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sábado, 19 de abril de 2014

E Quiron Caminha Por Peixes


“Nada disso pode estar acontecendo de verdade. Se você se sentir mais confortável assim, pode pensar no acontecimento simplesmente como uma metáfora. Religiões são, por definição, metáforas, apesar de tudo: Deus é um sonho, uma esperança, uma mulher, um escritor irônico, um pai, uma cidade, uma casa com muitos quartos, um relojoeiro que deixou seu cronômetro premiado no deserto, alguém que ama você – talvez até, contra todas as evidências, um ente celestial cujo único interesse é assegurar-se de que o seu time de futebol, o seu exército, o seu negócio ou o seu casamento floresça, prospere e triunfe sobre qualquer oposição.
Religiões são lugares para ficar, olhar e agir, pontos vantajosos a partir dos quais se observa o mundo.
Então nada disso está acontecendo. Tais coisas não podem ocorrer. Nunca nenhuma palavra sobre isso é literalmente verdadeira.”
Neil Gaiman in Deuses Americanos


Em fevereiro de 2011 Quiron entrou em Peixes e ficará por lá até março de 2019. Em 2012 Netuno também entrou em Peixes e fez conjunção com Quiron. Desde o final do ano passado até o meio desse, Saturno em Escorpião estará em trígono com Quiron. Agora estamos com Júpiter, regente do ano, também em trígono com esse estranho asteroide-meteoro-centauro. O que ando observando esses anos é que Quiron vem se mostrando como sub tom de todos os processos mais profundos que andam ocorrendo nas vidas íntimas das pessoas, e a cada dia, a cada consulta e a cada aula isso fica mais claro. Também a cada sessão de terapia. O enorme barulho que Urano em Aries enquadrando-se com Plutão em Capricórnio vem fazendo (principalmente esse mês, com a enorme Cruz que envolve os Luminares, Mercúrio, Marte e Júpiter em um eclipse!), faz com que esse subtexto de Quiron pareça mais delicado ainda. Claro que estamos muito atentos para essa briga toda no Céu como na Terra em signos cardeais, que iniciam novos tempos e movimentam-nos para fora, mas esses movimentos sutis da alma muitas vezes nos levam a novos patamares de compreensão interna que podem muito bem nos trazer caminhos mais interessantes, principalmente quando é tão claro o quão doente estamos em nossa humanidade.

Quiron traz em si a dor mais profunda do paradoxo que somos enquanto seres conscientes capazes de transcender a própria individualidade, mas que existem a partir de um corpo físico mortal e limitado.  Por isso o tema central do mito de Quiron é a ferida que não pode ser curada (se você precisar de informações mais detalhadas a respeito, talvez seja melhor ler primeiro http://tecadias.blogspot.com.br/2008/09/quiron-visita-do-sbio.html). “Ferida” em grego é “traûma”, e os estudos dos traumas psíquicos têm sido das coisas mais interessantes que ando lendo ultimamente e tem me ajudado bastante a pensar sobre o que está acontecendo.

De maneira bem generalizada podemos considerar como traumatizante qualquer experiência que tenha sido rápida demais, forte demais ou ameaçadora demais para a existência. A palavra chave aqui é “demais”. Essa medida do que é demasiado para a criatura é absolutamente pessoal, pois coisas que são apenas um susto para alguns, se transformando em riso após 5 minutos, pode deixar outra alma absolutamente destroçada, criando uma situação em que não é possível nem correr nem lutar, como nosso cérebro réptil sabe fazer, e então algo em nossa psique se paralisa e se finge de morto para enganar ao predador. Essa é uma boa estratégia para o momento da ameaça, se conseguíssemos recuperar o movimento e a vida quando passasse o problema, como fazem os outros animais. O mais comum entre nós humanos, porém, é darmos um jeito de nos separarmos dessa parte para sobreviver, como uma lagartixa que deixa o rabo para traz e assim consegue escapar.  Só que essa parte da nossa psique nunca vai poder nascer de novo enquanto não curamos essa fragmentação e essa paralisação decorrentes do trauma, e nunca teremos o sentimento de sermos inteiros enquanto isso não acontece. Todos nós passamos por traumas de uma maneira ou de outra ao longo do nosso desenvolvimento: nascer, ganhar um irmão, entrar na escola, mudar de casa, perder um animal de estimação, presenciar uma briga entre os pais, achar que estava fazendo algo superbacana e ser duramente repreendido ou qualquer outra situação aparentemente normal pode criar um sentimento de vulnerabilidade sem saída que gera a paralisação da alma que é o trauma. Essas situações “cotidianas” podem ser mais difíceis de detectar por conta das explicações e justificativas que podemos acumular sobre elas, diferentes de situações mais claras de perda e/ou abuso físico, mental ou psicológico, claramente traumatizantes e externamente reconhecidos. Além disso, a genética moderna tem apontado para a possibilidade da expressão de um gene ser modificada por estresse traumático sem alterar o DNA subjacente desde 1941, com a “diversidade do efeito de posição” do geneticista vencedor do prêmio Nobel Hermann Joseph Muller. Essa modificação é transmitida por várias gerações, e isso significa que podemos também herdar traumas de nossos antepassados, que genes podem ser “ligados e desligados como um interruptor e os efeitos são transferidos, mesmo quando a situação inicial já passou. A expressão de genes muda, mesmo quando o hardware subjacente não é afetado” (Felsenfield, 2007). 

Olhando para isso com cuidado, podemos perceber que sentimentos bem difíceis como os de estar perdido na vida, de não ser amado, de vazio, de que falta algo ou que precisamos de algo que não vemos, de medo e vontade de fugir, de falta de vida e significado, com todas as suas manifestações emocionais básicas, como ansiedade, depressão e pânico – para falar das mais populares – e para as quais não encontramos explicações racionais, podem ser usadas exatamente para nos levar ao encontro dessa parte traumatizada que ficou no passado, paralisada e fragmentada, para que conseguíssemos sobreviver até nos tornarmos adultos e desenvolvêssemos os recursos necessários para resgatá-la. Enquanto isso não ocorre, o trauma nos “rapta”, nos envolve em um tipo de transe que nos remete novamente à situação traumática, nos fazendo reagir de maneira inadequada – ou excessivamente restritiva ou através de suporte inadequado – recriando o trauma e aprofundando nossa dor. Devemos a essa parte da psique que se sacrifica a nossa sobrevivência e realização adulta, e é a consciência desses sintomas que nos levam a buscar ajuda para fazer esse resgate. Quando se desiste de tentar colocar marido/esposa, filhos, pai/mãe, trabalho, ideologia, nicotina, álcool, comida, vida social, títulos, estudos, viagens, ou seja lá o que a gente tenha tentado empurrar buraco abaixo para enterrar de vez essa nossa parte e/ou substituí-la sem sucesso, Quiron se mostra como a nosso potencial mais importante para ser feliz, pois é aquele que sabe o caminho até a ferida imortal que carregamos e como fazer para resgatar aquilo que deixamos para traz e que agora, como adultos, precisamos para estar completos. É por isso que ele é o mestre de todo e qualquer aspirante a herói da mitologia greco-romana e um arquétipo tão poderoso de nossa psique. E afinal, o que mais nos mantêm vivos, enfrentando todos esses limites e frustrações de viver em um corpo físico cercado por um monte de outros seres igualmente limitados, senão continuar a acreditar que podemos ser muito muito felizes? Pois me parece que os sonhos de felicidade estão diretamente conectados com essa nossa parte traumatizada que espera por resgate.

E aí pegamos nosso cavalo branco, recebemos a benção de Quiron e vamos lá, resgatar nossa parte ferida, que sorri feliz em nos ver finalmente, né? Se isso acontecer tenha certeza que você está sendo enganado. Afinal, quem poderia receber sem muita desconfiança aquele que nos deixou ali para morrer, mesmo que possamos nos encher de explicações e justificativas muito razoáveis a respeito.

Quando Quiron e sua ferida começam a fazer contato com algo em nosso mapa, as coisas pouco a pouco vão se tornando bastante desagradáveis, para usar um eufemismo educado.

E a primeira parte da cura é exatamente desenvolver a capacidade de suportar a dor e sofrimento que esse fragmento traumatizado de si mesmo guarda e que Quiron aponta. O truque mais comum utilizado por Quiron é o de nos levar a uma situação que desejamos ou julgamos boa e então nos dizer que podemos ter muito mais se nos atrevermos a enfrentar a ferida que ele nos mostra e que compreendemos – muitas vezes como um estalo - como nos impede de sermos mais felizes. Essa primeira compreensão de que é o nosso medo/ansiedade/desconfiança que nos impede de alcançar a felicidade que buscamos, pois é essa barreira que nos leva a correr da vida ou brigar com ela, é o primeiro passo para nos atrevermos a olhar para isso com mais atenção. E o segundo é conseguir aguentar toda a raiva, frustração, rebeldia, mau humor, prepotência e acusação guardadas ali sem paralisar-se, nem brigar com isso e nem sair correndo de volta aos hábitos de amortização dessa dor. Então, depois de muitas tentativas e perseverança, você consegue ficar consigo mesmo nesse lugar desagradável sem sair correndo nem brigar consigo nem culpar o mundo (o Outro, o trabalho, o chefe, o orientador, a família, os amigos, a sociedade, a humanidade, etc, etc, etc ad infinitum) e merece o prêmio da felicidade eterna, certo? Vamos lá, amiguinhos: o herói que se aventura nos emaranhados da existência e acha que a brincadeira termina quando ganha o Reino – a princesa, o reconhecimento da humanidade ou a aprovação da mãe – acaba perdendo sua coragem e se transformando em um tirano. Para esses, que até fizeram um trabalho bacana, até conquistaram o Reino-princesa-reconhecimentodahumanidade-aprovaçãodamãe, mas pararam por aí, os greco-romanos criaram a Ilha da Bem Aventurança, governada por Saturno depois que ele perde a batalha com os filhos.  As descrições do lugar são bem bacanas também, parecendo férias no Caribe, com margueritas e camarões saindo da Cornucópia sem que ninguém precise mais trabalhar, um monte de outros heróis para bater papo e ficar lembrando as aventuras, um belo visual e boas ondas para surf matinal. Tipo capa de Caras, onde Jasão exibe seu Tosão de Ouro na estreia da nova banda de Orfeu. Muito bom para quem acha que Saturno é suficiente, já dá bastante trabalho e eu mereço algum descanso, puxa vida... Mas quando se trata de Quiron, podemos escolher ir além das férias no Caribe. Para se ter uma idéia de como isso é incomum e nem sempre possível, a mitologia grega tem apenas um herói que consegue isso, e em vez de ir para a Ilha da Bem Aventurança conquista um lugar no Olimpo junto aos deuses: Héracles-Hércules. Alcides para os íntimos. E é por isso que quando estudamos em mitologia as aventuras dos heróis temos histórias para cada um dos signos, preciosos ensinamentos morais e criativas discussões filosóficas, mas quando estudamos o mito de Hércules falamos de um processo de individuação. Algumas vezes uso o mito de Hércules para falar dos desafios de todos os 12 signos e das 12 casas através dos seus 12 trabalhos impossíveis. Não é coincidência que tenha sido exatamente Hércules quem fere a Quiron, trazendo para seu corpo sua ferida incurável, sua dor insuportável de alma para a consciência. De muitas maneiras, Hércules é o anti herói, sofrendo de demência, sendo humilhado, aviltado, traído, possuído por orgulho, matando e ferindo a quem ama, cheio de fraquezas e brutalidade. E é exatamente essa falta de virtudes que o encaminha cada vez mais profundamente para a busca de purificação, encontrada finalmente através da própria morte. Mas essa não é qualquer morte, mas sim a morte-ponte, que conduz da morte dos mortais à morte que imortaliza. Assim também é a morte de Quiron, que não é a morte para fugir da dor, que seria a morte suicida, mas a possibilidade de ir além da dor, ver o que está acontecendo e fazer o que se tem que fazer para se purificar e contribuir com o coletivo.

Pois Quiron está agora em Peixes, o último dos signos do Zodíaco, nesse fluxo com os outros signos de Água através de Saturno e Júpiter. Se Ar nos traz a capacidade de compreender e comunicar, Fogo nos dá o desejo de criar e agir, Terra nos mostra a forma do que queremos e do que somos, Água fala da Vida que flui através de nós. Esse elemento é o que falta para os cientistas que acham que podem criar vida inteligente, aos economistas que acreditam poder prever a história, aos artistas que tentam controlar sua criação. A Água destrói quando em excesso e também quando falta, por isso é preciso estar sempre atento a seus movimentos e aprender a conversar com ela para manter-se em equilíbrio. Quando tentamos descrever esse elemento, falamos de alma, de inconsciente, de psiquê, de emoções, sentimentos e uma série de outras coisas e conceitos que experimentamos, mas sabemos mesmo muito pouco como traduzir. Ainda entendo o elemento Água como nossa possibilidade de Mágica, e isso é muito desconcertante. Principalmente quando tenho que falar sobre ela usando conceitos e não imagens/poesia/música/dança etc. para pessoas que ainda acham que o Ser Humano é especial por suas capacidades mentais e neurais e que isso que chamo de mágica é loucura ou inocência, numa escala menor de valores e conquistas.

