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segunda-feira, 4 de março de 2013

Urano e a Construção do Indivíduo Moderno


“Somos um olho por meio do qual o mundo exterior se faz visível, mas um olho que não pode ver-se a si mesmo quando vê”

Rüdiger Safranski



Tive uma série de problemas no mundo virtual que andaram me impedindo de escrever aqui. Aproveitei para estudar um pouco de filosofia do século 18 para ver se conseguia entender umas coisas que Urano estava me fazendo pensar, agora que ele transita por Áries e começa um novo ciclo zodiacal. Com o blog se reabrindo de novo pra mim (obrigada Rui Alão!!), volto o compartilhar o que andei pensando com vocês.

Durante o século 16 o mundo começa a se transformar em algo completamente diferente daquilo que era até então. Copérnico deixa para nós, após sua morte em 1543, “Das Revoluções das Esferas Terrestres”, tirando a Terra do centro do Universo e a colocando na terceira órbita em volta do Sol. Lutero se rebela contra as indulgências da Igreja Católica e publica sua tradução da Bíblia para o alemão vulgar em 1534, tirando da Igreja o monopólio sobre as interpretações da vontade de Deus e da essência da Vida.

Com o Ser Humano mandado para um canto do Universo e os guardiões da metafísica destituídos de seu poder, a teologia deixa de ser a base necessária para o conhecimento, e se inicia uma busca empírica pelos saberes do mundo. A ciência que nasce no século 17 tem como principal expoente Galileu Galilei, que junta observação experimental com descrição teórica de fenômenos, criando leis naturais explicadas através da matemática e confirmadas através de suas observações concretas. Deve ter sido ele que criou o ditado "contra fatos não há discussão".

Esse novo lugar no Universo modifica nosso olhar para a vida e para nós mesmos. A busca pelo conhecimento com base empírica e não mais teológica  nos faz desenvolver a capacidade de encontrar outras respostas para as “questões finais” filosóficas (imortalidade da alma, liberdade/livre arbítrio, existência de Deus, princípio e fim do mundo), que sustentam a religião e o Homem no Mundo, sem que precisemos recorrer à metafísica. O nome que damos a isso é Racionalidade. Nasce assim a biologia, a mineralogia, paleontologia e também a antropologia, a ciência política, a economia, pois a ideia de que “a natureza tende à organização”, deixa de ser uma máxima que nos obriga a acreditar em Deus e passa a ser uma porta para se entender a Natureza e o Mundo em que vivemos.

Quando Rene Descartes (1596-1650) aparece no século 17, há uma busca por motivos racionais para a existência de Deus. Ele sai do pressuposto de que assim como existe o mundo, Deus tem que existir. Na verdade o que Descartes acaba demonstrando é que  Deus é uma ficção necessária a partir da autorreflexão da razão. Sua famosa frase “cogito ergo sun” (penso logo existo), quer demonstrar que o exercício da razão é a maneira que Deus tem de se expressar no Ser Humano: “Não sou eu que me aproprio de Deus através do poder da minha razão, mas bem o contrário: é Deus que toma posse de mim enquanto exerço minha razão”. Essa tentativa de usar a racionalidade para conhecer a Deus ainda sai do pressuposto de que o mundo é um reflexo de Deus, mas abre as portas para os Empiristas, que buscam conhecer o mundo através da atividade racional e da confiança na percepção sensível.

Quem se contrapõe a essa ficção de Descartes é Jean Jacques Rousseau (1712-1778), que inverte a proposição cartesiana ao afirma não ser possível o pensamento antes da existência: “primeiro preciso existir para depois poder pensar”. Rousseau combate toda ideia de um Deus revelado – o que enfurece católicos e protestantes – e o coloca no coração dos Seres Humanos: “quantos homens entre mim e Deus!”, costumava dizer. Isso significa que o conhecimento só é possível a partir da experiência interna que se tem de um mundo externo. Ele percebe que as várias maneiras de se experimentar o mundo através dos sentidos precisa de um princípio organizador que é chamado de Eu. O “visto” e o “tocado”, por exemplo, se converteriam em 2 objetos diferentes por meio apenas da percepção do mundo exterior. Somente um “Eu” é capaz de realizar a síntese e coloca-los em conexão como sendo um único objeto. Portanto é a identidade do Eu que garante a unidade dos objetos exteriores a si. Assim nasce a ideia de um Ego psicologicamente equipado para  experimentar e conhecer a vida humana.

Sem um “Eu”, não há um “Outro”, e, assim a percepção do Eu é que produz o “Ser” individualizado. A Percepção e o Conhecimento passando a ser um fenômeno psicológico de autoconsciência faz do Eu o responsável de compor e instalar o mundo através do prazer, da intensidade, da alegria de viver, da tristeza, etc. O Ser Humano deixa de ser expectador para se tornar o diretor da vida: “o ser humano (...) tornou-se capaz de recolher todas as riquezas que haviam sido anteriormente espalhadas pelo céu”. Ao se entender que os antigos tesouros da metafísica eram obras das mãos humanas, ficaram todos muito animados com esse poder, mas logo essas riquezas perderam sua magia e se mostraram incapazes de cumprir suas promessas. Nasce daí o temor da História construída por nós mesmos.

Urano, o sétimo planeta a partir do Sol e o mais massivo de nosso sistema, foi avistado pela primeira vez em maio de 1781, rompendo as fronteiras do Universo que até então eram guardadas por Saturno. Esse foi o primeiro planeta avistado por um telescópio, portanto fruto dessa nova mentalidade que surge no século 18 que tenta conhecer o mundo de maneira racional e não mais teológica, aperfeiçoando seu olhar sobre a natureza e o Ser Humano. Esse é um tempo de grandes avanços de nossa capacidade técnica. Queremos ver mais longe, ouvir mais acuradamente, expandir nossos sentidos físicos para conhecer o Mundo e o Humano. Essa é a consciência que Urano nos traz. Saturno nos mostra as regras e dogmas sociais, que temos que conhecer e aprender a usar se quisermos ultrapassá-los, e Urano atua no sentido de mostrar que essas regras e dogmas são obras humanas, e, portanto, podem ser construídas e desconstruídas a partir da busca por valores e conceitos que nos tornem mais livres enquanto humanos. Kant aparece nesse contexto em busca do “a priori” do pensamento humano para entender o como e o que se pode conhecer. 

Immanuel Kant (1724-1804) mostra que conhecemos através da intuição e utilizando o espaço e o tempo concreto. Ele reconstrói minuciosamente nossa maneira de pensar o mundo através de 12 categorias do entendimento. O nosso entendimento é a faculdade que temos de usar conceitos que nos possibilitam fazer juízos. Os Juízos são divididos por ele em 4 formas e 3 tipos (Relação:  a mesa é de madeira; Hipótese:  se colocar água sobre a mesa ela se mancha; Disjuntiva: se é verdade que isso é uma mesa então não é um fogão). O que ele quer demonstrar é que o conhecimento humano tem como aprioridade a apercepção, ou seja, a capacidade de perceber e interpretar os estímulos sensoriais. Esse conhecimento só pode ser feito através de um “sujeito” que percebe o mundo antes de se defrontar com a experiência concreta material, e através disso constrói representações de si e do mundo que permitem o entendimento de sua existência concreta. 

Uma das consequências dessa compreensão que me interessa destacar aqui é a de que o nosso pensamento deixa de nos ligar ao transcendente, pois não estão além da experiência, mas são transcendentes em si, pois existe antes da experiência, criando conceitos onde as nossas experiências pessoais fazem sentido: “se as submetemos a um exame cuidadoso perante nosso olhar intelectual, transcenderemos a experiência em direção às condições da possibilidade da experiência (construiremos conceitos), ou seja, (em sentido) horizontal, mas não verticalmente”. Resumindo: “não existe nenhum caminho que conduza do Transcendental ao Transcendente”. Isso significa que nossa razão humana não tem como conhecer a “Deus”, o “Absoluto”, a “Causa Primeira”, ou seja lá como você queira chamar aquilo que criou o mundo e o ser humano. O Transcendente, que Kant vai chamar de “Coisa em Si” é aquilo que não podemos apreender e nos escapará sempre, pois nosso conhecimento depende dos órgãos de percepção que sempre projetará sua sombra sobre o que é captado. O que fazemos ao conhecer o mundo é criar representações. Nosso entendimento vem da ordenação dos elementos obtidos pela experiência, mediante o princípio de causa e efeito (causalidade) e de necessidade. 

Portanto, a causalidade e a necessidade são os princípios da nossa mente projetados de dentro para fora sobre o mundo. A principal consequência disso é que não podemos deduzir a existência de Deus como causa primeira da existência do mundo (como fez Descartes), ou como primeiro motor (como descrito pelo mecanicismo), ou o “Arquiteto Divino” (como fazem os Maçons), pois isso significa ultrapassar o âmbito de toda experiência possível, e estaremos “fazendo um uso indevido de uma categoria do entendimento. Isso rompe com a metafísica tradicional e com a possibilidade de sustentar a existência de Deus através da razão. O que cria o Transcendental são as nossas imagens, sonhos e devaneios”. Kant separa o pensamento racional dos campos especulativos pertencentes à emoção e ao sentimento, e, assim, paramos de tentar entender o mundo “em si” e buscamos o como é representativo do mundo. Um exemplo concreto dessa diferenciação é dado por Kant em seu “ENSAIO SOBRE ENFERMIDADES DA MENTE”, onde analisa Jan Komar Nicki, o “Profeta das Cabras”, que vivia em sua cidade vestido com pele de animais, descalço e com rebanhos de vacas, ovelhas e cabras que precisavam ter sempre o mesmo número, e fazia profecias sobre Deus e o Mundo. Esse é o modelo Transcendental Metafísico de Kant, onde o Maravilhoso é apenas Extravagante. Isso torna impossível que qualquer pessoa ou grupo de pessoas possam reivindicar a Verdade sobre nossa existência.

A impossibilidade de conhecer a “Coisa em Si” pode parecer uma limitação muito dura -e é mesmo -, mas o que ocorre é uma libertação individual, a possibilidade de encontrar parâmetros subjetivos para a própria existência. Essa é a experiência que temos de Urano na astrologia. Nenhum dogma, verdade, espiritualidade ou formação resiste à necessidade de liberdade subjetiva e rompimento com aquilo que oprime a autoexpressão quando se trata desse planeta, seja no mapa natal, seja em trânsitos ou progressões. Uma constatação que faço há muitos anos é que pessoas que conseguiram conquistar uma autoexpressão em suas vidas e buscam isso conscientemente (no trabalho, nos relacionamentos, na espiritualidade, etc.), não vivenciam rompimentos significativos com os movimentos uranianos, e sim maiores oportunidades de expressão.

Kant demonstra a impossibilidade de encontrar o Absoluto através do uso da Razão, portanto não se trata mais de uma transcendência do “Além” do Mundo, mas a transcendência do que não é nem mais nem menos do que a faceta sempre visível de todas as Representações: “a Razão Humana... tem o singular destino... de ser assediada por perguntas a que não pode desdenhar porque são apresentadas pela própria natureza da razão, mas que tampouco pode responder, visto que superam toda capacidade da razão humana”. A função da nossa Razão não é de encontrar o conhecimento absoluto, mas permitir “atravessar os ritos de passagem que nos dão acesso ao mundo das vivências”. Joseph Campbell irá trabalhar com essa premissa para analisar mitos. Podemos encontrar verdades parciais que nos ajudam a viver, mas sempre estaremos lidando com representações do mundo, do outro e de nós mesmos. A existência humana passa a ser algo mais complexa, pois entendemos que “somos uma ‘Coisa em Si’ e também uma representação para nós mesmos”. A Transcendência deixa de ser algo sublime para se transformar em um ponto cego. É isso que Freud e a psicologia que nasce com ele vão chamar de Inconsciente, confirmando a ideia de Kant de que “a ‘Coisa em Si’ é o "re-verso de todas as nossas re-presentações”.

Essa dupla natureza que Kant demonstra (uma fenomenológica, “célula do mundo sensível que pode ser refletida pela Razão” e uma numinosa, chamada de “Nômeno” por Kant e de “Numinosidade” por Jung, que é criada através da “Coisa em Si), cria a possibilidade de exploração do universo interno do indivíduo a partir das experiências vividas pelo próprio individuo, e é isso que Freud vai buscar nas histéricas e Jung nos esquizofrênicos.

Apesar de não poder ser conhecida através da razão, a “coisa em si” se manifesta quando agimos no agora e experimentamos a nós mesmos de tal maneira que não nos encontramos interligados em uma cadeia causal, mesmo que mais tarde possamos encontrar uma necessidade ou causalidade para nossa ação. O exemplo de Kant: levantar de uma cadeira “completamente livre e sem influxo determinante de causas naturais” é um ato gerado pela “coisa em si”, enquanto uma ação gerada por “necessidade” ou “causalidade”, como levantar-se para movimentar as pernas ou chamar a atenção das pessoas na sala, são categorias do nosso “entendimento representativo, e desse modo do mundo representativo, do mundo como ele aparenta ser”. Olhando para o Mundo não há como saber o que é um ato gerado pela “Coisa em Si” e o que é fruto do nosso entendimento representativo. A Coisa em Si é algo que já é antes que eu possa compreender ou explicar. Quem já teve a experiência de querer fazer algo, mas a “Vida” (“Deus”, o “Destino”, etc.) tinha outros planos, sabe que não conhecemos nem a Coisa em Si em nós mesmos. Urano trabalha com a mudança em nossas representações, já que ele faz parte do nosso sistema solar, mas, assim como os outros transaturninos, ele parece ter maior proximidade com a Coisa em Si, pois tem também um aspecto numinoso que torna suas ações irresistíveis e muitas vezes imprevisíveis.

Entendermos a limitação de nossa racionalidade humana traz o incrível paradoxo de nos libertar dessa mesma racionalidade. Essa é porta que permite a entrada de Charles Darwin e sua “A Origem das Espécies”, publicado em 1859, onde ele demonstra que não somos muito mais do que macacos mais espertinhos. Mas isso já é assunto para Netuno, que foi avistado graças aos movimentos estranhos de Urano...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Conversas de Urano e Plutão





“Há dois erros semelhantes mas opostos que os seres humanos podem cometer quanto aos demônios. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e pouco saudável por eles. Os próprios demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros, e saúdam o materialista e o mago com a mesma alegria.”
C.S. Lewis – Cartas De Um Diabo A Seu Aprendiz.

Plutão e Urano estão se “enquadrando” nos últimos tempos, e as observações que tenho feito, levando em conta esses astros, me fazem pular de um para o outro. Tá difícil sintetizar e colocar em palavras coerentes. Obrigada Vânia, minha amiga geminiana querida, por ficar me lembrando das várias idéias que andei tendo e me mandar escrever logo. Quadratura funciona assim mesmo: a gente tem que ter calma, paciência consigo mesmo e consciência se quiser juntar as partes em vez de ficar brigando com elas. E é sempre bom ter amigos pressionando pra gente não desistir.

Quando fui buscar os acontecimentos de 250 anos atrás, quando Plutão, mesmo invisível à nossa consciência, estava em Capricórnio (1765 a 1779), encontrei Marques de Sade e sua busca obsessiva e perversa por prazer sexual. Muitos dos chamados libertinos do início do século 19 nasceram nessa época, como Bocage, poeta português que escreveu: “Todas no mundo dão a sua greta:/Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa/Que isto de virgo e honra é tudo peta.” (vide postagem sobre Plutão em Capricórnio). Essa também foi a época em que Urano foi avistado e a Razão Humana ganha novo status, a de salvadora da espécie do obscurantismo e superstição religiosos (Urano em Gêmeos), que nos possibilita afirmar ainda hoje, que todos os Homens nascem livres e têm direito à busca da felicidade.

