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domingo, 7 de setembro de 2008

Quiron: A Visita do Sábio

Como já falei de Mercúrio quando tratei de Gêmeos, aqui vou expôr um pouco sobre Quiron, esse astro que chegou ao nosso sistema solar trazendo novidades do espaço exterior para astrônomos e astrólogos.
No dia 1 de novembro de 1977 o astrônomo americano Charles Kowal descobriu na constelação de Touro, entre Saturno e Urano, um pequeno corpo celeste muito brilhante e de cor avermelhada que recebeu o nome de Quiron. Primeiro os astrônomos o classificaram como asteróide, mas nos anos 80 descobriram que Quiron possuía uma névoa de gás ao seu redor e passaram a considerá-lo um cometa capturado. Mais tarde, com as observações do telescópio Hubble, verificaram que essa névoa de gás de Quiron estava firmemente preso a ele e não era empurrada para trás quando o corpo celeste se aproximava do Sol, como ocorria com os cometas. Além disso, Quiron era muito maior que um cometa comum, com cerca de 160 km de diâmetro (o cometa Harlley tem cerca de 10 km de diâmetro atualmente, para se ter uma idéia), e então criaram uma nova categoria de corpo celeste, os asteróide-centauros, que já possui cerca de 29 corpos registrados. Esse recém chegado também possui uma órbita bem excêntrica, se aproximando ora de Saturno, ora de Urano, em uma revolução em torno do Sol de aproximadamente 50 anos. Muitos astrônomos e astrólogos consideram Quiron um “visitante”, que não pertence realmente ao nosso sistema solar e um dia irá nos deixar como um cometa. Mas enquanto isso não ocorre, astrólogos estão constando influências muito interessantes desse asteroide-centauro nos mapas astrais.
Desde o avistamento de Urano constatamos que a descoberta de um novo astro está associado a alguma mudança na consciência humana. Como se trata de algo que surge do inconsciente e Quiron leva 50 anos para completar sua volta pelo zodíaco, ainda levará algum tempo para termos uma compreensão mais completa do seu real significado, mas observando o que estava acontecendo durante o fim dos anos 70 podemos começar a pensar a respeito. Em 1978 nasce o primeiro bebê de proveta, Louise Brown, e o vírus SV40 tem seu genoma determinado, começando a caçada atrás do genoma humano. A maioria dos astrólogos associam a chegada de Quiron ao desenvolvimento das terapias alternativas, da medicina natural e da visão holística da saúde com bases empíricas e científicas, diferente da visão holística do Renascimento, que o fazia sob uma base mais filosófica e mística. Isso mostra que Quiron nos trouxe uma necessidade de maior compreensão a respeito do que é o Ser Humano, penetrando em suas estruturas mais básicas.
A primeira questão que surge é a respeito de qual signo regeria o novo astro. Devido sua forma de centauro e sua condição de mestre, muitos associam Quiron a Sagitário, mas Júpiter ainda parece muito mais apropriado à natureza expansionista do mutável de fogo. Já vi argumentos ligando Quiron a Touro, por sua conexão com a natureza corpórea e instintiva, mas acho muito difícil ver na busca por prazer taurino, tão bem representado por Vênus, a dor e sofrimento de Quiron. E há aqueles que associam Quiron a Virgem, entre os quais tendo a me incluir. Além da associação mais imediata entre Quiron, a saúde e a sabedoria prática, o fato central que parece ligar o astro no mapa astral, a mitologia e a nova consciência que surge é a ferida criada por uma cisão entre nossa natureza corpórea e nossa busca por expressão divina, que também faz parte do processo de Virgem. Polêmicas à parte, para se saber algo sobre Quiron precisamos nos voltar para a mitologia tentando descobrir suas características arquetípicas, para então deduzir seus efeitos na astrologia e na carta natal.
Do grego Kheíron, seu nome significa “que trabalha ou age com as mãos”, que era a maneira como eram conhecidos os cirurgiões, e esse centauro era aclamado pelos poetas principalmente por sua capacidade médica. Filho de Cronos (Saturno) e de Fílira, uma das filhas de Oceano, Quiron é concebido quando o Titã assume a forma de um cavalo para se unir com a oceânida, e por isso a criança nasce com essa dupla natureza, metade humana, metade eqüina. Ao dar à luz, Fílira fica tão perturbada que roga aos deuses que a livrassem da responsabilidade pelo filho de qualquer maneira; e eles a atenderam levando a criança e transformando-a num limoeiro ou em uma tília, segundo outras versões. Educado pelos deuses, Quiron vivia em uma gruta, no monte Pélion, e se torna uma espécie de gênio benfazejo, amigo de deuses e homens. Sábio e mestre, ensinava música, mântica, arte da guerra e da caça, moral e, sobre tudo, medicina aos seus discípulos, sendo que todos os heróis, como Teseu, Jasão, Hércules e Asclépio, passaram por suas mãos. Ele sempre foi considerado um médico ferido - pela estranheza de sua forma, pela rejeição de sua mãe -, que compreendia seus pacientes por conhecer sua própria ferida. Mas é quando Hércules, sem querer, fere seu pé, que seu mito ganha a dimensão trágica que o caracteriza. Quando do massacre dos centauros feito pelo filho de Alcmea, Quiron acaba sendo ferido por uma flecha envenenada pelo sangue da Hidra, e, por mais que o centauro aplicasse ungüentos e tentasse utilizar seu conhecimento para se curar, a ferida se mostra incurável. Recolhido à sua gruta, ele deseja morrer, mas nem isso consegue, por ser imortal. Cheio de dor, Quiron roga aos deuses pela benção da morte, e eles concordam com que Prometeu, que nascera mortal e estava amarrado à uma pedra tendo seu fígado comido por ter dado o fogo aos Homens, fosse solto por Hércules e cedesse a sua mortalidade ao centauro, e assim ele pode finalmente descansar.
A primeira coisa que podemos tentar associar ao posicionamento de Quiron na carta natal, é uma maior sensibilidade à rejeição, onde fomos feridos ou machucados de alguma forma e que, através dessa experiência, obtemos uma sensibilidade à dor e um autoconhecimento que nos capacita a entender e ajudar os outros. Outra observação imediata é a respeito da dupla natureza de Quiron, metade humana, metade animal, que provoca estranheza e é a razão da perturbação materna. Simbolicamente todos nós possuímos esse conflito, entre uma natureza animal, física e instintiva - que fica doente, que tem necessidade básicas quotidianas, que tem raivas e paixões - e uma natureza humana ou divina, que se preocupa com a existência mais abstrata, que caminha pelas idéias e pela imaginação, que não se prende a espaço e tempo. Quiron pode estar mostrando, nesse sentido, onde a consciência de estar num corpo físico distinto, portanto com uma consciência separada da unidade total com a vida, pode ser conflituosa; ou seja, onde os desejos e anseios do nosso corpo terrestre e os impulsos da alma se encontram na forma de angústia. Em um livro sobre a formação do terapeuta - Poder e a Ajuda Profissional -, Adolf Craig afirma “que o paciente tem um médico dentro dele mesmo, mas (...) também o médico tem um paciente dentro de si”. Essa parece ser a melhor linha de raciocínio para a compreensão do Quiron na carta astral, onde ele é símbolo do curador que está em contato com a própria dor e fraqueza, e por isso é capaz de ajudar seus pacientes ao direcioná-los para o curador que existe dentro deles. Nas primeiras pesquisas sobre o novo planeta, muitas vezes ele foi encontrado com destaque em mapas de terapeutas e também em pessoas incapacitadas fisicamente que acabaram direcionando suas vidas para ajudar outras pessoas a superar as próprias limitações.
Outra característica do mítico centauro Quiron é a sua função de mestre formador dos heróis, não só quanto às habilidades práticas, mas também quanto à formação religiosa ou moral, ou seja ele era também um educador da alma. Isso nos faz pensar que uma das função do Quiron astrológico é de iniciador, fazendo nos passar por uma série de ritos que, assim como o futuro herói, fazem com que se adquira a indumentária espiritual necessária para poder enfrentar todos os monstros e criaturas que surgirão pelo caminho. Mitólogos como Junito de Souza Bradão, Joseph Campbell e Micea Eliade vêm nas histórias heróicas os reflexos dessa iniciação, onde temos coisas como o corte de cabelo, a mudança de nome, o mergulho ritual no mar, a passagem pela água e pelo fogo, a descida ao Hades e o penetrar no Labirinto, a hierogamia como alguns exemplos. Lembramos, então, que Quiron é um transaturnino, portanto um planeta que traz informações do inconsciente coletivo e nos mostra algo que vai além das ilusões individuais. Liz Greene observou que as crises e dificuldades da casa onde se encontra Quiron parecem estar totalmente fora do controle do indivíduo, e as mudanças que ocorrem em seus trânsitos e progressões acabam por expandir a consciência da pessoa que se encontra sob sua ação. Crise, para os chineses, é traduzida como uma combinação de perigo com oportunidade, pois envolve tanto elementos desconhecidos quanto a possibilidade de crescimento. A doença parece ser o fator mais freqüente nas crises regidas por Quiron, e geralmente o tipo de doença que pede uma compreensão profunda de suas origens e significados. É comum também crises religiosas e espirituais, e já se observou que algumas vezes Quiron está associado à morte dos pais. Essas coisas parecem estar ligadas diretamente à face de iniciador de Quiron. Nas iniciações sempre se perde algo - o cabelo, o nome de nascimento - e se é obrigado a enfrentar o medo - entrando no Labirinto ou indo ao Hades, mergulhando no mar ou atravessando o fogo - como formas de se adquirir uma nova personalidade capaz de enfrentar os perigos do caminho. Essa perspectiva simbólica mostra que os acontecimentos exteriores são mais reflexos de profundas transformações interiores do que causas, mas só podemos realmente compreendê-las quando a vivemos através de um acontecimento externo que transforma o padrão de vida. Quiron nos capacita a encontrar significado em nossas dores e sofrimentos de modo a nos tornarmos mais sábios, pois sentimos que há um profundo significado que precisamos entender para continuar caminhando. Com Quiron, porém, mesmo com esse aumento de consciência, a ferida, o buraco existencial que penetramos, não se fecha, e de tempos em tempos dói novamente e nos obriga a novo mergulho em nós mesmos. Esse processo de penetrar na nossa dor nos torna mais sensíveis à dor do outro, e desenvolvemos a verdadeira compaixão - que não tem nada a ver com pena - e podemos realmente ajudar o nosso próximo que sofre.
Certa vez li que o contrário de Morte não é Vida, é Nascimento: nascer e morrer fazem parte da Vida. Acredito que Quiron vem nos ensinar a vivenciar esses opostos sem julgamentos de valor, e isso pode nos ajudar a sair de uma existência dual em conflito para uma totalidade amorosa. Esse é o caminho para a Iluminação que anunciam os budistas, e talvez Quiron esteja nos fazendo trilhar o caminho do Bodisathiva, que fez o voto de, mesmo se iluminando, não entrar no Nirvana enquanto todos os seres não se iluminarem também, pois em sua Compaixão faz do sofrimento de todos os seres seu próprio sofrimento. Afinal, hoje sabemos que habitamos todos o mesmo planeta, e ou nos salvamos todos, ou nossa espécie pode ser extinta.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Astrologia de Boteco Com Teto Solar: Encontre a Casa Onde Mora Seu Sol e Descubra Onde Está Sua Vida Heróica

Como a cada mês tenho falado de um dos signos de maneira um pouco mais profunda, nesse papo de boteco vou experimentar falar do posicionamento desse astro por casa astrológica. A casa em que se encontra o Sol indica onde temos mais necessidade de nos distinguirmos e em que área da vida precisamos nos separar dos comportamentos condicionados através da construção de nossa própria identidade. A expressão única do Sol dependerá, também, dos aspectos que tem com os outros planetas, com o ascendente e com o MC, o que deve ser levado em conta quando vamos tentar entender mais sobre nossa conexão solar.

Sol no Ascendente
Quando o Sol está no ascendente, o ambiente da primeira infância geralmente é sentido como dando apoio aos desejos da pessoa, de forma que ela consegue expressar sua individualidade de maneira expontânea. Há um forte impulso para ser notado, respeitado e reconhecido pelos outros, além da tendência a se colocar como líder. É essencial que se assuma a responsabilidade de revelar seu proprio caminho na vida, determinando de forma clara o que deseja obter e perseguir essa visão com persistência e determinação. Esse posicionamento dá grande carisma - é como se tivesse o Sol na testa - criando um temperamento animado e com grande vitalidade física, se não houver nenhum aspecto muito tenso. O desenvolvimento desse Sol geralmente passa por perseguir o sucesso pessoal, mas o principal desafio será cruzar o abismo entre os sonhos infantis de ser especial e importante e o nível real das verdadeiras realizações, onde se é único e importante pela contribuição criativa que se dá ao mundo. Como simbolicamente o ascendente mostra a maneira como o nosso heroi é "treinado" pela vida, se o signo do Sol e do Ascendente forem os mesmos, esse treino é mais natural e direto, mas se os signos são diferentes, o heroi tem que aprender a utilizar as armas dadas pelo Ascendente para expressar sua individualidade, o que irá exigir mais consciência e trabalho (certo, Léo?).