Quando falamos de Quiron em Peixes, falamos da ferida que temos na Alma Humana em sua conexão mais profunda com todos os seres. Ou se você prefere uma linguagem simbólica psicológica, na nossa conexão com o Self, o centro do nosso ser e ao mesmo tempo do Inconsciente Coletivo. Essa cisão é representada pelos dois peixes nadando em direções opostas, mas presos por um fio de ouro, e Quiron, com a ajuda dos outros planetas em Água, está apontando para isso e mostrando maneiras de irmos mais fundo. Se quisermos.

Podemos pensar em Saturno em Escorpião como a necessidade de encararmos e fazermos algo de concreto com nossos desejos, medos e apegos mais pessoais e Júpiter em Câncer como a possibilidade de criarmos vínculos profundos para além da família de sangue – inclusive com a própria família de sangue. A possibilidade de olharmos com mais profundidade a ferida de alma que carregamos pode ser muito mais rápida e profunda do que esperamos, estando Quiron tão bem apoiado e sustentado. Sim, isso significa ter também que fazer as tarefas saturninas e correr os riscos jupiterianos. As curas proporcionadas por Quiron são aquelas da consciência que conquistamos através da auto reflexão e auto observação, por praticas como meditação, yoga, caminhadas, revisão diária ou qualquer outra coisa que ajude a construir um olhar objetivo sobre o que se passa dentro de nós. Quiron nos mostra que somos capazes de olhar para nosso próprio sofrimento com compaixão sem nos deixar “raptar” pela dor, e assim fazer o que tem que ser feito para a cura. Isso muitas vezes vai significar o sacrifício de algo importante, como deixar ir um relacionamento que traz frustração e dor, ou deixar de lutar para obter o reconhecimento por algo que se merece, mas que custaria o abandono dos valores internos, ou mesmo passar por algo que seja dolorido e difícil entendendo que não se trata de algo pessoal, que os personagens da história não tem como saber o que está acontecendo desde o seu ponto de vista. Isso é mais do que desapego motivado por alguma crença religiosa ou moral. É a capacidade de permanecer consigo mesmo quando as coisas não são como devem ser, é aceitar a morte daquilo que aparentemente é tão precioso em nome de uma capacidade de olhar para si com compaixão, sem pena ou vitimismo, e ir além. Só depois de vivenciar isso podemos entender que o Amor que estava sendo desperdiçado naquele relacionamento permanece consigo, que o Mérito que não foi reconhecido externamente é realmente seu, que a vivencia dolorosa tem uma parte de responsabilidade pessoal que pode ser transformada independente do que os outros façam com aquela experiência. E isso cura. E nos torna mais compassivos com relação às dores dos outros também.


E como amanhã é Páscoa e festejamos a libertação, espero que possamos estar aproveitando bem esse tempo estranho em que vivemos para irmos além. Segundo o mito, Deus ressuscita em corpo, com todas as suas chagas e feridas reluzentes, e se apresenta em Sua Gloria primeiramente para Maria Madalena, aquela que não foi condenada e se tornou a padroeira dos ciganos. Eu acho isso lindo, e precioso de ser comemorado.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Netuno Entrando em Peixes

“Vida, que posso eu dar
A Meu Deus, que vive em mim,
A não ser perder-te, a fim
De O poder melhor gozar?
Morrendo O quero alcançar,
E não tenho outro querer,
Que morro de não morrer“

Sta. Teresa D’Ávila.


Semana passada houveram palestras produzidas pela CNA - Central Nacional de Astrologia - aqui em Floripa, e durante uma delas, em que se falava de Netuno, alguém da platéia lembrou que esse gigante nebuloso é a oitava superior de Mercúrio e não de Vênus, como alguns pensam. Isso tem rodado em meus pensamentos me fazendo refletir sobre a entrada de Netuno no signo de seu domicílio, nas confusões comuns ao se tentar entender esse planeta e as conseqüências disso tudo de maneira muito insistente, por isso resolvi escrever a respeito.

Para quem não está acostumado com essas expressões alquímico/esotéricas, as “oitavas” são uma maluquice maravilhosa onde se “vê” a matemática da música e da natureza. Pitágoras, que recebe título de grande mestre desses saberes, dizia que as oitavas musicais eram as expressões mais simples e profundas entre espírito e matéria. O “milagre da oitava” é que mesmo totalmente dividida em duas partes audíveis e distinguíveis separadamente, uma mesma nota musical permanece reconhecível - um Dó é reconhecível em qualquer altura da escala, p.ex. -, o que é uma manifestação tangível da máxima hermética “assim na Terra como no Céu”, o que aparece em cima é igual ao que aparece embaixo. Eu não sou conhecedora profunda nem de Alquimia nem de Música, por isso não vou ficar falando muito a respeito para não me perder, mas só para se ter uma idéia da coisa, essas escalas harmônicas vão mostrar todo um caminho para se ir de vibrações mais densas - mais ligadas à Terra - para mais sutis, e que hoje em dia pode ajudar pessoas leigas como eu a entender um pouquinho de medicinas tradicionais como a chinesa ou a indiana, ou os centros energéticos do corpo humano, como os chakras, as safiras da Cabala e todas essas coisas bacanas ligadas à saúde vibracional. Mercúrio, então, seria a compreensão de assuntos mais densos e Netuno dos mais sutis. A grande força de Mercúrio viria da possibilidade de conseguir fazer traduções de uma harmônica para outra.

Sempre que se fala de Netuno e sua descoberta, para daí derivar seus significados, citamos principalmente as descobertas psicológicas e parapsicológicas e o nosso despertar científico para as manifestações invisíveis, mas nem todos lembram - por incrível que pareça - de que é na época do avistamento de Netuno que começa a história da física e da química quânticas também. O “início” da descoberta de Netuno, digamos assim, se dá em 1841 com os cálculos astronômicos feitos a partir da movimentação de Urano, de onde se deduz a localização de mais um planeta, e Michael Faraday descobre os raios catódicos - aqueles feixes de elétrons que aparecem em filmes antigos de cientista maluco, sabe? - em 1838. A partir das pesquisas com esses raios catódicos temos a construção do conceito de “corpo negro” e no fim da década de 1870 se começa a trabalhar com a idéia de “feixes de partículas” e de “campos elétricos”, o que acabou dando material para que Max Planck levantasse a hipótese quântica em 1900. Só pra lembrar rapidamente, Planck é o primeiro a falar que o universo atômico era feito de elementos de energia discretos capazes de irradiar energia de maneira individual.

Com isso vemos que a descoberta de Netuno está associada às fantásticas mesas girantes que freqüentava Alan Kardec mas também aos corpos negros e feixes de partículas que físicos e químicos deduziam de suas observações. Netuno estava em Aquário enquanto Urano passeava por Peixes nessa época, o mesmo “duplo feitiço” que encontramos entre 2004 e 2011, quando Urano entra galopando em Áries. Entre os cálculos feitos em 1841 que “deduziram” a existência de um planeta para além de Urano e o avistamento de Netuno foram necessários 5 anos, o que, astrologicamente falando, significou a entrada de Urano em Áries e o encontro de Saturno com Netuno no início de Peixes. Da mesma forma, entre a descoberta dos raios catódicos e uma teoria consistente e “utilizável” mercurianamente tanto da mecânica quanto da química quântica, precisamos de um longo processo netuniano, e só quando ele chega em Gêmeos começamos a entender o que estávamos vendo.

Se pensarmos sobre esses processos na nossa história do conhecimento podemos entender melhor o que quer dizer isso de Netuno ser uma oitava acima de Mercúrio: enquanto o pequeno e rápido planeta próximo do Sol nos ajuda a entender, classificar e quantificar as coisas das esferas mais próximas de nossa experiência imediata humana, Netuno representa nossa capacidade de compreensão para além de Saturno, para além da nossa experiência em 3D, e do processo necessário para essa compreensão que envolve muito do nosso inconsciente coletivo. Mas então porque tanta gente continua a associar Netuno a uma esfera religiosa, algo que já entendemos que pertence às nossas necessidades humanas conectadas com Júpiter/Sagitário/Casa 9 mais do que com Netuno/Peixes/Casa 12? Tenho visto muitas pessoas fazendo essa confusão, então vamos tentar esclarecer um pouco isso também.

Quando estudamos os mapas individuais observamos que pessoas com problemas religiosos terão alguma coisa difícil envolvendo Sagitário, Júpiter e/ou casa 9. É bem comum pessoas com forte presença de Júpiter, por exemplo, se sentirem iluminadas e só quererem se conectar com outros iluminados, tendo muita dificuldade em lidar com “essas pessoas limitadas e comuns que não conhecem a Verdade” - ouvi isso de um cliente com esse tipo de dificuldade jupiteriana. Quando esse exagero não termina em um surto psicótico, com a pessoa se achando Jesus Cristo ou Buda, como no caso de Nietzsche (Ascendente, Lua e Cabeça de Dragão conjuntos em Sagitário e Júpiter em Peixes conjunto Urano como regente do tema natal), e ainda se encontra um grupo de iluminados que fazem juntos o “favor” de existirem nesse mundo limitado na tentativa de salvar a todos, existe aqui uma base que podemos chamar religiosa, no sentido mais literal da palavra, de crença em algo “sobre-natural", acima da média humana, que se manifesta através de doutrinas e rituais próprios, mesmo que nem se resvale na idéia de deus, mesmo se tratando de ateus convictos ou intelectuais reconhecidos. Já pessoas com problemas que se manifestam através de Netuno/Peixes/Casa 12 geralmente têm o problema contrário, de se sentirem muito abaixo da média humana, de terem uma forte atração por drogas que corroem sua personalidade e uma grande resistência a contaminações, físicas e psíquicas. É bem comum pessoas com forte presença netuniana se definirem na negativa, por aquilo que elas não são, e não conseguirem falar sobre exatamente aquilo que são. Muitas vezes se precisa de recursos visuais, poéticos e metafóricos para se poder entender e/ou expressar com seres fortemente netunianos. Interessante notar que as profissões em que mais encontro netunianos são entre músicos e engenheiros, enquanto os jupiterianos são mais comuns nas igrejas e academias filosóficas.

Outra maneira de se entender mais profundamente um planeta e seus correlatos de signo e casa, é através de Saturno, já que esse planeta exige nada mais nada menos do que a maestria para nos deixar em paz. Como já falei demais - pra variar um pouco... - não vou entrar nas complexidades dos relacionamentos de Saturno e Netuno ou de Saturno em Peixes, mas pensar um pouco sobre Saturno em casa 12 pode nos dar algumas pistas interessantes a respeito. O que mais encontro em pessoas que ganharam um Saturno de casa 12 ao nascer é uma dúvida muito profunda a respeito do própria identidade, mas não em função de algum trauma de infância ou algum familiar carrasco que humilhava a pobre criatura, mas em função de um saber inexplicável que faz com que a personalidade cotidiana e familiar que construímos na nossa realidade 3D e que colocamos em nossos cartões de visita sejam sem sentido. Saturno exige que essas pessoas concretizem essa visão e aí todos os problemas típicos de Saturno pra nos obrigar a amadurecer, e que geralmente faz com que essas pessoas tenham muito medo de perder aquilo que vislumbram na sua vida solitária por conta das necessidades de sobrevivência externas. Ou o contrário, de acharem que terão que abrir mão das ambições mudanas em função de uma compreensão mais profunda da própria existência. A astrologia tradicional fala muito de “exílio”, “internação”, e outras situações vistas como “castigo” ou “mau karma” quando tratam de Saturno na casa 12. Apesar disso tudo realmente parecer um castigo na adolescência, quando são despertados nossos impulsos jupiterianos e saturninos de incorporação aos grupos sociais, na verdade temos aqui a possibilidade de compreensão de como os saberes mercurianos, pessoais, fazem parte desse saber maior, anterior e posterior à experiência pessoal, que muitas vezes, inclusive, contradiz nossas experiências cotidianas. Entramos então na oitava netuniana, que nos faz entender que o Universo é infinito mas limitado, que a luz é onda e partícula ao mesmo tempo, que a matéria é feita de vazios. E o mais louco de tudo isso é exatamente a percepção de que com todas as limitações mentais e físicas que temos, somos capazes de compreender isso. Essa não é uma compreensão cotidiana - tente ver seu carro como uma porção de partículas circundada por vazio quando outro carro com a mesma composição atômica vem ao seu encontro, por exemplo, e vai perceber rapidinho que essa coisa não funciona na sua vida mercuriana do dia-a-dia. Mas isso não faz com que esse saber seja Mítico ou Religioso, mesmo que possamos jupiterianamente utilizar esses saberes para construir leis e comportamentos.