Ok, então vamos buscar as perversões e libertações possíveis nos dias de hoje, derivadas daquilo que nasceu a tantos anos atrás. Não é uma tarefa fácil, já que há um consenso a respeito do que é bom e o que é mal, baseado exatamente naqueles conceitos construídos durante os anos das tais “Luzes” racionais humanas. Aquela coisa de que nós somos os bons e os que pensam diferente de nós são os maus parece ter muito mais força hoje em dia do que em tempos passados, mas tomou a forma que chamamos de “tribo”, onde eu e aqueles que compartilham meu modo de vida nos reunimos e nos cumprimentamos por sermos do jeito que somos. Não conheço ninguém que não se ache aliado do Bem, independente do grupo ao qual pertença. A tribo que se reúne por motivos opostos aos meus, claro que estão equivocados, mas isso não chega a ser um problema. Difícil sair dessa dicotomia sutil em uma época em que tudo é mais ou menos permitido, se tratando da vida individual, desde que seja feito por legítima vontade e não prejudique outras pessoas. Ao menos não prejudique de uma maneira muito evidente e direta. Só como exemplo, para trazer nosso amigo Marques de Sade de volta: hoje em dia você pode perfeitamente ser um sádico e encontrar um masoquista que vai adorar seu prazer sexual ao ferir outra pessoa, e os dois poderão juntos participar de um clube para trocar experiências e até mesmo fazer parte de uma convenção que reúne pessoas de todo o mundo com os mesmos prazeres, como aconteceu há alguns anos atrás nos EUA. Ao mesmo tempo você pode participar normalmente da sociedade, ter família, emprego, seguro saúde e ser uma pessoa bacana. De verdade, não estou sendo irônica. Você teme ter um comportamento ou algum desejo meio estranho? Coloca no Google que com certeza vai encontrar sua tribo. Isso facilita muito nossa convivência social, já que, tendo um espaço para trabalhar nossas diferenças de maneira segura, podemos ser mais tolerantes e nos concentrarmos naquilo que temos em comum em lugar de ficar brigando por espaço no todo. Teoricamente.

Essa crença que compartilhamos – ao menos em cidades mais cosmopolitas -, do “viva e deixe viver”, ou, segundo a constituição norte americana, de que todos têm o direito individual de buscar a própria felicidade, deu sustentação à construção do Capitalismo que vivemos hoje, que acabou se resumindo e limitando ao direito individual de consumir. Assim sendo, se você é gay, preto, mulher, criança, idoso, sado-masoquista, mórbido, ou seja lá qual for a sua, e tiver dinheiro para cobrir suas “esquisitices”, você poderá usufruir de maneira bem significativa essa liberdade de ser você mesmo. E se você ainda por cima separar algo para fazer caridade, há grandes possibilidades de se tornar um herói. Porém, se o seu “karma” financeiro não for muito bom, será interessante você buscar alguma ONG de advogados humanitários se tiver problemas em ter esse direito garantido. Mas de qualquer maneira, você tem direito a ser quem é.

Acho bom fazer um parêntese aqui para deixar claro o que estou falando: Não quero dizer que o Capitalismo em si é mal e todos os pobres são vítimas da sociedade consumista. Ou que ter dinheiro é sinônimo de ser “mascarado”. Para mim, qualquer ideologia é vazia em si. Apenas penso que o que vivemos hoje é algo que o velho e bom Marx, que foi tão brilhante em sua análise do Capitalismo nascente em sua época, não seria capaz de imaginar. Esse texto é apenas uma reflexão sobre o que ando vendo e pensando desde dentro da sociedade em que vivo, portanto com todos os limites que possuo. Fecha parêntese.

E falando em limite, isso é algo que caracteriza nossa humanidade, já dizia nosso amigo Saturno. Assim como a busca por expandir esse limite é um impulso natural, responderia Júpiter. E vivemos nessa sístole e diástole que garante nosso batimento cardíaco humano, encarando nossos limites, buscando nosso crescimento, estruturando nossa personalidade, desenvolvendo nossos potenciais. E aí chegam esses transaturninos e bagunçam tudo! Quando encaramos os transaturninos não se trata mais da minha parte no todo, mas do todo que me faz uma parte.

Então, Urano em Áries vem com a força ideológica que me liberta dos padrões coletivos e me faz acreditar que tenho o direito de “salvar” todo mundo. Plutão em Capricórnio revela aquilo que a hipocrisia reinante – chamada hoje em dia de “politicamente correto” – escondia. Bacana. Vocês assistiram Inside Job (Trabalho Interno)? É um documentário dirigido por um jornalista daqueles que adoram criar saias justas nos entrevistados (Charles Ferguson), e que dá um panorama geral do que aconteceu nos EUA em sua crise mais recente, com todas as sacanagens e jogatinas que rolaram nos bastidores. Orquestrando toda a bagunça americana estão professores doutores de economia das universidades mais conceituadas de lá, que trabalharam direto nos governos Clinton, Bush e Obama sem o menor problema ideológico. Aí você pega um livro de História como o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leandro Narloch – Ed.Leya), onde você encontra afirmações como a de que os índios não são tão amantes da natureza assim (eles são os precursores da queimada, por exemplo), que negros alforriados caçavam negros fugitivos e Zumbi possuía alguns escravos para fazer o trabalho pesado, Santos Dumont não inventou o avião mesmo, João Goulart deu a maior força para as empreiteiras, e assim por diante. Olhando essas “revelações” que vão surgindo, depois de alguma interjeição de surpresa - mesmo quando vem de um jornalista da revista Veja como o Lenadro Narloch, o que me deixa um tanto desconfiada – a gente reflete um pouco sobre o contexto geral e percebe que essas coisas fazem sentido dentro da consciência em que vivemos, e as conseqüências disso não são assim tão difíceis de digerir. Ou alguém aí acredita que, em uma economia globalizada, as bobagens feitas nos EUA vão fazer o mundo – ou o Capitalismo – acabar, ou que o fato de negros escravizarem negros em um tempo escravocrata tira o valor do movimento de consciência negra atualmente?

Então, em uma postagem do facebook de uma amiga, aparece um vídeo da Marcha Pela Desigualdade e Pelo Ódio, contra a PL 122, patrocinado pela bancada evangélica do Congresso. Sim, os evangélicos, aqueles que seguem o Evangelho, a boa nova que traz Jesus Cristo de que devemos amar nossos inimigos. A PL 122 é um projeto de lei que acrescenta aos crimes de preconceito a discriminação de homossexuais, idosos e pessoas com necessidades especiais. Você vê o vídeo e acha que é brincadeira de desocupado. Mas não é não: minha amiga de Brasília viu com os próprios olhos um povo reunido na manifestação a favor da homofobia, com camisetas, cartazes e tudo que tinham direito. Vai lá no youtube se quiser dar uma olhada no vídeo. Aqui sim, minha prepotência compreensiva de ser iluminado pela Razão foi para o saco e se transformou em prepotência de tribo contra outra tribo. Ui, aqui tem transaturnino em ação, pensei eu. Reproduzo os argumentos apresentados, com meus comentários entre parênteses:
- “nós, evangélicos, sofremos preconceito. Porque devemos evitar que os outros sofram também” (na lei, preconceito religioso também é crime);
- “o PL 122 tira meu direito de discriminar quem eu quiser, onde eu quiser” (sic);
- “então o que? Se eu bater num travesti, então eu vou preso?” (substitua travesti por preto, mulher, numa criança, em velho, num deficiente, num muçulmano, num pobre, num gordo ou qualquer coisa que você seja);
- “eu não quero que meu filho nasça num mundo onde todos tenham direitos iguais” (essa afirmação diz que essa pessoa quer ter filhos no mundo oposto em que eu quero ter o meu);
- “o PL 122 tá vindo pra acabar com a minha liberdade de expressar a minha homofobia” (aqui você pode substituir homofobia por pederastia, genocídio religioso ou cultural, ou qualquer outra possibilidade que fere a consciência que criamos dizendo que todo mundo tem direito a ser quem é sem ser violentado por isso. Incluindo o direito de ser evangélico, claro. Dá até para expressar isso na terapia, para rever trauma de infância e curar isso, mas para atacar outra pessoa é diferente);
- “com o PL 122 os homossexuais querem se fazer de vítimas, mas o que eles não conseguem entender é que no fundo (pausa dramática) eu tô lutando contra mim mesmo” (que? Eu também não entendi essa, mesmo sendo hétero. Será que se está argumentando que estará lutando contra a própria homossexualidade? Ou se está querendo dizer que o ódio aos homossexuais é algo inerente a esse pobre ser humano? Cada um tire suas próprias conclusões).

Se você já leu e assistiu documentários sobre a formação do Nazismo na Alemanha – recomendo o fantástico “Arquitetura da Destruição”, documentário sueco dirigido por Peter Cohen – vai reconhecer esse discurso. Pois bem, a construção do Nazismo foi feita exatamente durante o trânsito de Urano em Áries enquadrando com Plutão em Câncer, signo oposto de Capricórnio, portanto com a mesma modalidade básica complementar.

Em meio a tantas transformações acontecendo, será que uma manifestação dessa tchurma tem realmente algum interesse? Espero que não, mas o fato de existir essa possibilidade é importante de ser analisada. Quando surgiram, os nazistas também foram chamados de malucos desocupados pela elite intelectual da época. Deu no que deu. Se Urano em Áries está usando a força heróica individual para romper as limitações ideológicas e Plutão usa a estrutura capricorniana para mostrar as emoções obscuras que fervem por baixo da correta aparência social, então esse discurso preconceituoso faz sentido.

Bom, então parece que estamos vivendo o momento de testar o que é verdade interna naquilo que pregamos e vivemos. E minha pergunta é: como vivemos nossos pré-conceitos individualmente? Como exemplo pessoal, conto pra vocês que a vontade espontânea que tive ao ver esse vídeo foi a de mandar prender esses manifestantes, já que compartilho da ideologia reinante do “viva e deixe viver”, e isso faz com que me sinta segura na sociedade em que vivo: essas pessoas ameaçam minha segurança e minha reação espontânea é de medo. Assim como quero que a polícia multe o idiota que quer burlar o trânsito pelo acostamento ou pára em faixa para pedestres. Vejam só: quero que os mecanismos de repressão da sociedade em que vivo limitem aqueles que ameaçam a minha segurança social. Normal, certo? E fácil, ao menos aqui. Passamos isso para Israel, com três diferentes sociedades querendo segurança para sua tribo, ou para os países em guerra na África, onde parece que o meu direito é ameaçado pela existência do outro. Mais complicado, já que o direito individual pela busca da felicidade não está condicionado ao não causar dano ao outro que também tem o mesmo direito. O que me questiono é se realmente acreditamos em uma sociedade justa e vivemos isso por consciência ou nos limitamos a aceitar as regras por medo de sermos violentados. Traduzindo pro cotidiano: não ando pelo acostamento da estrada por que acredito que somos todos iguais vivendo o mesmo trânsito e não sou melhor que ninguém para chegar mais rápido em casa, ou fico passiva naquele engarrafamento terrível por me sentir segura dentro das regras e poder criticar quem faz diferente? Acho que é um bom momento para começar a pensar a respeito. Como dizem os budistas, até que ponto minha motivação é pura?

Enfim, meus caros, não tenho nenhuma conclusão para apresentar para vocês. Estou começando a vislumbrar essa possibilidade de investigação. Dentro e fora. Saber até que ponto nossos atos são comandados por nossa capacidade de consciência positiva e quanto estamos interagindo através de nossa sombra, por medo, raiva ou confusão, vai além da boa aparência que podemos ter no filme que estamos fazendo de nós mesmos. E é nessa falta de noção sobre nós mesmos – e eu diria até certo descaso a respeito -, que os transaturninos nos pegam e nos fazem crer que algum destino externo está nos levando para onde não queríamos ir. Retomando a construção do Nazismo, vocês assistiram “Um Homem Bom” (Good – direção de Vicente Amorim)? Fala disso, e eu recomendo. Não acredito – ou me recuso a acreditar – que vamos fazer outra atrocidade como a da 2ª Grande Guerra, mesmo porque, depois das armas nucleares, destruir o Outro (seja o mocinho ou o bandido da história), significa suicídio. Mas como estamos vivendo um novo processo com essa combinação de transaturninos, é bom pensar sobre o que anda acontecendo e qual a melhor maneira de viver isso. A arma que temos é nossa consciência individual, a luzinha de vela que Jung dizia que devemos proteger a todo custo das tempestades coletivas.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Novo Ciclo de Urano

A Astrologia trabalha com ciclos, como a vida nesse planeta. Os ciclos astrológicos se iniciam com Áries, pois esse signo traz exatamente a energia dos começos. Quando o Sol entra em Áries temos o equinócio de primavera no hemisfério norte, quando o dia e a noite têm o mesmo tamanha depois de um período de noites maiores que as dias. Tudo que está em equilíbrio precisa mover-se para não se transformar em estagnação e Áries significa exatamente a quebra do equilíbrio que gera movimento e vida. O círculo astrológico funciona muito mais como uma espiral aberta do que como um círculo fechado, pois a cada novo início temos a chance de começar algo novo, que passa pelos mesmos pontos, mas com uma nova consciência adquirida através da caminhada anterior. Como no Ocidente associamos Equilíbrio com Harmonia, muitas vezes nos apegamos a esse momento efêmero e sofremos quando ele passa. O I Ching diz que as coisas não podem permanecer unidas para sempre, pois isso levará certamente à estagnação, já que o “chi” pára de mover-se e, como resultado, temos a morte.

Urano rege a mudança e o inesperado. A atuação deste planeta está associada a todo tipo de ruptura de padrões preestabelecidos e tradicionais. Assim como no céu - onde o planeta mostra que não existem regras e nem padrões rígidos - também na sua função astrológica Urano é responsável pela quebra de estruturas restritivas, para permitir o acesso ao novo, ao não tentado, ao diferente. Quando este acesso às mudanças se encontra bloqueado ou impedido, a ação uraniana se manifesta através de revoltas, revoluções e explosões em todos os sentidos. O reconhecimento de Urano no céu ocorreu em 1781, em meio à Declaração de Independência americana e à Revolução francesa, e nesses dois movimentos conseguimos identificar as novas facetas que Urano traz para nossa consciência. Tanto a declaração de que todos os homens nascem iguais e têm o direito à busca da felicidade, quanto o mote “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” fazem parte dos novos ideais que Urano vem plantar no coração dos Homens. Urano cria rupturas através da consciência que semeia a idéia de que podemos ser mais livres e felizes do que somos na atual estrutura, e faz isso mostrando de maneira escancarada toda a injustiça e limitação em que vivemos e nos perguntando por que aguentamos isso. E enquanto estivermos vivendo restrições injustas no planeta, parece que Urano vai continuar a trazer rupturas violentas.

Alguns astrólogos já andam falando de Guerras e lutas pelo mundo por associarem o arquétipo de Áries, que é do Guerreiro, ao de Urano, que é do Revolucionário, e nesse sentido interpretam os conflitos que estão explodindo no Oriente Médio, com a ajuda do expansivo Júpiter, que já está em Áries. Eu, entretanto, concordo mais com a corrente que associa as manifestações no Líbano e no Egito aos eclipses de dezembro de 2010 e janeiro de 2011, e acho importante estarmos pensando a respeito de que tipo de Guerra e que tipo de Revolução podemos esperar nos dias de hoje através de Urano em vez de fazer essa associação direta. A análise astrológica tem muitas semelhanças com a análise se sonhos, e por isso precisamos do sonhador para ganhar sentido em vez de fazer apenas uma listagem de possíveis significados. Assim, quando falamos de processos coletivos, temos o sonhador e o intérprete misturados, e precisamos de mais recursos para fazer a análise. Uma das coisas que gosto de usar para isso são os livros de História.