Sol na Casa II
As questões materiais serão predominantes e a segurança financeira será uma forma de definir a identidade e um canal para a auto-expressão. Porém, a transferência das necessidades de expressão para bens materiais nunca é plenamente satisfatória e a pessoa acaba tendo que buscar a riqueza interior, que pode ser refletida através de suas qualidades, talentos e habilidades pessoais. Será através da utilização consciente desses recursos internos que ela poderá desenvolver um senso de identidade única e atrair os recursos materiais necessários para a realização de seus talentos. É necessário um esforço consciente para definir as verdadeiras necessidades e valores para que comece a se sentir menos inseguro e pare de ficar “inventariando” o que tem, e passe a estabelecer alvos e desejos verdadeiros a serem realizados, empregando todos os recursos, externos e internos, para atingi-los. Para isso é necessário construir uma auto-afirmação genuína, sem se desviar dos esforços de desenvolvimento pessoal, seja através do apoio nos recursos dos outros, seja utilizando a riqueza para exercer domínio sobre as pessoas e garantir a presença da platéia.

Sol na Casa III
Os potenciais desse Sol são revelados através do desenvolvimento mental, intelectual e da habilidade para se comunicar. O prazer e o estímulo para ser único virá da troca de idéias, criando preciosas perspectivas pessoais. É necessário um empenho e uma responsabilidade pessoal para que o potencial de clareza e eloqüência intelectuais se desenvolvam e a pessoa consiga iluminar conscientemente suas relações e comunicações pessoais. A mente das pessoas com esse posicionamento de Sol tende a manifestar uma atitude científica, voltada à exploração do mundo, embora haja uma necessidade interna, nem sempre compreendida, de se estar entendendo os processos de funcionamento da vida como um todo. O amadurecimento desse Sol requer abertura para a variedade de expressões individuais e o compartilhar daquilo que sente e sabe, seja através de informações, de conhecimento ou de compressões, de si e do mundo, pois isso será importante não só para a própria pessoa, que ficará mais consciente de si mesmo e evitará as armadilhas da arrogância intelectual que paralisa o crescimento, como também para as outras pessoas, que aprenderão e crescerão com essa troca.

Sol na Casa IV
A procura da própria identidade passa pelas raízes, pelas heranças familiares, os padrões ancestrais e a vida em família. É exigido da pessoa uma iluminação consciente das raízes criativas através da investigação e integração interiores. O Sol no Fundo do Céu precisa se diferenciar e afirmar no meio dos fortes condicionamentos infantis e das poderosas tradições familiares, de modo que ela consiga criar um espaço para fincar suas próprias raízes, únicas e luminosas, de modo livre e sem culpa. Com esse posicionamento há uma enorme necessidade de vida familiar, e o desafio é criar independência para adquirir uma percepção do sentido e propósito da vida, do contrário as mudanças na composição familiar e nos relacionamentos entre os membros da família - como filhos que crescem, pais que morrem, irmãos que casam - desestruturam toda a consciência da pessoa. Quando se consegue libertar dos primeiros condicionamentos ou se encontra um caminho que obrigue a redefinir seu senso identidade, então a pessoa passa a olhar para as suas raízes verdadeiras - fruto da existência de todos os seus ancestrais mas com características que só ele pode dar - e é possível olhar para as bases da infância como o que realmente são: o berço de onde viemos com o objetivo de construirmos uma vida adulta bem sucedida e para permitir que a individualidade se desenvolva. Quando essa consciência se forma, então se para de gastar energia para seguir o caminho socialmente aceito ou planejado pela família e se vai em busca do prazer do próprio caminho.

Sol na Casa V
Aqui o Sol está “em casa”, e a busca pelo prazer e pelo romance é que o faz se desenvolver. A criatividade artística - sob forma intelectual, emocional ou material - são importantes para a auto-expressão e também um canal das energias desse Sol. Esse tipo de posicionamento solar cria emoções ardentes, intensidade e alegria de viver. É importante que a pessoa se sinta criativa em qualquer coisa a qual se dedique, pois isso é que lhe dará uma auto imagem positiva e um papel social que realmente influenciará o mundo, através de suas ações e também de seu entusiasmo. A motivação básica, que faz a pessoa empreender sua aventura, é a busca de satisfação pessoal. Como acaba se sobressaindo por puro entusiasmo, corre o risco de criar personagens que “agradam ao público” e terá que enfrentar o perigo de perder sua totalidade para os seus aspectos mais aceitáveis. Sendo a possibilidade de desenvolver a totalidade que lhe dá tanto amor à vida e carisma, esconder alguns aspectos da consciência traz conflitos e insatisfação, apagando o entusiasmo e afastando a platéia, obrigando a ser mais reflexivo em suas ações. Existe uma eterna criança brincalhona com o Sol na V, que deve aprender a ser livre e participar inteira da vida.

Sol na Casa VI
A direção na vida e o senso de realização podem ser descobertos através do envolvimento com o trabalho, a saúde e o serviço, e se dedicar a essas áreas ajudará na definição de seu senso de identidade única, pois proporcionará canais para uma expressão pessoal. O desenvolvimento de rotinas e padrões de organização poderão proporcionar uma estruturação positiva e produtiva na vida. As questões psicossomáticas serão ricas fontes de informação para o auto conhecimento, pois a vitalidade estará fortemente ligada à integração corpo-espírito, e a pessoa tem que aprender , mais cedo ou mais tarde, a respeitar o veículo físico de sua existência. O Sol na VI faz com que a pessoa busque desenvolver suas habilidades e competência de modo a ocupar um lugar ativo no mercado de trabalho e, assim, ter um sentido de valor pessoal e de distinção. Como todo Sol, porém, o objetivo desse não é fazer os outros aplaudirem e sim criar luz própria, consciência de si, e aqui o resultado final deverá ser o aprendizado da arte de viver um dia após o outro, o que poderá ser feito com tanto gosto e sutileza que causará admiração. Como diz o ditado zen, “antes da iluminação, carregue água; depois da iluminação, carregue água”, e esse é um aprendizado importante para essa localização solar.

Sol na Casa VII
Esse Sol irá se desenvolver através dos relacionamentos, das associações e das parcerias, amorosas ou sociais. Participar de atividades conjuntas trará canais de expressão para a autodefinição de modo mais claro. O processo desse Sol geralmente se inicia com o encontro de alguém que serve de modelo para a própria modelagem. Posteriormente a pessoa acrescentará as forças e qualidades inatas através de sua participação ativa na interação social. Há o perigo da pessoa evitar o próprio desenvolvimento se escondendo atrás da identidade de outra pessoa, procurando alguém grande e forte que lhe diga o que deve fazer de sua vida, como uma tentativa de viver o princípio solar através do outro. Mas como essa tática se mostra sempre improdutiva e decepcionante, não consegue sobreviver muito tempo, e a pessoa acaba tendo que assumir as suas responsabilidades e enfrentar seus próprios desafios na construção dos relacionamentos. Aí sim, a pessoa vai aprender a ser única com a ajuda do outro, o que fará com que todos que a ele se associem fiquem maiores e mais bonitos também.

Sol na Casa VIII
Os relacionamentos que expõem paixões ocultas e esbarram em emoções primárias não resolvidas fazem parte do processo desse Sol crescer e se desenvolver. A oitava casa cria um grande interesse por tudo que está oculto ou é misterioso na vida, e o Sol aí tem que aprender a mexer em casa de marimbondo. A vida se mostra de forma intensa para esse Sol, e às vezes ele pode temer as percepções e sentimentos que o transpassam, fazendo-o resistir a uma intimidade mais profunda com a vida e rejeitar o próprio potencial de transformação. Aqui é necessário que se desenvolva coragem para explorar os próprios objetivos da vida, então as tensões se dissolverão através da auto-expressão consciente, e os relacionamentos deixam de ser um campo de batalhas para se tornar a base para o crescimento e para o prazer, já que a necessidade de união se transforma em intensificação positiva da vida. Para que esse Sol brilhe é necessário que a pessoa crie consciência da ânsia humana de nos reunirmos a algo maior que nós mesmos através do amor por outro ser humano e, com esse objetivo, ele aprenderá a se expandir e transcender seus limites emocionais que criam o separatismo e isolamento que o desvitaliza.

Sol na Casa IX
Ao aumentar a compreensão e a perspectiva da vida - seja através de viagens, leituras ou pesquisas filosóficas - esse Sol se vitaliza e potencializa. A jornada do Sol nessa casa atravessa diferentes grupos, religiões, filosofias e estudos para criar uma visão pessoal da verdade que, ao ser compartilhada com os outros, criará seu senso de identidade e sua distinção como ser único. É através da descoberta dos padrões básicos da vida que esse Sol ganhará inspiração e incorporará sua própria sabedoria. Mas tudo que esse Sol aprender em seu caminho tem que arrumar expressão para ser compartilhado, pois também será útil para os outros e só terá significado real se puder ser passado para frente. O grande aprendizado aqui é no sentido de conseguir trazer os grandes significados da vida para a realidade do aqui-agora, para que as descobertas feitas nos aspectos mais abstratos da vida possam orientar seus compromissos pessoais e iluminar a vida mais mundana.

Sol no Meio do Céu (Casa X)
O foco da identidade se volta para a carreira, as conquistas profissionais e o status social. O Sol aqui expressa seus potenciais na busca do reconhecimento de suas habilidades únicas. Existe muita pressa em ser admirado como alguém, criando impulsos ambiciosos que levam a pessoa a querer realizar seu propósito de vida rapidamente. Na luta para concretizar suas ambições, esse Sol acaba desenvolvendo auto disciplina, perseverança e habilidade de concentrar sua vontade e sua energia para atingir certo grau de realização e admiração. O ideal desse Sol é tornar a pessoa centrada, expressando suas forças e qualidades de modo direcionado, pois isso é que pode torná-la fonte de inspiração e de autoridade. Essa inspiração interna pode ser facilmente confundida com uma simples posição de destaque, que reluz como se fosse o resumo de um sonho, mas que é apenas ilusão, verdadeiro “ouro de tolo". Quando esse desvio é tomado, e o sentido de identidade ou de valor pessoal se prende demais a títulos ou posições sociais, a vida da pessoa se torna limitada e a desvitaliza, fazendo-a perder o sentido da vida se essas coisas lhe são tiradas. Em algum momento da vida esse Sol fará com que a pessoa perceba que seu poder vem dela mesma e não da necessidade que tem da admiração dos outros.

Sol na Casa XI
Aqui o Sol se desenvolve na participação do grupo, na busca contínua de progresso social e cultural. A consciência se volta para a interação entre individual e coletivo, criando grande sensibilidade aos sofrimentos injustos de homens, animais e da natureza. Isso faz com que a criatividade, com o tempo, acabe se vinculando à consciência pública e às soluções alternativas dos conflitos do grupo. As amizades têm grande importância para o desenvolvimento da personalidade e os esforços para construir a própria identidade estarão vinculados às suas aspirações e metas coletivas. É importante que as pessoas com esse posicionamento solar façam um esforço consciente para estabelecer metas praticáveis quando se sentem inspiradas, pois será nesse esforço para a realização concreta que formarão um sentido de identidade, propósito e poder. O mais importante ingrediente para a própria realização e a própria cura é ter uma razão para viver, criando uma função pessoal e interiormente ditada. Esse Sol se alimenta com a esperança que tem na transformação social e na capacidade que temos de viver juntos de maneira harmônica, e tem que viver essa transformação internamente para poder mostrar como se faz.