Então, escrevi tudo isso para chegar aqui no fim e entender que o que vai acontecer com a entrada de Netuno em Peixes é... NADA!!! Não nesse sentido mercuriano cotidiano, ao menos. A moda vai mudar e ficaremos mais fluidos, cheios de babados, rendas e assimetrias - depois desses 12 anos acreditando no corpo perfeito construído pela razão de Netuno em Aquário -, e talvez comecemos a pensar a respeito de todas essas maquininhas fantásticas que povoam nosso dia a dia, tão cobiçadas por crianças de 8 a 80 anos, que só chegam até nós graças ao trabalho escravo chinês. Talvez isso não faça a menor diferença. O que posso afirmar com certeza é que se uma jamanta desgovernada vier ao seu encontro vai ser importante você conseguir desviar, por mais amigos pleiadianos ou parcerias com Saint German que você tenha. Se rolar de você aprender com a jamanta desgovernada que a matéria é feita de partículas cercada de vazios, o melhor vai ser olhar em volta pra ver se encontra algum túnel de luz, tentar lembrar de algum antepassado bacana e não pensar em nada de ruim, pelo que dizem. Acho que vai ser difícil você voltar a ver o mundo através da dimensão mercuriana limitada...

Todos temos o signo de Peixes e Netuno no mapa, e você vai conseguir entender esses pontos quando se lembrar dos 2 segundos de paz e plenitude que sentiu “naquele” dia, ouvindo uma música, observando uma borboleta na flor, ouvindo a risada do seu irmão na sala, vendo uma criança desconhecida correndo na praia. Efêmero, profundo, sutil, generoso. Mas talvez seu Mercúrio estivesse tão ocupado fazendo as contas para comprar a casa/carro/comida/viagem de férias/escola das crianças/exame médico de rotina, que nem conseguiu registrar esse momento em que tudo fez sentido por 2 segundos. E se registrou, pode ter ficado achando que estava enlouquecendo ou se perdendo do que é realmente importe: se desviar da Jamanta. Mas porque tantas Jamantas vindo em minha direção? Será que estou na contramão?

Com a entrada de Netuno em Peixes não esperem ver o desenvolvimento de nenhum super poder ou transformação mundial através das crenças e comportamentos morais “corretos", mesmo achando o máximo todos os heróis e bandidos mutantes do cinema. Netuno é muito mais simples e silencioso, e não se importa com nossas necessidades representadas por Júpiter, que faz todo esse teatro divertido de fim de mundo por medo do que chama Caos. Agora, se você quiser aproveitar bastante toda essa força netuniana, a prática do silêncio e de estar consigo mesmo vai ser importante. Não se preocupe com os resultados. Quando se trata desse gigante nebuloso só entendemos realmente o que aconteceu depois de um tempo que não pode ser determinado, pois é diferente para cada um, não tem nenhuma conexão com méritos ou algo que possamos entender, e quando finalmente vemos que há um processo que se completa é porque já podemos sentir algo novo começando.

Quem sabe podemos chegar a uma compreesão mais profunda dessa vida feita de Caos e Movimento daqui a algumas décadas...


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Conversas de Urano e Plutão





“Há dois erros semelhantes mas opostos que os seres humanos podem cometer quanto aos demônios. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e pouco saudável por eles. Os próprios demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros, e saúdam o materialista e o mago com a mesma alegria.”
C.S. Lewis – Cartas De Um Diabo A Seu Aprendiz.

Plutão e Urano estão se “enquadrando” nos últimos tempos, e as observações que tenho feito, levando em conta esses astros, me fazem pular de um para o outro. Tá difícil sintetizar e colocar em palavras coerentes. Obrigada Vânia, minha amiga geminiana querida, por ficar me lembrando das várias idéias que andei tendo e me mandar escrever logo. Quadratura funciona assim mesmo: a gente tem que ter calma, paciência consigo mesmo e consciência se quiser juntar as partes em vez de ficar brigando com elas. E é sempre bom ter amigos pressionando pra gente não desistir.

Quando fui buscar os acontecimentos de 250 anos atrás, quando Plutão, mesmo invisível à nossa consciência, estava em Capricórnio (1765 a 1779), encontrei Marques de Sade e sua busca obsessiva e perversa por prazer sexual. Muitos dos chamados libertinos do início do século 19 nasceram nessa época, como Bocage, poeta português que escreveu: “Todas no mundo dão a sua greta:/Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa/Que isto de virgo e honra é tudo peta.” (vide postagem sobre Plutão em Capricórnio). Essa também foi a época em que Urano foi avistado e a Razão Humana ganha novo status, a de salvadora da espécie do obscurantismo e superstição religiosos (Urano em Gêmeos), que nos possibilita afirmar ainda hoje, que todos os Homens nascem livres e têm direito à busca da felicidade.

Ok, então vamos buscar as perversões e libertações possíveis nos dias de hoje, derivadas daquilo que nasceu a tantos anos atrás. Não é uma tarefa fácil, já que há um consenso a respeito do que é bom e o que é mal, baseado exatamente naqueles conceitos construídos durante os anos das tais “Luzes” racionais humanas. Aquela coisa de que nós somos os bons e os que pensam diferente de nós são os maus parece ter muito mais força hoje em dia do que em tempos passados, mas tomou a forma que chamamos de “tribo”, onde eu e aqueles que compartilham meu modo de vida nos reunimos e nos cumprimentamos por sermos do jeito que somos. Não conheço ninguém que não se ache aliado do Bem, independente do grupo ao qual pertença. A tribo que se reúne por motivos opostos aos meus, claro que estão equivocados, mas isso não chega a ser um problema. Difícil sair dessa dicotomia sutil em uma época em que tudo é mais ou menos permitido, se tratando da vida individual, desde que seja feito por legítima vontade e não prejudique outras pessoas. Ao menos não prejudique de uma maneira muito evidente e direta. Só como exemplo, para trazer nosso amigo Marques de Sade de volta: hoje em dia você pode perfeitamente ser um sádico e encontrar um masoquista que vai adorar seu prazer sexual ao ferir outra pessoa, e os dois poderão juntos participar de um clube para trocar experiências e até mesmo fazer parte de uma convenção que reúne pessoas de todo o mundo com os mesmos prazeres, como aconteceu há alguns anos atrás nos EUA. Ao mesmo tempo você pode participar normalmente da sociedade, ter família, emprego, seguro saúde e ser uma pessoa bacana. De verdade, não estou sendo irônica. Você teme ter um comportamento ou algum desejo meio estranho? Coloca no Google que com certeza vai encontrar sua tribo. Isso facilita muito nossa convivência social, já que, tendo um espaço para trabalhar nossas diferenças de maneira segura, podemos ser mais tolerantes e nos concentrarmos naquilo que temos em comum em lugar de ficar brigando por espaço no todo. Teoricamente.

Essa crença que compartilhamos – ao menos em cidades mais cosmopolitas -, do “viva e deixe viver”, ou, segundo a constituição norte americana, de que todos têm o direito individual de buscar a própria felicidade, deu sustentação à construção do Capitalismo que vivemos hoje, que acabou se resumindo e limitando ao direito individual de consumir. Assim sendo, se você é gay, preto, mulher, criança, idoso, sado-masoquista, mórbido, ou seja lá qual for a sua, e tiver dinheiro para cobrir suas “esquisitices”, você poderá usufruir de maneira bem significativa essa liberdade de ser você mesmo. E se você ainda por cima separar algo para fazer caridade, há grandes possibilidades de se tornar um herói. Porém, se o seu “karma” financeiro não for muito bom, será interessante você buscar alguma ONG de advogados humanitários se tiver problemas em ter esse direito garantido. Mas de qualquer maneira, você tem direito a ser quem é.

Acho bom fazer um parêntese aqui para deixar claro o que estou falando: Não quero dizer que o Capitalismo em si é mal e todos os pobres são vítimas da sociedade consumista. Ou que ter dinheiro é sinônimo de ser “mascarado”. Para mim, qualquer ideologia é vazia em si. Apenas penso que o que vivemos hoje é algo que o velho e bom Marx, que foi tão brilhante em sua análise do Capitalismo nascente em sua época, não seria capaz de imaginar. Esse texto é apenas uma reflexão sobre o que ando vendo e pensando desde dentro da sociedade em que vivo, portanto com todos os limites que possuo. Fecha parêntese.

E falando em limite, isso é algo que caracteriza nossa humanidade, já dizia nosso amigo Saturno. Assim como a busca por expandir esse limite é um impulso natural, responderia Júpiter. E vivemos nessa sístole e diástole que garante nosso batimento cardíaco humano, encarando nossos limites, buscando nosso crescimento, estruturando nossa personalidade, desenvolvendo nossos potenciais. E aí chegam esses transaturninos e bagunçam tudo! Quando encaramos os transaturninos não se trata mais da minha parte no todo, mas do todo que me faz uma parte.

Então, Urano em Áries vem com a força ideológica que me liberta dos padrões coletivos e me faz acreditar que tenho o direito de “salvar” todo mundo. Plutão em Capricórnio revela aquilo que a hipocrisia reinante – chamada hoje em dia de “politicamente correto” – escondia. Bacana. Vocês assistiram Inside Job (Trabalho Interno)? É um documentário dirigido por um jornalista daqueles que adoram criar saias justas nos entrevistados (Charles Ferguson), e que dá um panorama geral do que aconteceu nos EUA em sua crise mais recente, com todas as sacanagens e jogatinas que rolaram nos bastidores. Orquestrando toda a bagunça americana estão professores doutores de economia das universidades mais conceituadas de lá, que trabalharam direto nos governos Clinton, Bush e Obama sem o menor problema ideológico. Aí você pega um livro de História como o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leandro Narloch – Ed.Leya), onde você encontra afirmações como a de que os índios não são tão amantes da natureza assim (eles são os precursores da queimada, por exemplo), que negros alforriados caçavam negros fugitivos e Zumbi possuía alguns escravos para fazer o trabalho pesado, Santos Dumont não inventou o avião mesmo, João Goulart deu a maior força para as empreiteiras, e assim por diante. Olhando essas “revelações” que vão surgindo, depois de alguma interjeição de surpresa - mesmo quando vem de um jornalista da revista Veja como o Lenadro Narloch, o que me deixa um tanto desconfiada – a gente reflete um pouco sobre o contexto geral e percebe que essas coisas fazem sentido dentro da consciência em que vivemos, e as conseqüências disso não são assim tão difíceis de digerir. Ou alguém aí acredita que, em uma economia globalizada, as bobagens feitas nos EUA vão fazer o mundo – ou o Capitalismo – acabar, ou que o fato de negros escravizarem negros em um tempo escravocrata tira o valor do movimento de consciência negra atualmente?

Então, em uma postagem do facebook de uma amiga, aparece um vídeo da Marcha Pela Desigualdade e Pelo Ódio, contra a PL 122, patrocinado pela bancada evangélica do Congresso. Sim, os evangélicos, aqueles que seguem o Evangelho, a boa nova que traz Jesus Cristo de que devemos amar nossos inimigos. A PL 122 é um projeto de lei que acrescenta aos crimes de preconceito a discriminação de homossexuais, idosos e pessoas com necessidades especiais. Você vê o vídeo e acha que é brincadeira de desocupado. Mas não é não: minha amiga de Brasília viu com os próprios olhos um povo reunido na manifestação a favor da homofobia, com camisetas, cartazes e tudo que tinham direito. Vai lá no youtube se quiser dar uma olhada no vídeo. Aqui sim, minha prepotência compreensiva de ser iluminado pela Razão foi para o saco e se transformou em prepotência de tribo contra outra tribo. Ui, aqui tem transaturnino em ação, pensei eu. Reproduzo os argumentos apresentados, com meus comentários entre parênteses:
- “nós, evangélicos, sofremos preconceito. Porque devemos evitar que os outros sofram também” (na lei, preconceito religioso também é crime);
- “o PL 122 tira meu direito de discriminar quem eu quiser, onde eu quiser” (sic);
- “então o que? Se eu bater num travesti, então eu vou preso?” (substitua travesti por preto, mulher, numa criança, em velho, num deficiente, num muçulmano, num pobre, num gordo ou qualquer coisa que você seja);
- “eu não quero que meu filho nasça num mundo onde todos tenham direitos iguais” (essa afirmação diz que essa pessoa quer ter filhos no mundo oposto em que eu quero ter o meu);
- “o PL 122 tá vindo pra acabar com a minha liberdade de expressar a minha homofobia” (aqui você pode substituir homofobia por pederastia, genocídio religioso ou cultural, ou qualquer outra possibilidade que fere a consciência que criamos dizendo que todo mundo tem direito a ser quem é sem ser violentado por isso. Incluindo o direito de ser evangélico, claro. Dá até para expressar isso na terapia, para rever trauma de infância e curar isso, mas para atacar outra pessoa é diferente);
- “com o PL 122 os homossexuais querem se fazer de vítimas, mas o que eles não conseguem entender é que no fundo (pausa dramática) eu tô lutando contra mim mesmo” (que? Eu também não entendi essa, mesmo sendo hétero. Será que se está argumentando que estará lutando contra a própria homossexualidade? Ou se está querendo dizer que o ódio aos homossexuais é algo inerente a esse pobre ser humano? Cada um tire suas próprias conclusões).

