uma nova era civilizatória para a humanidade. “Faça Amor, não faça a Guerra” era o mote jovem que preferia fumar maconha e tomar LSD para descobrir outras dimensões de existência do que ir morrer no Vietña fumando maconha e tomando LSD para se amortecer. Willian Reich, que morreu em 1957 em uma prisão nos EUA como subversivo, terá suas teorias libertadoras do Id e da sexualidade retomadas e aprofundadas através da Bioenergética de Lowen e do Core Energetic de Pierrakos. Outras técnicas libertadoras do corpo, também sob grande influência reichiana, como a Biodanza de Rolando Toro, irão ganhar forma nessa época. A revolução uraniana se volta para a individualidade básica dada pelo corpo físico, e uma nova dimensão de transformação voltada para dentro das pessoas começa a ser experimentada. Se não era possível romper as amarras sociais, então vamos romper com as couraças musculares do caráter.
Tanto Stalin quanto Getúlio Vargas tinham Urano em Virgem, e é possível ver que tanto o populismo de Vargas quanto a ditadura do proletariado de Stalin tinham em comum uma ânsia coletiva pela organização social em nome do trabalhador. A nova geração de Urano em Virgem, que nasceu entre 1961 e 1968, está passando agora por sua “crise de meia idade”, com Urano em Peixes, signo oposto a Virgem, e tem uma identidade com o trabalho que pode se dizer revolucionária também, apesar da grande decepção dos pais hippies. Essa não é uma geração que foi às ruas para brigar com o sistema, mas sim que entrou no sistema para revolucioná-lo, e se foi às ruas foi para tentar fazer com que o sistema funcionasse coerentemente e se pudesse participar dele, como nas manifestações para eleições diretas no Brasil. É significativa a quantidade de harkers que nasceram nessa época. Esses primeiros piratas da informática acabaram sendo assimilados pelo sistema e se tornaram milionários por volta dos 30 anos. Em oposição direta aos hippies, aqui temos a geração dos yuppies, expressão derivada da sigla "YUP", "Young Urban Professional", ou seja, Jovem Profissional Urbano. Se os hippies pregavam a volta ao campo e a vida em comunidade, os yuppies querem o avanço tecnológico e a comunidade em rede. Um bom exemplo disso é Jeff Bezos, nascido em 1964, que criou a Amazon.com, desenvolveu a linguagem Basic e transformou Seathe na capital mundial da informática. Também com Urano em Virgem temos Niklas Zenstrom - criador da Joosf para transmissão de TV pela internet, da Kassa, o programa de pirataria de música e imagens pela rede mais perseguido pela RIAA (associação de gravadoras dos EUA) e do Skype, que promete dar bastante trabalho às empresas de telefonia, já que possibilita telefonar do Brasil para o Japão pelo preço que se pagaria para ligar para seu vizinho - e de Rasmus Lerdorf, que cria a linguagem PHP que possibilitou a geração de conteúdo das www (Word Wide Web), as páginas de internet. Se você nunca ouviu falar em nenhuma dessas pessoas, não se espante: uma das características do Urano virginiano é a discrição que garante sua autonomia e liberdade.

Urano na casa VII - em Libra de 1968 a 1974A sétima casa é a área onde encontramos o Outro, associada a “casamentos, parcerias e inimigos declarados” nos manuais astrológicos. Os relacionamentos vão além do que é convencional se Urano está na VII, e vai ser difícil suportar uma união sem liberdade, sem vida ou que já não tenha sentido. Se a pessoa com esse posicionamento não manifestar as ansiedades de liberdade e inconformismo de Urano, provavelmente irá atrair e escolher inconscientemente parceiros que possuem essas qualidades, muitas vezes se apaixonando por alguém que nunca dá certeza do que sente ou que some e aparece sem dar satisfação. Quem tem esse Urano costuma receber revelações e passar por súbitas mudanças que tornam a relação que vive obsoleta, fazendo-as buscar novas relações que reflitam essas mudanças ou aprendendo a criar novos estímulos que revigorem a relação, tendo como parâmetro a necessidade de lidar com a Verdade do que está acontecendo. Essa casa fala muito do nossa capacidade de diplomacia, de como lidamos com os aliados e com os que vemos como inimigos. Urano não é um planeta muito diplomático e pode criar bastante confusão por conta de ideologias. De qualquer modo, quando Urano está na casa da busca por parcerias, ele desenvolverá originalidade, espiritualização, dinamismo, inventividade e carisma através do encontro com o Outro.