Urano tem um ciclo de 84 anos e 3 dias, e nesse ano de 2011, com sua entrada em Áries, podemos esperar o início de um novo processo de consciência humana e de mudanças da nossa mentalidade enquanto coletivo. Vamos, então, dar uma olhada no que estava acontecendo a 84 anos atrás e verificar as mudanças que ocorreram, observando como se concretizaram as idéias de liberdade nesse ciclo que está terminando agora. No ciclo anterior, a passagem de Urano por Áries começou em abril de 1927 e foi até junho de 1934.

A primeira coisa que salta aos olhos quando verificamos o que aconteceu entre 1927 e 34 não é nenhuma guerra em particular, mas toda a armação do cenário sócio-político-econômico para a 2ª GG. Alguns fatos que, em linhas bem gerais, podem ilustrar isso:

- Os países começam a se desligar da Liga das Nações, órgão de união entre as nações que se propunha a gerar soluções justas e conjuntas para os conflitos mundiais após a Primeira Guerra. A razão disso foi que a Liga não dava conta de criar uma solução rápida para os problemas gerados pela 1ª Grande Guerra ou qualquer outro conflito, pois era necessária a decisão unânime de todos para se gerar qualquer ação. Bom, me parece que ainda hoje não temos como colocar em prática esse refinado conceito anarquista, e continuamos a viver na base da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
- E falando em anarquistas, Trotsky é deportado da Rússia por Stalin, que efetiva a eliminação de toda a concorrência para sua ditadura.
- Sandino começa a ofensiva conta as tropas dos EUA que haviam invadido a Nicarágua, e vai estruturar sua ditadura, assim como em Portugal Salazar começa sua campanha entre os militares enquanto revoltas estouram pelo país.
- Rei Alexandre da Iugoslávia dissolve o governo e abole a constituição, enquanto na Espanha começa o troca-troca de governos que vai gerar a terrível Guerra Civil posteriormente.
- O Japão invade a Manchúria
- Mussolini e o Vaticano assinam o Tratado de Latão, criando o Estado do Vaticano e tornando a Itália um Estado Confessional, ou seja, o país se torna um Estado Católico, transformando em lei secular essa doutrina religiosa.
- Acontece a Grande Depressão nos EUA, quando Roosevelt assume o poder e implementa o New Deal, que controla os preços dos produtos, aplica os recursos do governo em obras de infra estrutura e diminui as horas de trabalho para gerar empregos. A inauguração do Empire State no final desse ciclo de Urano é bem significativa.
- Por fim, mas não menos importante, temos toda a articulação da tomada de poder pelos nazistas na Alemanha, começando com o primeiro discurso de Hitler em Munique em 15/3 de 1929, em 1930 o Partido Nacional Socialista surge nas eleições como o segundo maior da Alemanha e começam os boletins da SS limitando o comportamento dos seus membros, de modo a manter o partido “ariano” - como o significativo boletim de 1931, que comunica que os soldados da SS precisam de autorização do departamento de raça do partido para se casar -, Mein Kampf vira sucesso, é fundada a GESTAPO, polícia política nazi, em março de 1933 e por fim Hitler é nomeado chanceler pelo presidente Hindenburg.
- No Brasil temos a Revolução de 30, com a subida de Getúlio ao poder e a Revolta Constitucionalista de 32.

Parece que há no ar problemas urgentes a serem tratados, e pouquíssima articulação, flexibilidade e paciência para se resolver as coisas de maneira coletiva. Nada melhor que um tirano, no sentido grego do termo, para resolver os problemas do meu quintal, mesmo que isso signifique jogar lixo no quintal do vizinho. Mas paralela a toda essa armação, outras coisas também estão acontecendo, que parecem também apontar para a mudança de mentalidade que está sendo proposto por Urano:

- Gandhi, que já vinha fazendo discursos libertários e boicote aos produtos ingleses, inicia a Campanha de Desobediência Civil.
- Chico Xavier também começa seu trabalho com Urano entrando em Áries, abrindo um novo caminho espiritual no interior católico e tradicional do interior de Minas Gerais de uma maneira mansa e pacífica.
- As mulheres começam a votar efetivamente no Brasil em 1932, depois de terem tido seus votos anulados em 1928, e nos EUA várias mulheres que pilotavam aviões exigem o direito de tirar prevê para voar oficialmente, conquistando isso.
- Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp lançam o movimento antropofágico, que garante ser possível absorver tudo que vem de fora e criar coisas novas passando por um olhar pessoal. Também é nessa época que se formam as escolas de samba do Rio de Janeiro, que modernizam o samba, que era um derivado do maxixe, criando um novo ritmo, que até hoje nos caracteriza.
- Freud tem seu trabalho reconhecido no mundo, e a primeira sociedade de psicanálise da América Latina é aberta em São Paulo. Também é nesse periodo que a psicanálise é taxada de “ciencia judaica”, e excluida da Alemanha. Isso faz com que os fundadores da psicanálise se expalhem pelo mundo, ensinando e praticando-a.

Outra coisa que o movimento uraniano acompanha são os avanços tecnológicos, pois, desde a invenção dos instrumentos de pedra, nosso horizonte cresce com a criação de nova tecnologia. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a enorme quantidade de asteróides e outros corpos celestes que foram avistados, principalmente por astrônomos alemães, graças as novas lentes que estavam sendo feitas por ali. E, claro, não podemos esquecer das primeiras fotografias feitas de um novo planeta, o ainda inclassificável Plutão (a última que ouvi, fala que Plutão vai deixar de ser planetoide e se transformar em um bi-planeta com Caronte, sua talvez ex lua). Parece unânime a associação entre a descoberta de Plutão e o deflagar da 2ª Guerra. Outra coisa que acontece nesse periodo de Urano em Áries é o primeiro voo de Lindenberg sobre o Atlantico Norte, entre Nova York e Paris, e o brasileiro João Ribeiro de Barros faz Cidade do Cabo/Fernando de Noronha de avião aqui no Atlantico Sul, também pela primeira vez. Companhias Aéreas surgem pelo mundo, como a VARIG e a Pan Air, no Brasil, ou a Ibéria, na Espanha. Essa também é a época aurea dos dirigíveis, inclusive com o Zeppelin alemão completanto a inédita volta ao mundo. No cinema é exibido o primeiro filme sonoro da história – The Jazz Singer -, a tv nos EUA ganha os primeiros serviços analógicos e alguns testes com a tv a cores. A Dupon apresenta a primeira borracha sintética, um novo elemento químico, o Halogênio, é descoberto, e a vitamina C é isolada pela primeira vez. Adoraria comentar cada um desses tópicos para pensarmos juntos o que significaram em termos de mudança de mentalidade, mas como já escrevi um montão e isso aqui é um blog e não uma tese, deixo aqui essa pequena listagem para vocês pensarem a respeito.

Antes de terminar gostaria de colocar outro recurso muito bom para entendermos uma época, que é verificarmos o que aconteceu com as crianças que nasceram nesse período de Urano em Áries, para assim verificarmos que tipos de ícones frutificaram com essas novas sementes trazidas por Urano. Não sei se sou só eu, mas fiquei alegremente surpresa ao encontrar aqui os principais líderes de movimentos de liberdade do século XX. Vejam só as crianças que estão nascendo entre 1927 e 1934:

Dalai Lama
Che Guevara
Martin Luther King
Harvey Milk
Yasser Arafat
Mikhail Gorbatchev
Desmond Tutu

Lindas sementes, não? Calma, antes de se animar demais vamos lembrar que Paulo Maluf e ACM, que possuem uma atuação no mínimo duvidosa em termos de liberdade, também fazem parte dessa geração. Não creio que esses personagens passem para a posteridade como as citadas anteriormente, mas é interessante pensar que essas figuras se mantiveram civis em meio a uma ditadura militar.

Ok, já falei demais e ainda não falei de tudo que gostaria. Estamos em um ano de Mercúrio, então tenho essa desculpa. Obrigada por me acompanharem até aqui. Se vocês agüentarem, ainda tenho algumas coisas que andei coletando por aí para entender esse novo início do ciclo de Urano, e assim que der continuarei publicando. Quero também fazer uma análise mais simbólica de tantos fatos e verificar as pistas que temos para o novo ciclo uraniano que se inicia em março de 2011. Vamos ver se dou conta de escrever tudo que minha cabeça anda me apontando...

sábado, 20 de junho de 2009

Passeios de Urano Pelo Mapa Natal

Em seu movimento direto e depois retrógrado, indo para frente e para traz, Urano fica cerca de 4 anos ativando cada ponto com o qual entra em aspecto no nosso mapa. Quando olhamos para os trânsitos de Transaturninos vemos processos de longo prazo, que começam como um pequeno incômodo, quando se aproximam de algum ponto - uns 10° antes do aspecto exato -, que pouco a pouco vai se intensificando até se transformar em uma crise. Depois, conforme ele vai se afastando, temos ainda um tempo para fazer alguns ajustes e ver o que está faltando rearranjar na vida. No caso de Urano esse incômodo tem a ver com nossa liberdade, e começamos a perceber que deixamos muita coisa de lado em função de corresponder a uma normalidade imposta, aparentemente, de fora. A movimentação em nossas vidas orientada pelos trânsitos uranianos começa a ficar interessante quando conseguimos intuir que essa noção de normalidade está limitando nosso potencial criativo e começamos a trabalhar para mudar isso. Esse deus primordial faz com que nossas rotinas fiquem irritantes, as coisas passam a não acontecer como planejamos e as estruturas parecem ter perdido a estabilidade. Ao mesmo tempo, oportunidades começam a aparecer na nossa porta, e nos oferecem novas idéias, novas atitudes e novas formas de lidar com antigos problemas. Como sempre, o livre arbítrio é básico em qualquer processo, e podemos resistir bravamente a todas as chances de crescimento que a vida nos oferece, ficar sofrendo durante aquele período, e então o trânsito se vai e perdemos o potencial de desenvolvimento oferecido. O trânsito dos transaturninos sempre trazem transformações, mas é possível fazer um pouco de terapia para diminuir a tensão interna, arrumar uns casos clandestinos para evitar as dificuldades no relacionamento oficial ou buscar algum atalho para tentar escapar das dificuldades que se projeta no mundo, mudando a pintura da casa em lugar de resolver o problema estrutural que está criando rachaduras na parede.

Urano rompe com o que está rígido demais, porém aquilo que é verdadeiro em nós continua intacto e fica mais forte. Os trânsitos de Urano são sempre imprevisíveis, mas vamos ver algumas possibilidades de suas visitas pelos astros de nosso mapa.


Trânsitos de Urano pelo Sol Natal
Esses costumam ser os trânsitos uranianos mais estimulantes e que trazem maiores mudanças em nossas vidas, desde que não se fique muito irritado com a dificuldade de traçar planos e se arrisque a entrar nas novas portas que se abrem. Como o Sol fala do processo de desenvolvimento da nossa essência, Urano irá quebrar muitas das nossas regras a respeito de como se deve levar a vida e nos mostrar a importância de sermos flexíveis para poder administrar eventos inesperados. É importante manter o foco interno para saber o que realmente queremos para que os eventos externos não nos derrubem. Nossos automatismos são quebrados, e o trabalho fica desorganizado, a vida social fica caótica, os parceiros ficam com ritmos diferentes e acidentes acontecem, ficando bem claro onde colocamos nosso valor e paramos de crescer por medo disso ser questionado. Mesmo se damos um valor positivo para a liberdade e para a mudança, quando temos a oportunidade de experimentar essas coisas ficamos preocupados por não saber como lidar com uma nova perspectiva. Mas Urano também costuma trazer bastante ajuda para enfrentarmos o novo caminho, e se estamos dispostos a dividir as responsabilidades no trabalho, a falar a verdade com os parceiros, e abrir novos canais de comunicação com o mundo, conseguimos deixar entrar novas pessoas em nossa vida e também descobrimos outras faces daqueles com quem convivemos. Percebemos que muito do peso que colocávamos em nossa existência era desnecessária, e a mudança pode ser realmente proveitosa. Através do Sol recebemos dons que precisam de expressão criativa, e quando Urano faz aspecto com esse potencial, muita coisa é liberada. Se, porém, ficamos falando de mudanças e não agimos, esses acabam sendo momentos de impedimentos – que podem ser traduzidos como acidentes ou doenças – que nos obrigam a olhar de frente as rotas de fuga que escolhemos para tentar nos afastar de nossas dificuldades para mudar.

Trânsitos Urano pela Lua Natal
Esses são períodos em que costumamos reagir emocionalmente de maneiras diferentes, e isso pode nos deixar bastante confusos. Como na Lua temos acalentados nossos hábitos mais arraigados, Urano, geralmente, faz a festa com a sensação de segurança que sentimos na familiaridade conosco mesmos. Pessoas muito emocionais ficam mais racionais e menos dramáticas, muitas vezes um tanto rudes, e outras muito racionais se surpreendem não conseguindo conter as lágrimas, a raiva ou mesmo sentimentos muito cálidos. Claro que aqueles que nos são próximos acabam nos estranhando e isso pode causar algumas dificuldades em nossos relacionamentos. Também é comum, nessas épocas, aparecer “o(a) estranho(a) sedutor(a)”, como nas histórias do do Boto ou da Jurema, comum entre comunidades do norte do Brasil, onde recebemos um convite irresistível de abrir mão de nossos vínculos mais estáveis para entrar em uma aventura amorosa. É bom ter bastante cautela nessa hora, pois essas paixões Urano/Lua sempre têm algo a ensinar, mas não são feitas para durar, e nas histórias as donzela viram mãe solteira e os homens se perdem nas águas. Esse é um momento de expansão emocional, onde podemos aprender a ser mais espontâneos e nos livrarmos de muitos condicionamentos restritivos de infância. Para quem está em um relacionamento amoroso significativo, vale a pena ter coragem para mudar aquilo que está incomodando, e buscar abrir a relação para que coisas novas possam entrar, e assim dar um salto de qualidade e profundidade nos vínculos realmente nutritivos.

Trânsitos de Urano pelo Mercúrio Natal
Mercúrio e Urano criam grandes idéias juntos. Às vezes grandes demais, o que pode nos deixar bem cansados mentalmente. Nosso pensamento costuma ficar muito rápido e também bastante desordenado, o que pode representar certa instabilidade mental um tanto assustadora. Na verdade, como Urano tem esse poder libertador, temos maior consciência de nossos pensamentos, e precisamos aprender a trabalhar isso de maneira a canalizar tanta energia. É tempo de abrir a mente, seja através de cursos, escrevendo, montando miniaturas ou conversando com um terapeuta. Quando começamos a usar essa energia para comunicar o que estamos vendo internamente, sempre conseguimos fazer algo construtivo com ela, e podemos aproveitar muito do que aprendemos depois que o trânsito termina e voltamos para nossa estabilidade normal. É comum também que nossa língua fique muito solta, e falamos de maneira imprudente, não conseguimos mais parar, e quando vemos que falamos demais já é tarde. Se tentarmos remendar o problema que geramos, acabamos piorando as coisas. Muita calma nessa hora, e aprender a pedir desculpas e assumir o erro costumam ser o melhor caminho. Isso está diretamente ligado ao outro problema criado por pensamentos muito rápidos, que é a dificuldade de parar para ouvir os outros, então, é bom tentar fazer um esforço consciente para escutar com cuidado o que nos falam, inclusive pedindo para repetirem o que foi falado se sentirmos não ter entendido muito bem. Isso pode evitar muitos mal-entendidos, pois também pode ajudar em nossa dificuldade de expressão clara durante essas épocas. Esses trânsitos podem liberar nossa mente de muitos preconceitos e idéias que bloqueiam nosso desenvolvimento. A busca por novos horizontes mentais, propiciada por Urano em aspecto com Mercúrio, pode liberar conceitos infantis a respeito da vida e nos ajudar a comunicar e pensar de maneira mais profunda e verdadeira. Apesar do ser humano ser definido como um ser pensante, na verdade passamos muito tempo repetindo pensamentos prontos que recebemos em nossa educação, e esses trânsitos trazem a oportunidade fantástica de liberarmos nossos próprios pensamentos.