Se você já leu e assistiu documentários sobre a formação do Nazismo na Alemanha – recomendo o fantástico “Arquitetura da Destruição”, documentário sueco dirigido por Peter Cohen – vai reconhecer esse discurso. Pois bem, a construção do Nazismo foi feita exatamente durante o trânsito de Urano em Áries enquadrando com Plutão em Câncer, signo oposto de Capricórnio, portanto com a mesma modalidade básica complementar.

Em meio a tantas transformações acontecendo, será que uma manifestação dessa tchurma tem realmente algum interesse? Espero que não, mas o fato de existir essa possibilidade é importante de ser analisada. Quando surgiram, os nazistas também foram chamados de malucos desocupados pela elite intelectual da época. Deu no que deu. Se Urano em Áries está usando a força heróica individual para romper as limitações ideológicas e Plutão usa a estrutura capricorniana para mostrar as emoções obscuras que fervem por baixo da correta aparência social, então esse discurso preconceituoso faz sentido.

Bom, então parece que estamos vivendo o momento de testar o que é verdade interna naquilo que pregamos e vivemos. E minha pergunta é: como vivemos nossos pré-conceitos individualmente? Como exemplo pessoal, conto pra vocês que a vontade espontânea que tive ao ver esse vídeo foi a de mandar prender esses manifestantes, já que compartilho da ideologia reinante do “viva e deixe viver”, e isso faz com que me sinta segura na sociedade em que vivo: essas pessoas ameaçam minha segurança e minha reação espontânea é de medo. Assim como quero que a polícia multe o idiota que quer burlar o trânsito pelo acostamento ou pára em faixa para pedestres. Vejam só: quero que os mecanismos de repressão da sociedade em que vivo limitem aqueles que ameaçam a minha segurança social. Normal, certo? E fácil, ao menos aqui. Passamos isso para Israel, com três diferentes sociedades querendo segurança para sua tribo, ou para os países em guerra na África, onde parece que o meu direito é ameaçado pela existência do outro. Mais complicado, já que o direito individual pela busca da felicidade não está condicionado ao não causar dano ao outro que também tem o mesmo direito. O que me questiono é se realmente acreditamos em uma sociedade justa e vivemos isso por consciência ou nos limitamos a aceitar as regras por medo de sermos violentados. Traduzindo pro cotidiano: não ando pelo acostamento da estrada por que acredito que somos todos iguais vivendo o mesmo trânsito e não sou melhor que ninguém para chegar mais rápido em casa, ou fico passiva naquele engarrafamento terrível por me sentir segura dentro das regras e poder criticar quem faz diferente? Acho que é um bom momento para começar a pensar a respeito. Como dizem os budistas, até que ponto minha motivação é pura?

Enfim, meus caros, não tenho nenhuma conclusão para apresentar para vocês. Estou começando a vislumbrar essa possibilidade de investigação. Dentro e fora. Saber até que ponto nossos atos são comandados por nossa capacidade de consciência positiva e quanto estamos interagindo através de nossa sombra, por medo, raiva ou confusão, vai além da boa aparência que podemos ter no filme que estamos fazendo de nós mesmos. E é nessa falta de noção sobre nós mesmos – e eu diria até certo descaso a respeito -, que os transaturninos nos pegam e nos fazem crer que algum destino externo está nos levando para onde não queríamos ir. Retomando a construção do Nazismo, vocês assistiram “Um Homem Bom” (Good – direção de Vicente Amorim)? Fala disso, e eu recomendo. Não acredito – ou me recuso a acreditar – que vamos fazer outra atrocidade como a da 2ª Grande Guerra, mesmo porque, depois das armas nucleares, destruir o Outro (seja o mocinho ou o bandido da história), significa suicídio. Mas como estamos vivendo um novo processo com essa combinação de transaturninos, é bom pensar sobre o que anda acontecendo e qual a melhor maneira de viver isso. A arma que temos é nossa consciência individual, a luzinha de vela que Jung dizia que devemos proteger a todo custo das tempestades coletivas.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Novo Ciclo de Urano

A Astrologia trabalha com ciclos, como a vida nesse planeta. Os ciclos astrológicos se iniciam com Áries, pois esse signo traz exatamente a energia dos começos. Quando o Sol entra em Áries temos o equinócio de primavera no hemisfério norte, quando o dia e a noite têm o mesmo tamanha depois de um período de noites maiores que as dias. Tudo que está em equilíbrio precisa mover-se para não se transformar em estagnação e Áries significa exatamente a quebra do equilíbrio que gera movimento e vida. O círculo astrológico funciona muito mais como uma espiral aberta do que como um círculo fechado, pois a cada novo início temos a chance de começar algo novo, que passa pelos mesmos pontos, mas com uma nova consciência adquirida através da caminhada anterior. Como no Ocidente associamos Equilíbrio com Harmonia, muitas vezes nos apegamos a esse momento efêmero e sofremos quando ele passa. O I Ching diz que as coisas não podem permanecer unidas para sempre, pois isso levará certamente à estagnação, já que o “chi” pára de mover-se e, como resultado, temos a morte.

Urano rege a mudança e o inesperado. A atuação deste planeta está associada a todo tipo de ruptura de padrões preestabelecidos e tradicionais. Assim como no céu - onde o planeta mostra que não existem regras e nem padrões rígidos - também na sua função astrológica Urano é responsável pela quebra de estruturas restritivas, para permitir o acesso ao novo, ao não tentado, ao diferente. Quando este acesso às mudanças se encontra bloqueado ou impedido, a ação uraniana se manifesta através de revoltas, revoluções e explosões em todos os sentidos. O reconhecimento de Urano no céu ocorreu em 1781, em meio à Declaração de Independência americana e à Revolução francesa, e nesses dois movimentos conseguimos identificar as novas facetas que Urano traz para nossa consciência. Tanto a declaração de que todos os homens nascem iguais e têm o direito à busca da felicidade, quanto o mote “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” fazem parte dos novos ideais que Urano vem plantar no coração dos Homens. Urano cria rupturas através da consciência que semeia a idéia de que podemos ser mais livres e felizes do que somos na atual estrutura, e faz isso mostrando de maneira escancarada toda a injustiça e limitação em que vivemos e nos perguntando por que aguentamos isso. E enquanto estivermos vivendo restrições injustas no planeta, parece que Urano vai continuar a trazer rupturas violentas.

Alguns astrólogos já andam falando de Guerras e lutas pelo mundo por associarem o arquétipo de Áries, que é do Guerreiro, ao de Urano, que é do Revolucionário, e nesse sentido interpretam os conflitos que estão explodindo no Oriente Médio, com a ajuda do expansivo Júpiter, que já está em Áries. Eu, entretanto, concordo mais com a corrente que associa as manifestações no Líbano e no Egito aos eclipses de dezembro de 2010 e janeiro de 2011, e acho importante estarmos pensando a respeito de que tipo de Guerra e que tipo de Revolução podemos esperar nos dias de hoje através de Urano em vez de fazer essa associação direta. A análise astrológica tem muitas semelhanças com a análise se sonhos, e por isso precisamos do sonhador para ganhar sentido em vez de fazer apenas uma listagem de possíveis significados. Assim, quando falamos de processos coletivos, temos o sonhador e o intérprete misturados, e precisamos de mais recursos para fazer a análise. Uma das coisas que gosto de usar para isso são os livros de História.

Urano tem um ciclo de 84 anos e 3 dias, e nesse ano de 2011, com sua entrada em Áries, podemos esperar o início de um novo processo de consciência humana e de mudanças da nossa mentalidade enquanto coletivo. Vamos, então, dar uma olhada no que estava acontecendo a 84 anos atrás e verificar as mudanças que ocorreram, observando como se concretizaram as idéias de liberdade nesse ciclo que está terminando agora. No ciclo anterior, a passagem de Urano por Áries começou em abril de 1927 e foi até junho de 1934.

A primeira coisa que salta aos olhos quando verificamos o que aconteceu entre 1927 e 34 não é nenhuma guerra em particular, mas toda a armação do cenário sócio-político-econômico para a 2ª GG. Alguns fatos que, em linhas bem gerais, podem ilustrar isso:

- Os países começam a se desligar da Liga das Nações, órgão de união entre as nações que se propunha a gerar soluções justas e conjuntas para os conflitos mundiais após a Primeira Guerra. A razão disso foi que a Liga não dava conta de criar uma solução rápida para os problemas gerados pela 1ª Grande Guerra ou qualquer outro conflito, pois era necessária a decisão unânime de todos para se gerar qualquer ação. Bom, me parece que ainda hoje não temos como colocar em prática esse refinado conceito anarquista, e continuamos a viver na base da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
- E falando em anarquistas, Trotsky é deportado da Rússia por Stalin, que efetiva a eliminação de toda a concorrência para sua ditadura.
- Sandino começa a ofensiva conta as tropas dos EUA que haviam invadido a Nicarágua, e vai estruturar sua ditadura, assim como em Portugal Salazar começa sua campanha entre os militares enquanto revoltas estouram pelo país.
- Rei Alexandre da Iugoslávia dissolve o governo e abole a constituição, enquanto na Espanha começa o troca-troca de governos que vai gerar a terrível Guerra Civil posteriormente.
- O Japão invade a Manchúria
- Mussolini e o Vaticano assinam o Tratado de Latão, criando o Estado do Vaticano e tornando a Itália um Estado Confessional, ou seja, o país se torna um Estado Católico, transformando em lei secular essa doutrina religiosa.
- Acontece a Grande Depressão nos EUA, quando Roosevelt assume o poder e implementa o New Deal, que controla os preços dos produtos, aplica os recursos do governo em obras de infra estrutura e diminui as horas de trabalho para gerar empregos. A inauguração do Empire State no final desse ciclo de Urano é bem significativa.
- Por fim, mas não menos importante, temos toda a articulação da tomada de poder pelos nazistas na Alemanha, começando com o primeiro discurso de Hitler em Munique em 15/3 de 1929, em 1930 o Partido Nacional Socialista surge nas eleições como o segundo maior da Alemanha e começam os boletins da SS limitando o comportamento dos seus membros, de modo a manter o partido “ariano” - como o significativo boletim de 1931, que comunica que os soldados da SS precisam de autorização do departamento de raça do partido para se casar -, Mein Kampf vira sucesso, é fundada a GESTAPO, polícia política nazi, em março de 1933 e por fim Hitler é nomeado chanceler pelo presidente Hindenburg.
- No Brasil temos a Revolução de 30, com a subida de Getúlio ao poder e a Revolta Constitucionalista de 32.

Parece que há no ar problemas urgentes a serem tratados, e pouquíssima articulação, flexibilidade e paciência para se resolver as coisas de maneira coletiva. Nada melhor que um tirano, no sentido grego do termo, para resolver os problemas do meu quintal, mesmo que isso signifique jogar lixo no quintal do vizinho. Mas paralela a toda essa armação, outras coisas também estão acontecendo, que parecem também apontar para a mudança de mentalidade que está sendo proposto por Urano:

- Gandhi, que já vinha fazendo discursos libertários e boicote aos produtos ingleses, inicia a Campanha de Desobediência Civil.
- Chico Xavier também começa seu trabalho com Urano entrando em Áries, abrindo um novo caminho espiritual no interior católico e tradicional do interior de Minas Gerais de uma maneira mansa e pacífica.
- As mulheres começam a votar efetivamente no Brasil em 1932, depois de terem tido seus votos anulados em 1928, e nos EUA várias mulheres que pilotavam aviões exigem o direito de tirar prevê para voar oficialmente, conquistando isso.
- Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp lançam o movimento antropofágico, que garante ser possível absorver tudo que vem de fora e criar coisas novas passando por um olhar pessoal. Também é nessa época que se formam as escolas de samba do Rio de Janeiro, que modernizam o samba, que era um derivado do maxixe, criando um novo ritmo, que até hoje nos caracteriza.
- Freud tem seu trabalho reconhecido no mundo, e a primeira sociedade de psicanálise da América Latina é aberta em São Paulo. Também é nesse periodo que a psicanálise é taxada de “ciencia judaica”, e excluida da Alemanha. Isso faz com que os fundadores da psicanálise se expalhem pelo mundo, ensinando e praticando-a.