Sol na Casa XII
Há um paradoxo nesse posicionamento, pois o Sol estabelece, esclarece e desenvolve uma identidade separada e única e a casa XII trabalha no sentido de dissolver, desestruturar e subverter as fronteiras individuais. Aqui há um conflito que requer da pessoa o desenvolvimento do sentido de identidade para além da conscientização normal: o ego e a vontade tem que desempenhar seu papel de servidor da alma. Na jornada heróica da casa XII a pessoa tem que aprender a manejar o limite sutil entre o que é pessoal, individual e consciente, e o que é universal, coletivo e inconsciente, e isso significa ter que gastar muito tempo consigo mesmo. Enquanto na casa IV o inconsciente é revelado através da família e na casa VIII através da intimidade com o outro (as outras duas casas em que o Sol tem que mergulhar em águas inconcientes), na casa XII a pessoa tem que se conscientizar sozinho. Durante o processo de formação do ego, há uma luta feroz para impedir a entrada de qualquer coisa mais vaga, irracional, mística ou transpessoal. Mas, quando chega a noite, tudo o que foi afastado da consciência invade os espaços, e geralmente sob formas assustadoras. O resultado disso costuma tomar a forma de conflitos de identidade, doenças e um estranho e dolorido sentimento de ser rejeitado, o que acaba levando a pessoa ao isolamento e à voltar sua atenção ao que ocorre em seu interior. Só quando se aceita conscientemente as correntes inconscientes, buscando uma expressão criativa para essas forças, será possível a esse Sol a sua realização, que implica uma coabitação entre o pessoal e o universal e uma profunda amizade entre o herói e seu Deus.

sábado, 2 de agosto de 2008

O Caminho do Sol

A primeira postagem desse blog foi sobre o Sol, introduzindo a visão daquilo que pretendia falar aqui. A astrologia que faço busca exatamente o caminho para desenvolvimento do Sol, pois é lá que encontraremos nossa Luz e nossa capacidade amorosa mais profunda. Agora vamos tentar entender mais desse astro que, em seu caminhar anual, nos trás as estações do ano, os tempos de recolhimento e de exposição, organizando o calendário de nosso planeta. Esse mês ele está "em casa", iluminando a área de nossa vida em que temos o signo de Leão e, portanto, onde também estamos aprendendo a sermos nós mesmos.
O Sol ocupa 99,8% do nosso sistema, e mostra, na astrologia, nossa essência básica. Quando agimos de modo solar, estamos em harmonia conosco internamente. A palavra “sol” deriva do latim “solus”, que significa o Único, e a sua posição, por signo e casa, nos mostra como nos sentimos únicos e centro de nós mesmos. Uma das mais antigas representações do Sol é a da realeza, e o rei era tido como a incorporação terrena da divindade, ou seja, seu papel de governante era exercido juntamente com o papel de pontífice, o “construtor de pontes”, que fazia a mediação entre o céu e a terra. Enquanto o ascendente nos fala da forma que tomamos no mundo, da porta de entrada na nossa casa, o Sol dirá o que encontraremos lá dentro, portanto não é o que reconhecemos quando conhecemos alguém superficialmente. O ascendente, nesse sentido, é como um guia que nos acompanha em nossa jornada pela vida e nos leva a aprender certas lições e assimilar certos atributos que nos auxiliarão a nos tornarmos aquilo que é representado pelo Sol. Podemos dizer que o ascendente é o caminho onde encontraremos mais perspectivas e onde somos treinados a partir daquilo que encontramos na vida. Já o Sol nos mostrará quem trilha esse caminho, o herói que estamos tentando nos tornar. Os potenciais, as dificuldades, os dilemas e as experiências do Sol são dados pelo signo em que ele se encontra, e, conforme o tempo passa e ocorrem as transformações fisiológicas e psicológicas que as idades trazem, nos tornamos mais integrados ao signo solar.
Como vimos, a Lua simboliza uma dimensão inata e instintiva da personalidade, que tem como meta consciente o desenvolvimento de objetivos no mundo que garantam a segurança e a auto preservação, possuindo uma natureza regressiva que nos atrai para o passado e para o vínculo mãe-filho - já que nossas necessidades emocionais e corporais básicas não se alteram em sua essência. Em contraposição, o Sol simboliza nossa dimensão progressiva, sendo o princípio ativo e dinâmico que se desenvolve ao longo da existência sem nunca acabar de se desenvolver. Esse é o aspecto da personalidade que está sempre em processo de vir a ser, de rumar para um futuro. O herói sempre está representando um mito solar, pois sempre está prestes a se tornar algo. Não se nasce automaticamente herói; é preciso passar pelo processo de transformação para se tornar rei e também um veículo adequado para os deuses que são seus verdadeiros pais.
A primeira característica que encontramos no herói, portanto, é que ele é um “híbrido” de deus e mortal, o que sinaliza seu destino de pontífice. Na infância o herói não conhece sua verdadeira filiação, e acha que é igual aos outros, apesar de uma estranha sensação de ser diferente e da intuição de que um destino também diferente o aguarda. Um dos principais temas da jornada do herói é a descoberta de sua verdadeira origem, que é ao mesmo tempo mortal e imortal. Nesse tema mítico podemos notar um profundo sentido de dualidade, onde a dinâmica é dada pela convicção de que não somos feitos apenas de terra e fadados a comer, procriar e morrer; ou seja, de que não temos apenas uma natureza lunar, pois cada um de nós é especial, único, e tem um destino pessoal, uma contribuição individual a dar para a vida. O Sol em nós sente que há uma busca a se iniciar, uma jornada na direção do futuro desconhecido, um mistério profundo no núcleo do “eu”. Nossa face solar não se sente sujeita aos ciclos lunares e leis do destino ao qual têm que se submeter nossas naturezas, se recusando teimosamente a ser comum. A maioria das pessoas descobrem isso na metade da vida, quando a busca de segurança financeira, emocional e mundana parecem não trazer mais satisfação e a pessoa começa a pensar que deve haver um propósito maior para se estar vivo. Geralmente essa conclusão vêm de alguma crise que deixou um rastro de descontentamento e depressão, obrigando a pessoa a criar novas metas, difíceis de serem expressas em termos concretos, pois o Sol possui metas interiores, diz respeito à experiência da vida como algo especial e cheio de significados: o Sol nos diz que não somos coelhos, nem macieiras nem outra pessoa, mas sim nós mesmos e precisamos realizar nossos potenciais únicos. Podemos ignorar a força solar por nossa conta e risco, pois se não damos o salto solar e não oferecemos nossa contribuição única ao mundo, por menor que seja, estamos fadados ao incômodo tormento de um self não vivido, e teremos todas as razões do mundo para temer a morte, pois não teremos vivido de fato.
Outro elemento importante da jornada heróica é o fato dele ser invejado ou perseguido sem saber o motivo, às vezes pelo padrasto/madrasta, às vezes por um rei usurpador ou perverso que recebe a profecia de ser destronado pelo jovem herói, ou então por alguma bruxa ou ser mágico que resolve atrapalhar a jornada heróica. Podemos ver isso desde os mitos gregos até a história de Jesus Cristo. Esse tema da inveja e da ameaça do potencial que o herói representa para o governante estabelecido é algo que geralmente acompanha o despertar do Sol, pois a expressão especial e individual da natureza de alguém costuma despertar a inveja destrutiva dos outros e representa uma ameaça ao status quo. Muitas vezes isso é vivenciado através do pai ou da mãe real da pessoa, que fazem isso inconscientemente, pois a vida solar não vivida do progenitor se tornou amarga e invejosa, fazendo com que se experimente diretamente na infância essa perseguição do herói mítico. Se olhamos mais profundamente para nós mesmos, porém, descobrimos que o verdadeiro “inimigo” mora dentro e não fora de nós, por mais que cruzemos com ele no mundo externo.
O futuro herói pode se proteger por um tempo em sua mãe lunar, mas, mais cedo ou mais tarde, terá que aprender a lidar com o governador invejoso por sua própria conta, desenvolvendo certo realismo, já que a inveja faz parte da vida e da natureza humana, e nem sempre dá para sair correndo para casa e se esconder embaixo da saia da mãe. Assim é possível desenvolver firmeza, auto suficiência, “insight”, inteligência e amigos leais para sobreviver como indivíduo, senão se correrá sempre o risco de um regresso rastejante para o ventre materno através de mães substitutas que o protejam, como empregos insatisfatórios ou relacionamentos paralisantes, reprimindo assim seus próprios potenciais individuais para evitar o mundo lá fora. Em algum ponto do processo de crescimento, o herói recebe aquilo que Joseph Campbell se refere como “o chamado para a aventura”, seja através de uma intuição ou visão interna, seja através de uma aparente perturbação ou desastre externos, onde se olha a vida com um realismo e humildade que tocam a essência do ser. Quando o herói resolve empreender sua jornada, geralmente arranja um ajudante, ou recebe ajuda de divindades ou ainda recebe assistência de algum animal, que garantem o êxito da empreitada, confirmando o direito divino do herói: ele é posto à prova, mas recebe bastante colaboração - e não indiferença - para a conquista de sua meta. A questão da fuga e do erro pode fazer parte da história do herói - até Cristo pergunta se Deus não o abandonou. Apesar disso parecer uma fraqueza indigna do herói, retrata fielmente a maneira como as pessoas normalmente se comportam ao ouvirem a chamada heróica, pois parece que precisamos choramingar e sentir pena de nós mesmos um pouco quando nos preparamos para nos afastar do conforto lunar e atender as demandas de nossa essência. Como diz a piada judaica: “Obrigado senhor por fazer de mim um dos eleitos, mas não dava para escolher outra pessoa, só para variar?”. É possível não atender à chamada, mas o progenitor divino - a imagem mítica de algo maior, o “Eu Superior” que existe em nós - não vai nos deixar em paz só por que estamos com preguiça, e teremos sempre que pagar um preço por nos recusarmos a nos tornar nós mesmos, na maioria das vezes através de depressões, sensações insuportáveis de fracasso e um vazio profundo.
O herói realiza sua tarefa por ser compelido de dentro para fora. Se ele fizer isso apenas para agradar aos outros, por mais humanitário que possa parecer sua ação, vai acabar encrencado, pois não está sendo sincero consigo mesmo. Essa busca deve ser feita por causa da pressão interior, não para que as pessoas nos amem. Contudo, no ato de se tornar um indivíduo ele está dando sua contribuição aos demais. O Sol pode parecer profundamente paradoxal, pois quando nos tornamos nós mesmos temos muito mais a oferecer do que se nos esforçássemos para tentar salvar o mundo como forma de compensar um vazio interior. É dessa forma que o herói é capaz de atingir o que Campbell chama de “Travessia do Limiar”, onde encontramos alguma coisa bem desagradável que quer nos impedir de atingir nossas metas heróicas. Cada mito irá descrever o Inimigo, o Guardião do Limiar, de formas típicas, podendo ser um irmão sinistro, uma mulher fatal, a bruxa malvada, um monstro, dragão ou gigante. Cada uma dessas imagens tem seu significado próprio que pode ser associado com os aspectos e posicionamentos solares, e mostra o tipo de lutador que precisamos ser para vencer nosso próprio lado sombrio: às vezes precisamos matar a bruxa representada pela Lua que quer nos engolir, ou vencer as tentações geradas por Vênus, ou então vencer o monstro de nossos instintos cegos e primitivos ligados a Marte, ou nos livrarmos da prisão saturnina que impede de nos revelarmos ao mundo. Aspectos do Sol com planetas transaturninos costumam representar transformações muito profundas no trajeto heróico, assim como em muitos mitos vemos que às vezes o herói deve morrer para conseguir a ressurreição e a transformação necessária, como Jesus Cristo ou Dionísio. Diversos fatores do mapa astral podem descrever o dilema dessa travessia, inclusive o próprio signo e casa do sol, pois há tanto virtudes como fraquezas em cada um dos signos. Só depois desse enfrentamento é possível receber o prêmio ou tesouro que aguarda o herói. Esse prêmio pode ser uma jóia, a água da vida, a fonte da imortalidade, o domínio do reino, a mulher amada, o dom da cura ou da profecia, e também está ligado simbolicamente ao posicionamento solar. Sempre é algo altamente individual, que tem grande valor para aquele herói específico. O Sol, como corporificação do herói mítico, luta pela recompensa final guardado em um núcleo indestrutível de identidade que justifica e convalida a existência: o herói e seu premio são, na verdade, a mesma coisa, pois o tesouro é seu lado divino oculto em sua vida mortal. Por mais terrivelmente abstrato que isso possa soar, o sentido inerente de sermos um “eu” real e único, sólido e indestrutível é algo precioso e mágico, além de ser obtido a duras penas.
No estado nu e cru do “Eu Sou” não há uma casa para se voltar nem uma coletividade que possa nos oferecer um paliativo para nossas dores, e essa é a razão pela qual o Sol começa a emergir de fato na meia idade, quando a pessoa está suficientemente forte e formada para enfrentar o desafio. O problema da solidão, que sempre acompanha qualquer manifestação do self individual, é o significado mais profundo da travessia do limiar no mito heróico. Outra coisa que o herói sempre encontra no final de sua jornada é seu verdadeiro pai, que também sai redimido do mito, pois assim como a Lua representa a mãe arquetípica com a qual compartilhamos nossos instintos, o Sol reflete a visão essencial que compartilhamos com o pai arquetípico, no nível criativo que só pode frutificar após gerações de busca solar. Sendo a solidão e inimizade do coletivo o equivalente emocional aos perigos que defronta o herói, podemos perceber que a culpa - e o medo da represaria que a acompanha - é a principal manifestação de nossa dificuldade em roubar o elixir da vida que exige nossa jornada heróica, pois há algo ilícito em nos tornarmos nós mesmos, e quanto mais nos sentimos separados da coletividade, maior nossa sensação de culpa, que pode se tornar tão grande a ponto de nos paralisar como estatuas de sal. O furto da árvore da vida é um profundo rito de passagem, e uma vez consumado, as coisas não podem voltar a ser como antes, e esse é uma realidade que muitas vezes nos amedronta. Várias vezes na vida temos chamados heróicos para atender, e várias vezes temos que abrir mão do conforto do lar e da identidade com o grupo, e enfrentar os guardiões dos limiares coletivos, pois as ameaças que sentimos de represária não é mera paranóia, já que o coletivo retruca de fato, e precisamos ficar atentos para perceber que tudo aquilo que está sendo mostrado fora tem sua representação mítica interna, pois todos esses personagens estão dentro de nós.
Nunca concluímos totalmente nossa jornada heróica, pois sempre estamos tendo desafios para nos tornarmos nós mesmos. Mas, assim como Apolo no panteão grego, uma das funções do Sol é desfazer as maldições, o que significa que quanto mais nos valorizamos, menos precisamos satisfazer as expectativas dos outros, nos sentimos menos assustados com as obrigações da vida e ficamos menos ressentidos com os potenciais não vividos. Como diz Polônio em Hamlet: “Acima de tudo, isto: sê leal contigo mesmo,/ E seguirá, como a noite ao dia,/ Sem ser falso com ninguém.”