Em 1969 temos o grande festival “Power and Flower” em Woodstock, marco do auge do movimento hippie e também “festa de despedida“ dessa cultura que começa a decair. As psicodélicas maconha e LSD começam a ser substituídas pela cocaína e pela anfetamina. O narcotráfico colombiano se profissionaliza a partir dos anos 70, utilizando sua experiência anterior no contrabando de ouro e esmeraldas e aproveitando as conexões existentes para a distribuição da maconha, para introduzir crescentes quantidades de cocaína nos EUA de modo a aumentar a disponibilidade e reduzir posteriormente o preço. As ditaduras latino americanas são recrudescidas, e em 1968 temos no Brasil o famigerado AI5 (Ato Institucional nº. 5), que elimina todos os direitos civis no país e aumenta os poderes de polícia do exército. É realmente uma época difícil para se encontrar o equilíbrio por aqui: estamos sob o comando do general Médici, mas ganhamos a Copa do Mundo! O jargão ufanista da propaganda militar dizia “Brasil: Ame-o ou deixe-o”, numa ironia cruel. Começamos a viver os anos mais duros da ditadura militar, e a liberdade tem que ser conquistada na relação pessoal, enfrentando todas as dores e dificuldades desse plano da vida. Bertolucci lança seu polêmico filme, O Último Tango em Paris, em 1972, falando da problemática que se abre na esfera dos relacionamentos, e de como a busca do prazer como válvula de escape para a dor pode criar mais dor ainda. A política de Estado está fechada, as pessoas estão sendo expulsas de suas pátrias, mas podemos pensar que por isso mesmo começam a surgir grupos para discutir a política planetária. Urano em Libra vai despertar a consciência de que a relação entre eu e o outro tem que buscar uma harmonia que contemple a todos: se você quer se destruir é um problema seu, mas se isso vai afetar o planeta você perde esse direito. Apesar de Rachel Carson, considerada a fundadora do movimento ecológico, ter escrito seu desafiador livro Primavera Silenciosa em 1962, as primeiras discussões globais sobre o assunto vão acontecer à partir de 1968, com a Conferência Intergovernamental para o Uso Racional e a Conservação da Biosfera, promovida pela Unesco, onde se começa a pensar sobre o desenvolvimento ecologicamente sustentável. Em 69 surge em São Francisco, EUA, a ONG Amigos da Terra, que se dedica à idéia de preservação da natureza através de campanhas bem-sucedidas, como a do salvamento das baleias. Também nesse ano o Congresso americano aprova a lei de Política Nacional do Meio Ambiente que se torna referencia para o mundo, incumbindo o governo federal de garantir a preservação da natureza e determinando como deverá fazê-lo. Em 1971 o pesquisador francês René Dubos e a economista inglesa Barbara Ward lançam o livro Uma Terra Somente, sobre o impacto da atividade humana na biosfera. No mundo inteiro pipocam manifestações que questionam os rumos que o mundo está tomando através das lutas ecológicas, como o indiano Chipko (“abrace”), onde mulheres começaram a abraçar árvores para evitar que fossem derrubadas. Em setembro de 1971 um pequeno grupo de ecologistas e jornalistas saem com um barquinho chamado Arco Iris de Vancouver, Canadá, em direção ao Pacífico Norte para tentar impedir testes nucleares americanos. Esses “malucos” não conseguem chegar ao seu destino, sendo presos pela Guarda Costeira norte americana e expulsos da região. Ao voltar para o Canadá, porém, estavam todos nas manchetes dos jornais do mundo inteiro, o teste nuclear havia sido adiado por um mês e foi o último a ser feito no local. Nasce o Greenpeace, que na minha opinião carrega toda a força simbólica de um Urano em Libra, com sua ação direta não-violenta que alerta a opinião pública sobre problemas urgentes, pois acredita que é essa opinião pública a geradora de pressão política para produzir as mudanças necessárias e garantir um meio ambiente saudável para todos os habitantes do planeta e para as gerações futuras. É a hora de se revelar a importância de um novo equilíbrio planetário.
O Urano libriano mais famoso da astrologia é o de Hitler, muito bem mostrado no documentário sueco de 1989, “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen. Mas essa é a realização doentia desse Urano, que aliás é a mesma que encontramos nos garotos que realizaram o massacre de Columbine em 20 de abril de 1999, Eric Harris e Dylan Klebold. Mas é claro que existem formas mais saudáveis e criativas para se expressar esse Urano. Fernando Pessoa, que conseguiu harmonizar seus vários personagens internos através de seus heterônimos, mostrando como é possível conciliar várias vozes de maneira criativa, também tem essa força uraniana. Outro que modificou os hábitos pouco civilizados no ocidente e que tinha esse Urano era Erasmo de Rotterdam, filósofo mais conhecido por suas reflexões teológicas, mas que em 1530 escreveu um pequeno tratado revolucionário de etiqueta chamado De civilitate morum puerilium (Da civilidade em crianças) que fez muito sucesso na época e ensinou à Europa coisas que hoje parecem óbvias, como não escarrar enquanto conversa com outra pessoa, não comer com as mãos nem pôr as botas sobre a mesa durante as refeições. A geração nascida no início dos anos 70, portadores desse Urano, está agora chegando ao mundo adulto pós retorno de Saturno e foram os que inauguraram a instituição do “ficar”, no lugar do namoro sério, ao mesmo tempo que eram acusados de serem “caretas”, por manifestarem o desejo de casar e retomar a idéia de família nuclear. Clarice Lispector, com sua sintonia fina para a alma humana, vai publicar em 1969 seu “hino ao amor”, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres , que antecipa muito dos anseios de relacionamento que essa geração carrega. Será também essa geração que denunciará os exageros e abusos cometidos nas relações durante os anos 60 e que eles se recusam a carregar em suas vidas, como a obrigatoriedade de se perder a virgindade, que gerou toda a problemática da gravidez na adolescência na classe média, e a dupla jornada de trabalho da nova “mulher independente“. Essa geração quer casar sim, mas porque vê no outro a possibilidade de dividir as obrigações e buscar um caminho junto de maior liberdade e auto conhecimento. Um exemplo muito bom como representação dessa geração é o premiadíssimo filme alemão A Vida dos Outros (quer título mais libriano que esse?), do estreante cineasta e roteirista Florian Henckel Von Donnersmarck, possuidor desse Urano em Libra também. Ele mostra no filme como um casal que vive sob a enorme pressão de um mundo totalmente frio, autoritário e onde reina a falta de liberdade, pode subverter a ordem de seu algoz através dessa vivência amorosa. Essa é uma geração que veio para transgredir as normas através da verdade que se revela no encontro amoroso com o outro.

Urano na casa VIII - em Escorpião de 1974 a 1981
A casa oito é o tapete onde escondemos todas as sujeiras que não queremos limpar, por isso associada à sexualidade, à agressividade psíquica, à morte e às heranças. Urano se manifesta nas emoções dessa área de modo um tanto quanto diferente, geralmente compelindo à uma necessidade básica de se libertar das restrições da natureza instintiva e de superar o fato de sermos retidos por essas emoções. A pessoa é exposta continuamente a situações que a desafia a desenvolver um afastamento de tais instintos para forjar uma compreensão mais ampla, tolerante e libertária do envolvimento e da troca emocional. Não é raro encontrar casamentos comunais e trocas de casais com esse Urano. Quem tem um revolucionário de oitava casa irá descobrir leis mais sutis da natureza humana que operam na vida quando sondarem além do plano superficial da existência. Enquanto a pessoa não assume as necessidades de liberdade e verdade dadas por Urano nessa casa, súbitas mudanças de destino tendem a acontecer através da união amorosa ou de heranças, e certas fases da vida podem terminar abrupta e irreversivelmente, alterando drasticamente a direção que a pessoa seguia.