Trânsitos de Urano pela Vênus Natal
Urano vai querer liberar nossos valores e prazeres quando transita pela Vênus natal, o que quer dizer que esqueceremos de verificar as credenciais daqueles que deixamos entrar em nossas vidas, e isso pode gerar alguns problemas. Vênus mostra nossos valores interiores e como queremos amar e ter prazer na vida, e na verdade é nesse interior que Urano irá agir, e podemos descobrir o quanto nos restringimos para ter nossa Vênus domesticada dentro de parâmetros de normalidade. Claro que quanto mais rígidos esses parâmetros, mais estrago vai fazer Urano. Pior ainda se culpamos nossos parceiros por essas restrições. Urano libera nossa capacidade amorosa de nos relacionarmos com o mundo, o que muitas vezes significa uma certa inflação, e partimos para a sedução de coisas que não valem a pena e não têm nada a ver conosco. O sedutor homem casado que não tem coragem de enfrentar as dificuldades do próprio casamento, ou a fascinante mulher de sonhos mas sem caráter, que está atrás de alguém para fazer um jogo amoroso, são aparições freqüentemente relatadas durante esses trânsitos. Na verdade conseguimos verificar o quão maduro está nossa contraparte inconsciente, que Jung nominou como animus na mulher e anima no homem. Quanto menos desenvolvido está o masculino interno na mulher e o feminino no homem, mais fácil será cair nessas armadilhas de Urano em trânsito pela Vênus. Nossos valores e conceitos sobre amor e relacionamento se formam a partir daquilo que vivemos com nossos pais, e o que Urano nos mostra é que podemos ir além. Esses períodos uranianos mudam e amadurecem nossa forma de amar, e então podemos viver mais plenamente essa expressão de nossa individualidade. O que muda nossas vidas é a transformação interna de nossa capacidade de amar, por mais que se projete essa mudança em algo externo como um novo amor. Esse é um tempo para se libertar dos modelos fornecidos externamente e reavaliar essa dimensão de nossas vidas, sabendo que as frustrações no relacionamento amoroso, no trabalho, na família, ou onde quer que seja, não será minimizado por conta de uma nova aventura externa, mas pela coragem de buscar uma nova aventura interna.

Trânsitos de Urano pelo Marte Natal
O mais comum nesses trânsitos é nos jogarmos em um monte de atividades sem pensar, muitas vezes sem nem sabermos porque estamos fazendo aquilo, e ficamos com a agenda lotada demais para darmos conta do recado. Nossos modelos de ação estão sendo liberados nesses períodos, e podemos nos tornar um tanto extravagantes demais. Geralmente ficamos irritados porque as outras pessoas ficam um tanto lentas demais, então é bom perceber que nós é que estamos muito rápidos para não ficar brigando na fila do banco ou no caixa do supermercado, além de evitar as brigas desnecessárias com aqueles que nos rodeiam. Quando a energia de Urano estiver acelerando demais seu Marte, vá levantar peso, ou correr no Parque ou mesmo aprender a lutar boxe, pois Marte sempre se beneficia com atividades físicas. E falando nisso, Marte também está conectado com nossa vitalidade sexual, que Urano costuma deixar mais animada. Podemos ficar mais criativos sexualmente, o que pode esquentar nossos relacionamentos ou fazer com que nos animemos a ir a busca de alguém, se estamos sozinhos. Como sempre, o objetivo de Urano é nos liberar dos condicionamentos e medos infantis, e em contato com nosso Marte, podemos amadurecer também nossa sexualidade e romper muitos dos bloqueios que nos aprisionavam nessa área. Só é bom cuidar nessas épocas dos novos parceiros sexuais que encontramos, pois muitas vezes eles aparecem apenas para ativar essa área de nossas vidas. Isso significa que casar ou mesmo ir morar junto com essa pessoa pode não ser a melhor coisa a se fazer agora, e seria interessante deixar o trânsito passar para se verificar se há mesmo outros pontos de interesse para se dar esse passo. É sempre bom lembrar que a transformação é interna, por mais que o encontro de um outro que nos ajude a espelhar o processo contribua bastante. Marte é nosso princípio ativo, e liberar essa força é algo importante para que possamos conquistar o que queremos da vida. Urano, porém, não está preocupado com a utilização prática de seus dons, e sim na abertura de uma maior verdade em nossas vidas. Nem tudo que fazemos nesses períodos trazem resultados, mas a possibilidade de experimentar novas formas de ação com certeza abre nossas vidas para encontrarmos muito mais do que pensávamos antes.

Trânsitos de Urano pelo Júpiter Natal
Com nosso Júpiter temos a capacidade de reconhecer as oportunidades que nos rodeiam e queremos compartilhar isso com o mundo, e Urano vai aspectar esse nosso potencial colocando mais lenha na fogueira. Como nosso Júpiter também aponta o lugar onde precisamos tomar cuidado com os excessos, quando o planeta da excentricidade está lhe fazendo visitas esse cuidado deve ser redobrado, pois ficamos um tanto voluntariosos. Conhecemos novas pessoas, queremos viajar para lugares exóticos, e temos coragem para aprender a pilotar aviões ou a pular de pára-quedas. Geralmente aparecem também muitas oportunidades profissionais vindas dos lugares mais inesperados. É sempre interessante aproveitar o máximo que conseguimos, mas tomando o cuidado de verificar quais são realmente consistentes, pois temos muito mais entusiasmo do que bom senso nessas épocas. Há coisas que só conseguimos saber sua veracidade experimentando, então o melhor é se abrir para tudo sem deixar o porto seguro muito longe antes de saber para onde está indo o barco. A consistência de todas as novidades desses períodos, a confiabilidade de todas as pessoas novas que surgiram no caminho, ficará mais certa após o trânsito, e aí se poderá investir com segurança onde valer a pena. Ficamos um tanto intolerantes durante esses trânsitos, principalmente se nosso Júpiter natal tiver algum aspecto desafiador no mapa. Esses são períodos de abertura, e para isso precisamos tomar consciência do que reprime nossa fé natural na benevolência da vida, e Urano fará sua parte para essa conscientização, as vezes nos fazendo reagir de maneira exagerada nas situações que temos dificuldade para lidar. Esses trânsitos trazem bastante mudança porque sentimos necessidade de nos desenvolvermos e nos relacionarmos com a vida de maneira mais livre e verdadeira, o que possibilita a transformação de nossa visão de mundo.

Trânsitos de Urano pelo Saturno Natal
Como sempre, com Saturno envolvido no processo, as coisas vão depender de nosso grau de maturidade e de responsabilidade com a própria vida, por isso esses trânsitos costumam ser mais fáceis de se lidar em idade adulta. Como as estratégias saturninas para nos fazer levar a sério e ter cuidado na construção de nossas vidas costumam implicar medo e frustração, corremos sempre o risco de estarmos construindo prisões demasiado apertadas para nos esconder em lugar de bases de ação sérias. Os trânsitos de Urano vão colocar exatamente isso em evidência, e aquilo que não for sólido será arrebentado para que vejamos o que estamos fazendo de nossas vidas. Quando conseguimos entender que a estrutura de Saturno só é eficiente se nos possibilita ter autonomia, e que a responsabilidade por nossos atos é que nos traz a verdadeira liberdade, então podemos abandonar os medos e apreensões para experimentar maior verdade em nossa estruturação no mundo. Quando somos muito jovens ainda estamos experimentando aquilo que nossa educação e sociedade apresenta como correto e autorizado, então esse pode ser um transito que traz mais rebeldias que libertações. Mas quando já estamos aprendendo a criar nosso próprio manual de sobrevivência no mundo, Urano traz, para Saturno e seus aspectos natais, uma capacidade de olhar a critica de autoridades e as situações que nos causam ansiedade e dúvidas a respeito da propria capacidade, de maneira mais ampla. Assim, podemos verificar onde realmente precisamos de aperfeiçoamento, e temos energia para ir atrás disso, e onde não precisamos nos adaptar tanto assim para conquistarmos o espaço de autoridade que ambicionamos. Complexos de inferioridade em geral vêm abaixo durante esses trânsitos, principalmente se eles serviam para nos desculparmos por nossas vidas não serem como gostaríamos que fossem. Isso soa bem bonito, mas geralmente são períodos em que entramos em algumas crises antes de perceber que nossas limitações reais não nos tiram o direito de desenvolver nosso potencial criativo e pormos mãos à obra, superando os medos e desenvolvendo uma auto-estima saudável.

Trânsitos de Urano pelo Netuno Natal
Os trânsitos que aspectam os transaturninos de nosso mapa ocorrem em toda a geração ao qual pertencemos, e apenas se o planeta aspectado tiver algum destaque em nosso mapa, sentiremos o que acontece de maneira mais individualizada. Netuno traz os sonhos da nossa geração, a inspiração para transcender o cotidiano comum, a ilusão de ser ou fazer algo especial, e geralmente marcam um ponto cego no mapa, onde não conseguimos entrar de maneira muito racional ou maniqueísta. Urano costuma produzir tsunamis quando encontra Netuno, e esses sonhos e inspirações se agigantam. Como aqui estamos trabalhando com energias sutis, muitas vezes é observando os sonhos que estão buscando realização que vamos sentir esse trânsito, tanto internamente quanto em nossos amigos de idades próximas à nossa. Urano irá agitar e ativar Netuno na busca de realização desses sonhos, mas como Netuno traz muitos enganos quando tentamos colocá-lo em termos concretos, esses podem ser períodos em que também nos desiludimos com aquilo que sonhamos. O relato mais comum é de mudanças no rumo do sonho, e aqueles que esperavam comprar a casa própria decidem dar a volta ao mundo, os que queriam estudar no estrangeiro compram uma casa no campo, a princesa que esperava o príncipe resolve querer ser executiva, e o espiritualista começa a fazer cursos técnicos para entender melhor as maquininhas modernas. Na verdade, Urano em suas visitas à Netuno, traz imagens inspiradoras que podem nos fazer dar mais alguns passos na direção de nossos sonhos, e muitas vezes conseguimos perceber se estamos apegados demais a um caminho e podemos ter vontade de mudar de direção. A música e a arte em geral costumam ser bons caminhos para se entender as mensagens de Netuno, e durante esses períodos podem trazer algumas dicas do que está mudando internamente e também na transformação de nossa geração.

Trânsitos de Urano pelo Plutão Natal
Plutão também é geracional, e só sentimos esses trânsitos se há contato com pontos mais pessoais no mapa. Esses costumam ser contatos bem libertadores, pois Urano irá derrubar muito da necessidade de controle contido em Plutão. Como o senhor do Hades costuma gostar de criar labirintos e manipulações emocionais quando deixa a pessoa insegura, Urano, com sua força mais mental, costuma desarmar muitas das armadilhas plutonianas e podemos ver com mais clareza o que estava escondido no porão, tanto no nosso como no de nossa geração. Plutão fala de um potencial que foi enterrado no inconsciente por medo que a sua exposição gerasse dor, e Urano trará luz e força para que essas coisas venham para a superfície, o que pode gerar transformações profundas e despertar muita criatividade adormecida. Plutão além de ser coletivo tem um plus a mais por se relacionar com as pulsões de vida e morte da nossa geração, portanto os aspectos que recebe por trânsito de Urano podem fazer com que nossa geração perceba melhor o que está acontecendo ao nosso redor, levando em consideração os subtextos e mensagens subliminares que recebemos. Se estivermos atentos, isso pode significar uma boa dose de liberdade no nosso agir, pois passamos a responder conscientemente aos apelos que nos cercam. Ou não responder. Às vezes pode acontecer de Urano mexer mais do que estamos acostumados em nossas emoções obscuras, e isso pode aparecer em reações exageradas com relação a fatos aparentemente pequenos. Urano estará quebrando as defesas plutonianas para dores muitas vezes guardadas a muito tempo, portanto é interessante estar anotando esses episódios para contar ao terapeuta. Urano costuma deixar claro também onde existem jogos de poder, quando visita Plutão, e é interessante perceber como entramos neles e com qual objetivo, o que na maioria do tempo é um tanto obscuro, e muitas vezes inconsciente. Enfim, quando transaturninos se envolvem, podemos entender como funcionamos dentro da geração que nos coube nascer.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Trânsitos de Urano

“Estranhamente, o homem – cujo conhecimento passa, a olhos ingênuos, como a mais velha busca desde Sócrates – não é, sem dúvida, nada mais que uma certa brecha na ordem das coisas, uma configuração, em todo caso, desdenhada pela disposição nova que ele assumiu recentemente no saber. Daí nasceram todas as quimeras dos novos humanismos, todas as facilidades de uma ‘antropologia’ entendida como reflexão geral, meio positiva, meio filosófica, sobre o homem. Contudo, é um reconforto e um profundo apaziguamento pensar que o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos, uma simples dobra de nosso saber, e que desaparecerá desde que houver encontrado uma forma nova.”
Michel Foucault – As Palavras e as Coisas

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), seguindo o pensamento de Schopenhauer e Nietzsche, diz que estamos presos dentro dos nossos pensamentos possíveis, determinados por nossa língua, cultura e época, que estabelecem para nós um sentido de ordem. Nessa ordem criamos nossa identidade e também uma alteridade. Existe, porém, uma zona obscura na ordem estabelecida onde há uma aparente confusão e, quando conseguimos nos libertar o suficiente em vez de se deixar atravessar passivamente, podemos penetrar na região do caos e descobrir novas ordens possíveis. Urano, em seu caminho pelo zodíaco, vai criando brechas na ordem estabelecida para que essa região de caos possa penetrar na nossa existência, criando e liberando novas maneiras de ordenação do mundo.

Durante aproximadamente sete anos Urano irá criar rupturas através de um signo, possibilitando a visão de novas verdades ali simbolizadas. Desde fins de 2003 ele está em Peixes, onde ficará até o início de 2011. Sendo esse o último signo do zodíaco, Urano parece estar exatamente projetando do inconsciente a necessidade de finalizarmos ciclos e nos libertarmos da velha ordem. Uma das características de Urano é seu poder de formar imagens transformadoras a respeito da Humanidade, e vemos que a principal imagem pisciana que está se formando diz respeito a uma sociedade com valores mais sutis e menos individualistas, para que possamos salvar o planeta. Antigos valores religiosos estão perdendo a positividade, e se torna difícil justificar a fala de um Papa que veste Prada e chega à Angola dizendo que a camisinha não previne o vírus da SIDA, ou um bispo que excomunga o médico que faz o aborto para uma criança abusada pelo pai. Também vemos a expansão de escolas como a Life Wings ou a Escola da Ponte, que vê a educação principalmente do ponto de vista ético e espiritual sem a necessidade de uma instituição religiosa que as sustente. Não que essas coisas não existissem antes, mas Urano tem transformado as idéias antes divulgadas por uma elite em uma inspiração de massa. Fala-se muito dos trânsitos de Urano como algo que de repente surge e desestrutura tudo, mas, na verdade, esse planeta faz com que irrompam na superfície os movimentos de libertação que estavam sendo gestados pela própria ordem estabelecida.