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Astrologia de Boteco Lunático: Descubra Sua Lua e Cuide-Se

O signo lunar descreve nossa natureza emocional, o modo como se responde instintivamente ou se reage a eventos e ao ambiente. Caso a Lua não esteja excessivamente inibida por outros aspectos - ou por um forte condicionamento cultural em sentido contrário - reagimos naturalmente à vida conforme seu signo. Por isso é mais fácil nos identificarmos com o signo lunar do que com o Sol ou mesmo o Ascendente, pois ele estará atuando em nosso cotidiano, em nossos hábitos e rotinas. Aqui encontramos tanto a maneira como somos filhos quanto a nossa capacidade de sermos mães, para homens e mulheres. A Lua mostra como nos sentimos seguros e confortáveis, como lidamos com o corpo físico, e também como fazemos para nos afastar de tudo quando precisamos descansar ou fazer uma pausa. É bem interessante entender quando estamos agindo através da Lua, pois esse costuma ser nosso comportamento mais inconsciente, onde nos falta objetividade, e muitas vezes nos coloca em situações um tanto duvidosas. É através da Lua que nos ligamos às outras pessoas e à vida em geral, mas deixá-la guiar sempre nosso caminho pode nos fazer extremamente carentes. O equilíbrio aqui é fundamental.
Tracy Marks, em seu livro Astrologia da Autodescoberta (ed. Pensamento, 1989), sugere uma lista de frases para cada signo lunar, e ao longo dos anos eu tenho feito minha própria coleção de frases correspondentes às sensações lunares. Como a Lua fala do nosso lado emocional, muitas dessas frases colocam situações que a Lua se identifica, e é mais fácil fazer a conexão. Então, divirta-se.

Lua em Áries
“Ou eu sou o primeiro cavalo do time, ou não sou nenhum” (John Fletcher)
“Eu posso prometer ser franco, mas não posso prometer ser imparcial” (Goethe)
“Nós somos odiados pelas pessoas que tentam dirigir nossas vidas em nosso lugar.” (Diane Wakoski)
Essa é uma Lua realmente independente, por mais que isso possa parecer contraditório. Crianças com Lua ariana vão mostrar muito cedo aos pais que pretendem bater a cabeça sozinhos e ficam bem felizes quando chega a hora de ir para a creche ou a escola. Impulsiva e valente, essa Lua se sente confortável quando tem liberdade e encorajamento para mostrar sua individualidade. Quando se sente desanimada ou frustrada, ela vai buscar novos desafios e atividades para se sentir segura. É preciso cuidado para que a busca do prazer e da excitação momentânea não domine a vida da pessoa, pois isso pode levar à falta de realidade e substância. Mas essa Lua sabe como fazer para se divertir quando a caminhada está muito pesada, e mesmo que sua franqueza possa trazer alguns problemas, ela sempre vai poder contar com a sinceridade de suas emoções.

Lua em Touro
“Firmeza é aquela qualidade admirável em nós mesmos que é detestável obstinação nos outros” (Anônimo)
“Ele é sempre o mesmo amigo: sempre bem humorado, sempre contente em vê-lo, sempre triste quando você parte... tão simples, tão bom e tão afetuoso” (Kenneth Graham)
“Se eles tentam me apressar, sempre digo: ‘tenho somente outra velocidade, e essa é mais lenta.’” (Glenn Ford)
A Lua está exaltada em Touro, portanto o sentido de segurança emocional é bem forte e concreta aqui. Essa é uma Lua que adora contato físico, carinhos e beijinhos sem ter fim, e possui grande confiança em seu corpo. Os sentidos são aguçados e a boa comida, a boa bebida e a boa companhia são ótimas maneiras de fazer com que ela se sinta confortável e segura. O perigo está em se manter escravizado por esses prazeres e por um pragmatismo que pode fazer a vida ficar bem estéril em nome de um conforto que acalma. É importante que a pessoa não se abandone a essa compulsão por segurança e por ter todas as formas de prazer externo que o dinheiro pode comprar, percebendo que o vazio da sensação de falta de valor não pode ser preenchido dessa maneira. Quando se consegue ter consciência das reações lunares em Touro, é possível controlar a compulsão e aproveitar a possibilidade mais profunda de dar e receber calor e devoção que essa Lua possibilita.

Lua em Gêmeos
“Eu penso que penso; logo, penso que existo” (Ambrose Bierce)
“Se você não pode confundi-los com agudeza intelectual; desconcerte-os com tolices” (Anônimo)
“Um homem deve viver somente para satisfazer sua curiosidade” (Provérbio Hebraico)
Essa é uma Lua falante, que precisa se comunicar e é receptiva a tudo que a estimule mentalmente. A comunicação e os padrões de pensamento terão um tom emocional, sendo comum a pessoa perceber que suas tentativas de decisão racional são falhas por que a resolução já havia sido tomada pela percepção emocional dominante na situação. Quanto maior for o conhecimento sobre o mundo e sobre as pessoas, maior será sua sensação de segurança e, apesar da mente ter uma tendência a devaneios e fantasias, há uma indicação de grande criatividade na comunicação. É através da reflexão e da reformulação que a pessoa se adapta às mudanças, num processo onde se adota a visão daqueles que estão próximos e reflete-a de volta. Essa capacidade receptiva e reflexiva possibilita à Lua se projetar imaginariamente nos outros e intuir o que eles sentem ou pensam e, com isso, a pessoa se sente ligada à vida através da descoberta, do conhecimento e do relacionamento empático. O perigo mais óbvio aqui é a hiper racionalização, onde se perde aquilo que realmente se sente em meio a tantas teorias a respeito. Os pensamentos compulsivos podem tornar a vida da pessoa uma eterna busca de estímulo intelectual, pois nessa área ela se sente segura. Mas quando se é cuidadoso com a Lua geminiana, ela pode proporcional uma verdadeira comunicação de almas.

Lua em Câncer
“Suponho que a coisa mais absolutamente deliciosa na vida é sentir que alguém precisa de nós” (Oliver Schreiner)
“Para se salvar os caracóis se encolhem no agasalho de suas conchas, onde aguardam salvos e pacientes até que os elementos se acalmem” (Isabella Gardner)
“Não posso viver sem aquele cobertor. Não posso encarar a vida desarmado.” (Linus - Charles Schultz)
Câncer é regido pela Lua, e isso quer dizer que nosso satélite está em casa aqui. A vida familiar e doméstica dará segurança emocional pelo sentimento de fazer parte de uma estrutura afetiva. O mundo inconsciente lunar se combina com a sensibilidade canceriana para criar um ambiente afetivo capaz de aconchegar até os seres mais endurecidos. O lar - principalmente o de origem - é o retiro e o santuário para onde se volta quando a vida pressiona demais, sendo comum pessoas com esse posicionamento reagirem à dor buscando as mesmas recompensas que tinham na infância. Há, porém, o perigo de os sentimentos que eram condenados pelos pais - ou que entram em desacordo com o estilo ideal familiar - acabem sendo negados ou reprimidos por causa do medo de instabilidade que causam. É importante a pessoa prestar atenção nas próprias reações quanto aos lugares e pessoas com quem convive, pois sua sensibilidade para a qualidade dos ambientes influenciam sobre maneira seu humor. Cuidado também é necessário para não conseguir as coisas se fazendo de vítima e enchendo o ambiente de culpa.

Lua em Leão
“Meu verdadeiro centro era uma enorme capacidade de amar tudo à minha volta” (Malvina Hoffman)
“Somos todos vermes, mas creio que sou um verme ardente” (W. Churchill)
“Qualquer um tem direito à minha opinião” (Anônimo)
A Lua leonina gosta de brincar e ser espontânea, e precisa de muito amor e devoção para se sentir segura. Como o grande perigo para Leão é se apegar a uma platéia, e a Lua é nossa maneira de lidar com o público, aqui o risco de se perder a majestade e se tornar um tirano é grande. A Lua em Leão precisa de maneiras criativas para expressar seus sentimentos, aprendendo a se alimentar emocionalmente de maneira saudável em lugar de ficar esperando que os outros a supram. Assim é possível parar de querer dominar as pessoas e passar a experimentar a grande satisfação emocional de se ter o coração aberto para a vida - com suas dores e alegrias - e viver intensamente o amor por si que se reflete no amor aos outros. A grande força que impulsiona qualquer coisa em Leão é o amor, e a capacidade dessa Lua criar um ambiente amoroso e criativo é enorme. Por isso vale tanto a pena aprender a se nutrir criativamente em vez de dar esse poder aos outros.

Lua em Virgem
“Quando estou ocupado com as pequenas coisas, não me pedem para fazer as maiores” (S. Francisco de Sales)
“Não agonize. Organize” (Anônimo)
“Você pode conter um mundo enorme num pequeno plano restrito” (May Sarton)
Virgem não é um signo que goste de emoções fortes, e a Lua virginiana geralmente tem bastante trabalho para não ficar criticando tudo que sente. Essa, porém, é uma Lua que tem muito prazer em cuidar de si, da sua alimentação, de fazer os rituais diários de higiene e consegue ouvir o próprio corpo de maneira muito precisa, o que facilita muito a sua cura em momentos de doença. A Lua em Virgem se sente segura quando está sendo útil, mas a ansiedade pode fazer com que ela se ocupe compulsivamente para não entrar em contato com sentimentos “fora do lugar”, ou com as “imperfeições” humanas, o que acaba fazendo com que, pela lei do equilíbrio, também não consiga acessar as emoções mais prazerosas e a própria divindade. A capacidade analítica e organizacional dessa Lua precisa aprender a valorizar todas as suas experiências emocionais de maneira amorosa, pois só assim ela será capaz de realmente nutrir de maneira idônea e eficaz como deseja.

Lua em Libra
“Ele precisava dos olhos dos outros para ver-se e dos sentidos dos outros para sentir-se” (Malcon X)
“O meio para se obter a resposta sim sem ter feito nenhuma pergunta óbvia é ser encantador” (A. Cammus)
“Não quero viver - quero primeiro amar e, por falar nisso, viver” (Zelda Fitzgerald)
A segurança e o bem estar da Lua libriana são buscados através da beleza e da harmonia. Essa é uma Lua que tende naturalmente à cooperar com os outros, a agradar e estabelecer relacionamentos diretos que sejam mutuamente gratificantes. Como toda Lua de ar, essa também tem um processo de desenvolvimento mental marcante, o que pode fazer com que se crie uma ênfase demasiada na aparência ou na harmonia superficial, sendo incapaz de admitir a discordância ou qualquer coisa que possa gerar confronto ou isolamento. Essa Lua pode até comprar brigas de outros, mas em seus relacionamentos se coloca em posição de dependência tentando conquistar os favores do parceiro. O conforto emocional que essa Lua necessita se dá através dos relacionamentos seguros com os outros, mas ela precisa aprender a primeiramente ter um relacionamento seguro consigo mesmo, e para isso precisa experimentar alguns momentos de desarmonia em nome de um contato mais autêntico e profundo. Assim, essa Lua poderá realmente honrar suas necessidades de beleza e harmonia criando ambientes e relacionamentos que acalmem e elevem de maneira genuína, mesmo que desacordos ocorram de vez em quando.