Urano em Escorpião trouxe à tona o movimento Punk, que gritou ao mundo: “o sonho acabou e eu quero que se fôda!”. O "alternativo" deu lugar ao "Underground", a vida dos porões. A idéia de comunidade começa a ser trocada pela via individual anarquista do “faça você mesmo”, com os fanzines despreocupados com refinamentos de acabamento e um humor ácido, sarcástico, a música de 3 acordes sem virtuosismos que podiam ser tocados sem nenhum conhecimento musical, e a rejeição a qualquer tipo de droga, incluindo álcool e tabaco, vistos como parte do sistema alienante. Os rebeldes e os beats dos anos 50 foram retomados, mas de uma forma que faz James Dean parecer uma moça de família. A busca por soluções sociais em comum foi substituída pelas tribos urbanas marginais à sociedade. O aspecto revolucionário passa a se basear na subversão dos “bons costumes“. Surgem as gangs, algumas inclusive com ideologia fascista, como os skinheads. Do outro lado dessa mesma moeda temos os frenéticos Dancing Days, com suas meias coloridas e brilhantes de lurex e calças boca de sino. Muito do brilho das discotecas, porém, advinha do alto consumo de cocaína nos seus banheiros. Sem dúvida essa é uma época adrenalinada, onde muitos medos tiveram que ser enfrentados. A Guerra do Vietña termina em 1975, ou melhor, o governo norte americano retira suas tropas da Ásia nesse ano e espera que os vietnamitas se explodam sozinhos. Assim, para nosso azar, os EUA puderam colocar mais energia no apoio às ditaduras sul americanas, não mais às claras como na Ásia, mas através das sombras do sistema. O milagre econômico acabou, e temos que conviver com a dura realidade de ser uma República de Bananas com enormes injustiças sociais. Sim, tudo está muito escuro. Provavelmente por isso que o físico, matemático e cosmólogo Stephen Hawking consegue finalmente provar a existência dos buracos negros em 1974, com sua fórmula matemática da entropia (S=Akc3/4hG). O buraco negro clássico é um objeto celeste com um campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape, ou seja a velocidade necessária para se escapar dele (os astrônomos que me perdoem a hiper simplificação) é maior do que a velocidade da luz: nem mesmo a luz pode fugir do seu campo gravitacional. Apesar da expressão buraco negro ter sido criada em 1968 pelo físico americano John Wheeler, em artigo histórico, foi à partir dos trabalhos de Hawking e seus colegas que a realidade dessa hipótese é conquistada e passamos a entender melhor o Big Bang que inícia o nosso Universo tridimensional. Um dos efeitos dos buracos negros, assim como de outros objetos cuja atração gravitacional é extrema, é o retardar do tempo devido aos efeitos gravitacionais. Parece realmente que, enquanto caminhava por Escorpião, Urano trouxe toda a escuridão que escondíamos embaixo do tapete e retardamos um caminhar glorioso que parecia lógico. Que mais nos restou senão tatear às cegas em busca de novas saídas? Sabe-se que a hora mais escura do dia são aqueles momentos um pouco antes do sol nascer, e com Urano em Escorpião muitas das nossas fantasias a respeito de nós mesmos tiveram que morrer para que uma nova consciência pudesse nascer. No fim dos anos 70, porém, já conseguíamos ver alguma luz, com o lentíssimo e gradual processo de democratização. César Borgia, o terrível nobre italiano para quem Maquiavel escreveu O Príncipe, tinha um Urano escorpiniano. Também Allan Poe, com seu corvo gritando never more, nunca mais! Porém acho que seja Darwin, que destruiu o nosso orgulho mostrando que tínhamos os mesmos ancestrais que os macacos e éramos tão imagem e semelhança de Deus quanto eles, seja o melhor exemplo de uma pessoa portadora do Urano em Escorpião. A geração nascida no fim dos anos 70 está agora por volta do seu retorno de Saturno, e provavelmente nos próximos anos estará mostrando ao mundo a que veio. Aqueles que enfrentaram as Trevas nos mostraram que a melhor arma que temos contra o Mal é a Humildade que acompanha a consciência de sabermo-nos possuidores de um ego limitado, então espero que possamos acolher as mudanças que essa geração está trazendo com esse sentimento.

Urano na casa IX - em Sagitário de 1981 a 1988
Urano já procura normalmente pela verdade, e quando se encontra na casa nove nenhuma abordagem ortodoxa ou tradicional poderá ser aceita quando se trata de compreender a vida ou a existência. A nona casa mostra como encaramos o lado filosófico da vida, como buscamos compreender o divino da existência. Deus é um enorme céu estrelado, vasto e difícil de entender com um Urano aqui, e ele irá abrir caminhos para pesquisar os misteriosos movimentos celestes. Há sempre o perigo de se aderir a seitas excêntricas em lugar de se refletir a vida e se procurar alternativas livres para as estruturas tradicionais. Sendo essa casa associada ao “ensino superior e às grandes viagens”, experiências inesperadas e inusitadas ou pessoas e idéias que despertam a pessoa e a fazem romper com velhas estruturas podem vir durante a faculdade ou em viajem a países estrangeiros, mudando realmente o rumo de vida daqueles com esse posicionamento uraniano. Seja como for, com Urano rebelando-se nessa área da vida, nenhuma estrutura religiosa ou filosófica vai ser grande e livre o suficiente para abarcar todos os questionamentos, e o melhor é a pessoa construir o seu próprio caminho, trazendo muito mais liberdade para todos.