Do mesmo modo, enquanto Urano passeia por nosso mapa natal, ele irá mostrar onde precisamos ter coragem para romper com nossas limitações e nos tornarmos mais inteiros e verdadeiros, e isso pode representar ter que enfrentar certo caos até que a nova ordem se estabeleça. Sofremos grandes pressões sociais para nos adaptarmos, nos relacionamentos, no trabalho, na família, na academia, que faz parte do nosso aprendizado para nos tornarmos adultos. Mas quando nos deixamos levar por essa adaptação, nos apegando a uma superfície estável e “esquecemos” a necessidade de verdadeira auto-expressão, - geralmente sustentados por alguma crença do tipo “casamento é assim mesmo”, “homem/mulher é tudo igual”, “preciso desse trabalho”, por exemplo - Urano vai significar aquela espécie de crise que surge como uma explosão, que rompe a superfície aparentemente calma para criar as mudanças necessárias. Quando a mudança uraniana é imposta de fora, geralmente é muito dolorosa e destrutiva, porém, se conseguimos perceber e atender ao seu apelo de expressão e verdade, podemos nos libertar de coisas sem sentido que mantemos em nossas vidas por medo de um caos ilusório. Esse é um dos planetas lentos, e passa alguns anos atuando sobre os pontos de nosso mapa, dando tempo para que aquela sensação de insatisfação possa ser levada a sério e se busque novas respostas antes que se transforme em uma crise destrutiva. Não é preciso acabar com um casamento, rodar a baiana com o chefe ou desistir de um mestrado para se libertar das prisões que construímos para nós mesmos, e sim aprender a questionar as “verdades” que orientam nossa vida.

Os problemas gerados pelos trânsitos de Urano estão diretamente relacionados com as nossas dificuldades em abrirmos mão de nossas crenças e imagens do que é o mundo, do que é a vida e de quem somos nós. Então, o primeiro passo para se aproveitar as visitas desse planeta é a auto-observação para detectar as generalizações simplificadoras – os “sempre”, “nunca”, “todos”, etc. – que impedem a realização de nossos desejos mais profundos e que geralmente estão acompanhados por sentimentos exagerados. O Guia do Pathwork chama esse processo de “cair no abismo da ilusão”, e é ele quem dá essa dica preciosa para entendermos e aceitarmos as transformações uranianas: “o vazio e até mesmo a depressão temporária que sentimos ao liberar uma imagem é a crise resultante de abrir mão de uma falsa crença que parecia tornar nossas vidas compreensíveis. Uma imagem cria uma falsa unidade de crença e experiência que nos dá uma espécie de segurança, porque parece fazer nossas vidas coerentes e nossas experiências familiares. É, porém, um sistema fechado, um circulo vicioso familiar, no qual estamos aprisionados.” Urano nos possibilita romper esse tipo de círculo vicioso, e assim nos tornarmos maiores, mais fortes e, como diria o Dionísio de Nietzsche, mais bonitos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Astrologia de Boteco Revolucionário: Descubra seu Urano e Encontre os Camaradas



Urano - como os outros transaturninos, Netuno e Plutão - é chamado de planeta geracional por passar bastante tempo em um mesmo signo. Como, porém, esse é o planeta mais rápido dos três e o que traz as revoluções políticas e ideológicas, é muito mais fácil reconhecermos nossa geração através dele. Durante os 7 anos que Urano fica em cada signo, novas rebeldias vêm à tona, novos conceitos de liberdade são formados, e a geração que nasce durante determinado transito uraniano é portadora de uma mesma necessidade de transformação. Assim, nosso signo uraniano é aquele que compartilhamos com nossa tchurma da escola, com os que se divertiram com os mesmos personagens infantis, brincaram da mesma coisa, ouviram as mesmas músicas e se apaixonaram pelos mesmos ídolos, com os que saíram nas baladas juntos, com os que tiveram filhos na mesma idade, com os que passaram pela mesma crise na meia idade e também os que estão compartilhando a sabedoria, as lembranças e os limites da terceira idade. O que vai ser diferente é a área em que Urano irá atuar, conforme a casa em que se encontra, mostrando sua face mais pessoal. Como eu gosto particularmente de estudar os transaturninos, Urano tem me dado bastante material, e merece um texto mais detalhado sobre seu caminhar pelo zodíaco. Aqui, tive que fazer uma seleção um tanto aleatória dos acontecimentos, pois o objetivo é dar uma visão geral para que se possa entender a ação uraniana no próprio mapa e na própria geração. A casa em que Urano se encontra no mapa tem uma força elétrica que faz com que aquela área da vida tenha sempre uma dinâmica libertária, e é muito mais interessante estar aberto para mudanças súbitas do que buscar algum tipo de estabilidade ou segurança externa. Assim sendo, veja a casa em que está Urano para saber em que área de sua vida você é portador da mensagem desse planeta na sua geração.

Urano no Ascendente - Em Áries de 1926 a 1933
Quem tem Urano ascendendo no mapa vai ter que desenvolver a coragem necessária para determinar as próprias verdades para sua vida, sendo comum que em muitos momentos pareça não haver caminho possível e se tenha que fazer um por si mesmo. Original e inventivo, esse Urano dá eletricidade para a personalidade, fazendo com que a pessoa muitas vezes se coloque de forma obstinada e desconcertante, gostando de ser diferente por puro prazer. Esse posicionamento uraniano precisa de muita liberdade pessoal, pois impede que a pessoa crie um sentido de identidade por meio das representações coletivas tradicionais, mostrando que sempre há algo melhor e diferente que se poderia ser. Isso muitas vezes dificulta o estabelecimento definitivo do que se é, o que pode ser visto como uma benção ou uma maldição. Geralmente se oscila entre algo maravilhoso e dolorosamente irritante. Associa-se Urano em conjunção com o ascendente com algo inusitado no nascimento ou na primeira infância, o que pode ser desde casos extremos, como o citado por Sasportas de uma criança que nasceu com duas cabeças que comiam e respiravam separadamente e tinha Urano em Virgem no ascendente, até casos de filhos de mães adolescentes. Seja como for, a pessoa terá dificuldades para aderir aos padrões de comportamento, querendo apenas ser deixada em paz para prosseguir naquilo que acredita e não terá muita paciência com aqueles que perturbem o seu caminho.
Urano esteve em Áries entre a primeira e a segunda Guerra Mundial, libertando muita agressividade reprimida e encorajando o caminho bélico como solução para os problemas. Jung, que nessa época era simpatizante dos regimes fascistas que emergiam na Europa como muitas outros seres pensantes, fala do arquétipo de Wotan, o demoníaco guerreiro da mitologia germânica, dominando o inconsciente coletivo. James Dean tinha Urano em Áries, e a imagem do rebelde solitário é muito boa para simbolizar essa geração. Os nascidos nessa época foram responsáveis pela reconstrução do mundo após a 2ª Guerra, e que provocou o “Baby Boom“ dos anos 50. Dessa geração são as primeiras mulheres que experimentaram a pílula anticoncepcional e educaram suas filhas para serem do mundo e não da família. Possuem o Urano ariano mulheres como Shirley Maclaine e Yoko Ono, e também Santa Teresa D‘Avila, que fez uma reforma tremenda na estrutura de clausura feminina de sua época. Também é dessa geração o inspirado e inspirador dos direitos civis que tinha um sonho, Martin Luther King e o ícone revolucionário, Che Guevara.

Urano na casa II - em Touro de 1933 a 1940
Ter um Urano na área dos valores pessoais e dos recursos financeiros costuma gerar o desejo de não ser limitado pelas necessidades materiais, e o valor do dinheiro será dado pela liberdade que proporciona para se prosseguir fazendo o que realmente se quer. A segunda casa do mapa fala das coisas que considero minhas, meu valores, minhas posses, minhas fronteiras. Urano aqui fará com que se compartilhe aquilo que se tem com os outros e também fará com que a pessoa se aproprie dos patrimônios da humanidade. Tenho observado um grande interesse por todas as maquininhas tecnológicas que surgem no mercado em pessoas com esse Urano, e muitas vezes se gasta mais do que se tem para adquirir aquele computador de bolso com acesso à Nasa. Existe aqui o desafio de se contrapor ao sistema coletivo de valores tradicionais, e a maneira de ganhar seu sustento costuma ser também incomum, muitas vezes através de áreas recém desenvolvidas, do trabalho com tecnologia de ponta ou de trabalhos totalmente individualizados. Urano na II é freqüentemente associado a mudanças rápidas e repentinas nas finanças e nas condições materiais - para o bem e para o mal - fazendo com que a pessoa tenha que mudar de padrão da noite para o dia várias vezes na vida. Desse modo se tem que experimentar mudança, rompimento ou desestruturação no seu sentido de segurança pessoal, forçando a reavaliação dessa esfera da vida, como se as necessidades de liberdade do inconsciente a coagisse a romper os laços materiais com o passado. Quando não se conhece essa necessidade profunda, a pessoa acaba escolhendo situações que parecem seguras mas que acabam se revelando instáveis, até aprender a dar espaço para as fontes inatas de originalidade e inventividade que devem ser desenvolvidas na relação com os recursos pessoais.
Urano esteve em Touro durante o início da 2ª Guerra, entre 1933 e 1940, e toda a destruição dos bens materiais e a escassez de recursos que isso gerou na Europa pode demonstrar bem o que significa uma transformação de valores, já que muitos tiveram que dar tudo o que tinham para fugir da Guerra e recomeçar do zero. Em compensação, países como o Brasil começaram a reinventar e fabricar a tecnologia que vinha da Europa e dos EUA, dando um grande salto tecnológico e adquirindo maior liberdade e independência depois do fim da Guerra. A geração de Urano em Touro vai se tornar adulta durante os anos 60, e toda a ideologia ligada aos bens comunitários e a um mundo sem fronteiras terão o colorido dessa revolução taurina. Sua Santidade Dalai Lama tem esse Urano em Touro e ele diz que a invasão do Tibet pela China representou a expansão do budismo tibetano pelo mundo para benefício de todos os seres. John Lennon e Carlos Castañeda também fazem parte dessa geração, que começou a explorar as fronteiras interiores, principalmente através das drogas: o LSD foi sintetizado pela primeira vez em 1938, com a ativa contribuição de Netuno em Virgem, diga-se de passagem. Interessante notar que os famosos perfumistas Paco Rabane e Azarro nasceram também sob influência desse revolucionador taurino, signo reconhecido pelo seu olfato refinado.

Urano na casa III - em Gêmeos de 1940 a 1947
Urano instalado na área da comunicação vai buscar liberdade e caminhos próprios para entender o que acontece ao seu redor. Isso pode ser tanto fruto de uma educação alternativa como a negação dos aspectos mais conservadores da forma como se foi educado para ver as coisas. Há uma capacidade especial de observar e compreender o mundo de um modo diferenciado e inventivo, fazendo muitas vezes com que os outros só saibam exatamente o que Urano disse depois de algum tempo. A casa III governa também os movimentos e esse Urano pode fazer com que a se seja muito nervoso em sua necessidade de explorar e experimentar novos e variáveis aspectos da vida, mudando rapidamente de curso e de ponto de vista. Há uma tendência a se tornar um verdadeiro atleta mental. Urano gera dificuldades para se ajustar aos sistemas de ensino tradicional, o que leva ao questionamento dessa área, sendo comum esse posicionamento em pessoas que trazem contribuições originais nos campos da pedagogia e da comunicação. Também é comum irmãos adotivos e de outras etnias, o que ajuda a comportar várias culturas em uma mesma formação.
Na última passagem de Urano por Gêmeos a 2ª Guerra foi concluída, e todos os debates e reconstruções de direito internacional, como o Tribunal de Nurembergue e a Conferência de Potsdam por exemplo, foram feitas sob esse trânsito. A geração nascida nos fins da 2ª Guerra teve muito o que dizer: no Brasil, Chico Mendes, com seu Urano geminiano, acaba assassinado por falar demais. O povo da Tropicália, como Gil, Caetano, Rita Lee, assim como os Novos Baianos Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, têm esse Urano “antropofágico“, capaz de assumir várias culturas, temperando-as com brasilidades e fazendo algo novo. Janis Joplin e Jimi Hendrix também possuíam esse Urano geminiano e trouxeram com certeza uma nova forma de se comunicar através da música que faziam. Com esse Urano temos também Paulo Coelho, que pega histórias tradicionais e as reconta com o maior sucesso de público, o que indica uma sintonia com a expressão coletiva.

Urano na casa IV - em Câncer de 1947 a 1954
Seja por escolha pessoal ou por inevitáveis circunstâncias externas, quem tem Urano na quarta casa não pode ser limitado pela unidade familiar biológica, pois esse posicionamento implica uma necessidade de encontrar o lugar a que se pertence no mundo, na família humana. Na maioria das vezes, Urano requer muito espaço e liberdade para procurar sua verdadeira família universal. Ele irá abalar as sensação de conforto e segurança do lar até a pessoa encontrar a liberdade de ser um membro da família humana. É comum, encontrar um Urano familiar em casa de filhos de militares e diplomatas, que têm que se desenrraizar de tempos em tempos, criando uma sensação de se pertencer a vários lugares ou a lugar nenhum. Outra maneira de se vivenciar Urano em família é quando os pais reúnem em casa grupos políticos ou filosóficos, e a pessoa cresce em um meio de debates sobre os rumos da Humanidade. Quando esse Urano está inconsciente a pessoa pode temer se ligar afetivamente e criar raízes por achar que o “destino” não o quer. O que está sendo pedido com esse Urano, porém, é que se desenvolva uma identidade que vá além da estabelecido pela família, pelo clã, de modo a que participem das atividades que beneficiem ou melhorem a Humanidade, recebendo e acolhendo as mudanças e evoluções do homem dentro da própria casa.
A virada dos anos 40 para os 50 marca o início da Guerra Fria, com o lançamento do Plano Marshall em 1948 para reconstrução da Europa em geral e da Alemanha em particular, que é repartida pelos Países Aliados vencedores da Guerra. Surge então dois Estados, e a Alemanha torna-se o marco divisório de dois blocos e sistemas político-econômicos antagônicos liderados pelos EUA, de um lado, e pela União Soviética, de outro. A Alemanha pós guerra também é um modelo de nação uraniana: dividida e desestruturada, tendo muitas famílias separadas, tem que reconstruir sua identidade sobre uma nova base, absorvendo culturas externas e encontrando a essência do que é ser alemão independente daquilo que é concebido externamente. Só isso tornará possível a reconstrução real do país após a queda do Muro de Berlim. De 51 a 53 temos também a Guerra da Coréia, para deixar bem claro quem está de um lado e quem está do outro. Mahatma Gandhi é um ótimo exemplo do significado transformador de se ter Urano em Câncer, tendo revolucionado sua própria casa, a Índia, através da política de luta não violenta, acolhendo muçulmanos e hindus em uma mesma pátria e servindo de modelo e inspiração para a os movimentos de direitos civis no mundo todo até hoje. Ao mesmo tempo, Gandhi voltava às tradições mais elementares de sua cultura, retomando o voto de castidade e a fabricação de roupas de maneira artesanal, por exemplo. No Brasil temos uma família bem uraniana para representar essa geração com Baby do Brasil (ex Baby Consuelo) e Pepeu Gomes, ambos com Urano em Câncer, que tiveram filhos e formaram família vivendo em comunidade. Essa é a geração dos jovens revolucionária dos anos 60, que contestou as estruturas familiares, queimaram sutiã em praça pública e praticaram sexo fora do instituição do casamento. Para essa geração a família é a humana, e não são mais as instituições que irão garantir a sua segurança ou a noção de civilidade.