Lua em Escorpião
“Poucos homens chegam a qualquer lugar exaurindo os recursos que residem dentro deles. Há fontes profundas de forças que nunca são usadas” (Comandante Richard Byrd)
“Errar é humano, perdoar não é nossa política” (Anônimo)
“Aquilo que não me destruir me tornará mais forte.” (Friedrich Nietzsche)
A Lua está em queda quando em Escorpião, pois nosso satélite busca conforto, mesmo que isso signifique se apoiar em ilusões, e Escorpião quer intensidade e precisa da verdade para se movimentar. Isso faz com que a Lua escorpiniana busque privacidade e controle para se sentir segura. A capacidade escorpiniana de sondar abaixo da aparência superficial faz com essa Lua consiga construir um alicerce sólido e profundo para si mesmo, e assim ela pode utilizar os recursos próprios e dos outros em seus relacionamentos íntimos de maneira eficaz. Claro que uma Lua com todo esse poder emocional pode cair fácil na tentação de manipular os outros para suprí-lo daquilo que precisa. A criança de Lua em Escorpião geralmente entrou em contato cedo demais com as forças da morte e da sexualidade, criando um medo profundo de ser subjugada e fazendo com que se desenvolvesse uma desconfiança que ensina a esconder os verdadeiros sentimentos. Com isso, a habilidade natural de se receber nutrição e de se auto nutrir se tornam mais difíceis, e é necessário um trabalho consciente para que se aprenda a expressar as facetas mais suaves e vulneráveis de modo a se experimentar a verdadeira comunhão que procura. E, claro, isso tem que começar através do contato e do cuidado consigo mesmo, pois enquanto a Lua escorpiniana não conseguir confiar em si mesmo para cuidar de seus sentimentos mais profundos, ela sempre vai encontrar parceiros duvidosos que confirmem sua desconfiança.

Lua em Sagitário
“Aquele que tem um motivo para viver pode suportar quase tudo” (F. Nietzsche)
“Não avalie suas promessas rompidas como um crime. Ele queria cumpri-las como pretendia fazer, na ocasião” (K. Green)
“Se o céu não permitisse, quem poderia reconhecê-lo,/ E quem encontraria Deus se não fosse ele mesmo parte da divindade?” (M. Manilius)
Essa é uma Lua com coração generoso, que procura elevar-se acima das dificuldades através do bom humor e sendo uma boa companhia. Em Sagitário, a Lua, porém, não se adapta com facilidade à rotina e quando está insegura acaba se focando demasiado no futuro, adiando ou evitando ações imediatas e buscando atividades escapistas. Com isso ela só consegue aumentar o seu vazio interior, com brincadeiras inconvenientes e passando de uma atividade para outra, de uma pessoa para outra, numa busca infindável para se furtar da responsabilidade de sua própria vida. Em Sagitário, a Lua precisa aprender a direcionar seu prazer por explorar o mundo interno e externo para entender e aceitar seus verdadeiros sentimentos e conceder-se suas verdadeiras necessidades. Só assim ela será capaz de desenvolver a liberdade interior que tanto almeja, o que implica responsabilidade em suas relações e contato com o Deus interior que tanto a inspira.

Lua em Capricórnio
“A habilidade de resistir à frustração é que nos mantêm vivos” (Abbie Hoffman)
“Meus sentimentos não podem ser postos em jogo/ Estou cheio de memórias e dúvidas/ Penso que é melhor me acostumar com elas do que correr o risco” (Cryer e Ford)
“Agarre-se ao que for difícil” (Rainer Maria Rilke)
Essa é uma criança muito responsável desde muito cedo, e as histórias de infância que costuma contar são realmente bem difíceis. Capricórnio é o exílio da Lua, pois é um lugar onde ela precisa trabalhar conscientemente para poder se nutrir emocionalmente, já que isso lhe foi negado por aquilo que aparece como destino externo. A segurança aqui é dada pela sensação de auto-suficiência, e muitas vezes isso vai levar à falta de contato com as necessidades mais profundas de contato, afetividade e aceitação. Essa Lua precisa das estruturas sociais e tem grande prazer em ser reconhecida por sua capacidade de compromisso e de realizar seus objetivos. Por isso ela vai se sentir bem no trabalho, com muitas responsabilidades em suas mãos. Como tudo em Capricórnio, essa Lua tem que aprender a se afastar dos padrões de negação em que foi criada e desenvolver sua própria estrutura, fruto de sua experiência de vida. Para isso é preciso entrar em contato com os sentimentos de vulnerabilidade que tanto teme e descobrir que a verdadeira força e auto-suficiência que busca acolhe, em vez de negar, a grande sensibilidade da sua criança.
Lua em Aquário
“Ela parece dotada de uma mente forte que a protegerá da emoção excessiva” (George Sand)
“O único jeito de ter um amigo é ser um amigo” (Ralf Waldo Emerson)
“Eu sou um pouco surdo, um pouco cego, um pouco impotente e, coroando tudo isso, tenho duas ou três fraquezas abomináveis, mas nada destrói minha esperança” (Voltaire)
Aquário dá à Lua a capacidade de sentir-se parte da família humana, e cria um grande prazer de interagir com uma variada gama de pessoas. A sensação de conforto e integração é dada através dos amigos e dos grupos de interesse, que também são muito variados. Existe uma esperança na Humanidade que alimenta essa Lua profundamente, e faz com que ela busque se envolver em atividades que visem contribuir para o bem geral. A Lua aquariana adora se sentir singular e original e cultiva cuidadosamente suas habilidades mentais e sociais. A sensação de insegurança, porém, pode fazer com que ela se torne fria e distante quando se trata de relacionamentos íntimos, pois assim ela pode se manter segura em um amor geral por uma humanidade abstrata. Aprender a ser amiga de suas emoções e sensibilidade faz parte do seu aprendizado, pois só aceitando a variedade de sentimentos que possui da mesma maneira que aceita a variedade de opiniões que a cerca é que ela será capaz de nutrir de verdade a si e aos outros em vez de ficar criando interações sociais por não estar satisfeito consigo mesmo.

Lua em Peixes
“Eu sou eu mesmo e o que está ao meu redor e, se não salvar isso, não serei salvo” (José Ortega y Gasset)
“Sempre sinto vergonha de pedir. Assim, dou. Isso não é uma virtude. Trata-se de um disfarce” (Anais Nin)
“Somente com o coração se pode ver claramente; o essencial é invisível aos olhos.” (Antoine de St. Exupéry)
Essa Lua precisa de seus preciosos momentos de devaneio, onde possa vagar pelo mundo dos sonhos e da fantasia. A Lua pisciana estabelece vínculos de maneira empática e está sempre aberta às fontes de inspiração internas e externas. Ela irá se beneficiar particularmente com a música, a dança e as artes em geral, que propiciam um canal para suas vastas emoções. Um canal emocional tão amplo pode conduzir muitas vezes a estados negativos e destrutivos também, principalmente quando as fantasias e idealizações se tornam maneiras de escapar da insegurança e dos problemas concretos. Muitas vezes essa Lua irá se concentrar nos problemas e necessidades dos outros, cuidando do bem estar daqueles que a cerca, na ilusão de que isso substitui a vivencia dos próprios sentimentos e necessidades, e, quando isso não ocorre, a pessoa se sente vitimizada. Existe um descontentamento espiritual que essa Lua experimenta intimamente e que torna difícil a sua adaptação às necessidades terrestres cotidianas. É preciso aceitar que nem todas as visões interiores são passíveis de realização imediata, mas que alguns sonhos são possíveis de se concretizar quando transformamos inspiração em ação. Essa Lua é capaz de fazer uma ponte entre seu imenso universo inconsciente e sua vida cotidiana, não para cuidar dos outros e se sentir amada, mas para que esse mundo interno ganhe forma e, assim, beneficie a todos.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A LUA