E o que acontece nos anos 80 é exatamente a New Wave, com músicas de baleia orquestrada e a explosão do “alternativo”, com novas terapias, alimentações e gurus de todos os tipos. Só mesmo um Urano em Sagitário pôde fazer tantas pessoas entrarem nessa onda na Iluminação Fast Food dos anos 80. Talvez a imagem mais emblemática desses anos seja Osho, título honorífico de Rajneesh, um guru indiano que chegou nos EUA em 1981 para tratar de um problema de saúde e acabou se tornando uma figura cheia de polêmicas ao seu redor, colecionando carrões ao mesmo tempo que ensinava uma prática de meditação feita sob medida para o Ocidente - a meditação ativa - e a possibilidade de transcendência para o homem comum, sem que se precise ir viver em solidão no alto do Himalaia. Sem tentar apaziguar ou evitar conflitos, Rajneesh nunca foi um moralista, enfatizando sempre a consciência individual e a responsabilidade de cada um por si mesmo. As pessoas que o ouviam gostavam do que ele falava com consciência, mas com certeza não assimilavam muito bem essa idéia. Pouco antes de morrer, Osho declarou: "Quero que o meu povo conheça a si mesmo, que não sigam as expectativas dos outros. E a maneira é ir para dentro de si". Apesar dos exageros e maluquices das buscas espirituais dos anos 80, foi exatamente nesse período que o namoro entre oriente e ocidente, que acontecia desde o começo do século XX, começou a trazer resultados: muitos daqueles que hoje estão conseguindo transmitir uma nova realidade de maneira competente, fazendo a ponte entre física quântica e as pessoas comuns e construindo uma visão holística do ser humano, começaram seu caminho aqui. Estamos na época do garoto propaganda da Bombril, com cara de nerd mas com mil e uma utilidades. Temos o desenvolvimento do IBM PC e do Apple Macintosh, as primeiras interfaces gráficas, tanto o Windows quanto o MacOs, e com isso a popularização dos computadores pessoais ou PCs. O CD, o walkman e o videocassete também surgem nos anos 80, junto com o lançamento da estação espacial MIR, da União Soviética. O diretor Ridley Scott lança em 1982 Blade Runner, o filme do caçador de androides que se apaixona pela sua vítima, nos deixa na dúvida sobre o que é ser humano, e vira “cult“, termo que também nasce aqui. Video-clips, MTV, uma música muito - às vezes até demais - mais degustável. A Holanda libera o uso de maconha nos “coffe shops”, o ecstasy ainda não é considerado droga e o preço da cacaína abaixa de 55 mil dólares o quilo em 1981 para 25 mil em 1984. O rock e o punk estão mais acelerados e intensos. Mas o grande sucesso da época foi o disco Thriller, de Michael Jackson, que revolucionou a música POP. Na política temos a conservadora Margaret Thatcher e Lech Walesa, que deixam tanto feministas quanto revolucionários de esquerda em situação absolutamente desconfortável. “Desconfortável” talvez seja a melhor maneira de se definir os anos de Urano em Sagitário. Provavelmente por isso as pessoas com Urano em Gêmeos, o signo oposto, costumam considerar essa década como perdida. A revolução operada aqui expõe o exagero dos ombros falsos, o perigo de não sabermos se queremos ser andróides ou seres humanos, e pergunta com os Titãs: “você tem fome do quê? Você tem sede do quê?” As pessoas descobriram nos anos 80 que não basta ter só comida, precisamos também de diversão e arte. Marx é um ótimo exemplo de Urano sagitariano, com seu impressionante trabalho de dissecação do Capitalismo e da proposta de um futuro onde possamos todos viver mais e trabalhar menos. Dostoiewisk também possuia esse Urano e soube como ninguém questionar as instituições e a moralidade religiosa de sua época. Dentro das pessoas futuristas com esse Urano temos tanto Salvador Dali quanto Juselino Kubitschek. A geração nascida nos anos 80 está começando a sair do ninho agora, e estão exatamente aprendendo a usar sua rebeldia uraniana e quebrar os padrões aprendidos com os pais, e com certeza terão novas formas de encarar a vida e nossas necessidades de religação com o divino, sem instituições ou dogmas que limitem essa busca. Então que sejam bem vindos, pois temos muito a aprender com eles.

Urano no Meio do Céu - em Capricórnio de 1988 a 1995Sendo a casa natural de Capricórnio e de Saturno, com um Urano no MC a pessoa tem boas possibilidade de canalizar novas idéias ou intuições de uma forma concreta, sendo comum esse Urano em mapas de pessoas que trouxeram contribuições importantes para a humanidade. Em um nível mais mundano, esse Urano pode fazer com que se mude de emprego muitas vezes por não se concordar com o modo que as coisas são feitas, até a própria pessoa aprender a mudar sozinha toda vez que o trabalho que faz se tornar sem sentido. O mais comum é se buscar carreiras consideradas estranhas, muitas vezes por que acontecimentos que parecem fora do controle obrigam a pessoa a buscar algo mais inventivo. De qualquer forma, esse Urano irá vincular o trabalho a algo que beneficie o maior número possível de pessoas e que dê oportunidades para que o lado mais idealista venha à tona.
E Urano entrou em grande estilo para revolucionar as estruturas capricornianas: em 1988 cai o muro de Berlim para êxtase e espanto de todo o mundo e delírio dos astrólogos que não podiam ganhar fato mais simbólico para representar esse trânsito. Em 1989 vimos também um pequeno chinês desafiando um enorme tanque em plena Praça da Paz Celestial, em Pequim. O Socialismo Real, como era conhecido, literalmente desmorona bem diante dos nossos olhos grudados na TV. Uma das coisas que ensina esse trânsito capricorniano é que Urano não é uma função apenas destruidora, mas um agente da desestruturação daquilo que não tem mais sentido, deixando intacto o que ainda possui verdade. Por isso, em lugar de falar dos fatos ocorridos na virada dos anos 80 para os 90, deixo aqui uma reflexão sobre a queda do Muro de Berlim feita por Pierre Christin, que viveu esse evento do lado Oriental e, junto com Andréas C. Knigge, fez uma coletânea fantástica com artistas gráficos do mundo todo a respeito, para tentar ver o que estava acontecendo: O Muro Antes e Depois. O texto é um pouco longo, mas se você conseguiu chegar até aqui, isso não será um problema.
“Os Velhos Homens de Chapéus Negros
Houve o socialismo real. E também a sua imagem inseparável da sua realidade. Velhos homens de chapéus negros, casacos negros, mesmo que decorados com estrelas vermelhas - numa tentativa de parecerem mais alegres. Esses homens só eram vistos de longe, lado a lado, em filas por detrás dos muros altos de uma tribuna dos comitês centrais, do muro alto de um podium a céu aberto ou dos altos muros de uma varanda de escritório oficial. Houve sempre e em todo o lado um muro. Não apenas “o muro” de Berlim. Houve muitos por todo o lado e todos muito concretos, por detrás dos quais se escondia a realidade do poder e as mansões dos poderosos. E outros que, escondidos, iguais a linhas tracejadas, marcavam as zonas de Gulag e os enclaves da polícia secreta. E por fim, aqueles, embora abstratos, mas inultrapassáveis, por detrás dos quais congelava, em baça senilidade sem esperança, a antiga “juventude do mundo” que o comunismo quis personificar. Imagens do fim último, mas também realidade. Aquilo que permanecerá do stalinismo, quando a recordação viva da sua crueldade começar a empalidecer, serão sua estética, os seus rituais e os seus objetos que, na sua simplicidade, provavelmente chegarão mesmo a despertar em nós sensações nostálgicas. Existirão colecionadores que reunirão imagens dessa época, tal como hoje se juntam ícones e emblemas nazis. De repente os velhos homens e os seus muros começam a abrir fendas como um puzzle que foi sacudido. Um após outro, são como bolas vacilantes e isso não é devido ao barulho de armas pesadas ou ao poder de ideologias vencedoras, mas sim devido à pressão suave, mas persistente, daqueles que tinham por fracos e impotentes.