Outra coisa que o movimento uraniano acompanha são os avanços tecnológicos, pois, desde a invenção dos instrumentos de pedra, nosso horizonte cresce com a criação de nova tecnologia. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a enorme quantidade de asteróides e outros corpos celestes que foram avistados, principalmente por astrônomos alemães, graças as novas lentes que estavam sendo feitas por ali. E, claro, não podemos esquecer das primeiras fotografias feitas de um novo planeta, o ainda inclassificável Plutão (a última que ouvi, fala que Plutão vai deixar de ser planetoide e se transformar em um bi-planeta com Caronte, sua talvez ex lua). Parece unânime a associação entre a descoberta de Plutão e o deflagar da 2ª Guerra. Outra coisa que acontece nesse periodo de Urano em Áries é o primeiro voo de Lindenberg sobre o Atlantico Norte, entre Nova York e Paris, e o brasileiro João Ribeiro de Barros faz Cidade do Cabo/Fernando de Noronha de avião aqui no Atlantico Sul, também pela primeira vez. Companhias Aéreas surgem pelo mundo, como a VARIG e a Pan Air, no Brasil, ou a Ibéria, na Espanha. Essa também é a época aurea dos dirigíveis, inclusive com o Zeppelin alemão completanto a inédita volta ao mundo. No cinema é exibido o primeiro filme sonoro da história – The Jazz Singer -, a tv nos EUA ganha os primeiros serviços analógicos e alguns testes com a tv a cores. A Dupon apresenta a primeira borracha sintética, um novo elemento químico, o Halogênio, é descoberto, e a vitamina C é isolada pela primeira vez. Adoraria comentar cada um desses tópicos para pensarmos juntos o que significaram em termos de mudança de mentalidade, mas como já escrevi um montão e isso aqui é um blog e não uma tese, deixo aqui essa pequena listagem para vocês pensarem a respeito.

Antes de terminar gostaria de colocar outro recurso muito bom para entendermos uma época, que é verificarmos o que aconteceu com as crianças que nasceram nesse período de Urano em Áries, para assim verificarmos que tipos de ícones frutificaram com essas novas sementes trazidas por Urano. Não sei se sou só eu, mas fiquei alegremente surpresa ao encontrar aqui os principais líderes de movimentos de liberdade do século XX. Vejam só as crianças que estão nascendo entre 1927 e 1934:

Dalai Lama
Che Guevara
Martin Luther King
Harvey Milk
Yasser Arafat
Mikhail Gorbatchev
Desmond Tutu

Lindas sementes, não? Calma, antes de se animar demais vamos lembrar que Paulo Maluf e ACM, que possuem uma atuação no mínimo duvidosa em termos de liberdade, também fazem parte dessa geração. Não creio que esses personagens passem para a posteridade como as citadas anteriormente, mas é interessante pensar que essas figuras se mantiveram civis em meio a uma ditadura militar.

Ok, já falei demais e ainda não falei de tudo que gostaria. Estamos em um ano de Mercúrio, então tenho essa desculpa. Obrigada por me acompanharem até aqui. Se vocês agüentarem, ainda tenho algumas coisas que andei coletando por aí para entender esse novo início do ciclo de Urano, e assim que der continuarei publicando. Quero também fazer uma análise mais simbólica de tantos fatos e verificar as pistas que temos para o novo ciclo uraniano que se inicia em março de 2011. Vamos ver se dou conta de escrever tudo que minha cabeça anda me apontando...

sábado, 5 de setembro de 2009

Passeios de Plutão Pelo Mapa Natal

“Quem, se eu gritasse, entre a legião dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrível. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia valer? Nem Anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo nesse mundo definido.”
Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno

Em todos os mitos, contos, histórias e filmes, chega o momento em que o herói tem que enfrentar seu inimigo cara a cara se quiser ter um pouco de paz na vida. Nós também, mais dia menos dia, temos que olhar para nossa Sombra e enfrentá-la no lugar de ficar justificando nossas distorções negativas por que o mundo é mau, como se não participássemos dele. Jung dizia que o objetivo de nossa existência era a individuação, que ele definia como o processo onde criamos, a partir de nos mesmos, aquele ser único que no fundo sentimos que somos. Os trânsitos de Plutão são bons períodos para fazer essa confrontação e aprender a se aceitar como se é, com toda a força, sombra, luz e vulnerabilidade, pois esse é o início de uma verdadeira e positiva auto-estima, aquela que vem de um conhecimento profundo de quem se é. Se você está passando por algum processo difícil de Plutão, lembre-se que nossa destrutividade tem mais força quando está na sombra, no inconsciente, mas perde seu poder quando conscientizamos e trabalhamos com isso. Você pode se tornar mais livre e autêntico se tiver coragem de aceitar o que está acontecendo em vez de tentar controlar ou lutar contra o que quer que seja. Aqui vão algumas dicas e receitas de bolo a respeito de como Plutão pode agir sobre os astros do nosso mapa, mas que não devem ser tomadas ao pé da letra, e sim servir para reflexão sobre os processos.

Trânsitos de Plutão pelo Sol Natal
Plutão é tradicionalmente associado à idéia de regeneração e renascimento, portanto, quando ele entra em contato com a essência simbolizada pelo Sol, vamos ter períodos de grandes transformações internas. Uma das características desses processos é que nossas crenças e opiniões ganham muita força, e parece mesmo que se fica mais seguro das próprias idéias e objetivos de vida. Esse parece ser o caminho mais comum para entender como aquilo que acreditamos nos faz criar o mundo que vivemos, e então nos estouramos e temos que rever quem somos e o que queremos. O Sol é nossa grande fonte de Luz e Plutão é o portador da Sombra que essa Luz pode produzir. O encontro dos dois significa ter que olhar para o que fazemos com nossas vidas sem esconder as motivações egoístas ou os objetivos mesquinhos. Algumas pessoas me relatam uma necessidade obsessiva de mudar e abrir mão de situações seguras durante esses trânsitos. Esgotos estouram, não temos como cumprir promessas feitas assim como os outros também não cumprem as feitas a nós, percebemos com clareza as más intenções alheias, podemos descobrir muitos podres de pessoas que gostamos, e nos deparamos, sem querer, com a colônia de cupins que estava destruindo nossa linda casa de madeira. Como seus irmãos transaturninos, Plutão também está trabalhando em função de um maior amadurecimento da nossa humanidade, e aqui isso significa olhar para a verdade daquilo que vivemos sem os enfeites morais, materiais, espirituais, ideológicos, etc. Como o Sol fala de nossos processos internos de desenvolvimento, muitas vezes é difícil trabalhar o que está acontecendo em nossas entranhas quando o resto do mundo parece continuar do mesmo jeito. É importante dar credito a essa percepção interna e buscar a mudança de direção, mesmo com todo o medo e insegurança que isso traga, pois Plutão faz com que se tenha que renunciar ao passado para se começar algo novo e mais verdadeiro que ainda não se experimentou. É preciso limpar os sótãos e porões e aceitar que não há como um ser humano controlar o Universo, apesar das crenças e sensações que tivemos quando pequenos. E é bom não tentar forçar as coisas no sentido contrário se você não quiser se machucar mais.

Trânsitos de Plutão pela Lua Natal
A Lua está diretamente conectada com nossas estratégias emocionais de sobrevivência e Plutão, ao se encontrar com esse luminar, vai mostrar que essas defesas não funcionam mais. Geralmente ouço relatos bem difíceis sobre esses períodos, pois o mais comum é uma sensação de profunda vulnerabilidade, como se todas as feridas de infância resolvessem infeccionar ao mesmo tempo e nada conseguisse abaixar a febre. As duas armas preferidas de Plutão são as paixões e as doenças, por serem experiências em que nossas fantasias de força, nossa auto-imagem como seres inteligentes e donos do próprio destino, caem por terra. Como a Lua rege as nossas reações emocionais, Plutão faz com que experimentemos mais intensamente aquilo que sentimos, o que pode trazer muita ansiedade e medo. As tentativas de controlar isso só trazem mais problemas e aumento da tensão. Esses são processos de profunda mudança emocional, que não é possível ser acompanhado por uma racionalidade comportamental, mas que ajuda muito ter um acompanhamento terapêutico. Uma das coisas que precisamos aprender rapidamente na infância é a esconder aquilo que não é bem visto pela família onde nascemos, para assim podermos ser aceitos e cuidados naquele ambiente. Isso pode significar não poder sentir raiva dos pais, ciúmes dos irmãos ou ter muita iniciativa por que a família tem dogmas religiosos muito rígidos que condenam essas atitudes; ou não se pode ser sensível, amoroso e sentimental porque isso é visto como fraqueza; ou nos vemos cercados por pessoas que vêem com maus olhos aqueles que lêem muito, são muito curiosos e mais introspectivos, por acharem que a vida tem que ser cheia de atividades externas e trabalho concreto. Sejam quais foram os ajustes emocionais que tivemos que fazer para nos adaptarmos à estrutura familiar, a Lua tem armazenado nossas estratégias para sobreviver e nos vincular afetivamente no nosso ambiente de origem. Plutão entra em contato com nosso ambiente lunar mostrando o que foi escondido, expondo o custo dessa adaptação e percebemos que não podemos continuar como estávamos. Isso nos abala profundamente por ameaçar nossa sensação de segurança e nossas fantasias de controle e, geralmente nos vemos com uma característica emocional plutoniana bem desagradável, chamada obsessão. Os jogos de poder e manipulações emocionais que fazemos e que somos vítimas ficam muito conscientes, e temos que fazer algo a respeito. Isso significa perder uma inocência fruto da imaturidade emocional para adquirir força intuitiva. É preciso deixar ir embora aquilo que nos faz mal, nos purificarmos das dores do passado, para que novas pessoas e oportunidades de vínculo possam surgir, e assim possamos ter maior intimidade e uma auto-imagem mais real.

Trânsitos de Plutão por Mercúrio Natal
Mercúrio mostra a maneira como trocamos informações com o mundo, e Plutão faz com que esse intercâmbio ganhe intensidade. É comum que passemos um tempo achando que nossos padrões de pensamento estão um tanto estranhos, o que causa certa tensão, mas que também estamos mais criativos e profundos, o que pode ser bem construtivo quando canalizado. Nossa mente sente atração pelos abismos misteriosos da psique e da vida em geral quando visitada por Plutão. Artistas e escritores costumam relatar que esses são períodos muito férteis. Mercúrio é o único deus da mitologia Greco-romana que consegue entrar e sair de todos os reinos, desde os picos olímpicos às profundezas do Tártaro, sem que isso crie problemas mais sérios. Se há alguma dificuldade de expressão mercuriana, algum trauma quanto à própria curiosidade ou preconceito com relação a algum tema de estudo, esses são períodos para se entender e limpar essas questões. As obsessões características de Plutão costumam aparecer também em suas visitas ao Deus dos Ladrões, e podemos nos perceber manipulando idéias para ganhar jogos de poder ou tentando controlar o que pensamos e retalhando as idéias dos outros. Esse não é um caminho muito proveitoso para essa energia, pois Plutão alimenta aquilo que escolhemos plantar, e então passamos a ficar bem paranóicos com a colheita que teremos. Mercúrio também rege os nossos 5 sentidos, e podemos passar por períodos em que nossa visão, olfato, paladar, tato e audição parecem não responder como costumavam. É sempre bom passar por um médico ao observar essas mudanças, mas lembrando que se está passando por um processo que visa mudar a interação com o mundo, e que coisas que parecem estranhas podem significar uma percepção mais aguda, não necessariamente a perda de algum sentido. Se conseguirmos abrir mão da necessidade de controle durante esses trânsitos - que é a fonte de tensão desses períodos -, é possível se abrir para novas experiências sem ter medo de parecer medíocre ou amador demais, e então novos aprendizados podem ser realizados e muitos dons adormecidos despertados.