O satélite do nosso planeta é considerado desde sempre pela astrologia, como a Mãe arquetípica da nossa existência terrestre. O casamento do Sol e da Lua, para os alquimistas, era o princípio da formação do mundo. Regente de Câncer e exilada em Capricórnio, esse Luminar se exalta em Touro e fica em queda quando em Escorpião. A análise da Lua nos mostra como nos ligamos à nossa existência terrestre, em um corpo físico e com vínculos emocionais.
O ser humano é um dos únicos animais que nasce “antes do tempo”, inacabado, frágil e incapaz de obter sozinho o próprio sustento, precisando de uma mãe ou equivalente para que possa depender e assim sobreviver. Essa dependência física imediata e absoluta dá origem a uma ligação emocional profunda e duradoura com a principal fonte da vida, e é a matriz de nossa consciência lunar. Como no início a mãe é todo o universo, começamos a captar o mundo através dessa primeira luz que recebemos dela, e assim aprendemos a nos cuidar e sentir o mundo conforme o exemplo fornecido. Nossa mãe, então, nos dá o primeiro modelo concreto da instrutiva característica lunar de auto-preservação, e nosso primeiro exercício sobre o que podemos conseguir da vida. É por isso que a Lua, enquanto luminar interno, pode também nos ensinar como cuidar de nós mesmos de acordo com nossas necessidades individuais quando ficamos adultos, tendo, inclusive, a capacidade de nos mostrar como tratar as feridas se nossas primeiras lições de infância não tiverem sido suficientemente boas, de modo que seja possível confiar na vida, apesar de tudo.
Na Lua teremos os padrões de resposta inconsciente, condicionados, revelando, na prática, o estado em que nos sentimos inconscientemente bem e no qual buscamos proteção. Ela mostra o estado na qual nos identificamos mais rapidamente, e que pode ser bem diferente daquela mostrada pelo Sol. Enquanto nossa estrela mostra onde precisamos nos esforçar para nos tornarmos um indivíduo consciente, nosso satélite nos fala onde existe uma tendência natural para nos curvarmos e adaptarmos ao que é oferecido, onde somos mais facilmente moldados, dispostos a hábitos e condições do passado, e, portanto, a sermos restringidos pelas noções, expectativas, valores e padrões de nossa família e cultura. Temos nos padrões lunares muito da nossa auto imagem idealizada, dos padrões que desenvolvemos para sermos amados. Dessa forma, uma pessoa com o Sol em Gêmeos e a Lua em Escorpião, por exemplo, tende a se manter calado numa situação pouco familiar até descobrir onde está e quem são aquelas pessoas, passando a falar pelos cotovelos sobre sua própria atitude “misteriosa” assim que o assunto for resolvido. A reação da Lua é aquela que vem primeiro, seguida pelo Sol.
O padrão lunar é o primeiro a ser absorvido e ativado quando nascemos, pois é nosso instinto de nutrição, desenvolvendo seu papel a partir do primeiro alento materno. Ele permeia todas as nossas experiências de modo a mediar o passado com o presente. Os signos lunares indicam a energia específica que nossa criança interior precisa experimentar e expressar para se sentir segura e satisfeita, bem como a energia com que nossa mãe interior pode responder aos nossos sentimentos e carências. Por isso é importante respeitarmos e entendermos a Lua, pois ela nos mostra onde podemos nos refugiar quando precisamos de descanso, de uma pausa, de um santuário para o esforço de individuação e de crescimento da consciência. Mas conforme crescemos precisamos começar a tomar cuidado para não nos deixarmos dominar pelas necessidades lunares, pois ela tende também a nos prejudicar ou atrasar o progresso em novas e desconhecidas direções. Lembrando que é o Sol que mostrará para onde devemos ir e como achar nossas certezas e nosso brilho, a Lua só poderá refletir esse brilho, pois não tem luz própria. Por isso, quando estamos muito ligados nas necessidades lunares, acabamos encontrando situações duvidosas e ficamos passando por fases, ora mais abertos e vulneráveis, ora mais fechados e afastados, apresentando, inclusive, comportamentos regressivos, infantis e inseguros. Enfim, a Lua nos capacita a ser nutritivos e receptivos, mas também nos prende ao passado e cria medos do futuro. A Lua nos dá a sensação de continuidade espaço-tempo, o que pode ser observada no seu movimento no céu, que passa da lua nova para um crescimento gradual até a Lua cheia, e depois no seu recolhimento até chegar novamente à misteriosa lua nova. Esse movimento continuo e inexorável fez com que se associasse a Lua ao movimento da Roda da Fortuna do Tarô, pois tudo sob a luz da Lua segue um eterno padrão cíclico, onde o apogeu é seguido pela decadência e essa pelo nascimento de novos potenciais. Esse é um estado de consciência que podemos chamar de matriarcal, pois é basicamente orgânico e feminino, que reflete os processos de concepção, gravidez, nascimento, puberdade, maturidade, envelhecimento e morte. Essa consciência matriarcal está miticamente ligada aos ciclos naturais, pois priorizam a harmonização com a vida orgânica ao invés do desejo individual ou do espírito humano capazes de transcendê-la.
Os avanços desenfreados da vontade e do espírito humano acabaram criando desequilíbrios de dimensões planetárias, e é isso que nos faz hoje em dia produzir movimentos e expectativas lunares tão fortes - que vão do retorno das bruxas ao Green Peace - mas precisamos tomar cuidado com esse retorno da Grande Deusa por que a consciência puramente matriarcal subestima os valores individuais, dando importância primordial à família e ao clã, justificando a supressão e a destruição da auto-expressão individual em caso de ameaça do status quo do grupo, o que significa ausência de ética, princípios ou de qualquer uso disciplinado da vontade, já que tudo é justificado pela necessidade instintiva da preservação da espécie. Por esse motivo as deusas lunares eram consideradas não apenas protetora e nutridora de crianças, mas também engolidoras e castradoras. A Lua pode ser manipuladora, traiçoeira e inconstante, criando grande voracidade emocional, acabando com o bom senso e a cooperação pessoal. Ao mesmo tempo, se nos mantemos afastados da Lua, perdemos nosso senso de ligação e cuidado com o corpo, o que, ampliado, significa desligamento e falta de cuidado com a natureza e com a própria vida na Terra. O corpo serve para nos lembrarmos de que somos mortais, pois ele sofre dores, doenças, envelhecimento, mas também sente prazer. Também temos estados de humor corporais, pois nossos estados emocionais estão intimamente ligados aos nossos corpos. A não expressão lunar significa sofrimento do corpo e também prejudica nossa capacidade de vivenciar o presente, o que acaba fazendo com que muitas pessoas acordem de repente - muitas vezes em um hospital - percebendo que não haviam realmente vivido, pois não há lembranças nem sensação de continuidade, nem sensação de aproveitamento do passado. O corpo controla a si mesmo - não pensamos em respirar, ou fazer o coração bater ou fazer um óvulo amadurecer - e esse processo ainda hoje tem algo de mágico, pois apesar de nosso grande conhecimento sobre fisiologia do corpo, a verdadeira compreensão da natureza do princípio anímico da vida não progrediu muito nos últimos 6 000 anos. O corpo possui uma sabedoria interior que faz com que ele consiga se curar sozinho com muito pouco estímulo. As imagens míticas ligadas à Mãe Terra trazem em si o poder que a natureza tem de manter e perpetuar a si mesma: Gaia, Demeter, Ártemis e Hécade são retratadas nos mitos como deusas da concepção e do nascimento por representarem esse princípio inteligente, criador e animador dos veículos necessários para a continuidade da vida física nesse mundo. Da mesma forma, Eva, no Antigo Testamento, significa “vida” em hebraico, e é a mãe de toda a humanidade.
Os bebês nascem sem um ego capazes de pensar: “em primeiro lugar eu sou eu mesmo, apesar de encarnado em um corpo físico”. O senso de um “eu interior”, abstrato e independente do corpo, é refletido na astrologia pelo Sol, que desabrocha à medida que amadurecemos, mas a Lua está presente desde o início, já que a primeira experiência de uma criança é corporal, e durante as primeiras semanas de vida só existem sensações e necessidades físicas. Quando nossas necessidades instintivas e básicas são preenchidas, ficamos satisfeitos e a vida se torna um lugar seguro. Assim a capacidade de expressar a Lua de uma maneira saudável significa ter a possibilidade de vivenciar e expressar as necessidades e apetites da sobrevivência corporal, sem precisar justificá-los pela autoconsciência ou pelo raciocínio, que derivam do ego solar. Isso significa que o princípio psicológico representado pela Lua está ligado às necessidades básicas de segurança e sobrevivência, e o resultado da sua não expressão é principalmente ansiedade, pois esse é o resultado emocional da sensação de que a vida lá fora não é segura, de que seremos contrariados e de que algo terrível pode nos acontecer. Seja qual for o gatilho ativador desse estado na vida adulta, provavelmente suas raízes estão plantadas em antigas vivências do sentimento de insegurança na infância. Algumas pessoas ficam inseguras ao serem ameaçadas de rejeição ou abandono, outras por qualquer mudança de ambiente, outras ao começar qualquer coisas e outras por terminar qualquer coisa. Quando estamos ansiosos e precisamos recuperar nossa segurança, nos voltamos para a Lua e para coisas que a representem. No mapa natal, o signo e casa da Lua oferecem uma descrição bastante detalhada do tipo de coisas que nos proporcionam sensação de segurança. Nossa fome lunar é uma característica humana básica, apesar dos modos de expressão poderem variar. Se não soubermos como acolher e expressar nossa inata sabedoria lunar, a Lua não consegue operar diretamente através da personalidade, e vai se manifestar indiretamente, através dos mecanismos cegos que adotamos quando estamos inconscientemente ansiosos e precisamos recuperar a segurança, criando nossos comportamentos compulsivos. Todos nós temos certo grau de compulsão, pois a vida muitas vezes é realmente insegura, mutável e desconhecida, e ninguém consegue ter segurança suficiente para nunca ter medo. Se conseguimos, porém, conhecer, aceitar e respeitar nossa Lua, podemos aprender a nos nutrir com o tipo adequado de alimento, que por sua vez nos permita lidar com a ansiedade de modo mais sensato e criativo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Astrologia de Boteco Cabeça: Encontre seu Mercúrio e Descubra Muitos Pontos de Vista

De volta ao nosso papo de boteco, aqui coloquei algumas indicações de caminhos mercurianos pelos signos. Entender como a nosso raciocínio funciona pode ajudar a evitar alguns truques da nossa mente, que deve sempre servir a nossa essência e não desviá-la. Então divirta-se com esse deus que tem asas nos pés.