Um velho e cansado erudito que acaba por regressar do exílio. Gente jovem que conduz o seu microscópico automóvel em direção à fronteira. Uma antiga e pequena campeã de ginástica que conseguiu fugir secretamente... Isso foi apenas o início, pois a seguir pode-se ver tudo quanto antes nunca tinha sido visto!
Um violoncelista toca diante do Muro! Poetas dão as suas ordens sob a forma de sua arte, por detrás de outros muros! Professores grisalhos aparecem por detrás dos muros das varandas dos seus escritórios oficiais! Jornalistas, que ainda ontem estavam exilados atrás do seu muro de silêncio, enviam os seus contributos para todo o mundo! E um poeta do teatro, assim que sai para fora dos muros de uma prisão, é catapultado para a cadeira de Presidente da República. É certo que, de momento, estes são apenas fatos. No entanto são imagens nunca vistas antes, fotografias tiradas de perto e pouco nítidas, que fulminam a ordem rígida e longínqua das antigas cerimônias monótonas. (...). Vendo bem, a velha iconografia foi destruída sem ter sido substituída: o buraco negro da bandeira da Romênia torna essa lacuna visual e talvez até teórica no decorrer dos acontecimentos - (in)visível de uma maneira muito explícita. E com isso, de modo nenhum acabou a retirada das imagens: as estrelas vermelhas empalidecidas, os livros de máximas proletárias e rituais, os retratos idealizados dos detentores do poder, as fotografias retocadas grosseiramente, as estátuas de ferro fundido cheias de símbolos - em resumo, desapareceram como que por magia ou, melhor dizendo, através de mão mágica. Até as próprias contra-imagens surgiram como reação ao mundo de imagens oficiais, mostrando a destruição e o dispersar, como por exemplo, os graffitis no muro de Berlim. E essas imagens desaparecidas serão substituídas pelo quê? Simplesmente pela nudez das imagens televisivas que despem diariamente o mundo inteiro, sendo elas próprias despidas até os ossos, simples grandes planos sobre rostos desconhecidos, tão rápidas que se tornam imediatamente passado após serem vistas, e que, passado segundos, estão de novo ultrapassadas? (...) Desde os acontecimentos da Praça da Paz Celestial que as cadeias de TV de todo o mundo (...) parecem ainda não acreditar no fato de estarem em condições de emitirem esse tipo de imagem ao vivo. De qualquer modo (...), tendem a transformar uma habilidade técnica em ato heróico, dando-se por muito satisfeitos com seus confortáveis lugares comuns que não levam ninguém a pensamentos mais profundos.
No entanto, mediante uma observação mais atenta, conseguir-se-á reconhecer a sombra lançada pela luz. (...) É verdade que há uma genuína alegria causada pela libertação de milhões de pessoas, mas será que também, (...), não haverá algo de malícia que nos leva a aplaudir o fracasso de qualquer coisa que ontem constituía a esperança de milhões de seres humanos?
Numa época em que assistimos o regresso do subjetivismo em uma região do mundo e da história, na qual até agora reinou o objetivismo, é bom que surjam de novo histórias e imagens subjetivas, mas que possam ser também inquietantes e irônicas - artificiais, é certo, na medida em que vêm do Ocidente, mas diretas, tendo origem no Leste. Oxalá elas possam contribuir para não mais se erguerem novos muros, nem sequer os de plásticos ou os pintados, para que, por detrás deles, não voltem a se esconder e entrincheirar velhos homens de pensamentos negros, mesmo que eles se enfeitem com os berrantes atributos do modernismo.”
Enfim... Amém! Urano em capricórnio fez com que o mundo e a humanidade voltasse a ser uma só e as estruturas políticas monolíticas que insistiam em querer se manter em pé vieram abaixo. Não que as ditaduras tenham deixado de existir, mas sua fundamentação ideológica sim. A internet também começa a se formar durante esse trânsito em Capricórnio, primeiro através de redes entre as universidades - no Brasil, os primeiros embriões de rede surgiram em 1988 ligando universidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre a instituições nos Estados Unidos -, fazendo com que a rede deixasse de ser exclusivamente militar, e em 1993 é lançado o primeiro browser para web, o navegador X Windows Mosaic 1.0, que permite o acesso à população mais ampla. A geração nascida nesses anos de desestruturação do mundo está agora em vias de pré adolescência e talvez não consigam imaginar como vivia a Humanidade antes, com o mundo dividido por ideologias, com a polícia entrando em casas de classe média e prendendo pessoas por conta de livros que hoje estão esquecidos, mulheres grávidas sendo torturadas em porões, a vida cultural castrada pela censura, sem computador e muito menos internet, sem DVD ou Play Station. Já podemos notar, porém, que essas crianças não têm a menor paciência com autoridade arbitrária, e não abrem mão da própria subjetividade em nome de alguma objetividade que não entendem. Entre os mais antigos que nasceram com esse Urano em Capricórnio vamos encontrar minha querida Hannah Arenth, que teve a coragem de questionar o senso comum e conseguiu ver a participação da vítima no próprio holocausto, além de mostrar que o Estado de Israel, construído sob a exclusão, estava fadado a ser o horror que vemos hoje. Johhan Kepler é um bom exemplo do que pode ser a revolução estrutural dessa geração. Esse astrônomo - e astrólogo em eterna crise - demonstrou que a órbita dos planetas no nosso sistema é elíptica e não circular como se pensava até então, e o sol ocupa apenas um dos focos da elípse, sendo o outro invisível. Assim o círculo perde seu status de perfeição e representação divina, com um centro único: giramos em torno de dois centros e um dele nos é completamente invisível, mas tem que ser levado em consideração se quisermos verdadeiramente compreender o Universo. Essa geração está crescendo com um Urano que mostra que o poder e a autoridade verdadeiros possuem um centro virtual, invisível, mas tão poderoso quanto aquele que está iluminado.