Trânsitos de Plutão pela Vênus Natal
Plutão costuma seduzir nossa Vênus através de um narciso na beira do abismo, exatamente como o deus faz com sua sobrinha Core. Nossa maneira de dar e receber amor, beleza e prazer ganham intensidade e por isso precisamos perder a inocência para ganhar profundidade. Core tem que se transformar em Perséfone. O símbolo de Vênus é o escolhido para representar o próprio feminino, mas isso não quer dizer que é posse exclusiva do gênero, mas apenas que é mais incentivado nas mulheres, e por isso mais facilmente conscientizado nelas. Cada vez mais vemos homens tomando posse da sua capacidade de troca amorosa e de busca por beleza e prazer em suas vidas sem depender de uma esposa ou mãe. Sorte deles, principalmente durante uma visita de Plutão à Vênus. Mulheres que precisam de uma figura externa para exercer sua Vênus (o tipo que tem do vestuário ao gosto musical definido pelo parceiro) costumam ter muitos problemas nos processos Vênus/Plutão. A idade em que esses trânsitos acontecem também devem ser levados em conta, já que na adolescência nosso gosto é muito mais determinado pelo nosso grupo do que por nossa recém adquirida consciência de individualidade, e quando temos mais anos de estrada é mais fácil perceber o que nos dá realmente prazer e alegria na vida. Ao menos em teoria. O mais comum é encontrarmos parceiros plutonianos durante esses trânsitos, e vivemos relações com boas doses de manipulação, possessividade, desejos obscuros e sentimentos rudes que destroem os castelos com príncipes, princesas e finais felizes. Quanto mais obsessivo se fica, mais o objeto de nosso desejo costuma se afastar. Fica muito claro que estamos buscando segurança no outro e chamando isso de amor. A possibilidade contrária também é possível, e quanto mais nos afastamos daquela pessoa que se mostrou perigosa ou diferente daquilo que queremos em um companheiro, mais o outro se mostra empenhado em nos conquistar. Plutão traz para a consciência toda a destrutividade que confundimos com amor, quando se envolve com Vênus. Se atrairmos um carrasco é porque cremos que somos vítimas, ou seja, abrimos mão de nossa força por temê-la. Esse trânsito é a oportunidade de nos purificarmos e libertarmos dos equívocos destrutivos que acumulamos durante a formação da nossa identidade, e as desigualdades que antes aceitávamos em nossas relações vão se tornando insuportáveis. Quando Plutão transita por nossa Vênus ficam claras, também, as armas que temos para conquistar e nosso desejo por moldar os outros. Depois que se vê isso no próprio espelho é impossível falar que só temos boas intençõe nos nossos relacionamentos. É comum se ver na posição tanto de abusador quanto de abusado. Precisamos entender durante esses trânsitos que não há como se abrir para alguém que nos trata mal e chamar isso de amor. Plutão nos obriga a um profundo amadurecimento em nossa busca por Amor, Beleza e Prazer na vida, e isso significa ter que deixar muitas ilusões para trás de modo a criar espaço para a força que existe em nosso desejo de união com o outro. É a chance que temos de viver com maior intensidade quem somos. É comum que o gosto musical, a maneira de se vestir, o modo de experimentar o prazer mudem, e você vai poder ter certeza, no fim do processo, que aquilo que dá gosto em sua vida é algo que reverbera profundamente em você.

Trânsitos de Plutão pelo Marte Natal
Se você reclama de não ter energia para ir atrás do que quer, durante os trânsitos de Plutão por seu Marte seus problemas acabaram! Plutão intensifica a força marciana para ir atrás daquilo que se quer, e mesmo os Martes mais civilizados se sentem fortes para conquistar “a parte que te cabe desse latifúndio”. Se a pessoa é do tipo que tem problemas com essa energia marciana e acha de mau gosto ou egoísta agir de maneira direta, isso pode se transformar em tensão interna e causar muitos problemas. Plutão revela o que há por baixo do verniz educado da nossa personalidade e Marte é uma força bruta que faz nossa natureza vital se expressar, fazendo desse encontro algo um tanto bárbaro. Algumas pessoas mais idealistas ficam constrangidas com tanta intensidade, e tentam suprimi-la fechando-se, pois não sabem o que pode acontecer se essa força toda vier para fora. Geralmente essa é a base inconsciente para se criar doenças e acidentes para que a pessoa enfrente seus medos. Quando começamos a sofrer violências externas repetidamente, é importante estar vendo o que isso significa internamente. Como Marte simboliza nossa energia sexual, Plutão também irá estimular nosso desejo nessa área, o que ainda hoje representa um problema para alguns. É preciso mesmo lidar com muitas energias difíceis, que causam desconforto nas nossas relações sociais, como raiva, inveja, disputas, etc. Ir atrás daquilo que se quer muitas vezes significa ter que deixar um lugar tranqüilo e infeliz para abrir novas formas de se estar no mundo, o que provavelmente revelará aquilo que impedia seu desenvolvimento em nome de uma harmonia de fachada. O que fazer quando aquele amigo se mostra invejoso com suas conquistas, ou seu maior desejo sexual faz com que seu parceiro fique ciumento e possessivo porque não consegue acompanhar seu pique? Nas visitas de Plutão ao nosso Marte é preciso aprender a lidar com esses sentimentos que foram deixados no inconsciente por serem pouco civilizados. Mas se você tem um trabalho que gosta e onde pode exercer sua criatividade e uma parceria de confiança e respeito, não será tão difícil canalizar toda essa força de maneira construtiva, e assim os rompimentos necessários para uma expressão mais verdadeira logo se mostram libertadores, mesmo quando desconfortáveis. Mas se você está passando por uma fase mais solitária e seu trabalho não traz satisfação pessoal, é bom você começar a fazer alguma atividade extra para direcionar essa energia, como boxe ou yoga tântrica. Os relacionamentos que se formam nesses períodos costumam ter grande intensidade sexual e não levam muito em conta o caráter do parceiro, então se recomenda não levar para casa o primeiro ser interessante que aparecer pela frente, pois geralmente será um modelito “chave de cadeia” básico. Se você ainda não encontrou uma maneira criativa de utilizar seus dons para agir no mundo, a recomendação é parar de culpar o mundo e começar a experimentar coisas – que pode ser desde servir mesas até fazer esculturas de areia – para achar aquilo que quer fazer em vez de ficar acumulando rancor em seu interior até explodir em alguma doença ou experiência violenta. Cuidado e intensidade não costumam caminhar juntos, mas se você consegue articular essas duas características internamente, esses trânsitos costumam gerar as grandes viradas de vida que vemos se transformando em filme tempos depois.

Trânsitos de Plutão pelo Júpiter Natal
O otimismo jupiteriano e a intensidade plutoniana costumam fazer com que busquemos horizontes mais profundos em nossas vidas, mas isso não significa, necessariamente, períodos de maior introspecção. Na mitologia, Júpiter e Plutão são irmãos, mas cada um tem seu próprio reino e um não se mete na vida do outro. Nesse sentido, as visitas do senhor do Hades ao seu irmão caçula costumam nos trazer uma sensação de desconforto, pois nossa natureza aventureira e expansiva, representada por Júpiter, ganha um peso que dificulta o caminhar. Aqui, porém, saímos da espera dos astros pessoais e entramos na dimensão mais social da nossa personalidade, portanto, a mudança que precisamos realizar não nos atinge tão internamente. Um coisa que costuma acontecer com freqüência é a pessoa começar a fazer todos os workshops que aparecem pela frente, desde decoração de interiores até imersão terapêutica com os monges do Himalaia. “Tudo que é humano me interessa”, já dizia o jupiteriano Montaigne. Se tiver uma boa propaganda, então, nem me fale! Mas os trânsitos de Plutão nos enchem de intensidade para que nos livremos da fachada e encontremos o potencial escondido. Se juntarmos o exagero de Júpiter e a obsessão de Plutão, as coisas podem ficar um tanto difíceis de se viver, e é bom se cuidar para não ter um colapso nervoso com tantas coisas. Existe, porém, um momento de cumplicidade entre Júpiter e Plutão na mitologia que pode ilustrar bem o significado mais profundo desses trânsitos. Quando Plutão rapta Core para transformá-la em Perséfone, ele conta com total conivência de Júpiter, que, aliás, é pai da donzela. Demeter descobre que sua filha havia desaparecido e grita por ajuda, mas Júpiter sai de fininho como se não soubesse de nada. Só depois que Hélio, o Sol, tem compaixão da pobre deusa e lhe conta o que aconteceu, o senhor do Olímpio vai conversar com Demeter para que ela não destrua a Terra. Podemos entender, então, que a perda da inocência do trânsito plutoniano não é um problema quando se trata de nosso Júpiter natal, pois esse planeta nos anima a buscar a verdade: esse é o ponto do nosso mapa que acredita na possibilidade de nos tornarmos melhores e maiores. Os períodos em que Plutão visita Júpiter acabam se tornando muito férteis e abrindo novas dimensões de compreensão em nossas vidas, além de trazer para nosso mundo novas relações e grupos para compartilhar aquilo que estamos aprendendo.

Trânsitos de Plutão pelo Saturno Natal
Quando da Guerra dos Titãs, Saturno foi parar no Tártaro, sob custódia de Plutão. Saiu de lá muito mais manso, indo reinar na Ilha dos Bem Aventurados, para onde iam os heróis após sua vida terrena. Saturno marca o ponto em nosso mapa onde vivemos uma série de restrições que nos forçam a amadurecer e criar uma estrutura para nos estabelecermos como adultos. Nunca estamos totalmente satisfeitos onde temos Saturno, pois ali sabemos que quanto mais experiências acumulamos, melhor será nossa habilidade e possibilidade de atuação. Isso significa que, por mais terapia que fizermos, sempre haverá uma ponta de insegurança, uma sensação de ameaça à nossa auto estima, em nossa área saturnina. Isso nos ajuda a sermos prudentes e assumirmos a responsabilidade por aquilo que queremos ser, mas também pode criar uma estrutura que só visa fugir do medo, cristalizando uma prisão para nossa criança em lugar de construir nossa base de autoridade adulta. Onde há medo e confusão podemos apostar que há alguma distorção que alimenta as áreas inferiores de nós mesmos, e essa é a matéria prima para as transformações de Plutão. Saturno fala da construção de nossa autoridade no mundo, e Plutão tem uma ligação intensa com o poder, então uma das possibilidades desse período é a de encontrarmos pessoas em posição de poder que não possuem a devida experiência que lhes dariam autoridade. Esse tipo de confronto pode nos fazer olhar para todas as experiências, toda a seriedade e persistência que tivemos na vida e nos dar coragem para olhar nossas verdadeiras ambições, o lugar que queremos alcançar no mundo, nos libertando de muitos dos condicionamentos sociais que carregávamos. Assim podemos encarar o medo de sermos questionados ou de nos sentirmos insignificantes. Nessas épocas de visita de Plutão ao nosso Saturno questionamos profundamente as figuras de autoridade, pois conseguimos ver suas sombras com clareza. Plutão oferece a Saturno um olhar mais profundo para suas ambições e medos, sendo possível perceber, então, onde temos uma estrutura real e onde nos acomodamos em uma prisão triste que nos impede de crescer. Esses processos são bem bonitos no papel ou na boca de um astrólogo, mas é preciso mais do que boas intenções para explorar nossos condicionamentos e falsas estruturas de segurança. Plutão dá força e energia a Saturno para que tenhamos coragem de experimentar o quanto somos capazes, o quanto realmente estamos maduros, pois conseguimos entender e tomar consciência da origem de nossas apreensões e medos de expressão no mundo. Saturno sempre envolve uma dificuldade externa que nos obriga a buscar respostas internamente, e quando Plutão se envolve nesse processo isso fica ainda mais forte. É preciso estar atento a si mesmo nesses trânsitos para tirar proveito das dificuldades que podem surgir. Mas a promessa é que depois possamos ir para a Ilha da Bem Aventurança, desfrutar daquilo que heroicamente conquistamos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Trânsitos de Plutão

“A vida faz um apelo. Faz um pedido a cada ser humano vivo. A maioria das pessoas não percebe esse chamado. Só quando vocês se tornam conscientes das suas ilusões é que podem ao mesmo tempo tornarem-se mais conscientes da verdade em si mesma e, portanto, da vida. Por conseguinte, entenderão em cada momento o que o chamado da vida lhes quer transmitir. (...). O chamado da vida se manifesta de maneira diferente para cada pessoa. Ele é a um só tempo universal e notadamente pessoal. É universal no sentido de que visa exclusivamente o despertar do verdadeiro eu, a realidade absoluta. Realiza-se nisso de modo totalmente distante do sentimental. Ele desconsidera os apegos pessoais, as considerações sociais e quaisquer outros valores periféricos, incluindo o sofrimento e o prazer da pessoa.”
Guia do Pathwork – Entrega ao Deus Interior

As Ciências Sociais são estudos que nascem no século 19 para tentar responder o porquê de nós, seres humanos, insistimos em viver juntos, inclusive muitas vezes abrindo mão da nossa individualidade. Uma das respostas que mais reverberam para essa questão está ligada com a necessidade que temos do grupo para construir uma identidade, o que, por sua vez, acaba resultando em uma dependência do reconhecimento e aceitação social para se conseguir significar a própria existência. Nossa imagem social é como nosso cartão de visitas, que nos define através do nosso nome, da família que pertencemos, do nosso status profissional ou dos subgrupos que fazemos parte. A adesão social serve à sua estabilidade, mas é muitas vezes negativa para o desenvolvimento pessoal, pois os aspectos socialmente inaceitáveis da personalidade não têm onde se expressar e acabam se distorcendo no inconsciente. É assim que criamos nossa Sombra, e também a Sombra coletiva. Plutão é exatamente o portador da Sombra, aquele que vai revelar os aspectos banidos pela sociedade e que surgem como uma força destruidora do inconsciente, pois ameaça a crença de estabilidade e de coerência que vivemos. Geralmente as sociedades apodrecem de cima para baixo, pois a sedução do poder e da influência estimula a distorção de percepção do indivíduo. “O poder corrompe”, diz o ditado, e as características mais negativas de Plutão costumam aparecer progressivamente nos líderes à medida que seu poder aumenta. Plutão exerce um grande magnetismo sobre as massas, e isso significa que os governantes tornam-se um ótimo meio para Plutão penetrar na sociedade. Quando lidamos com Plutão temos que aprender a lidar com o Poder também.