Mercúrio em Áries
Quando Mercúrio está no guerreiro ariano a vivacidade mental do planeta ganha em rapidez e no gosto por desafios mentais. Com um Mercúrio de Fogo Cardinal as atividades mentais se darão através do envolvimento com o mundo, onde o desafio de se saber mais serve como trilha para afinar e adestrar essa poderosa arma que é a mente. Essa combinação simboliza contatos rápidos, fáceis, francos e abertos, criando trocas curtas, aguçadas e resolutas. A combinação Mercúrio-Áries, geralmente, está ligada a pessoas com opiniões fortes e que assimilam idéias confrontando-as com aquilo que vivem, ou seja, são pessoas que gostam de criar polêmicas e só desviam de seu ponto de vista se as experiências pessoas provarem que estão errados. Tenho observado maneiras bem divertidas desse Mercúrio se manifestar em pessoas que adoram fazer jogos de palavras, falar de trás para frente ou inventar palavras que traduzem situações de maneira genial.
Mercúrio em Touro
As habilidades mercuriais se voltam para a construção e compreensão do mundo dos corpos concretos, quando esse planeta é encontrado na Terra Fixa de Touro. Por isso, a mente estará voltada muito mais para aquilo que é sensível e para o que pode ser realizado materialmente. A forma da pessoa se comunicar tende a ser calma e cautelosa, e a política adotada é a de esperar para ver, pois esse Mercúrio joga a sério. O Mercúrio taurino é particularmente interessado em negócios que exigem planejamento detalhado a longo prazo, pois nessa posição ele se torna um padroeiro de grandes golpes, nunca de batedores de carteira. Esse é um Mercúrio que se envolve com questões que merecem comprovação, e geralmente as novas idéias precisam de muita pesquisa anterior antes de serem aceitas, o que leva a argumentações muito sólidas e de difícil contestação.
Mercúrio em Gêmeos
A capacidade de comunicação e de pensamento organizado ganha destaque aqui, criando uma grande necessidade de estímulo mental e fazendo com que o caráter inquisitivo ganhe evidência. A pessoa busca tratar os fatos e teorias do modo mais lógico possível, pois, por mais que já saiba algo, estará sempre ansioso reorganizando o terreno para acomodar mais fatos e mais teorias. Como está sempre alertas para as novidades, o Mercúrio de Ar Mutável acaba tendo facilidade para encontrar novos pontos de vista e também de assimilar as observações mais apropriadas sobre as coisas. É preciso expressar essa capacidade de combinar e analisar as coisas e de usar a mente tão rapidamente, por isso esse Mercúrio costuma usar todos os recursos disponíveis para se comunicar, com gestos, caras e bocas, e tudo o mais que estiver ao alcance, inclusive, por vezes, falando tão depressa - para poder acompanhar com as palavras o veloz fluxo mental - que acaba dizendo muita coisa que parece sem sentido ou então tropeçando nas próprias palavras. Estando em casa, esse deus pode se comunicar de maneira muito confortável, mas é sempre bom lembrar de seus truques, e que se ele fica solto para fazer o que quiser, pode acabar se metendo em encrencas bem complicadas. Claro que sempre se pode contar com sua capacidade de encontrar saídas, mas é bom ficar atento para que a saída não leve a mais problemas.
Mercúrio em Câncer
Quando Câncer e Mercúrio se envolvem, a curiosidade e os talentos intelectuais se voltam para a base subjetiva emocional, ou seja, os desejos e analises vinculam-se aos próprios sentimentos e ao ambiente afetivo que se vive. Isso cria uma capacidade de descrição pitoresca dos acontecimentos, de provocar reações emocionais com as palavras e de pensar sob formas de imagens e de representações simbólicas, pois se utiliza de uma lógica que absorve com facilidade o conteúdo emocional das coisas, mesmo quando o que entra em seu campo de análise desafia as leis da lógica mais formal e abstrata. Isso pode criar alguns problemas a esse Mercúrio em grupos de lógica mais limitada, pois ele chega a conclusões a partir de sua base emocional e não matemática, e pode ser difícil entender a construção de sua racionalidade aparentemente confusa. Na verdade o que ocorre é que o caminho feito por esse Mercúrio, através das coisas e acontecimentos que o tocam emocionalmente, é mais cheio de sutilezas e mais difícil, porém absolutamente significativo. Acompanhar esse deus pelos canais das Águas Cardinais de Câncer é muitas vezes desconcertante e sempre surpreendente em sua capacidade de entender os subtextos.
Mercúrio em Leão
Aqui o prazer criativo se liga aos talentos mentais, e o pensamento costuma ser tão expansivo que passa por cima dos detalhes para alcançar as questões maiores, para além da situação concreta do momento. Há uma tendência a assimilar as coisas de forma um tanto inocente, e um desejo de descobrir todas as possibilidades de desenvolvimento possíveis, fazendo com que a pessoa olhe para além da aparência em busca de perfis mais amplos. É comum encontrarmos esse posicionamento em pessoas caladas que convivem internamente com um diálogo ininterrupto, pois Leão, como os outros signos fixos, tem sua maior motivação dentro de si. Como qualquer planeta em Leão, a habilidade tem que ser reconhecida, e Mercúrio aqui dará a capacidade de abordar os contatos superficiais e as conversações de forma afável e sincera, mas, se provocada, a pessoa pode reagir com ostentação e arrogância intelectual, já que a insegurança a faz desejar ser importante. A identidade pessoal dada a esse Mercúrio, porém, acaba criando idéias bastante cálidas, entusiastas e úteis.
Mercúrio em Virgem
Esse domicílio discriminativo de Mercúrio faz com que a pessoa busque coisas novas na tentativa de ver as antigas sob outro ângulo, para poder, assim, reestudar todo o material disponível de acordo com as transformações que vive. O analítico e planejador signo de Virgem faz com que Mercúrio goste de ordenar suas idéias, colocando os fatos em ordem, criando uma abordagem metódica e didática através de uma lógica prática e de distinções claras, tanto no pensar quanto na formulação do pensamento. Esse é um signo que se realiza servindo aos outros, e aqui Mercúrio buscará isso alargando seu conhecimento útil e procurando aplicações práticas para seu saber. Os talentos mentais muitas vezes se voltam para os aspectos da saúde, da vocação e/ou dos serviços prestados. Com o gosto que esse posicionamento dá por coleções e classificações, quando a energia mental se distorce existe o perigo de se exagerar nos detalhes para tentar dominar as incertezas, ou então se apegar demais ao que sabe, criando dificuldades para mudar e fazer as transformações necessárias em sua visão de mundo. Como aqui Mercúrio também está comodamente em casa, seus truques podem ser mais eficazes, principalmente quando cria generalizações para situações individuais.
Mercúrio em Libra
O processo de pensamento aqui são orientados no sentido de se entender e manter a harmonia e os acordos entre as pessoas. A mente geralmente se volta para o equilíbrio interior buscando a compreensão e a análise das situações, dos ambientes, das outras pessoas e de si mesmo que desestruturam e que restauram a harmonia. Geralmente a maneira como se comunica é amigável e atraente, já que esse Mercúrio escolhe as palavras com cuidado, dando o melhor de si para ser claro; não tanto no interesse da própria clareza, mas para não causar ofensas desnecessárias. Esse padrão pessoal de pensamento e esse cuidado nos contatos faz com que a pessoa ajeite situações difíceis - mais do que resolva - de modo a não haver confrontos reais. Isso pode levar a considerável vacilação quando se trata de fazer escolhas, pois cria uma tendência a se deixar influenciar pelas idéias dos outros, transformando a capacidade amigável de se relacionar com as pessoas e de aceitar as idéias dos outros em uma verdadeira tortura mental de dúvidas e indecisões. Muitas vezes também esse Mercúrio usa idéias dos outros como se fossem suas, como no mito do deus que rouba o gado de seu irmão, mas o faz de maneira tão encantadora que é difícil não se sentir lisonjeado por isso.
Mercúrio em Escorpião
No Hades, Mercúrio voltará sua curiosidade para o lado oculto dos fatos, das pessoas e de si mesmo, fazendo com que a capacidade de análise e os arranjos mentais busquem as profundezas da psique, trazendo discernimento das áreas que estão além da consciência. Com base nos sentimentos, pessoas com esse posicionamento são capazes de fazer narrativas bem detalhadas de pessoas e acontecimentos, pois quanto maior a incerteza da situação - algo típico quando se mexe com os labirintos inconscientes - maior será a necessidade de se saber das coisas, fazendo com que a análise seja levada cada vez mais adiante até que o assunto tenha sido profundamente esmiuçado. O aprendizado é feito “fermentando” as coisas, refletindo sobre elas e vivenciando-as emocionalmente, até que a luz se faça. Esse processo dá uma aparência de passividade e inércia externa, mas é um mecanismo absolutamente efervescente internamente, criando um conhecimento tão profundamente ancorado que o indivíduo terá grande dificuldade quando tiver que mudar de idéia. Isso cria certa escravidão, principalmente se a pessoa achar que pode usar os fatos coletados e analisados para conquistar poder pessoal sobre os outros, pois isso a levará a defender a todo custo suas opiniões, que, naturalmente, quanto mais emoções tiverem mais aferrada será sua defesa, e mais polarizada a pessoa se sentirá. Esse processo de compreensão e de organização mental cria pessoas muitas vezes cínicas, e os outros com quem convive têm que se acostumar com a habilidade dela cutucar feridas.
Mercúrio em Sagitário
No vasto horizonte sagitariano, Mercúrio se torna um pesquisador da verdade e se volta para os ensinos chamados superiores, aqueles que lidam com princípios e códigos de pensamento. A comunicação tende a ser animada e cheia de idéias entusiastas, e a forma de aprender será construindo sínteses que abarquem a totalidade da experiência humana e do que se vive. Assim, a pessoa costuma se mover por várias linhas de pensamento para comunicar suas idéias. O Mercúrio de Fogo Mutável faz isso com tanto dinamismo e mostrando tanta certeza, que fica difícil discutir ou discordar. Normalmente esse deus é sincero e bem pouco diplomático, pois sua curiosidade filosófica e teológica pode fazê-lo esquecer das necessidades mais sutis de uma comunicação pessoal. Quando a força mercurial se distorce aqui, a pessoa costuma adotar ideologias solidificas das quais não consegue se separar em suas análises, limitando a capacidade de aprender e de se aprofundar no conhecimento, criando uma ansiedade que a faz enfatizar demais o próprio ponto de vista e a recusar a visão dos outros. É importante estar alimentando esse Mercúrio com novas abordagens filosóficas para que ele tenha sempre um horizonte a descobrir e possa, assim, expandir sua vivencia em vez de se meter em encrencas.
Mercúrio em Capricórnio
O pensamento direto, concreto, orientado e planejado é a característica mais óbvia desse posicionamento de Mercúrio, assim como uma forma de se comunicar sóbria, reservada e um tanto tímida. Há um grande interesse intelectual pelas estruturas sociais e institucionais e também pela história, além de uma necessidade de construir um pensamento ordenado e realista. Capricórnio dá uma grande capacidade de concentração à Mercúrio e por isso ele se atêm muito à viabilidade de seus projetos intelectuais. A pessoa costuma saber se adaptar às prerrogativas das autoridades e como se expressar para que seja reconhecido socialmente. Quando confusa, a mente pode ser invadida por idéias pessimistas e de rejeição, pois esse Mercúrio é particularmente sensível a críticas, fazendo com que a pessoa se agarre ao pensamento formal e ao senso comum, muitas vezes abrindo mão de sua originalidade, e distorcendo sua capacidade de criar idéias sóbrias, lógicas e concretas para compreensão - e não só aceitação - do mundo exterior. Mas não se engane com a aparente seriedade desse Mercúrio em Terra Cardinal: esse é um deus capaz de ver, se divertir e tirar proveito das incoerência daquilo que costumamos chamar de realidade.
Mercúrio em Aquário
Aqui Mercúrio se diverte envolvendo-se com todo tipo de teoria que possibilite o desenvolvimento de análises lógicas e sistemáticas sobre as influências da vida no pensamento humano: tudo que ele encontra pelo caminho será trabalhado logicamente para formar um sistema compreensível das relações humanas. Por isso temas como “o Homem” ou “a Natureza” o fascinam, e qualquer área de tensão será abordada intelectualmente no sentido de aumentar seu entendimento desses temas. A mente aquariana é humanitária e igualitária, portanto esse Mercúrio não se confinará a um único indivíduo em sua necessidade de pensar, trocar idéias, construir seu ponto de vista ou fazer contatos, buscando sempre várias pessoas e situações ao mesmo tempo para ver o que deve ser feito e pensado para desenvolver o plano mais adequado. Essas pessoas têm os ouvidos e olhos muito abertos para as opiniões e teorias dos outros, fazendo com que tenham consciência da falta de sentido das defesas a qualquer custo das ideologias. Mas quando se trata das ações e relações pessoas, podem se mostrar bastante fixos em suas excentricidades, como, por exemplo, um macrobiótico com infecção generalizada que se recusa a tomar antibiótico. O Mercúrio aquariano, porém, terá sempre uma visão interessante do futuro e boas idéias de como podemos viver de maneira mais verdadeira e livre.
Mercúrio em Peixes
A vontade de arranjar, classificar e analisar as experiências dada por Mercúrio, quando ganha cores piscianas, segue padrões que podem ser considerados ilógicos, mas inegavelmente bonitos. Em Água Mutável, esse deus opera de modo não estruturado, governado pelos sentimentos e por um grande desejo de mudança. A tendência comum é de não analisar nem assimilar as coisas, mas de buscar a compreensão e a verdade da vida através do simbólico, que não é auto-evidente e precisa da vivência emocional para ganhar significado. Esse Mercúrio é absolutamente imaginativo e se guia por coisas que “não existem”, pois não se trata de uma realidade óbvia para todo mundo. Por isso esse Mercúrio não acha nada de estranho em acreditar-se em coisas fantásticas ou mágicas. A maneira de contatar e trocar idéias com os outros costuma ser reservada, simpática e cheia de compreensão, muitas vezes ajudando as pessoas através de conversas, mesmo quando o conteúdo informativo do que dizem seja pequeno. A vida se organiza muito ao redor das emoções, que entram no pensamento e na comunicação em geral, pois as qualidades reflexivas e a curiosidade mental estão voltadas para dentro e querem buscar respostas aos “por quê” e “para quê” das mais aflitivas condições de vida. Convivendo nessas condições intelectuais por si confusas, quando Mercúrio se vê frustrado aqui, sua tendência é a de se afastar mais ainda da realidade concreta e tentar construir formais muito primitivas para justificar os medos que paralisam seu racional, o que pode se tornar uma armadilha bem terrível. A melhor maneira de se contactar esse deus fugidio é através da comunicação artística, seja ela visual, poética ou musical.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Mercúrio