Urano na casa V - em Leão de 1954 a 1961A quinta casa fala de onde e como nos divertimos e namoramos, de nossos hobbies e criações pessoais, da gama de coisas que ganham a nossa assinatura. Urano se diverte e se encanta com coisas excêntricas, e tende a cultivar hobbies fora do comum. O mesmo vale para os romances, que costumam ser nada convencionais e com começos e fins repentinos. Como em qualquer lugar, Urano precisa de espaço e liberdade, e faz com que a pessoa tenha que aceitar isso e se desligue dos padrões socialmente impostos. Na casa da expressão criativa, Urano encontrará soluções diferentes para a vida, e muitas vezes é decepcionante quando as coisas acontecem como se esperava ou quando o preço do reconhecimento é o comprometimento da liberdade individual. Há um grande gosto por aventuras e verdadeiro prazer em se experimentar novas criações.
Apesar da imagem da Dona de Casa Feliz Americana que marca os anos 50, o processo de transformação social que estava ocorrendo alteraria para sempre as relações sociais do Ocidente, dando início às grandes lutas pelos direitos individuais. A pílula anticoncepcional se popularizou nessa época, e a função feminina voltada para o cuidado do outro, como esposa, mãe e prostituta, não conseguia mais se encaixar nos desejos das pessoas de carne e osso. A escritora francesa Simone de Beauvoir havia publicado o livro "O segundo sexo" em 1948 com uma análise da condição da mulher onde ela concluía que "não se nasce mulher: torna-se mulher" e em 1951 a OIT (Organização Internacional do Trabalho) já havia aprovado a Convenção de Igualdade de Remuneração entre trabalho masculino e trabalho feminino para função igual, o que faz parte do processo anterior da desestruturação familiar tradicional que Urano fazia em Câncer. É só em 1960 que, no Sri Lank (Antigo Ceilão) - Sirimavo Bandaransike torna-se a primeira chefe de Estado, marcando a real entrada da mulher na esfera social masculina. Surge uma nova luta do feminismo em paralelo com a luta dos negros norte-americanos pelos direitos civis e com os movimentos contra a Guerra do Vietnã. Em 1955 nos EUA, quando uma mulher negra, Rosa Parks, se recusa a dar lugar para uma mulher branca no ônibus, começam as manifestações públicas das organizações negras por direitos iguais. A Revolução Cubana também se faz durante esse trânsito uraniano, em 1959. Urano em Leão possibilitou a derrubada de muitos dos padrões individuais existentes e fez com que o sentido da criação pessoal fosse libertada dos velhos padrões e visto como um direito humano, portanto de todos, independente de credo, raça ou gênero. A maneira das pessoas se divertirem também se modifica nessa época: Elvis Presley grava seu primeiro disco, Walt Disney inicia seu império e a televisão fica colorida. O Brasil também passa por processos de mudanças profundas e criativas. Em 1954 Getúlio Vargas se suicida e em 1955 morre Carmem Miranda, finalizando toda uma Era. É eleito o presidente Bossa Nova, Juselino Kubitschek, que promete realizar no país o avanço de cinqüenta anos em cinco, a começar pela construção de uma capital federal futurista chamada Brasília. A criatividade leonina despertada pela eletricidade uraniana fez surgir a força para se conceber um mundo novo, onde o avanço tecnológicos liberaria o homem e a mulher de todas as cores para uma vida criativa e de exploração de novos rumos para a Humanidade.
A geração nascida com Urano em Leão sobe ao palco da vida de maneira bem excêntrica. Michael Jackson e Madonna têm um Urano leonino, e pudemos ver nas manchetes dos jornais como eles se divertem. Outro com Urano em Leão é Osama Bin Laden, e o que se pode falar do “espetáculo” transmitido ao vivo para o mundo todo da explosão das Torres Gêmeas? “Estranho, bizarro! Tudo isso aconteceu, acredite ou não. O inesperado. Normal só tem você e eu”, cantará Lenine e seu Urano leonino. No Brasil temos exemplos realmente bem mais interessantes para essa geração de Urano em Leão: tanto Almyr Klink, que se divertia vivendo grandes aventuras em seu “barquinho”, quanto Airton Senna, fazem parte dessa geração.

Urano na casa VI - em Virgem de 1961 a 1968
Existe uma conexão entre o que somos por dentro e o tipo de realidade diária que criamos para nós, e a sexta casa mostra como fazemos isso através do nosso trabalho e do nosso o corpo. Um Urano na casa VI não deixa dúvidas de que, para modificar o exterior, o interior tem que ser modificado primeiro. Essa pode ser uma idéia libertadora se pensarmos no corpo físico como um instrumento para o desenvolvimento, caso contrário pode fazer com que a pessoa seja “vítima” de doenças que a afastam de um trabalho limitado e sufocante ou que não leva em conta a necessidade de expansão. É comum encontrarmos essa posicionamento em pessoas que não têm rotina diária de trabalho, e com certeza terão dificuldades em ficar num emprego apenas por sentido de dever ou por segurança. Trocar idéias e experiências com colegas de profissão pode ser muito estimulante e positivo para traçar referências que ajudem a observar e enfrentar a vida, e será sempre estimulante trabalhar em grupos. O corpo e a saúde é melhor cuidado através de métodos e medicinas alternativas que englobem o ser como um todo e não apenas os sintomas físicos perceptíveis, quando temos um Urano residindo aqui. Para as pessoas com esse posicionamento a vida se torna muito mais fácil depois que elas conscientemente agem para modificar aquilo que não gostam e que as limita, já que param de provocar as forças exteriores para rompê-las para elas.
Os anos 60 é um período realmente bombástico na história do Ocidente e do Oriente. Em 1962 inicia-se um período de encontro entre Urano e Plutão em Virgem, algo que só acontece a cada século e meio mais ou menos, marcando momentos de grandes mudanças: quando os arquétipos do Revolucionário e do Senhor das Profundezas resolvem agir em conjunto é realmente impossível ficar indiferente e não há como se prever o que irá acontecer, por mais especulações que se faça. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a significativa quantidade de ícones libertários que são assassinados nessa época: Che Guevara, Martin Luther King, Malcom X, John F. e Bob Kennedy estão nesta lista. Em agosto de 1961 é erguido o Muro de Berlim, símbolo de uma Era sombria que se inicia. União Soviética e EUA se digladiam numa corrida armamentícia que ameaça destruir o mundo através da Bomba Atômica. A luta mais simbólica desse confronto foi a Guerra do Vietnã, que mostrou que se precisa mais do que bombas para se vencer uma luta. No Brasil caminhávamos do governo futurista de Juscelino para a promessa de Reforma Agrária de Jango quando tivemos que voltar para um governo militar com o Golpe de 64. Uma das conseqüências do Golpe foi a tentativa de eliminar todas as cabeças pensantes do país, que têm que fugir para não serem mortos ou presos. É retirado do currículo escolar básico os estudos de Filosofia e Sociologia e substituído por OSPB (Organização Socio-Política do Brasil), onde as crianças aprenderiam o Hino Nacional e as maravilhas do Exército brasileiro, para criar “bons patriotas”. As estruturas do mundo externo pareciam fechadas e ameaçadoras, a humanidade se divide em “bons” e “maus” e só resta buscar novos horizontes internos. Nasce então o movimento de contra-cultura hippie como reação à Grande Sociedade militarizada. Cabelos longos contra o corte de cabelo milico, jeans e roupas artesanais contra o visual limpo, industrial e engravatado do americano médio. Jovens do mundo inteiro se mobilizavam contra o Sistema com manifestações estudantis na América Latina, criação de exércitos revolucionários como a FARC da Colômbia, revoltas no México, Alemanha e Itália, o ETA reivindicando o direito de se emancipar da Espanha franquista, a marcha de maio de 68 em Paris. Marxistas ocidentais, como o filósofo Herbert Marcuse, acreditavam que a verdadeira revolução seria feita através dos estudantes, dessa juventude que se recusava a aderir à sociedade de consumo. Filmes como Hair e Jesus Cristo Super Star retratam esse conflito de existências que estavam transformando o mundo em busca de uma nova era civilizatória para a humanidade. “Faça Amor, não faça a Guerra” era o mote jovem que preferia fumar maconha e tomar LSD para descobrir outras dimensões de existência do que ir morrer no Vietña fumando maconha e tomando LSD para se amortecer. Willian Reich, que morreu em 1957 em uma prisão nos EUA como subversivo, terá suas teorias libertadoras do Id e da sexualidade retomadas e aprofundadas através da Bioenergética de Lowen e do Core Energetic de Pierrakos. Outras técnicas libertadoras do corpo, também sob grande influência reichiana, como a Biodanza de Rolando Toro, irão ganhar forma nessa época. A revolução uraniana se volta para a individualidade básica dada pelo corpo físico, e uma nova dimensão de transformação voltada para dentro das pessoas começa a ser experimentada. Se não era possível romper as amarras sociais, então vamos romper com as couraças musculares do caráter.
Tanto Stalin quanto Getúlio Vargas tinham Urano em Virgem, e é possível ver que tanto o populismo de Vargas quanto a ditadura do proletariado de Stalin tinham em comum uma ânsia coletiva pela organização social em nome do trabalhador. A nova geração de Urano em Virgem, que nasceu entre 1961 e 1968, está passando agora por sua “crise de meia idade”, com Urano em Peixes, signo oposto a Virgem, e tem uma identidade com o trabalho que pode se dizer revolucionária também, apesar da grande decepção dos pais hippies. Essa não é uma geração que foi às ruas para brigar com o sistema, mas sim que entrou no sistema para revolucioná-lo, e se foi às ruas foi para tentar fazer com que o sistema funcionasse coerentemente e se pudesse participar dele, como nas manifestações para eleições diretas no Brasil. É significativa a quantidade de harkers que nasceram nessa época. Esses primeiros piratas da informática acabaram sendo assimilados pelo sistema e se tornaram milionários por volta dos 30 anos. Em oposição direta aos hippies, aqui temos a geração dos yuppies, expressão derivada da sigla "YUP", "Young Urban Professional", ou seja, Jovem Profissional Urbano. Se os hippies pregavam a volta ao campo e a vida em comunidade, os yuppies querem o avanço tecnológico e a comunidade em rede. Um bom exemplo disso é Jeff Bezos, nascido em 1964, que criou a Amazon.com, desenvolveu a linguagem Basic e transformou Seathe na capital mundial da informática. Também com Urano em Virgem temos Niklas Zenstrom - criador da Joosf para transmissão de TV pela internet, da Kassa, o programa de pirataria de música e imagens pela rede mais perseguido pela RIAA (associação de gravadoras dos EUA) e do Skype, que promete dar bastante trabalho às empresas de telefonia, já que possibilita telefonar do Brasil para o Japão pelo preço que se pagaria para ligar para seu vizinho - e de Rasmus Lerdorf, que cria a linguagem PHP que possibilitou a geração de conteúdo das www (Word Wide Web), as páginas de internet. Se você nunca ouviu falar em nenhuma dessas pessoas, não se espante: uma das características do Urano virginiano é a discrição que garante sua autonomia e liberdade.

Urano na casa VII - em Libra de 1968 a 1974A sétima casa é a área onde encontramos o Outro, associada a “casamentos, parcerias e inimigos declarados” nos manuais astrológicos. Os relacionamentos vão além do que é convencional se Urano está na VII, e vai ser difícil suportar uma união sem liberdade, sem vida ou que já não tenha sentido. Se a pessoa com esse posicionamento não manifestar as ansiedades de liberdade e inconformismo de Urano, provavelmente irá atrair e escolher inconscientemente parceiros que possuem essas qualidades, muitas vezes se apaixonando por alguém que nunca dá certeza do que sente ou que some e aparece sem dar satisfação. Quem tem esse Urano costuma receber revelações e passar por súbitas mudanças que tornam a relação que vive obsoleta, fazendo-as buscar novas relações que reflitam essas mudanças ou aprendendo a criar novos estímulos que revigorem a relação, tendo como parâmetro a necessidade de lidar com a Verdade do que está acontecendo. Essa casa fala muito do nossa capacidade de diplomacia, de como lidamos com os aliados e com os que vemos como inimigos. Urano não é um planeta muito diplomático e pode criar bastante confusão por conta de ideologias. De qualquer modo, quando Urano está na casa da busca por parcerias, ele desenvolverá originalidade, espiritualização, dinamismo, inventividade e carisma através do encontro com o Outro.
Em 1969 temos o grande festival “Power and Flower” em Woodstock, marco do auge do movimento hippie e também “festa de despedida“ dessa cultura que começa a decair. As psicodélicas maconha e LSD começam a ser substituídas pela cocaína e pela anfetamina. O narcotráfico colombiano se profissionaliza a partir dos anos 70, utilizando sua experiência anterior no contrabando de ouro e esmeraldas e aproveitando as conexões existentes para a distribuição da maconha, para introduzir crescentes quantidades de cocaína nos EUA de modo a aumentar a disponibilidade e reduzir posteriormente o preço. As ditaduras latino americanas são recrudescidas, e em 1968 temos no Brasil o famigerado AI5 (Ato Institucional nº. 5), que elimina todos os direitos civis no país e aumenta os poderes de polícia do exército. É realmente uma época difícil para se encontrar o equilíbrio por aqui: estamos sob o comando do general Médici, mas ganhamos a Copa do Mundo! O jargão ufanista da propaganda militar dizia “Brasil: Ame-o ou deixe-o”, numa ironia cruel. Começamos a viver os anos mais duros da ditadura militar, e a liberdade tem que ser conquistada na relação pessoal, enfrentando todas as dores e dificuldades desse plano da vida. Bertolucci lança seu polêmico filme, O Último Tango em Paris, em 1972, falando da problemática que se abre na esfera dos relacionamentos, e de como a busca do prazer como válvula de escape para a dor pode criar mais dor ainda. A política de Estado está fechada, as pessoas estão sendo expulsas de suas pátrias, mas podemos pensar que por isso mesmo começam a surgir grupos para discutir a política planetária. Urano em Libra vai despertar a consciência de que a relação entre eu e o outro tem que buscar uma harmonia que contemple a todos: se você quer se destruir é um problema seu, mas se isso vai afetar o planeta você perde esse direito. Apesar de Rachel Carson, considerada a fundadora do movimento ecológico, ter escrito seu desafiador livro Primavera Silenciosa em 1962, as primeiras discussões globais sobre o assunto vão acontecer à partir de 1968, com a Conferência Intergovernamental para o Uso Racional e a Conservação da Biosfera, promovida pela Unesco, onde se começa a pensar sobre o desenvolvimento ecologicamente sustentável. Em 69 surge em São Francisco, EUA, a ONG Amigos da Terra, que se dedica à idéia de preservação da natureza através de campanhas bem-sucedidas, como a do salvamento das baleias. Também nesse ano o Congresso americano aprova a lei de Política Nacional do Meio Ambiente que se torna referencia para o mundo, incumbindo o governo federal de garantir a preservação da natureza e determinando como deverá fazê-lo. Em 1971 o pesquisador francês René Dubos e a economista inglesa Barbara Ward lançam o livro Uma Terra Somente, sobre o impacto da atividade humana na biosfera. No mundo inteiro pipocam manifestações que questionam os rumos que o mundo está tomando através das lutas ecológicas, como o indiano Chipko (“abrace”), onde mulheres começaram a abraçar árvores para evitar que fossem derrubadas. Em setembro de 1971 um pequeno grupo de ecologistas e jornalistas saem com um barquinho chamado Arco Iris de Vancouver, Canadá, em direção ao Pacífico Norte para tentar impedir testes nucleares americanos. Esses “malucos” não conseguem chegar ao seu destino, sendo presos pela Guarda Costeira norte americana e expulsos da região. Ao voltar para o Canadá, porém, estavam todos nas manchetes dos jornais do mundo inteiro, o teste nuclear havia sido adiado por um mês e foi o último a ser feito no local. Nasce o Greenpeace, que na minha opinião carrega toda a força simbólica de um Urano em Libra, com sua ação direta não-violenta que alerta a opinião pública sobre problemas urgentes, pois acredita que é essa opinião pública a geradora de pressão política para produzir as mudanças necessárias e garantir um meio ambiente saudável para todos os habitantes do planeta e para as gerações futuras. É a hora de se revelar a importância de um novo equilíbrio planetário.
O Urano libriano mais famoso da astrologia é o de Hitler, muito bem mostrado no documentário sueco de 1989, “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen. Mas essa é a realização doentia desse Urano, que aliás é a mesma que encontramos nos garotos que realizaram o massacre de Columbine em 20 de abril de 1999, Eric Harris e Dylan Klebold. Mas é claro que existem formas mais saudáveis e criativas para se expressar esse Urano. Fernando Pessoa, que conseguiu harmonizar seus vários personagens internos através de seus heterônimos, mostrando como é possível conciliar várias vozes de maneira criativa, também tem essa força uraniana. Outro que modificou os hábitos pouco civilizados no ocidente e que tinha esse Urano era Erasmo de Rotterdam, filósofo mais conhecido por suas reflexões teológicas, mas que em 1530 escreveu um pequeno tratado revolucionário de etiqueta chamado De civilitate morum puerilium (Da civilidade em crianças) que fez muito sucesso na época e ensinou à Europa coisas que hoje parecem óbvias, como não escarrar enquanto conversa com outra pessoa, não comer com as mãos nem pôr as botas sobre a mesa durante as refeições. A geração nascida no início dos anos 70, portadores desse Urano, está agora chegando ao mundo adulto pós retorno de Saturno e foram os que inauguraram a instituição do “ficar”, no lugar do namoro sério, ao mesmo tempo que eram acusados de serem “caretas”, por manifestarem o desejo de casar e retomar a idéia de família nuclear. Clarice Lispector, com sua sintonia fina para a alma humana, vai publicar em 1969 seu “hino ao amor”, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres , que antecipa muito dos anseios de relacionamento que essa geração carrega. Será também essa geração que denunciará os exageros e abusos cometidos nas relações durante os anos 60 e que eles se recusam a carregar em suas vidas, como a obrigatoriedade de se perder a virgindade, que gerou toda a problemática da gravidez na adolescência na classe média, e a dupla jornada de trabalho da nova “mulher independente“. Essa geração quer casar sim, mas porque vê no outro a possibilidade de dividir as obrigações e buscar um caminho junto de maior liberdade e auto conhecimento. Um exemplo muito bom como representação dessa geração é o premiadíssimo filme alemão A Vida dos Outros (quer título mais libriano que esse?), do estreante cineasta e roteirista Florian Henckel Von Donnersmarck, possuidor desse Urano em Libra também. Ele mostra no filme como um casal que vive sob a enorme pressão de um mundo totalmente frio, autoritário e onde reina a falta de liberdade, pode subverter a ordem de seu algoz através dessa vivência amorosa. Essa é uma geração que veio para transgredir as normas através da verdade que se revela no encontro amoroso com o outro.