Na mitologia, Plutão - Hades para os gregos – é o senhor do reino dos mortos e guardião do Tártaro, local de suplício eterno para os pecadores. Apesar da associação com o Inferno Cristão, existem diferenças fundamentais entre o que era pecado para gregos e para cristãos. Se dermos uma olhada nos Círculos do Inferno cristão de Dante - um tanto pagão, eu sei -, os condenados àqueles reinos são adúlteros, usurários, sodomitas e blasfemos, reflexos do problema que a Igreja tem com a vida mundana e sexual do Homem. Já os condenados gregos eram mortais que ultrapassaram seus limites, se encheram de orgulho e desafiaram os deuses e as leis da natureza. A isso eles chamavam hubris, e não havia como fugir do castigo por essa falta. Plutão não se interessa pela vida sexual alheia – ele mesmo era um estuprador – nem se preocupa com o que os homens fazem entre si no mundo da forma, pois sua lei não está a serviço do comportamento civilizado do grupo. As figuras míticas aprisionadas por Plutão são aquelas que cobiçaram deusas, zombaram da divindade, se comportaram como se fossem maiores que os deuses. Esses são condenados a uma existência de eterna frustração e desespero, humilhados por sua arrogância e orgulho, no Tártaro. O Plutão astrológico costuma nos mostrar exatamente onde nossa vontade e desejo pessoais são fracos e sem valor, onde somos humilhados ao querer muito alguma coisa que nos é tirada ou negada. O Senhor das Profundezas nos mostra onde nosso veneno cria nosso inferno particular, onde corrompemos nossa natureza por excesso de hubris.

Quando Plutão passeia por nosso mapa ele vai mostrando onde estão nossas sombras e temos que encarar a descoberta de nossos venenos e podridão. Geralmente pensamos em nós mesmos como pessoas decentes, capazes de perdoar as ofensas alheias e que evitam cultivar o ódio e a vingança. Quanto mais imaculada for a nossa auto-imagem idealizada, mais difícil será o confronto com Plutão. Ele pode surgir como aquela doença misteriosa ou distúrbio emocional capaz de manter nosso companheiro ou filhos ou pais presos a nós ou que servem para sabotarmos os esforços, inclusive pessoais, porque não conseguimos reconhecer que de alguma maneira inconsciente sentimos que os outros nos destroem e devem ser punidos. Outra maneira comum de Plutão se manifestar é através da paixão amorosa, daquelas que faz com que abramos mão de nossas defesas mais bem construídas, e aí se nos revela toda a necessidade de posse, o medo da perda, as manipulações para que o outro faça aquilo que queremos, e outras coisinhas fofinhas do gênero.

Parece que todos nós em algum momento de nossa infância fomos oferecer o nosso melhor a quem amamos e acabamos concluindo que amar dói muito. Então a lógica infantil nos convence que o melhor é não amar mais. Porém, como é impossível viver sem ser amado, começamos a construir subterfúgios para receber amor sem ter que dar nosso melhor em troca. Claro que isso não funciona, pois recebemos aquilo que oferecemos à vida. Enquanto crescemos esses mecanismos para tentar enganar a vida vão mergulhando no inconsciente, e vai ficando cada vez mais difícil perceber o porquê de uma constante sensação de insatisfação e vazio em nossas vidas. Até recebermos um trânsito mais forte de Plutão e sermos obrigados a olhar para todas as artimanhas montadas para não se entregar realmente à vida.

Os trânsitos dos Transaturninos estão a serviço de um crescimento maior de nossa existência e não querem nos destruir. Plutão fará isso estourando nossas defesas e mostrando todo o pus que se escondia por baixo. Sem anestesia. Depois dos processos plutonianos, porém, nossas feridas estão realmente limpas, sabemos de suas reais dimensões e descobrimos como fazer para cicatrizar realmente aquilo. Nossas vidas fiquem mais intensas e inteiras depois dessas visitas.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Passeios de Netuno Pelo Mapa

“Então começou a pensar que na verdade rezara. Ela não. Alguma coisa mais do que ela, de que já não tinha consciência, rezara. Mas não queria orar, repetiu-se mais uma vez fracamente. Não queria porque sabia que esse seria o remédio. Mas um remédio como a morfina que adormece qualquer espécie de dor. Como a morfina de que precisa de cada vez mais de maiores doses para senti-la. Não, ainda não estava tão esgotada que desejasse covardemente rezar em vez de descobrir a dor, de sofrê-la, de possuí-la integralmente para conhecer todos os seus mistérios. E mesmo que rezasse... Terminaria num convento, porque para sua fome quase toda a morfina seria pouca. E isso seria a degradação total, o vício. No entanto, por um caminho natural, se não buscasse um deus exterior terminaria por endeusar-se, por explorar sua própria dor, amando seu passado, buscando refúgio e calor em seus próprios pensamentos, então já nascidos com uma vontade de obra de arte e depois servindo de alimento velho nos períodos estéreis. Havia o perigo de se estabelecer no sofrimento e organizar-se dentro dele, o que seria um vício também e um calmante. O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho, conceder-lhe um intervalo entre ela e ela mesma, para mais tarde poder reencontrar-se sem perigo, nova e pura? (...) Exercícios, pensou. Exercícios... Sim, descobriu divertida... Por que não? Por que não tentar amar? Por que não tentar viver?”
Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem

Netuno é considerado uma oitava acima de Vênus, e isso quer dizer que enquanto nossa Estrela D’Alva oferece o prazer e a beleza de sermos quem somos enquanto indivíduos separados, o Senhor das Águas irá mostrar a beleza e o prazer que existe no amor transpessoal. É essa dimensão netuniana que nos capacita a entender a dor das crianças perdidas do Sudão, ou a luta por direitos humanos dos negros, das mulheres ou dos homossexuais, mesmo vivendo em uma grande cidade ocidental, sendo adulto, branco, homem e hetero. Os problemas com Netuno geralmente estão relacionados ao nosso medo de perder as fronteiras individuais na invasão desses sentimentos transpessoais.

Netuno é um guia para outras dimensões, aquelas que costumamos chamar de espirituais. Os budistas dizem que todos somos Budas que precisam despertar, e isso ocorre através do desenvolvimento da Compaixão por todos os seres sensíveis. Esse parece ser o caminho apontado por Netuno para nosso desenvolvimento. Como dizia Teresa de Calcutá, “não podemos fazer grandes coisas, mas apenas pequenas coisas com amor”. Não precisamos largar tudo e ir cuidar de crianças do outro lado do mundo para viver as experiências netunianas, mas os trânsitos de Netuno podem nos ensinar a abrir espaço para essa dimensão, possibilitando um desenvolvimento mais pleno e belo de nossas capacidades humanas. Afinal, se esse é um elemento do nosso sistema solar, quer dizer que ele também tem um papel importante para nós.

Então vamos ver algumas possibilidades do encontro de Netuno no céu com astros do nosso mapa natal. Netuno tem um ciclo em volta do zodíaco de 164 anos, ficando cerca de 14 anos em cada signo. Portanto, temos aqui processos lentos de dissolução que duram uns 5 anos. Tempo suficiente para cair nas armadilhas de nossas ilusões e depois sacrificá-las em nome de um desenvolvimento maior. É bom lembrar também que os trânsitos em geral e dos transaturninos em particular, terão formas diferentes segundo a idade e cultura em que se está vivendo.

Trânsitos de Netuno pelo Sol Natal
As coisas ficam bem confusas durante esses trânsitos, e não é raro que tudo a nossa volta perca o sentido sob o véu netuniano, pois percebemos que muitos dos sonhos que realizamos não trouxeram a felicidade que esperávamos. Isso pode gerar bastante depressão, principalmente porque, quando atua sobre nosso centro vital, Netuno costuma drenar nossa energia e nos vemos sem força para levantar da cama de manhã. Essa combinação de falta de energia e falta de esperança pode levar a muitas noites de insônia, e aí passamos o dia com vontade de dar uma cochilada. Essa inversão de dia e noite costuma nos deixar bem cansados, e um dos cuidados que é bom ter nesses períodos é exatamente com nosso sono, tentando não beber nem comer demais antes de dormir, tirar a TV do quarto, e outras atenções que garantam uma entrada suave aos reinos de Morpheu. Se seu trabalho possibilitar aquela siesta depois do almoço, com certeza isso ajudará também. Atuando sobre o Sol, Netuno faz com que nossos anseios profissionais, nossas relações amorosas e mesmo nossa vontade de viver fiquem nebulosos e muitas vezes decepcionantes, o que pode nos levar a um questionamento filosófico sobre quem somos e o que estamos fazendo aqui. Se a busca por respostas mais profundas estiver obstruída por idéias de ateísmo ou experiências familiares ruins com religião, fazendo com que a pessoa tenha objetivos de vida muito rígidos, a possibilidade de que essa seja uma época de sofrimento é maior. Uma das maneiras que normalmente as pessoas tentam fugir dessa desesperança é querendo preencher o vazio com coisas, e aí se compra um carro novo, se vai à busca um novo amor ou de um novo emprego só para constatar que o vazio continua. Podemos ficar vagando pela vida, nos sentindo como vítima enganada e traída pela vida, até o trânsito passar, e então perdemos a oportunidade de desenvolvimento oferecido. É perturbador se sentir um estranho e não saber direito quem se é, e Netuno costuma usar isso para nos obrigar a procurar mais profundamente essa identidade. Nenhum trânsito pretende nos destruir, e a melhor maneira de se lidar com Netuno é entendendo de que maneira fazemos parte de algo maior que as crenças pessoais que nos dão segurança em um mundo confuso.

Trânsitos de Netuno pela Lua Natal
Como a Lua representa nossa resposta emocional ao mundo, nossa capacidade de vínculo e busca de segurança afetiva, o mais comum que se relata do toque de Netuno nesse ponto de nosso mapa é o sentimento de vulnerabilidade emocional. Passamos por privações e perdas emocionais que aumentam nossa sensibilidade a respeito dos nossos vínculos afetivos, e é bem difícil constatar que não temos nenhum controle sobre a vida de quem amamos nem sobre o que sentimos. Nossa Lua sempre tem um pé na realidade e outro no inconsciente, e Netuno nos enreda em uma teia de ilusões quando entra em contato por trânsito com ela. Isso significa que podemos acreditar em novelas de TV e filmes de Hollywood como parâmetros de vida. Achar que a realidade envolve fantasias, rendas fantásticas, beleza sobrenatural ou sangue, violência e velocidade podem fazer com que nossa base fique instável e sem equilíbrio. A consciência emocional lunar é construída na infância, e com o trânsito netuniano podemos mudar muitas das coisas que nos impedem o caminho. Esses períodos são bons para elaborar as impressões, imagens e sentimentos de quando éramos crianças, pois muitos dos equívocos que carregamos têm suas origens nas fantasias que criamos quando pequenos. Outra coisa que se constata é que esses são períodos em que são comuns relacionamentos baseados em fantasias, onde nos envolvemos por inteiro com pessoas cujas motivações não conseguimos ver, e é quase palpável a nuvem de ilusão que há entre nós e o ser amado. Alguns ficam com muito medo disso, e acabam evitando qualquer tipo de envolvimento, e outros ainda acham que precisam se envolver apenas “espiritualmente”, evitando contato físico. Os trânsitos de Netuno por nossa Lua é um instrumento para mudar nossas respostas emocionais, e parece que ele não tem nenhuma preocupação a respeito do que você fará com o que ele está oferecendo. Independente das estratégias que adotarmos, o importante é conseguirmos entender que nosso amor pessoal fica muito mais rico e verdadeiro se fôr parte de algo maior que não temos controle.