Urano na casa XI em Aquário de 1995 a 2003Poderosamente posicionado em sua própria casa, Urano na décima primeira expande o conceito de ser parte de um grupo, aumentando de tal forma a idéia de coletivo a ponto de incluir todas as criaturas vivas, e a idéia de parentesco acaba atingindo todos os seres humanos. Geralmente a pessoa com esse posicionamento não vê o mundo como um monte de indivíduos nem os conflitos entre nações como uma briga regionalizada, mas percebem o planeta como uma unidade que tem que resolver seus problemas “internamente”. É importante com esse posicionamento encontrar com quem compartilhar esse ponto de vista e seguir essa meta. A internet parece ser a resposta às orações desse Urano, que não precisa de uma união física, mas sim de constante estímulo intelectual para levar a frente os ideais coletivos a que se dedica. Esse posicionamento pode ser perturbador por mudar as metas e objetivos da pessoa num curto espaço de tempo. Esse Urano trás fortes sentimentos sobre o significado de amizades, e espera que os outros também sintam isso, apesar de que, como todo ideal muito elevado e pouco realista, acaba tendo que se confrontar com o lado mais egoísta e instintivo da natureza humana e de si mesmo. De qualquer modo, os amigos acabam servindo como catalisadores de mudança, assim como a pessoa acaba se tornando agente das mudanças do grupo.
E entramos no século XXI e simbolicamente na Era de Aquário com Urano domiciliado!!! Parece até que combinaram. Mas como o mundo não acabou como previram, teremos que dar um jeito de arrumar essa bagunça que criamos, e parece que começamos isso entrando em rede. O que hoje forma a Internet, começou em 1969 como a ARPANET, criada pela ARPA , sigla para Advanced Research Projects Agency, ou Agência de Pesquisa de Projetos Avançados, uma subdivisão do Departamento de Defesa dos EUA. Entre 1983 e 85, ela começou a ser usada pelas universidades americanas e européias para que os estudantes pudessem trocar os resultados de seus estudos e pesquisas. À partir de 1988 a rede se estende para universidades de outros cantos do mundo, e em 1993 começa a poder ser acessada pela população em geral. Porém é à partir do fim de 1994, com Urano entrando em Aquário, que realmente começa a surgir o interesse público na Internet. Aí foram 2 palitos: em 96 a palavra Internet já era de uso comum, principalmente nos países ricos, referindo-se na maioria das vezes a www. Para que se tenha uma idéia do avanço da internet nesses anos de Urano em Aquário, em 2003, quando Urano estava terminando sua revolução, eram 600 milhões de pessoas conectadas à rede, e o Brasil já era um dos líderes de acesso. E o que será que vai vir com essa geração que já nasce plugada ao computador? A possibilidade de troca com culturas e saberes diferentes - muitas vezes antagônicos - àqueles que recebem em casa pode trazer bastante confusão domética, mas ao mesmo tempo criar maior tolerância. Não conseguimos prever nem mesmo que mundo essas crianças irão encontrar na sua juventude, com tantas ameaças à camada de ozônio e à água, além da Profecia Maia prometendo mudanças definitivas para daqui a pouco. Talvez seja essa a geração que conseguirá nos transformar, finalmente, em uma só Humanidade de fato. Que os anjos as Iluminem!!! Grandes líderes políticos que buscaram a transformação da sociedade tiveram Urano em Aquário, como Indira Gandhi e JFK. Mas gostaria de lembrar particularmente do Urano em Aquário de Goethe, que fez com que seu Fausto só conseguisse recuperar sua alma através do Amor por outra pessoa de carne e osso. Que isso lhes sirva de exemplo.

Urano na casa XII - em Peixes de 2003 a 2010
Com Urano revolucionando a “casa oculta”, a exploração do inconsciente pode trazer à tona um sentido de continuidade com processos evolucionários e históricos, além da possibilidade de se vislumbrar modelos vigentes nos quais se baseia a vida da pessoa. Onde quer que esteja Urano precisamos nos arriscar a ser diferentes, e quando ele nos convida a mergulhar no mar coletivo de onde emergimos, precisamos fazer isso de maneira original e inventiva. É comum a pessoa com esse Urano ter um enorme interesse pelos movimentos políticos e ideologias de modo compulsivo, como se fosse tomada por uma visão que lhe aparece na mente, pois Urano aqui ouve um ruído antes mesmo da coisa acontecer, de modo que fica difícil a pessoa fazer um julgamento lógico ou reflexivo. Esse é o motivo desse Urano se interessar por assuntos como parapsicologia, espiritismo ou ufologia. Quando esse Urano está bem na casa XII a pessoa costuma ter um monte de bons conselhos para oferecer às pessoas, mas quando muito aflito ele pode prejudicar a visão da pessoa por causa de complexos pessoais, o que a obrigará a “limpar” seu inconsciente antes de poder aproveitar as mudanças e transformações oferecidas pelo céu.