Urano na casa VIII - em Escorpião de 1974 a 1981
A casa oito é o tapete onde escondemos todas as sujeiras que não queremos limpar, por isso associada à sexualidade, à agressividade psíquica, à morte e às heranças. Urano se manifesta nas emoções dessa área de modo um tanto quanto diferente, geralmente compelindo à uma necessidade básica de se libertar das restrições da natureza instintiva e de superar o fato de sermos retidos por essas emoções. A pessoa é exposta continuamente a situações que a desafia a desenvolver um afastamento de tais instintos para forjar uma compreensão mais ampla, tolerante e libertária do envolvimento e da troca emocional. Não é raro encontrar casamentos comunais e trocas de casais com esse Urano. Quem tem um revolucionário de oitava casa irá descobrir leis mais sutis da natureza humana que operam na vida quando sondarem além do plano superficial da existência. Enquanto a pessoa não assume as necessidades de liberdade e verdade dadas por Urano nessa casa, súbitas mudanças de destino tendem a acontecer através da união amorosa ou de heranças, e certas fases da vida podem terminar abrupta e irreversivelmente, alterando drasticamente a direção que a pessoa seguia.
Urano em Escorpião trouxe à tona o movimento Punk, que gritou ao mundo: “o sonho acabou e eu quero que se fôda!”. O "alternativo" deu lugar ao "Underground", a vida dos porões. A idéia de comunidade começa a ser trocada pela via individual anarquista do “faça você mesmo”, com os fanzines despreocupados com refinamentos de acabamento e um humor ácido, sarcástico, a música de 3 acordes sem virtuosismos que podiam ser tocados sem nenhum conhecimento musical, e a rejeição a qualquer tipo de droga, incluindo álcool e tabaco, vistos como parte do sistema alienante. Os rebeldes e os beats dos anos 50 foram retomados, mas de uma forma que faz James Dean parecer uma moça de família. A busca por soluções sociais em comum foi substituída pelas tribos urbanas marginais à sociedade. O aspecto revolucionário passa a se basear na subversão dos “bons costumes“. Surgem as gangs, algumas inclusive com ideologia fascista, como os skinheads. Do outro lado dessa mesma moeda temos os frenéticos Dancing Days, com suas meias coloridas e brilhantes de lurex e calças boca de sino. Muito do brilho das discotecas, porém, advinha do alto consumo de cocaína nos seus banheiros. Sem dúvida essa é uma época adrenalinada, onde muitos medos tiveram que ser enfrentados. A Guerra do Vietña termina em 1975, ou melhor, o governo norte americano retira suas tropas da Ásia nesse ano e espera que os vietnamitas se explodam sozinhos. Assim, para nosso azar, os EUA puderam colocar mais energia no apoio às ditaduras sul americanas, não mais às claras como na Ásia, mas através das sombras do sistema. O milagre econômico acabou, e temos que conviver com a dura realidade de ser uma República de Bananas com enormes injustiças sociais. Sim, tudo está muito escuro. Provavelmente por isso que o físico, matemático e cosmólogo Stephen Hawking consegue finalmente provar a existência dos buracos negros em 1974, com sua fórmula matemática da entropia (S=Akc3/4hG). O buraco negro clássico é um objeto celeste com um campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape, ou seja a velocidade necessária para se escapar dele (os astrônomos que me perdoem a hiper simplificação) é maior do que a velocidade da luz: nem mesmo a luz pode fugir do seu campo gravitacional. Apesar da expressão buraco negro ter sido criada em 1968 pelo físico americano John Wheeler, em artigo histórico, foi à partir dos trabalhos de Hawking e seus colegas que a realidade dessa hipótese é conquistada e passamos a entender melhor o Big Bang que inícia o nosso Universo tridimensional. Um dos efeitos dos buracos negros, assim como de outros objetos cuja atração gravitacional é extrema, é o retardar do tempo devido aos efeitos gravitacionais. Parece realmente que, enquanto caminhava por Escorpião, Urano trouxe toda a escuridão que escondíamos embaixo do tapete e retardamos um caminhar glorioso que parecia lógico. Que mais nos restou senão tatear às cegas em busca de novas saídas? Sabe-se que a hora mais escura do dia são aqueles momentos um pouco antes do sol nascer, e com Urano em Escorpião muitas das nossas fantasias a respeito de nós mesmos tiveram que morrer para que uma nova consciência pudesse nascer. No fim dos anos 70, porém, já conseguíamos ver alguma luz, com o lentíssimo e gradual processo de democratização. César Borgia, o terrível nobre italiano para quem Maquiavel escreveu O Príncipe, tinha um Urano escorpiniano. Também Allan Poe, com seu corvo gritando never more, nunca mais! Porém acho que seja Darwin, que destruiu o nosso orgulho mostrando que tínhamos os mesmos ancestrais que os macacos e éramos tão imagem e semelhança de Deus quanto eles, seja o melhor exemplo de uma pessoa portadora do Urano em Escorpião. A geração nascida no fim dos anos 70 está agora por volta do seu retorno de Saturno, e provavelmente nos próximos anos estará mostrando ao mundo a que veio. Aqueles que enfrentaram as Trevas nos mostraram que a melhor arma que temos contra o Mal é a Humildade que acompanha a consciência de sabermo-nos possuidores de um ego limitado, então espero que possamos acolher as mudanças que essa geração está trazendo com esse sentimento.

Urano na casa IX - em Sagitário de 1981 a 1988
Urano já procura normalmente pela verdade, e quando se encontra na casa nove nenhuma abordagem ortodoxa ou tradicional poderá ser aceita quando se trata de compreender a vida ou a existência. A nona casa mostra como encaramos o lado filosófico da vida, como buscamos compreender o divino da existência. Deus é um enorme céu estrelado, vasto e difícil de entender com um Urano aqui, e ele irá abrir caminhos para pesquisar os misteriosos movimentos celestes. Há sempre o perigo de se aderir a seitas excêntricas em lugar de se refletir a vida e se procurar alternativas livres para as estruturas tradicionais. Sendo essa casa associada ao “ensino superior e às grandes viagens”, experiências inesperadas e inusitadas ou pessoas e idéias que despertam a pessoa e a fazem romper com velhas estruturas podem vir durante a faculdade ou em viajem a países estrangeiros, mudando realmente o rumo de vida daqueles com esse posicionamento uraniano. Seja como for, com Urano rebelando-se nessa área da vida, nenhuma estrutura religiosa ou filosófica vai ser grande e livre o suficiente para abarcar todos os questionamentos, e o melhor é a pessoa construir o seu próprio caminho, trazendo muito mais liberdade para todos.
E o que acontece nos anos 80 é exatamente a New Wave, com músicas de baleia orquestrada e a explosão do “alternativo”, com novas terapias, alimentações e gurus de todos os tipos. Só mesmo um Urano em Sagitário pôde fazer tantas pessoas entrarem nessa onda na Iluminação Fast Food dos anos 80. Talvez a imagem mais emblemática desses anos seja Osho, título honorífico de Rajneesh, um guru indiano que chegou nos EUA em 1981 para tratar de um problema de saúde e acabou se tornando uma figura cheia de polêmicas ao seu redor, colecionando carrões ao mesmo tempo que ensinava uma prática de meditação feita sob medida para o Ocidente - a meditação ativa - e a possibilidade de transcendência para o homem comum, sem que se precise ir viver em solidão no alto do Himalaia. Sem tentar apaziguar ou evitar conflitos, Rajneesh nunca foi um moralista, enfatizando sempre a consciência individual e a responsabilidade de cada um por si mesmo. As pessoas que o ouviam gostavam do que ele falava com consciência, mas com certeza não assimilavam muito bem essa idéia. Pouco antes de morrer, Osho declarou: "Quero que o meu povo conheça a si mesmo, que não sigam as expectativas dos outros. E a maneira é ir para dentro de si". Apesar dos exageros e maluquices das buscas espirituais dos anos 80, foi exatamente nesse período que o namoro entre oriente e ocidente, que acontecia desde o começo do século XX, começou a trazer resultados: muitos daqueles que hoje estão conseguindo transmitir uma nova realidade de maneira competente, fazendo a ponte entre física quântica e as pessoas comuns e construindo uma visão holística do ser humano, começaram seu caminho aqui. Estamos na época do garoto propaganda da Bombril, com cara de nerd mas com mil e uma utilidades. Temos o desenvolvimento do IBM PC e do Apple Macintosh, as primeiras interfaces gráficas, tanto o Windows quanto o MacOs, e com isso a popularização dos computadores pessoais ou PCs. O CD, o walkman e o videocassete também surgem nos anos 80, junto com o lançamento da estação espacial MIR, da União Soviética. O diretor Ridley Scott lança em 1982 Blade Runner, o filme do caçador de androides que se apaixona pela sua vítima, nos deixa na dúvida sobre o que é ser humano, e vira “cult“, termo que também nasce aqui. Video-clips, MTV, uma música muito - às vezes até demais - mais degustável. A Holanda libera o uso de maconha nos “coffe shops”, o ecstasy ainda não é considerado droga e o preço da cacaína abaixa de 55 mil dólares o quilo em 1981 para 25 mil em 1984. O rock e o punk estão mais acelerados e intensos. Mas o grande sucesso da época foi o disco Thriller, de Michael Jackson, que revolucionou a música POP. Na política temos a conservadora Margaret Thatcher e Lech Walesa, que deixam tanto feministas quanto revolucionários de esquerda em situação absolutamente desconfortável. “Desconfortável” talvez seja a melhor maneira de se definir os anos de Urano em Sagitário. Provavelmente por isso as pessoas com Urano em Gêmeos, o signo oposto, costumam considerar essa década como perdida. A revolução operada aqui expõe o exagero dos ombros falsos, o perigo de não sabermos se queremos ser andróides ou seres humanos, e pergunta com os Titãs: “você tem fome do quê? Você tem sede do quê?” As pessoas descobriram nos anos 80 que não basta ter só comida, precisamos também de diversão e arte. Marx é um ótimo exemplo de Urano sagitariano, com seu impressionante trabalho de dissecação do Capitalismo e da proposta de um futuro onde possamos todos viver mais e trabalhar menos. Dostoiewisk também possuia esse Urano e soube como ninguém questionar as instituições e a moralidade religiosa de sua época. Dentro das pessoas futuristas com esse Urano temos tanto Salvador Dali quanto Juselino Kubitschek. A geração nascida nos anos 80 está começando a sair do ninho agora, e estão exatamente aprendendo a usar sua rebeldia uraniana e quebrar os padrões aprendidos com os pais, e com certeza terão novas formas de encarar a vida e nossas necessidades de religação com o divino, sem instituições ou dogmas que limitem essa busca. Então que sejam bem vindos, pois temos muito a aprender com eles.