Trânsitos de Netuno pelo Mercúrio Natal
Netuno traz ilusão, engano e inspiração para a esfera mental quando entra em contato com Mercúrio. A maneira como captamos informações do mundo e a maneira como as elaboramos e comunicamos são afetadas. Somos “arrastados” por novas idéias, pensamentos estranhos e começamos a nos dedicar a coisas que antes não tínhamos o menor interesse. Se estivermos fazendo algum tipo de estudo e/ou terapia de autoconsciência, onde se trabalhe o processo de individuação, esses trânsitos não costumam ter efeitos problemáticos, pois são naturalmente absorvidos. Já quem tem pouca familiaridade com essa busca interior pode ficar com medo por não reconhecer os próprios pensamentos e achar que está perdendo a estabilidade mental. É comum também que nossa memória fique com buracos, e passamos um tempão tentando lembrar o que estávamos procurando, ou esquecemo-nos de levar o que fomos ao mercado comprar, apagamos da cabeça o compromisso da hora do almoço e outras experiências semelhantes. É bom, então, começar a fazer listas de compras e deixar bilhetes para si mesmo sobre compromissos, além de olhar a agenda algumas vezes ao dia, para tentar minimizar esses efeitos. Para aproveitar a criatividade que também é trazida por Netuno ao nosso Mercúrio, é bem interessante ter momentos para usar essa desatenção da nossa mente para as informações externas e explorar mais a capacidade de penetrar em nossos reinos internos, anotando sonhos, lendo ficção, meditando, aprendendo a aplicar essa energia desnorteadora ao pensamento criativo e à investigação interna.

Trânsitos de Netuno pela Vênus Natal
A ocorrência mais comum durante esses trânsitos é que nos vejamos enredados em teias amorosas bem nebulosas. Nossa Vênus mostra os valores estéticos e o ideal de relacionamento amoroso que buscamos, e a nuvem de fantasia e inspiração que Netuno lança sobre esse aspecto da nossa personalidade pode fazer com que encontremos alguém que nos deixe deslumbrados em relação a estar amando, e vivemos uma experiência emocional ilusória e maravilhosa, porém muitas vezes impraticável. É comum sentir culpa com relação ao ser amado também, como se o outro pedisse que você o salvasse e você se sente muito mal de não conseguir atender ao pedido. Por conta dessa culpa, muitos amores Netuno/Vênus acabam em um compromisso mais fechado ou em um contrato de casamento que prove aos amantes que aquela experiência é especial. Porém, toda vez que se tenta agarrar a inspiração de Netuno com as mãos, ela irá escapar entre os dedos, e isso geralmente se transforma em desilusão e sofrimento. Esses trânsitos indicam a busca daquilo que está além dos domínios cotidianos, comuns. Nenhum problema em buscar um relacionamento amoroso especial que também inclua algum tipo de laço espiritual, mas esse pode ser um período em que amizades são valiosíssimas e trabalhos voluntários e comunitários podem trazer enorme prazer. O caminho contrário também pode acontecer, e a fantasia e sonho de um amor perfeito ficam tão grandes que todas as pessoas que aparecem pela frente se mostram insípidas e decepcionantes. Um pouco de bom senso e tentar ouvir o que as outras pessoas que nos conhecem estão dizendo podem ajudar muito nessas horas. Compromissos de longo prazo ou construir família com alguém desempregado ou que costuma beber demais ou tem crises de depressão semana sim, semana não, podem trazer muito sofrimento. Às vezes o parceiro precisa de tratamento e não de casamento. Apesar de não gostarmos de ouvir coisas desagradáveis sobre nosso novo amor, é bom escutar nossos amigos mais íntimos e confiáveis a respeito, pois podemos ter dicas preciosas sobre o que estamos vivendo de verdade. Alguém que precisa que provemos quanto a amamos provavelmente tem motivações que não conseguimos ver no momento.

Trânsitos de Netuno pelo Marte Natal
Como Marte traz nossa energia para agir no mundo e buscar aquilo que queremos, Netuno, com sua nuvem de ilusões pode nos deixar bem embaralhados quando age sobre esse ponto. Isso pode se traduzir tanto como uma perda da noção espacial, e ficamos nos batendo em todos os móveis da casa, como com uma sensação de não saber direito o que se quer. O mais comum é que sintamos uma perda de energia mais acentuada, e ficamos desorganizados e negligentes. Marte também está ligado à nossa energia sexual, e podemos ter muitas fantasias eróticas que passamos a querer experimentar ou que nos deixam com muito medo. Também pode acontecer das mulheres não terem vontade de se entregar aos companheiros e dos homens se sentirem impotentes, o que é bem angustiante de se viver. Netuno está a serviço da ampliação de nossos sentidos e sentimentos para desenvolver nossa capacidade amorosa, e isso quer dizer que precisamos examinar mais profundamente nossas motivações internas se queremos maior satisfação externa. Nossas crenças e fantasias a respeito do que queremos fazer de nossas vidas, do que é potência, de como agimos no mundo serão ampliadas através das emoções e fantasias netunianas. Perdemos muitas das barreiras prudentemente levantadas para civilizar nosso Marte, e isso significa tanto a possibilidade de superar os bloqueios para sua expressão verdadeira quanto tentar fugir das dificuldades através de promiscuidade. Durante os trânsitos de Netuno sobre nosso Marte podemos entender que a monotonia, a promiscuidade ou o verdadeiro encontro experimentado através da sexualidade depende de nossa motivação interna e que, portanto o sexo pode ser aquilo que queremos que seja. Quando conseguimos incorporar as inspirações netunianas de amor e compaixão em nossas ações marcianas pessoais, podemos também experimentar uma troca mais ampla na interação com o outro.

Trânsitos de Netuno pelo Júpiter Natal
O Júpiter natal mostra o prazer de nos abrirmos e aprendermos com a vida, além da alegria em poder compartilhar o que descobrimos pelo caminho, e Netuno irá exercer uma influência sutil para que nosso horizonte se expanda mais ainda e inclua outras dimensões. Isso pode ser inspirador e fantástico, mas também bastante nebuloso e ilusório. De qualquer maneira, essas épocas costumam ser muito boas para nos abrirmos. Como nenhum dos dois planetas entendem muito bem o sentido de discriminação, problemas ao se procurar cada vez mais até se ter mais que o bastante costumam acontecer. Júpiter é tradicionalmente associado a tumores, com suas células que crescem mais rápido do que deveriam, e também a disfunções glandulares, e Netuno costuma obscurecer e encobrir a realidade, o que faz valer a pena buscar algum tipo de cuidado preventivo para nossa saúde. Tudo que está muito rígido é dissolvido pelo toque de Netuno e ficamos tentados a chutar o balde dos cuidados mais pesados que nos obrigamos a cumprir. O equilíbrio é difícil nessas épocas, mas, se possível, seria bom tentar não comer tanta bobagem todo dia, ou beber até cair no fim de semana. Netuno estará testando a verdade de nossa filosofia de vida pessoal para que nossa consciência inclua os espaços vazios que criam a experiência do divino. Se tentamos ocupar esse espaço com comida, bebida, atividade ou qualquer outra coisa, vamos ter dificuldades. Netuno mostra as ilusões de nossas buscas de significado para a vida, nossa incapacidade de entender ou abarcar o todo, e se não nos curvamos a isso e insistirmos quem vai sofrer será nosso corpo. Quando conseguimos acalmar essa ânsia jupiteriana para experimentar mais profundamente a inspiração de Netuno, será possível entrar na sintonia do momento presente, sentir todo o Universo em um grão de areia e todo o tempo em um segundo.

Trânsitos de Netuno pelo Saturno Natal
Um dos objetivos do Saturno natal é construir nossa estrutura no mundo através da nossa verdade interna, o que precisa ser feito com consciência e cuidado. Saturno utiliza nossa falta de auto estima real e nosso medo para nos obrigar a isso, e quando Netuno entra em contato com ele toda a estrutura feita em nome apenas da segurança e da aceitação externa é dissolvida. Isso significa que muitos dos nossos bloqueios e restrições podem ser superados. Como temos uma tendência natural a encarar o mundo com prudência através de nosso Saturno, a nuvem de ilusões e fantasias netunianas não tem o peso que costuma ter quando em contato com outras faces da nossa personalidade. A inspiração de compaixão de Netuno possibilita um olhar mais amoroso para nossos esforços saturninos, e conseguimos ver o valor do que já conquistamos, da seriedade com que encaramos a área saturnina de nossas vidas, e muitas vezes conseguimos deslumbrar o valor coletivo que há por traz de nossas ambições mais mundanas. Nossa autovalorização pode, assim, ganhar uma base mais profunda e significativa, o que gera maior liberdade para assumir a responsabilidade da própria existência. Como nosso Saturno se torna consciente principalmente através das figuras de autoridade que conhecemos na vida e projeta a figura de autoridade que seremos, muitas vezes Netuno irá inspirar sentimentos de rebeldia de maneira bem sutil. Um adolescente que atravessa um trânsito desses terá maior permissão interna – e muitas vezes incentivo externo da turma – para desobedecer os pais e fazer coisas que a família proíbe, o que merece investigação por parte dos pais. Mas é comum também que marmanjos resolvam se entregar a atividades que iriam desagradar aos pais sem nem ao menos se dar conta de que aquilo é apenas um ato de rebeldia inconsciente. Na verdade Netuno busca o desenvolvimento de valores mais profundos e verdadeiros, e para isso precisa que tomemos consciência de quanto de nossa vida ainda é comandado pelas leis e influências familiares inconscientes, pelos deveres externos que temos medo de não conseguir cumprir. Mudanças internas profundas acontecem nesse processo e podemos nos surpreender interessados em fazer coisas que nunca tentamos antes e nos sentindo capazes de lidar com coisas impossíveis antes do trânsito. Nossos medos parecem evaporar o tempo suficiente para começarmos um caminho diferente, e aí vemos que podemos, e vamos muito mais longe.

Trânsitos de Netuno pelo Urano Natal
Urano e Plutão falam de nossa geração e por isso os trânsitos de Netuno por eles afetam todos aqueles com mais ou menos a nossa idade. Por isso, observar o que está ocorrendo em nosso entorno pode dar boas dicas do que está ocorrendo em nós quando se trata desse tipo de trânsito. Urano tem a marca da ideologia desenvolvida por nossa geração, e Netuno irá envolver isso com sua nuvem de fantasia e ilusão para torná-la mais flexível incorporando sentimentos compassivos e de acordo com uma consciência maior. As excentricidades e obstinações que ainda conservamos do passado podem representar obstáculos para nossa entrega maior à vida, e será aí que Netuno irá atuar dissolvendo as razões que justificavam esse tipo de comportamento. Idéias que antes utilizávamos para nortear nossa vida perdem o sentido e podemos nos sentir possuídos por sentimentos bem intensos que mudam o olhar que tínhamos para nós e para aqueles com que nos identificávamos. Pessoas muito diferentes das que estávamos acostumadas a conviver podem aparecer, trazendo outros parâmetros de existência para nós. É comum também entrarmos em contato com filosofias, religiões e terapias que ampliam nossa capacidade de compreensão do que é o ser humano e de como desenvolver esse potencial. Esses são períodos em que também ficamos muito conscientes de como nosso comportamento afeta os outros e/ou o planeta, o que pode significar uma mudança significativa em nossa maneira de agir. Esses são tempos muito ricos para se compartilhar experiências em grupo, pois quando os transaturninos no céu visitam os transaturninos de nosso mapa, nossa geração tem a possibilidade de fazer um salto quântico coletivo.

Trânsitos de Netuno pelo Plutão Natal
Como Plutão atua através da motivação inconsciente e Netuno faz o inconsciente transbordar, podemos sentir nossa geração tendo que lidar com questões emocionalmente difíceis durante esses períodos. As formas como nossa geração foi educada para reagir às experiências de vida e morte, as emoções que aprendemos a controlar por serem “erradas”, e também os comportamentos que foram castrados e se expressam através de manipulações emocionais começam a escapar do inconsciente de modo a podermos senti-los e vermos uma maneira melhor de se lidar com essas questões. Netuno dissolve a maioria das nossas necessidades de controle plutoniano e assim podemos compreender melhor nossas angustias internas e abandonar o que não possui mais utilidade. Assim podemos ficar mais generosos conosco e com os outros, pois entendemos que não é possível obrigar alguém a nos amar, e aquilo que conseguimos através de manipulações ou chantagens não tem um valor real. O encontro de Netuno com o Plutão de nossa geração pode trazer muita inspiração para entender e modificar os valores que recebemos em nossa formação, ajudando no processo de crescimento da geração seguinte que educamos. Claro que se vivemos um trânsito desses sendo muito jovens teremos que incorporar esse aprendizado em nossa formação, mas, se temos mais anos de estrada, conversar com os amigos de mais ou menos a mesma idade pode ajudar a tomarmos consciência dos medos e proibições que guardamos inconscientemente, e fazer uma boa limpeza no porão. Certamente poderemos andar com muito mais leveza depois.