Aqui chegamos ao fim da viagem zodiacal de Urano (ufa!). A melhor imagem para descrever a revolução de Urano pelas águas inconscientes de Peixes, que estamos vivendo atualmente, foi dada pelo tsunami ocorrido em 26 de dezembro de 2004 no Oceano Índico. A palavra "tsunami" vem do japonês e significa tsu (porto) e nami (onda). O termo foi criado por pescadores que, vindo da pesca, encontraram o porto devastado, ainda que não tenham visto nem observado a onda no alto mar. Uma das características desse fenômeno é que, à medida que a onda se aproxima da terra, a sua amplitude (a altura da onda) aumenta na mesma proporção em que a sua velocidade diminui. Muitas coisas podem causar um tsunami, como movimentos no interior da terra, um deslocamento da terra, uma explosão vulcânica ou um impacto de meteoro. O Oceano é um dos símbolos mais fortes do inconsciente coletivo de onde viemos e para onde vamos, e uma das melhores metáforas para se falar dos significados do signo de Peixes. Urano está agindo agora criando movimentos das profundezas e nas esferas distantes de maneira que só o conseguimos perceber através dos nossos sonhos, da simbologia das nossas doenças, dos sinais que nos mostram de maneira intuitiva que algo muito forte está acontecendo. Em Bali, a maioria das pessoas que conseguiram se salvar foi porque seguiram os animais - ou foram carregadas por eles! - que fugiam para o alto apavorados. Essa talvez seja a melhor dica que podíamos receber para vivenciar esse processo: conectar com nossa natureza instintiva e ir para o alto! O fato da grande destruição causada por esse tsunami, com mais de 285 MIL vítimas, ter mobilizado tanta ajuda humanitária também pode nos mostrar os objetivos desse movimento uraniano em Peixes, signo que ensina sobre o sacrifício daquilo que está isolado em nome do mergulho em algo maior e mais profundamente amoroso. Nesse sentido também, é digno de nota que a maior doação de dinheiro particular para ajudar as vítimas não foi feita por nenhum milionário americano ou nobre europeu, mas pela guru indiana Mata Amritanandamayi, também conhecida como Amma, a grande mãe. Se pensar na revolução que irão trazer as crianças com Urano em Aquário já é complicado, não vou me atrever nem em imaginar o que vão fazer esses seres que estão nascendo agora com Urano em Peixes!! Das pessoas de outras gerações com esse Urano pisciano temos muitos exemplos interessantes para falar de vários aspectos desse signo complexo. Charles Bukowsk, com sua vida e obra atormentada, foi um digno portador desse Urano cantando em seu Hino da Tormenta “ andei por lugares onde nenhum homem deveria ir. Fui espancado impiedosamente e deixado para morrer. Tenho galos espalhados por todo o meu crânio de cassetetes e etc. Os anjos se mijam de medo. Eu sou uma pessoa bela. E você é. E ela é. Como é colossal amarelo do sol e a glória do mundo“. Marlyn Monroe mostrou outra face dos portadores dessa revolução uraniana em peixes com o sacrifício da sua individualidade em função de uma ilusão de beleza. Nostradamus também possuía um Urano pisciano, mas podemos dizer que ele ficou bem atormentado com todas as imagens de fim de mundo que seu inconsciente criou. Mas gostaria de prestar aqui minha homenagem a Fidel Castro, que exatamente no momento em que está vivendo o seu retorno de Urano em Peixes decide deixar o poder, pondo fim à sua missão. Isso é sabedoria. Por mais críticas que se possa fazer a Cuba quanto ao seu aspecto de liberdade política, esse país foi um enorme tsunami na história da humanidade, e um ícone de transformação social, principalmente para nós da América Latina, em nosso capitalismo sub desenvolvido que privilegia a poucos. Comparar Brasil e Cuba, então, é de deixar qualquer um inconformado, vendo aquela pequena ilha sem recursos, que tem um gigante que insiste em ser seu pior inimigo como vizinho, e que consegue dar educação de qualidade até o nível superior, saúde pública com tecnologia e pesquisa de ponta, distribuir a renda - pouca - de maneira igualitária para seu povo, enquanto aqui, nesse gigante pela própria natureza, pessoas vivem em guetos - mesmo mudando o nome para “comunidade” -, a educação básica que já é horrorosa parece só piorar, o ensino superior é elitizado e a saúde pública nem merece comentários. Desculpem o desabafo... Espero que essa geração que está chegando ao mundo nesse momento possa trazer um mundo com menos ilusões de luxo e mais solidariedade humana.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

URANO



Até a descoberta de Urano, muito antes de Jornada nas Estrelas, Saturno era a fronteira final do nosso sistema solar, considerado, inclusive, uma influência maléfica na Idade Média e no Renascimento, pois associado ao Rex Mundi - Lúcifer. Hoje em dia Saturno é mais aceitável por termos assimilado melhor sua correlação aos padrões condicionantes sociais e familiares, às expectativas da própria vida, à construção do senso único de fronteira da identidade. Urano é visto como o seu oposto mais direto, sempre tentando despedaçar, revolucionar, liberar e irromper de todos os padrões condicionantes, o que para uma boa parte das pessoas costuma ser mais complicado de vivenciar. Quando se fragmentam os padrões que definem seu senso de personalidade e identidade, é possível chegar à natureza e à identidade essenciais, incondicionais. Essa é uma longa jornada, ou deveria ser. Podemos dizer que quando se passa por um trânsito de Urano existe a possibilidade, relativa à casa ou ao planeta aspectado, de se libertar das condições que definiram o modo como as funções simbolizadas se manifestaram na vida até então. Na carta natal os planetas com que Urano está em aspecto e a casa na qual ele se encontra proporcionam essa mesma oportunidade durante toda a vida. Mas sempre se pode resistir a essas mudanças, pois a força saturnina que cria a consciência pessoal e social através das normas, valores, crenças, costumes, regras e leis da cultura em que se foi criado, traz todo um senso de segurança social difícil de ser deixada. A resistência ao impulso uraniano está ligada à insegurança social e individual que ele gera. Não é à toa que esse deus era mitologicamente filho do Caos.
Na análise astrológica da história, Urano liga-se a guerras, revoluções, agitações civis e questões de sobrevivência econômica que parecem estar além da influência ou do senso comum individual, mas que, quando analisadas, essas situações do “destino” mostram líderes e grupos que refletem os preconceitos e atitudes inconscientes da coletividade, que está cega e precisa desse choque para despertar. O mapa de Hitler é significativo nesse sentido, tendo Saturno no MC – o estruturador comandando seus objetivos de vida - e Urano na casa XII – o revolucionador no inconsciente coletivo.
Urano foi descoberto em 1781 na constelação de Gêmeos, antecedido pela Revolução Americana em 1778 e nas vésperas da Revolução Francesa de 1789. Seu descobridor, Sir William Herschel, era um músico alemão da corte inglesa do rei Jorge III, que usava um telescópio construído por ele mesmo na observação do céu. Não foi fácil aceitar a existência de mais um planeta em nosso sistema, e existem vários relatos da observação de Urano anteriores a 1789 - inclusive de Galileu - mas que era tomado como um cometa ou outro tipo de corpo celeste.