Urano no Meio do Céu - em Capricórnio de 1988 a 1995Sendo a casa natural de Capricórnio e de Saturno, com um Urano no MC a pessoa tem boas possibilidade de canalizar novas idéias ou intuições de uma forma concreta, sendo comum esse Urano em mapas de pessoas que trouxeram contribuições importantes para a humanidade. Em um nível mais mundano, esse Urano pode fazer com que se mude de emprego muitas vezes por não se concordar com o modo que as coisas são feitas, até a própria pessoa aprender a mudar sozinha toda vez que o trabalho que faz se tornar sem sentido. O mais comum é se buscar carreiras consideradas estranhas, muitas vezes por que acontecimentos que parecem fora do controle obrigam a pessoa a buscar algo mais inventivo. De qualquer forma, esse Urano irá vincular o trabalho a algo que beneficie o maior número possível de pessoas e que dê oportunidades para que o lado mais idealista venha à tona.
E Urano entrou em grande estilo para revolucionar as estruturas capricornianas: em 1988 cai o muro de Berlim para êxtase e espanto de todo o mundo e delírio dos astrólogos que não podiam ganhar fato mais simbólico para representar esse trânsito. Em 1989 vimos também um pequeno chinês desafiando um enorme tanque em plena Praça da Paz Celestial, em Pequim. O Socialismo Real, como era conhecido, literalmente desmorona bem diante dos nossos olhos grudados na TV. Uma das coisas que ensina esse trânsito capricorniano é que Urano não é uma função apenas destruidora, mas um agente da desestruturação daquilo que não tem mais sentido, deixando intacto o que ainda possui verdade. Por isso, em lugar de falar dos fatos ocorridos na virada dos anos 80 para os 90, deixo aqui uma reflexão sobre a queda do Muro de Berlim feita por Pierre Christin, que viveu esse evento do lado Oriental e, junto com Andréas C. Knigge, fez uma coletânea fantástica com artistas gráficos do mundo todo a respeito, para tentar ver o que estava acontecendo: O Muro Antes e Depois. O texto é um pouco longo, mas se você conseguiu chegar até aqui, isso não será um problema.
“Os Velhos Homens de Chapéus Negros
Houve o socialismo real. E também a sua imagem inseparável da sua realidade. Velhos homens de chapéus negros, casacos negros, mesmo que decorados com estrelas vermelhas - numa tentativa de parecerem mais alegres. Esses homens só eram vistos de longe, lado a lado, em filas por detrás dos muros altos de uma tribuna dos comitês centrais, do muro alto de um podium a céu aberto ou dos altos muros de uma varanda de escritório oficial. Houve sempre e em todo o lado um muro. Não apenas “o muro” de Berlim. Houve muitos por todo o lado e todos muito concretos, por detrás dos quais se escondia a realidade do poder e as mansões dos poderosos. E outros que, escondidos, iguais a linhas tracejadas, marcavam as zonas de Gulag e os enclaves da polícia secreta. E por fim, aqueles, embora abstratos, mas inultrapassáveis, por detrás dos quais congelava, em baça senilidade sem esperança, a antiga “juventude do mundo” que o comunismo quis personificar. Imagens do fim último, mas também realidade. Aquilo que permanecerá do stalinismo, quando a recordação viva da sua crueldade começar a empalidecer, serão sua estética, os seus rituais e os seus objetos que, na sua simplicidade, provavelmente chegarão mesmo a despertar em nós sensações nostálgicas. Existirão colecionadores que reunirão imagens dessa época, tal como hoje se juntam ícones e emblemas nazis. De repente os velhos homens e os seus muros começam a abrir fendas como um puzzle que foi sacudido. Um após outro, são como bolas vacilantes e isso não é devido ao barulho de armas pesadas ou ao poder de ideologias vencedoras, mas sim devido à pressão suave, mas persistente, daqueles que tinham por fracos e impotentes.
Um velho e cansado erudito que acaba por regressar do exílio. Gente jovem que conduz o seu microscópico automóvel em direção à fronteira. Uma antiga e pequena campeã de ginástica que conseguiu fugir secretamente... Isso foi apenas o início, pois a seguir pode-se ver tudo quanto antes nunca tinha sido visto!
Um violoncelista toca diante do Muro! Poetas dão as suas ordens sob a forma de sua arte, por detrás de outros muros! Professores grisalhos aparecem por detrás dos muros das varandas dos seus escritórios oficiais! Jornalistas, que ainda ontem estavam exilados atrás do seu muro de silêncio, enviam os seus contributos para todo o mundo! E um poeta do teatro, assim que sai para fora dos muros de uma prisão, é catapultado para a cadeira de Presidente da República. É certo que, de momento, estes são apenas fatos. No entanto são imagens nunca vistas antes, fotografias tiradas de perto e pouco nítidas, que fulminam a ordem rígida e longínqua das antigas cerimônias monótonas. (...). Vendo bem, a velha iconografia foi destruída sem ter sido substituída: o buraco negro da bandeira da Romênia torna essa lacuna visual e talvez até teórica no decorrer dos acontecimentos - (in)visível de uma maneira muito explícita. E com isso, de modo nenhum acabou a retirada das imagens: as estrelas vermelhas empalidecidas, os livros de máximas proletárias e rituais, os retratos idealizados dos detentores do poder, as fotografias retocadas grosseiramente, as estátuas de ferro fundido cheias de símbolos - em resumo, desapareceram como que por magia ou, melhor dizendo, através de mão mágica. Até as próprias contra-imagens surgiram como reação ao mundo de imagens oficiais, mostrando a destruição e o dispersar, como por exemplo, os graffitis no muro de Berlim. E essas imagens desaparecidas serão substituídas pelo quê? Simplesmente pela nudez das imagens televisivas que despem diariamente o mundo inteiro, sendo elas próprias despidas até os ossos, simples grandes planos sobre rostos desconhecidos, tão rápidas que se tornam imediatamente passado após serem vistas, e que, passado segundos, estão de novo ultrapassadas? (...) Desde os acontecimentos da Praça da Paz Celestial que as cadeias de TV de todo o mundo (...) parecem ainda não acreditar no fato de estarem em condições de emitirem esse tipo de imagem ao vivo. De qualquer modo (...), tendem a transformar uma habilidade técnica em ato heróico, dando-se por muito satisfeitos com seus confortáveis lugares comuns que não levam ninguém a pensamentos mais profundos.
No entanto, mediante uma observação mais atenta, conseguir-se-á reconhecer a sombra lançada pela luz. (...) É verdade que há uma genuína alegria causada pela libertação de milhões de pessoas, mas será que também, (...), não haverá algo de malícia que nos leva a aplaudir o fracasso de qualquer coisa que ontem constituía a esperança de milhões de seres humanos?
Numa época em que assistimos o regresso do subjetivismo em uma região do mundo e da história, na qual até agora reinou o objetivismo, é bom que surjam de novo histórias e imagens subjetivas, mas que possam ser também inquietantes e irônicas - artificiais, é certo, na medida em que vêm do Ocidente, mas diretas, tendo origem no Leste. Oxalá elas possam contribuir para não mais se erguerem novos muros, nem sequer os de plásticos ou os pintados, para que, por detrás deles, não voltem a se esconder e entrincheirar velhos homens de pensamentos negros, mesmo que eles se enfeitem com os berrantes atributos do modernismo.”
Enfim... Amém! Urano em capricórnio fez com que o mundo e a humanidade voltasse a ser uma só e as estruturas políticas monolíticas que insistiam em querer se manter em pé vieram abaixo. Não que as ditaduras tenham deixado de existir, mas sua fundamentação ideológica sim. A internet também começa a se formar durante esse trânsito em Capricórnio, primeiro através de redes entre as universidades - no Brasil, os primeiros embriões de rede surgiram em 1988 ligando universidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre a instituições nos Estados Unidos -, fazendo com que a rede deixasse de ser exclusivamente militar, e em 1993 é lançado o primeiro browser para web, o navegador X Windows Mosaic 1.0, que permite o acesso à população mais ampla. A geração nascida nesses anos de desestruturação do mundo está agora em vias de pré adolescência e talvez não consigam imaginar como vivia a Humanidade antes, com o mundo dividido por ideologias, com a polícia entrando em casas de classe média e prendendo pessoas por conta de livros que hoje estão esquecidos, mulheres grávidas sendo torturadas em porões, a vida cultural castrada pela censura, sem computador e muito menos internet, sem DVD ou Play Station. Já podemos notar, porém, que essas crianças não têm a menor paciência com autoridade arbitrária, e não abrem mão da própria subjetividade em nome de alguma objetividade que não entendem. Entre os mais antigos que nasceram com esse Urano em Capricórnio vamos encontrar minha querida Hannah Arenth, que teve a coragem de questionar o senso comum e conseguiu ver a participação da vítima no próprio holocausto, além de mostrar que o Estado de Israel, construído sob a exclusão, estava fadado a ser o horror que vemos hoje. Johhan Kepler é um bom exemplo do que pode ser a revolução estrutural dessa geração. Esse astrônomo - e astrólogo em eterna crise - demonstrou que a órbita dos planetas no nosso sistema é elíptica e não circular como se pensava até então, e o sol ocupa apenas um dos focos da elípse, sendo o outro invisível. Assim o círculo perde seu status de perfeição e representação divina, com um centro único: giramos em torno de dois centros e um dele nos é completamente invisível, mas tem que ser levado em consideração se quisermos verdadeiramente compreender o Universo. Essa geração está crescendo com um Urano que mostra que o poder e a autoridade verdadeiros possuem um centro virtual, invisível, mas tão poderoso quanto aquele que está iluminado.

Urano na casa XI em Aquário de 1995 a 2003Poderosamente posicionado em sua própria casa, Urano na décima primeira expande o conceito de ser parte de um grupo, aumentando de tal forma a idéia de coletivo a ponto de incluir todas as criaturas vivas, e a idéia de parentesco acaba atingindo todos os seres humanos. Geralmente a pessoa com esse posicionamento não vê o mundo como um monte de indivíduos nem os conflitos entre nações como uma briga regionalizada, mas percebem o planeta como uma unidade que tem que resolver seus problemas “internamente”. É importante com esse posicionamento encontrar com quem compartilhar esse ponto de vista e seguir essa meta. A internet parece ser a resposta às orações desse Urano, que não precisa de uma união física, mas sim de constante estímulo intelectual para levar a frente os ideais coletivos a que se dedica. Esse posicionamento pode ser perturbador por mudar as metas e objetivos da pessoa num curto espaço de tempo. Esse Urano trás fortes sentimentos sobre o significado de amizades, e espera que os outros também sintam isso, apesar de que, como todo ideal muito elevado e pouco realista, acaba tendo que se confrontar com o lado mais egoísta e instintivo da natureza humana e de si mesmo. De qualquer modo, os amigos acabam servindo como catalisadores de mudança, assim como a pessoa acaba se tornando agente das mudanças do grupo.
E entramos no século XXI e simbolicamente na Era de Aquário com Urano domiciliado!!! Parece até que combinaram. Mas como o mundo não acabou como previram, teremos que dar um jeito de arrumar essa bagunça que criamos, e parece que começamos isso entrando em rede. O que hoje forma a Internet, começou em 1969 como a ARPANET, criada pela ARPA , sigla para Advanced Research Projects Agency, ou Agência de Pesquisa de Projetos Avançados, uma subdivisão do Departamento de Defesa dos EUA. Entre 1983 e 85, ela começou a ser usada pelas universidades americanas e européias para que os estudantes pudessem trocar os resultados de seus estudos e pesquisas. À partir de 1988 a rede se estende para universidades de outros cantos do mundo, e em 1993 começa a poder ser acessada pela população em geral. Porém é à partir do fim de 1994, com Urano entrando em Aquário, que realmente começa a surgir o interesse público na Internet. Aí foram 2 palitos: em 96 a palavra Internet já era de uso comum, principalmente nos países ricos, referindo-se na maioria das vezes a www. Para que se tenha uma idéia do avanço da internet nesses anos de Urano em Aquário, em 2003, quando Urano estava terminando sua revolução, eram 600 milhões de pessoas conectadas à rede, e o Brasil já era um dos líderes de acesso. E o que será que vai vir com essa geração que já nasce plugada ao computador? A possibilidade de troca com culturas e saberes diferentes - muitas vezes antagônicos - àqueles que recebem em casa pode trazer bastante confusão domética, mas ao mesmo tempo criar maior tolerância. Não conseguimos prever nem mesmo que mundo essas crianças irão encontrar na sua juventude, com tantas ameaças à camada de ozônio e à água, além da Profecia Maia prometendo mudanças definitivas para daqui a pouco. Talvez seja essa a geração que conseguirá nos transformar, finalmente, em uma só Humanidade de fato. Que os anjos as Iluminem!!! Grandes líderes políticos que buscaram a transformação da sociedade tiveram Urano em Aquário, como Indira Gandhi e JFK. Mas gostaria de lembrar particularmente do Urano em Aquário de Goethe, que fez com que seu Fausto só conseguisse recuperar sua alma através do Amor por outra pessoa de carne e osso. Que isso lhes sirva de exemplo.

Urano na casa XII - em Peixes de 2003 a 2010
Com Urano revolucionando a “casa oculta”, a exploração do inconsciente pode trazer à tona um sentido de continuidade com processos evolucionários e históricos, além da possibilidade de se vislumbrar modelos vigentes nos quais se baseia a vida da pessoa. Onde quer que esteja Urano precisamos nos arriscar a ser diferentes, e quando ele nos convida a mergulhar no mar coletivo de onde emergimos, precisamos fazer isso de maneira original e inventiva. É comum a pessoa com esse Urano ter um enorme interesse pelos movimentos políticos e ideologias de modo compulsivo, como se fosse tomada por uma visão que lhe aparece na mente, pois Urano aqui ouve um ruído antes mesmo da coisa acontecer, de modo que fica difícil a pessoa fazer um julgamento lógico ou reflexivo. Esse é o motivo desse Urano se interessar por assuntos como parapsicologia, espiritismo ou ufologia. Quando esse Urano está bem na casa XII a pessoa costuma ter um monte de bons conselhos para oferecer às pessoas, mas quando muito aflito ele pode prejudicar a visão da pessoa por causa de complexos pessoais, o que a obrigará a “limpar” seu inconsciente antes de poder aproveitar as mudanças e transformações oferecidas pelo céu.
Aqui chegamos ao fim da viagem zodiacal de Urano (ufa!). A melhor imagem para descrever a revolução de Urano pelas águas inconscientes de Peixes, que estamos vivendo atualmente, foi dada pelo tsunami ocorrido em 26 de dezembro de 2004 no Oceano Índico. A palavra "tsunami" vem do japonês e significa tsu (porto) e nami (onda). O termo foi criado por pescadores que, vindo da pesca, encontraram o porto devastado, ainda que não tenham visto nem observado a onda no alto mar. Uma das características desse fenômeno é que, à medida que a onda se aproxima da terra, a sua amplitude (a altura da onda) aumenta na mesma proporção em que a sua velocidade diminui. Muitas coisas podem causar um tsunami, como movimentos no interior da terra, um deslocamento da terra, uma explosão vulcânica ou um impacto de meteoro. O Oceano é um dos símbolos mais fortes do inconsciente coletivo de onde viemos e para onde vamos, e uma das melhores metáforas para se falar dos significados do signo de Peixes. Urano está agindo agora criando movimentos das profundezas e nas esferas distantes de maneira que só o conseguimos perceber através dos nossos sonhos, da simbologia das nossas doenças, dos sinais que nos mostram de maneira intuitiva que algo muito forte está acontecendo. Em Bali, a maioria das pessoas que conseguiram se salvar foi porque seguiram os animais - ou foram carregadas por eles! - que fugiam para o alto apavorados. Essa talvez seja a melhor dica que podíamos receber para vivenciar esse processo: conectar com nossa natureza instintiva e ir para o alto! O fato da grande destruição causada por esse tsunami, com mais de 285 MIL vítimas, ter mobilizado tanta ajuda humanitária também pode nos mostrar os objetivos desse movimento uraniano em Peixes, signo que ensina sobre o sacrifício daquilo que está isolado em nome do mergulho em algo maior e mais profundamente amoroso. Nesse sentido também, é digno de nota que a maior doação de dinheiro particular para ajudar as vítimas não foi feita por nenhum milionário americano ou nobre europeu, mas pela guru indiana Mata Amritanandamayi, também conhecida como Amma, a grande mãe. Se pensar na revolução que irão trazer as crianças com Urano em Aquário já é complicado, não vou me atrever nem em imaginar o que vão fazer esses seres que estão nascendo agora com Urano em Peixes!! Das pessoas de outras gerações com esse Urano pisciano temos muitos exemplos interessantes para falar de vários aspectos desse signo complexo. Charles Bukowsk, com sua vida e obra atormentada, foi um digno portador desse Urano cantando em seu Hino da Tormenta “ andei por lugares onde nenhum homem deveria ir. Fui espancado impiedosamente e deixado para morrer. Tenho galos espalhados por todo o meu crânio de cassetetes e etc. Os anjos se mijam de medo. Eu sou uma pessoa bela. E você é. E ela é. Como é colossal amarelo do sol e a glória do mundo“. Marlyn Monroe mostrou outra face dos portadores dessa revolução uraniana em peixes com o sacrifício da sua individualidade em função de uma ilusão de beleza. Nostradamus também possuía um Urano pisciano, mas podemos dizer que ele ficou bem atormentado com todas as imagens de fim de mundo que seu inconsciente criou. Mas gostaria de prestar aqui minha homenagem a Fidel Castro, que exatamente no momento em que está vivendo o seu retorno de Urano em Peixes decide deixar o poder, pondo fim à sua missão. Isso é sabedoria. Por mais críticas que se possa fazer a Cuba quanto ao seu aspecto de liberdade política, esse país foi um enorme tsunami na história da humanidade, e um ícone de transformação social, principalmente para nós da América Latina, em nosso capitalismo sub desenvolvido que privilegia a poucos. Comparar Brasil e Cuba, então, é de deixar qualquer um inconformado, vendo aquela pequena ilha sem recursos, que tem um gigante que insiste em ser seu pior inimigo como vizinho, e que consegue dar educação de qualidade até o nível superior, saúde pública com tecnologia e pesquisa de ponta, distribuir a renda - pouca - de maneira igualitária para seu povo, enquanto aqui, nesse gigante pela própria natureza, pessoas vivem em guetos - mesmo mudando o nome para “comunidade” -, a educação básica que já é horrorosa parece só piorar, o ensino superior é elitizado e a saúde pública nem merece comentários. Desculpem o desabafo... Espero que essa geração que está chegando ao mundo nesse momento possa trazer um mundo com menos ilusões de luxo e mais solidariedade humana.