O regente de Gêmeos e de Virgem é considerado em exílio apenas em Sagitário, ficando exaltado quando em Aquário e em queda quando em Leão. Seu movimento médio diário de 1°24’, com um ciclo de 87 dias e 23 horas.
Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol, e é quem governa a habilidade mental, a capacidade verbal e a comunicação na astrologia. Esse planeta é quase um satélite do Sol - quando visto por telescópio potente apresenta as fases nova, cheia, crescente e minguante como a Lua -, o que, simbolicamente, nos diz que a habilidade intelectual só pode ser aproveitada e bem utilizada quando se vincula à essência da personalidade. No sistema solar, ele está entre o Sol e a Vênus, assim como a comunicação significativa é aquela que cria uma ponte entre o que somos e aqueles com quem queremos compartilhar a vida. Do mesmo modo, é difícil manter um relacionamento se não é possível nos comunicar com o parceiro. Mercúrio representa tanto o anseio em expressar os próprios pensamentos quanto a necessidade de ser compreendido. É através desse planeta que vemos também a forma como aprendemos com as idéias e informações que recebemos do que nos é exterior. As dificuldade em se comunicar, a sensação de não ser compreendido e a infelicidade gerada por esses tipos de problemas, geralmente estão ligadas a problemas com Mercúrio, e a única saída é - como em qualquer habilidade - a prática, seja conscientemente ou forçado pela vida. O elemento em que Mercúrio se encontra mostra as qualidades específicas que influenciam a forma de pensar e de se expressar o pensamento. Em signos de fogo o pensar é influenciado pelas aspirações, crenças e planos pessoais, indicando, muitas vezes, o uso do pensamento positivo como arma. Quando em água, a comunicação recebe as cores dos anseios mais profundos e das predisposições inconscientes, numa troca de idéias com carga emocional. Nos signos de terra, Mercúrio indicará que os pensamentos serão influenciados pelas necessidades práticas e buscarão idéias com aplicação prática. Já em ar, a forma de pensar será mais abstrata, com construções racionais mais gerais e conceituais.
Na mitologia grega, Mercúrio é o deus Hermes, filho de mais um dos casos extra conjugais de Zeus, desta vez com a ninfa Maia, sendo o único que sua esposa, Hera, não chegou a saber, e podemos dizer que Hermes é fruto de um truque bem sucedido de Zeus. Uma das características da localização de Mercúrio no mapa é a nossa capacidade de sermos enganadores, no sentido de distorcermos a verdade, mesmo que de leve, em nosso favor. Assim que Hermes nasceu, se sentiu imediatamente entediado e inquieto, o que confere também com o Mercúrio astrológico, pois onde quer que encontremos esse deus no mapa, teremos uma área de inquietude, onde precisamos de variedade, mudança e espaço para nos movimentar: Hermes tinha apenas um dia de vida quando partiu em busca de aventuras, sem saber direito para onde ia ou o que encontraria. O Mercúrio astrológico pode ser associado ao inesperado, à coincidências e à sincronicidade, a eventos que parecem acidentais mas que depois fazem sentido ou servem a alguma finalidade, o que pode ser particularmente impressionante nos casos de trânsito de Urano, quando livros caem da estante abrindo na informação que se precisa, ou se assiste por acaso um documentário na TV sobre aquilo que se estava pensando. O impulso para sair do berço do pequeno Hermes o levou até a porta da caverna em que nasceu, e lá ele encontra uma tartaruga. Admirado com seu casco ele fala para ela: “Você é muito bonita tal como é, mas posso pensar em coisa melhores para fazer com você do que apenas olhá-la”, e num rompante de inspiração matou a pobre criatura, retirou-lhe o casco, revestiu a com couro de boi, dotou-lhe de algumas cordas e fez surgir a primeira lira, mostrando a sua inventividade e sua necessidade de pôr as mãos em alguma coisa. A casa em que encontramos Mercúrio indica a área da vida em que devemos ser inventivos, brincalhões e dispostos a tentar coisas novas ao invés de apenas nos satisfazermos com o status quo, pois a colocação de cada planeta por casa e signo indica a maneira mais natural para se transformar naquilo que se deve ser, e assim realizar seu dharma (de uma mosca é zunir, de um leão rugir, de um artista criar). Assim você deve ser curioso e inventivo onde se encontra seu Mercúrio, assim como nas casas regidos por Gêmeos e Virgem, pois essas são as áreas da vida onde se deve manter a mente aberta, onde se deve ser flexível e se manter jovem de espírito. As dificuldades em se realizar isso geralmente estão ligados a aspectos difíceis com outros planetas - principalmente Saturno -, ou se a pessoa foi excessivamente condicionada quando criança a ficar sentadinha como um bom menino(a), bem quietinho. Percebemos também, nesse pedaço do relato mítico, uma certa crueldade necessária para realização da inventividade, o que, muitas vezes pode ser o motivo para a repressão.
O deus brinca um pouco com a lira, depois se entedia, a joga no berço e vai procurar outra coisa para se divertir, dando de cara com o rebanho de seu irmão mais velho, o poderoso deus Apolo. Hermes resolve, então, roubar o gado, conduzindo-o de marcha ré para longe do pasto, fazendo com que as pegadas apontassem para o lado oposto àquele em que caminhavam, além de confeccionar para si uma sandália especial que cobriam suas próprias pegadas. Depois de ter roubado o rebanho, Hermes acende uma fogueira, escolhe duas vacas para assar e as divide em doze porções para fazer um sacrifício a cada um dos deuses do Olimpo, incluindo a si mesmo. Hermes demonstra com esse ato sua preparação para honrar e participar de todos os deuses, por mais diferentes que sejam, assim como o nosso Mercúrio astrológico simboliza a parte de nós que é capaz de se identificar aleatoriamente com os diversos princípios representados pelos outros planetas. Hermes conseguiu também surrupiar alguma coisa de cada um dos deuses, como os raios de Zeus ou o cinto de Afrodite. Quando acabou o sacrifício e saciou sua fome, voltou para casa, entrando pelo buraco da fechadura como “um filete de nuvem”, segundo o hino homérico, subiu no berço, apertou sua lira de tartaruga nos braços e dormiu como um bebe inocente. Maia, quando chega em casa e vê seu rebento inocentemente dormindo, não se deixa enganar, e lhe diz que sabia que ele traria grandes problemas para mortais e imortais. Hermes responde que não iria se conformar em ficar escondido numa caverna, mas que iria seguir o caminho que lhe oferecesse as melhores oportunidades, pois achava que merecia o mesmo status de seu irmão Apolo. Se seu pai, Zeus, lhe recusasse isso, ele se tornaria o príncipe dos ladrões, e saquearia o ouro do templo de Delfos. Apolo era o filho preferido de Zeus, o garoto de cabelos dourados, e na Atenas do século V a.C. representava a aristocracia. Hermes era a representação da nova classe que surgia na época, dos mercadores, dos novos ricos, que começavam a exigir o direito ao poder. Nesse sentido, o Mercúrio astrológico mostra também onde há richas entre irmãos, pois queremos os mesmos direitos de nossos irmãos mais velhos, ou aquilo que possa representá-los. Logo que Apolo descobriu que foi roubado, suspeitou imediatamente do seu irmãozinho e foi tirar satisfação. Hermes, com a maior cara lavada, jurou por Zeus que nunca tinha ouvido falar do gado de Apolo, que era muito novinho, e que tinha “pés macios e o chão era muito áspero” para que ele pudesse sair por aí arrumando encrenca. O senhor de Delfos não engoliu essa, e vendo como seu irmão caçula agia como um gatuno experiente, decretou que ele seria o deus dos ladrões por toda a eternidade, arrancando-o do berço e levando-o até Zeus, para que ele resolvesse a questão. Hermes segue Apolo fazendo caretas, soltando gazes, imitando o irmão e maldizendo todas as vacas do mundo, e quando Zeus vê aquela cena acha tudo muito divertido. Apolo conta para o pai o que seu irmão havia feito, mas Hermes apela para o lado sentimental de Zeus, falando de como ele era pequenino e como Apolo havia entrado em sua casa, arrancado-o do berço, e que o pai deveria defender os indefesos e oprimidos. Zeus, ainda dando risadas, disse que era para os dois fazerem as pazes, e Hermes resolve mostrar para Apolo onde estava seu rebanho, mas antes enraíza o gado na terra. Quando Apolo ia começar a se enraivecer novamente, Hermes pega sua lira e começa a cantar sobre as origens dos deuses e os ofícios que lhe são atribuídos. Apolo se encanta e promete ao irmão uma posição de respeito entre os deuses se Hermes lhe ensinasse o segredo daquele instrumento. O pequeno deus diz a Apolo que ele, em sua generosidade, teria prazer em ensinar-lhe o segredo da lira de graça, desde que Apolo o deixasse compartilhar do rebanho, criando assim a barganha, e ficando amigo do irmão. Zeus encarrega Hermes de estabelecer a arte da troca na Terra, e Apolo faz com que o irmão jure solenemente que nunca mais iria roubar seu gado, ou que retomaria a lira para si, o que é feito, transformando Hermes também no patrono dos juramentos e da garantia nos negócios. Do mesmo modo, Mercúrio nos mostra onde melhor fazemos negócios, onde temos capacidade de criar barganhas e agir como gatunos. Gatunos não são assaltantes, pois não atacam aberta e agressivamente, mas agem de forma sutil e furtivo. Essa capacidade de ação furtiva e inteligente fez com que Zeus costumasse mandar Hermes para salvar pessoas em perigo, como livrar Ares que havia sido “engarrafado” por gigantes, ou libertar o pequeno Dionísio das garras de Hera e dos Titãs. Hermes também está sempre ajudando as crianças heróicas, como no caso de Hércules, que era mortal, mas que, graças às artimanhas do deus, conseguiu mamar um pouco do leite de Hera e se torna divino. Analogamente, uma das funções do Mercúrio astrológico é manter viva a nossa “criança divina”, aquela parte de nós que é sempre jovem, aberta e curiosa para a vida, independente da quantidade de anos que tenhamos vivido. Assim, se mantemos a mente aberta e viva na área em que temos Mercúrio, nosso coração se mantêm jovem, por mais rugas que tenhamos no rosto. Outra associação importante a ser feita é com as características de Hermes que o mostra como o mago do Tarô: ele se transforma em nuvem de fumaça para passar no buraco da fechadura, enraíza o gado de Apolo, encanta Cérbero para entrar no submundo de Hades, e tem o poder de tornar as coisas invisíveis. Hermes é um mestre das palavras mágicas e das fórmulas mágicas, é o poder transmutador da Alquimia. Hoje sabemos do poder das palavras, e de como os mantras, as preces e os cânticos podem afetar as emoções, a fisiologia e a vida das pessoas, inclusive afetando a consciência do próprio planeta. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus (...) Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito” - João 1,1-3. A palavra e os pensamentos têm poder, e, como dizem os Yoguis, “o pensamento é a base da ação”. De acordo com a astrologia esotérica, Mercúrio, e não Marte, é o regente de Áries, o que nos remete a essa passagem de São João e nos lembra as práticas de pensamento sinestésico, neurolinguística e todo tipo de utilização construtiva da imaginação e de tela mental, pois comprovam que a energia segue o pensamento. Onde encontramos nosso Mercúrio podemos descobrir o valor da imagem mental como auxiliar da destreza e do sucesso.
Hermes é análogo ao Orixá Exú da mitologia Iorubá. Em grego, a palavra “truque” é a mesma usada para “capacidade técnica”, assim como em inglês stealthy, pode ser traduzida por ardiloso, e se refere tanto a pessoas hábeis em algo quanto alguém traiçoeiro. Essas qualidades também fizeram de Hermes o mensageiro olímpico, que levava mensagens dos deuses a outros deuses e aos mortais e vice versa, sendo conhecido o seu papel como deus das fronteiras e das encruzilhadas, servindo como intermediário entre os mundos, assim como o Mercúrio astrológico indica comunicação, viagens, troca de informações e idéias, pois Hermes pode viajar das alturas do Olimpo até as profundezas do Tânato. O nome Hermes significa “aquele do marco de pedras” e seu templo eram as estradas e encruzilhadas, onde os viajantes depositavam pedras como marcos, chamadas hermas, que assinalavam lugares onde os viajantes podiam parar e conversar, além de serem lugares onde aconteciam negócios e transações comerciais. Assim, as hermas funcionavam como pontos de comunicação entre estranhos, assim como Mercúrio é símbolo daquela parte da nossa psique que atravessa as fronteiras e que associa o desconhecido e o conhecido. Hermes era chamado também de Psicopompo, o condutor da alma, pois era responsável por levar à Hades as almas dos mortos.
Hermes viajava levando mensagens do Olimpo, da Terra e do Hades, e podemos comparar esses três espaços míticos com o plano supraconsciente - espiritual ou transpessoal -, o plano consciente da vida linear cotidiana - onde se paga contas, se vai ao supermercado e se conversa com os amigos sobre a última fofoca dos jornais - e o plano inconsciente, onde as coisas boas e más não integradas à consciência são enterradas e reprimidas. Hermes é a Internet mítica, sempre mudando de site em busca de informação para trocar figurinhas nos chats de bate-papo. Analogamente, Mercúrio nos equipa para aplicarmos à vida cotidiana quaisquer insight que tenhamos em níveis mais elevados ou profundos, pois é ele que media a visão supraconsciente e a inconsciente, tornando essas visões acessíveis ao nosso consciente. Não é mera coincidência o fato de hermenêutica ser o nome dado à arte e à ciência de interpretar as Escrituras e tudo o mais que é considerado sagrado e divino. Resumindo, Mercúrio é nossa capacidade de cruzarmos nossos limiares e também de nos comunicarmos com estranhos, com o “não-eu”, pois, acima de tudo, Mercúrio representa a autoconsciência reflexiva, a capacidade humana de mediar conscientemente o eu e aquilo que ele está fazendo.
Sallie Nichols, em Jung e o Tarô chama Mercúrio de “espírito criador do mundo”, mas também de “espírito aprisionado e contido na matéria”, pois de muitos modos criamos o mundo através de Mercúrio, e depois nos vemos aprisionados nesse mundo que criamos, pois moldamos nossas vidas segundo nossas crenças, preceitos e percepções do que é a realidade, e depois nos limitamos por nossas próprias percepções. Por isso a nossa mente pode representar uma maneira importante de nos enganarmos. Uma historia do Exu Iorubá ilustra bem como isso funciona:
“Dois camponeses amigos puseram-se bem cedo a trabalhar em suas roças, mas um e outro deixaram de louvar Exu. Exu que sempre lhes havia dado chuva e boas colheitas! Exu ficou furioso.
Usando um boné pontudo, de um lado branco e do outro vermelho, Exu caminhou na divisa das roças, tendo um à sua direita e o outro à sua esquerda. Passou entre os dois amigos e os cumprimentou enfaticamente.
Os camponeses entreolharam-se. Quem era o desconhecido?
“Quem é o estrangeiro de barrete branco?”, perguntou um.
“Quem é o desconhecido de barrete vermelho?, questionou o outro.
“O barrete era branco, branco”, frisou um.
“Não, o barrete era vermelho”, garantiu o outro.
Branco. Vermelho. Branco. Vermelho.
Para um, o desconhecido usava um boné branco, para o outro, um boné vermelho. Começaram a discutir sobre a cor do barrete. Branco. Vermelho. Branco. Vermelho. Terminaram brigando a golpes de enxada, mataram-se mutuamente.
Exu cantava e dançava. Exu estava vingado.”
(Mitologia dos Orixás - Prandi, Reginaldo - Cia. das Letras - 2001)
Mercúrio representa um importante papel na forma como a realidade nos aparenta e da forma como avaliamos o mundo, o que é chamado de disposição mental. Assim, se minha disposição mental me diz que sou inútil, tudo que aparecer na minha frente será interpretado como para confirmar essa crença, e provavelmente vou me dedicar a coisas que reforcem meu lado negativo, em vez de aprimorar meu lado positivo. Aprender a flexibilizar a mente é aprender a lidar com Mercúrio de uma forma positiva, mudando o foco e trazendo à tona a função transcendente desse planeta, que era a representação de Mercúrio na Alquimia. Escolha um problema que deseje resolver e faça as perguntas: “O que esse problema está me forçando a aprender? O que eu precisaria desenvolver ou dominar em mim para lidar melhor com isso?” A lista de coisas que precisam ser dominadas ou desenvolvidas com certeza são boas qualidades e recursos, e se assim são, como é que isso pode ser um problema? Quem, senão um amigo, poderia desejar essas coisas boas para você? Essa é uma das principais armas que temos através de Mercúrio, de transformar problemas em amigos, e assim transformar chumbo em ouro, pois tudo que é fixo e rígido pode ser flexibilizado e movimentado por Hermes-Mercúrio.