Uma das características físicas de Urano é sua inclinação de 98 graus, que faz com que, quando visto da Terra, ele pareça estar girando de lado! Com uma revolução de 84 anos e 3 dias, o planeta Urano é o 7º planeta a partir do Sol e fica 7 anos em cada signo. Para os que estão acostumados com a simbologia esotérica esse número costuma evocar muitos significados. Em termos bem gerais, o sete está ligado à totalidade do universo em movimento. A natureza revolucionária de Urano está diretamente conectado à necessidade de movimento e mudança de vida que muitas vezes é barrada pelas convenções e crenças errôneas com as quais construímos nosso senso de segurança. Saturno e Urano são realmente muito mais parceiros do que inimigos em vários sentidos. No ciclo de Saturno temos um contato desafiador desse Titã a cada 7 anos e por isso os processos libertadores de Urano muitas vezes irão coincidir com processos estruturadores saturninos. Isso mostra que em um nível mais profundo esses dois princípios são mais complementares do que antagônicos: Urano garante que nossas estruturações não sirvam de desculpa para não nos desenvolvermos e Saturno faz com que nossa ânsia por liberdade seja acompanhada por concretizações responsáveis.
No ciclo de Urano, a cada 21 anos teremos um momento desafiador desse planeta. Com 21 anos experimenta-se a primeira quadratura (ângulo de noventa graus, desafiador) de Urano. A necessidade de ter sua própria vida e individualidade geralmente se sobressai nesta época. Como a passagem de Urano está associada a independência e ao despertar, ele irá provocar impaciência e desejo de libertação para que se defina o quanto se quer ser independente. Mas como essa também é a última quadratura do ciclo de Saturno antes do seu Retorno, essa idade estará muito mais voltada para as necessidades de estruturação para uma vida independente. É entre os 35 e 42 anos, quando temos a oposição de Urano no céu com o Urano do mapa natal, que sentimos mais profundamente a necessidade de transformar e libertar nossa vida daquilo que nos impede de ser aquilo que acreditamos ser. Essa necessidade de mudanças, essa ânsia de criatividade e de fazer algo significativo como indivíduo, de experimentar coisas novas e se arriscar a ser diferente é chamada popularmente de “crise da meia idade“ . Este desejo de conquista e criatividade associado à oposição de Urano ao seu ponto natal, costuma elevar também o desejo sexual e a excitação junto com a necessidade de realizar mudanças, o que pode acabar com muitos casamentos aparentemente estáveis.
A Astrologia Médica não costuma levar em conta esse planeta no seu estudo, porém as pesquisas indicam a influência de Urano no sistema nervoso simpático, que responde aos estímulos de alerta e estresse acelerando os batimentos cardíacos, aumentando a pressão arterial, jogando adrenalina no organismo e aumentando a concentração de açúcar no sangue para ativação do metabolismo geral do corpo de forma automática, independentemente da nossa vontade. Quem tenta “segurar” essa inquietação pode se tornar irritável e 'implodir', algumas vezes com doenças, outras vezes com o rompimento de relacionamentos, e outras ainda sendo mandado embora daquele emprego que garantia segurança às custas da criatividade e do desenvolvimento pessoal. Quem libera adequadamente esta energia se sente mais vivo e criativo e consegue transformar a própria vida. Pensadores como Rudolf Steiner e Carl Gustav Jung destacam particularmente essa crise dos 40 como aquela que revela a “missão de vida” de uma pessoa, onde se adquire a maturidade necessária para se empreender o processo de individuação e se tornar o herói de sua própria história. A vida de Jung, particularmente, é uma testemunha dramática desse processo, com o rompimento com Freud em 1913, aos 37 anos, e um mergulho no inconsciente coletivo até os 42 anos que quase lhe custa a saúde mental, segundo alguns de seus biógrafos, quando então ressurge de sua “descida ao reino dos mortos“, para construir definitivamente sua psicologia.
Através da mitologia grega podemos entender um pouco melhor esse planeta. Urano foi o primeiro deus personificado, filho do Caos primordial, e era a representação do céu e dos espaços ilimitados, que recebeu a tarefa de inventar e dar nomes à Natureza. Por isso, tudo que ele fazia era novo e original. Quando ele se deitava sobre Gaia, a Terra, concebia um novo filho, dando origem aos Titãs, aos Ciclopes de um olho só, e a um monte de outros monstros míticos. Desgostoso ao ver seus rebentos, ele os mandava de volta para dentro de Gaia, que foi literalmente ficando cheia disso. Na verdade Urano não percebia que criava rebentos junto com Gaia, e que revestir de matéria suas idéias aéreas significava uma transformação modeladora. É comum na casa em que temos Urano surgirem idéias muito boas que, ao serem trabalhadas e concretizadas se mostram diferentes do imaginado. Gaia, magoada com a repulsa de Urano pelos filhos, forja de dentro do seu peito uma foice e implora que um de seus filhos castre o pai. Saturno - quem mais? - assume a responsabilidade e se apresenta à mãe como voluntário, cortando a genitália de Urano e jogando-o ao mar. Da espuma que escorre no mar nasce Afrodite (Vênus para os Romanos), e o sangue que jorra do deus ferido penetra em Gaia gerando as Fúrias: Tisífone (Castigo, Retaliação), Megaira (Rancor, Inveja) e Alecto (A Implacável, O Nunca Acabar).
Nossas características saturninas - nossas reservas, nossos medos do desconhecido, nosso conservadorismo e respeito pelas tradições - muitas vezes cortam os impulsos criativos uranianos. Essa “castração” de impulsos caóticos pode nos ajudar se conseguirmos criar maneira mais harmoniosa de elaborar a vida - fazendo nascer Afrodites. Mas quando só conseguimos nos ressentir dos estados conservadores das coisas na área em que temos Urano, criaremos as Fúrias, culpando os outros pela nossa infelicidade e limitação - os Hitlers e Napoleões ou os guerrilheiros palestinos e os soldados judeus - com amarguras e envenenamentos que a psique precisará eliminar. Com Urano, em nível pessoal ou coletivo, temos que nos separar do conformismo e da projeção irresponsável, experimentar novas tendências e correntes de pensamento, arriscar a romper conosco e com tudo que nos dá segurança em nome do crescimento e da evolução. Na casa em que estiver Urano podemos não ser capazes de transpor totalmente as velhas estruturas, mas podemos nos empenhar para abrir espaço com as novas idéias e interesses, e, dessa maneira, conseguir mudar nossas formas de expressão. Na área ocupada por Urano, não devemos ser mais inconscientes do que realmente somos se não quisermos ser conduzidos pelo inconsciente coletivo, nos tornando bodes expiatórios ou catalisadores de destruições tirânicas.